sábado, 8 de julho de 2017

Alvo Périplo na Edição do Walk and Talk de 2017



Estamos já a preparar a montagem da Exposição e a impressão das fotografias, pois o Largo do Colégio espera por nós, dia 22, ao cair da tardinha. Ao mesmo tempo e, como gostaríamos de envolver a comunidade no processo, preparamos uma Performance Teatral com música própria para o evento pelo João Luís Macedo.
A exposição contará com vinte fotografias a preto e branco de Jorge Kol e a performance, muito embora, tenha um núcleo de actores participantes, membros da peça teatral "Sala de Embarque", está aberta à colaboração daqueles que quiserem dar o seu contributo.  
Este grupo de actores e, demais membros da comunidade, terão como intuito celebrar a vida na rua. A vida das casas e labores que provém das antigas profissões. Convocados estão também a maratona grega, os pastores da Terceira, os Cesteiros da Madeira e uma "roqueira" de São Miguel. Será que isto serve para exaltar a vida ao ar livre?
 A responsável pelo desenho gráfico é, mais uma vez, a Júlia Garcia. 

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Escrito no passado Outono

amar é tão difícil falar de amor.
soletramos plantas que não dão flor esta estação
pelo caminho pisamos as folhas que nos deixaram 
                                                                        nuas
                                       as árvores caídas no chão.

Tiago Rodrigues

quarta-feira, 5 de julho de 2017

A Génese de "Alvo Périplo Rua Abaixo Movimentado"

Design Júlia Garcia

            
      Na génese está a solicitação de um texto e uma conversa implícita sobre as fotografias em questão. A descoberta da semelhança entre os Pastores da ilha Terceira e os Carreiros do Monte da ilha da Madeira esteve na origem destas imagens. Estes corpos vestidos de branco encerram no seu trajar, na sua correria, memória de tempos passados, metáfora da vida que corre, que pela corda atam, enrolam e desenrolam, para manobrar ou simplesmente deixar correr e fazer correr.
         As fotografias de Jorge Kol apresentam-se assim com o movimento e a genica de homens que correm no desempenho de funções ao ar livre, alvos corpos com chapéu rua abaixo, vestes e postura semelhantes em ilhas diferentes: Madeira e Terceira. Dessa alva exaltação o fotógrafo dá conta, fixa esta gente que trabalha e vive na rua, manifesto de um tempo que continuará a existir. 
       Assim, a função do texto impunha uma vivência em que a rua fosse cerne e interrogação.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Um Verso de Rui Duarte Rodrigues

Tardes de queda amortecida 

Ontem, escrito numa parede da cidade

Quem tem dinheiro nunca passa fome

Do Estudo de Si Mesmo

         "O neoliberalismo fez as pessoas vaidosas, narcisistas e competitivas e fá-las pensar bastante em si mesmas e a maior parte das vezes, pensar em nós mesmos é uma perda de tempo. A única maneira útil de pensar em nós mesmos é em relação a outras pessoas, o modo como somos afectados por elas e as afectamos com o que fazemos. O estudo de si mesmo só faz sentido quando nos faz pensar em nós e nos outros enquanto unidade, em relação. Quando penso nessas imagens no facebook penso que essas pessoas nunca sabem qual é o valor da solidão porque estão sempre a tentar ser validadas. É desesperante."
Hanif Kureiishi in Ípslon, 30 de Junho de 2017.

sábado, 1 de julho de 2017

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Ítaca

Quando saíres a caminho da ida para Ítaca,
faz votos para que seja longo o caminho,
cheio de aventura, cheio de conhecimentos.
Os Lestrígones e os Ciclopes,
o zangado Poséidon não temas,
coisas assim no teu caminho não acharás nunca,
se o teu pensamento permanecer elevado, se emoção
requintada o teu espírito e o teu corpo tocar.
Os Lestrígones os Ciclopes,
o selvagem Poséidon não encontrarás,
se com eles não carregares na tua alma,
se a tua alma não os colocar à tua frente.

Faz votos para que seja longo o caminho.
Para que sejam muitas as manhãs de verão
Nas quais com que contentamento, com que alegria
entrarás em portos vistos pela primeira vez;
para que páres em feitorias fenícias,
e para que adquiras as boas compras
coisas de nácar e coral, de âmbar e de ébano,
e essências de prazer de qualquer espécie,
quanto mais abundantes puderes essências de prazer;
para que vás a muitas cidades egípcias,

Deves ter sempre Ítaca na tua mente.
A chegada ali é o teu destino.
Mas não apresses em nada a tua viagem.
É melhor durar muitos anos;
e já velho fundeares na ilha,
rico do que ganhaste no caminho,
sem esperares que te dê Ítaca riquezas.

Ítaca deu-te a bela viagem.
Sem Ítaca não terias saído ao caminho.
Mas já não tem para te dar.

E se um tanto pobre a encontrares, Ítaca não te enganou.
Sábio como te tornaste, com tanta experiência,
Já hás-de compreender o que significam Ítacas.

Kostandinos Kavafis, edições Relógio D´Água, tradução, prefácio e Notas de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis.

Ontem, escrito numa parede da cidade

-E que tal o Alaska?
-É frio!

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Resposta a Janeiro Antes Deste ir a Banhos

Caro Janeiro Alves,

Acuso a recepção entusiasta da sua ferial missiva, típica de um homem que sabe que só o verão vale a pena e que esta é a mais louca, livre e estouvada das estações. Na canícula, creio, temos tudo para sermos felizes excepto os grilos. Nada contra os seus cânticos mecânicos e repetitivos mas desconfio que na infância suportava muito melhor o seu rebarbativo rumor. De certeza que e, fazendo jus à sua carta estival sobre os doutores e engenheiros que partiram de férias e que não mais regressaram, estes deverão, pelo menos, lembrar-se do trilar, ou melhor, do “gri-gri” de outros verões.
Também eu, amigo Janeiro, continuo entusiasmado com o turismo e sobretudo com a sua capacidade de irradiação. Imagine só que há instantes, nesta cidade em que me calhou viver, me vieram interrogar se estaria disponível para vender esta missiva que me encontro a escrevinhar para si. Segundo o casal de jovens turistas, no seu país de origem desconhecem já o que é a caligrafia e o próprio acto de escrever missivas em esplanadas. Este acto quotidiano tornou-se, porventura, excêntrico. Por sinal, até me queriam oferecer bom dinheiro mas disse-lhe que podiam fazer um registo fotográfico e que procurassem um lugar na sombra. Curiosamente, enquanto insistiam na aquisição da missiva, o empregado do café proferiu num português arrematado e doce: “Vocês querem é mamar!”. Estes, embebecidos e discretos, afastaram-se da mesa sem antes dizer: “You are really an artist!”
E o aluguer de casas? O meu amigo nem queira saber mas há dias passei nas ruas do agora denominado "Centro Histórico" e reparei que as casas onde tinha morado são agora sítios de alojamento local. Ainda bem que fui salvo a tempo pela nossa amiga Miriam que me arrendou um pequeno tugúrio baratinho junto do mar e que me serve, essencialmente, para assentar a moleirinha e o costado durante a noite. 
Por último, auguro-lhe assim umas férias inesquecíveis e espero que volte pois estou já a salivar pelo envio dum tupperware de filetes de peixe que seguramente me enviará da cidade mais piscatória do sotavento algarvio: Olhão!
 Com elevada estima,
Doutor Mara