quarta-feira, 23 de março de 2022

Os Filhos da Madrugada: Leonor Teles

     "Até agora safei-me e acho que vou continuar a safar-me. Mas não tenho muita confiança em relação ao futuro. Os nossos políticos são o que são. As pessoas estão cada vez mais desligadas da vida política, muito mais preocupadas consigo mesmas e com a sua vida. Muito mais individualistas. Mesmo em questões em que devíamos pensar de um ponto de vista colectivo, não parecem interessadas nesse registo."

in "Os Filhos da Madrugada", Anabela Mota Ribeiro, Temas e Debates/Círculos de Leitores, Novembro de 2021. 

segunda-feira, 21 de março de 2022

sábado, 19 de março de 2022

"O Priolo" de João Miguel Fernandes Jorge

 No quarto sobre uma cómoda
o priolo embalsamado.
Penas de branco-sujo e creme, tons de 
castanho queimado. Protege-o
no vidro de uma redoma. Mesmo na morte
um frouxel.

Tudo se avista deste quarto - 
  santos e pagelas por detrás das portas
do oratório - quando a noite e a ilha se 
estreitam na cama desamada.
Vem um cheiro a maresia, a porões e os 
passos de quem percorre, erradio, o 

embarcadouro
sem saber a hora da partida 
a hora de quem prometeu chegar. E
o pássaro na obediência da morte
fixado nas trevas que lhe povoam o canto, vê
na fronteira do lá fora
membros, ossos, vísceras, os meus erros,

o verso meu dentro do quarto. Sob a asa do 
priolo, prata e luz a esvoaçar ao redor do
candeeiro entre os actos da vida. 

in "Lagoeiros", Relógio D´Água, Novembro de 2011.

JSM: A Mesa Continuará Posta!

         

          Há quase trinta anos, andava eu pelo cineclube Octopus, na Póvoa de Varzim, sempre muito orgulhosos da exibição de Pasolini's e Tarkovsky's, quando apareceu disponível o belíssimo "Caro Diário", do Nanni Moretti. Lembrei-me, portanto, de arriscarmos uma sessão diferente e convidarmos o Jorge Silva Melo para vir à Póvoa falar sobre o filme. Surpreendentemente, ele não só veio como passei a ser para ele “o poveiro”, denominação que usava quando me encontrava pelas ruas de Lisboa. Creio que o Nanni Moretti iria ter adorado ter estado presente pois foram tantos os que ainda hoje se lembram do entusiasmo tal como pela obsessão do italiano em filmar-se a si próprio durante meses.
        Ainda a propósito dessa sessão “morettiana” de longa data, recordo-me de passarmos a tarde a conversar na biblioteca municipal, que ele adorou, e ainda de vermos o mar no Diana Bar, antes desta se tornar biblioteca balnear. A partir daquele momento e, durante anos, devorei os textos que o Jorge Silva Melo ia publicando na imprensa escrita. Primeiro no Combate, depois no Público, também no e onde fosse que ele escrevesse. Julgo que li mais o Jorge Silva Melo do que qualquer escritor, poeta ou filósofo. O Jorge Silva Melo respirava paixão e erudição em todos os parágrafos e cheguei a ver algumas peças em salas de teatro deste nosso país que ele gostava tanto de andar em digressão. Era maravilhoso ouvi-lo e lê-lo discorrer sobre cinema, teatro, belas artes ou literatura. Agora que o Jorge Silva Melo desapareceu a mesa continuará posta para continuarmos a dialogar sob a forma de palavras escritas em papéis. 

segunda-feira, 14 de março de 2022

"Esmeraldas" de Jorge Sousa Braga

 De que secreta primavera 
serão as esmeraldas 
a memória?

in "O Poeta Nu" , edições Assírio & Alvim, Junho de 2007.

domingo, 13 de março de 2022

PDL 2027: Na Lista Final...

    «"Federando todo o arquipélago açoriano, do Corvo a Santa Maria, a proposta de Ponta Delgada tem como missão "fazer da cultura um catalizador de transformação e desenvolvimento, através de um investimento duradouro nos sectores turísticos, urbanos e sociais". Aumentar a visibilidade internacional dos Açores e o seu potencial como destino de turismo cultural são outras metas da candidatura."»

in Publico, 12 de Março de 2022.

Ontem, escrito numa parede da cidade

Esta humana idade que tarda

Verso dos Linda Martini

 Eu nem vi que eu sem ti sou só eu sem ti

sexta-feira, 11 de março de 2022

...

deixa o tempo fazer o resto
fechar as janelas 
aplacar os barcos
recolher os víveres
semear a sorte 
acender o fogo
esperar a ceia

abre as portas: lê a luz
a sombra, a arte do passarinheiro

com três paus
fazes uma canoa
com quatro tens um verso 
deixar o tempo fazer o resto 

Ana Paula Inácio, in Vago Pressentimento de Azul, Quasi Edições, Setembro de 2000.

quarta-feira, 9 de março de 2022

Do Amor

          "O verbo amar é difícil de conjugar: o seu passado não é simples, o seu presente é apenas indicativo e o seu futuro continua condicional."                          
                                                                                                                         Jean Cocteau

terça-feira, 8 de março de 2022

Sonia Delaunay: O Sol do Século!


           Sonia Delaunay, com o nome de baptismo Sarah Stern, era natural de Gradizhsk, na Ucrânia.
Foi pintora, figurinista, designer e tinha trinta anos quando chegou a Vila do Conde, para viver entre 1915 e 1917, e, assim, escapar à primeira grande guerra. Esta habitou na cidade costeira portuguesa com o seu marido, Robert Delaunay, e o seu filho, Charles Delaunay, este último viria a tornar-se uma figura de proa do jazz francês e do seu Hot Club de France.
 Sonia Delaunay gostava do sol e das festas populares, adorava a luz do norte de Portugal. Amante da polivalência, da joalharia ao têxtil, celebrava através da arte o ritmo e as combinações cromáticas, cunhando essa energia e movimento de La Simultanée. Acredita-se que o casal de artistas, enquanto a Europa guerreava, enfrentou essa fase vilacondense de forma bastante produtiva, onde aproveitaram para criar em várias frentes em que estavam envolvidos, chegando a ser presos pelo equívoco simbólico das suas pinturas expostas no exterior da casa. A acusação postulava que estes comunicariam com os submarinos que passavam ao largo, no horizonte marítimo