quarta-feira, 24 de novembro de 2021

"a pão e água" de Joaquim Castro Caldas

ainda há gente boa, de cabeça deslumbrada, o coração em cima

da mesa com uma pistola descarregada, a contar a última aventu-

ra sem medo que lh´a levem, ainda gente pura que partilha

a aventura e empresta a pistola, carrega o coração às costas com

a cabeça à mostra: ainda há gente, e bem haja, com quem se

pode abrir a vida toda e a quem se deve o prazer de ser gente,

não só a bem de quem mas à maneira de ser gente pura e mais

nada. Ainda há gente rija e linda que demora mais a amar do que

é amada. um grande amor ainda espera pelo amor mais do que

uma vida inteira.

in Mágoa das Pedras, Deriva Editora, 2008.

terça-feira, 23 de novembro de 2021

WE SEA: "Cisma" no Arquipélago da Ribeira Grande


Cinco anos volvidos desde a sua apresentação e com um novo álbum pronto a estrear eis que os ribeiragrandenses, WE SEA, estão de volta ao Arquipélago - Centro de Artes Contemporâneas, na Ribeira Grande.  O encontro dar-se-á no dia 26, sexta-feira, às 21h30. Com os habituais Rui Rofino (voz) e Clemente Almeida (sintetizador e baixo) estarão também em palco  Rómulo San-Bento (guitarra) e Pedro Rodrigues (bateria) na apresentação de “Cisma”, 2021, o disco que substitui “Basbaque”, editado em 2019, e que será o mote para reunião alargada da sua legião de seguidores neste seu regresso a casa!

Desta feita, aguarda-se com expectativa, para lá da estreia dos temas de "Cisma", o entoar de canções como “Ser de Ver”, “Basbaque”, “Tantos mas, mais quantos Nós?”, “Verde Seco Feito Negro” na voz distinta e arrojada de Rui Rofino! É sabido que Rui Rofino continua a escrever de forma livre, divertida e desempoeirada! Este canta com muita alma e é seu costume entregar-se em palco, destilando a verve e o charme na língua de Antero de Quental, mantendo incólume o seu sotaque açoriano. Quem o ouviu e viu pela primeira vez, há cinco anos, soou de imediato a descoberta e augúrios de encantamento. É previsível, agora, que haja uma maior maturidade e desenvoltura em palco, uma diversidade na explanação no cardápio das narrativas e versos tal  como maior plasticidade na luz e no timbre das canções. Por isso, ouvidos à escuta, dado que não já não há muito que cismar até à próxima sexta-feira!

domingo, 21 de novembro de 2021

Do Riso

           "Passamos a vida a perguntar se passámos os limites  e se há limites se há alguma coisa sagrada da qual ninguém se deve rir. Eu acho uma boa pergunta e acho que não. Não há nada que não mereça ser alvo de risada. Algumas coisas não vão ter piada, mas não é por isso que devam ser clean"

Gregório Duvivier, Revista Expresso, 20 de Novembro de 2021.

"as algas e o musgo" de Joaquim Castro Caldas

o fim do verão deixou
debaixo das pedras vento
vísceras e sol
 
não há sombras
e a meio do Outono
as gaivotas rompem a neblina
com o bico
 
os barcos brincam em dueto
ao apito com eco
 
para a claridade
há um biombo
e a silhueta de uma mulher
despe-se
 
mergulho no desenho
azul medo do mar
bebemos buio
fumamos breu
 
conservas o coração
quente para sobreviver
aos rigores do Inverno
e tudo se passa por dentro

 in Mágoa das Pedras, Deriva Editores, 2008.

Junto ao Canal

 









Foto de Tânia Neves dos Santos

sábado, 20 de novembro de 2021

"Na Ilha de Porto Santo" de Ana Hatherly

Por sobre a esmeralda líquida do mar 
o poeta espraia lentamente o olhar 
e enquanto as pequeninas ondas 
correndo para a praia se abatem 
por sobre a areia quase distraidamente
o espírito do lugar penetra-lhe os sentidos
e no seu pensamento subitamente brilha 
o perfil mágico, mítico, da ilha.  

in Itinerários, Quasi Edições, 2003. 

Um Verso de Adrianne Lenker

And I don't wanna talk about anything.

Meia de Mar










Fotografia de Tânia Neves dos Santos 

terça-feira, 16 de novembro de 2021

Arquipélago: Há Arte no Centro!

    O Arquipélago - Centro de Artes Contemporâneas - está situado na cidade da Ribeira Grande e encontra-se em funcionamento há seis anos. No passado dia 23 de Outubro inaugurou-se ali uma exposição intitulada “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”, do artista açoriano João Amado - aberta ao público até ao dia 16 de Janeiro. O criativo esclarece, através das suas 36 colagens em madeira, a razão porque se tornou um “colagista” ascendente em tão curto espaço de tempo, fazendo das suas “narrativas policromáticas” os elementos pictóricos essenciais da sua composição plástica. O seu modus operandi caracteriza-se pelo seu arreigado trabalho de bisturi, cirúrgico, revelador de processos ousados de figuração misturados com signos e símbolos da natureza primordial. Um momento de felicidade partilhado nesta sua primeira exposição. No interior do Arquipélago constam ainda diversos lugares expositivos, no espaço central está patente “Lugares de Fractura” de Maria José Cavaco e noutro dos espaços inferiores, e em forma de pequenos estúdios, encontra-se a colectiva “Quatro Quatro”. Uma clara ideia de exposição criativa que lançou para exposição 20 artistas num ciclo expositivo de 4 artistas X 5 momentos de exposição (cada 4 artistas convidavam 4 artistas para o momento seguinte). O resultado, uma diversidade e riqueza de propostas artísticas expostas num hino à camaradagem e companheirismo. Ainda no mês de Outubro foi possível assistir à apresentação de mais uma edição do “Fuso-Insular”, evento marcado pela perspetiva divulgadora e formadora da videoarte, sendo o Arquipélago o centro de apresentação e visualização de seis propostas de videoarte pelos formandos de Susana de Sousa Dias, com a acompanhamento de André Laranjinha. Durante o evento, assistimos aos filmes “Natureza Morta” (2005) e “48”, (2008), de Susana de Sousa Dias, nesse encontro duro e arriscado com a memória coletiva do passado ditatorial, assente essencialmente nas fotografias do arquivo da PIDE guardadas na Torre do Tombo e demais registos fílmicos de arquivo ou mesmo pessoais. Pena apenas por ambos os filmes terem sido mostrados na mesma altura, todavia o facto não retirasse o vigor presente nas imagens e narrativas explicitadas. As sextas-feiras tem vindo também a ser ocupadas pelos novos sons e ritmos propostos pela recém-criada editora de nome singular: Marca Pistola! Desde o concerto de “PS.Lucas” - um encontro com a guitarra deambulante e melancólica de Pedro Lucas, ou a bateria amplificada e potente de Ricardo Martins, até à apresentação do novo disco dos ribeiragrandenses WE SEA, no fim deste mês - abriu-se a contenda das novas sonoridades também neste local. Para além de tudo isso, ressalte-se ainda a marca arquitectónica deste edifício que merece uma visita pela força da sua memória, pela sua beleza e harmonia estética, pela sólida imponência das suas linhas de desenho, hoje pontuada por uma intervenção contemporânea de estrutura sóbria com os seus diferentes dispositivos codificados e bem definidos.
    Por fim e, agora que este espaço parece, finalmente, aberto à comunidade artística local e, não só, seria de bom tom receber diferentes tipos e modalidades da arte contemporânea presentes nas restantes ilhas do Arquipélago, bem como de Portugal Continental, tal como continuar esse esforço de formação e convivialidade entre os artistas locais e os que se encontram em residência. Sugere-se, por isso, a valorização da sua biblioteca cada vez mais renovada e especializada, o provimento de um serviço educativo proativo e inclusivo e uma programação dinâmica, diversa e abrangente.
    Estamos, pois, na presença de um espaço pluridisciplinar que tem sido capaz de se reinventar, finalmente, exercitando as suas múltiplas valências e propenso à ocorrência de diversa e prolífica atividade artística contemporânea. Certa também, é a proximidade e integração do edifício com o mar e a luz da cidade, a necessitar, por isso, de fazer parte do mapa diário de todos habitantes insulares, permanentes e nómadas.

segunda-feira, 15 de novembro de 2021

"Avec le Temps" de Ana Hatherly

 Com o tempo

tudo passa

do possível ao improvável

 

Com o tempo

desabitamos

as condições do corpo

a sua assinatura

 

Com o tempo

descobrimos o sentido fractal –

na face do Banquete

as coisas conhecidas

tornam-se sussurro

 

O futuro é um despiste amargo

um vértice truncado

que se esfuma

 

Divorciados do acaso

afastamo-nos calados


No deserto

surdamente gritamos

 

in “Itinerários”, Quasi Edições, Março de 2003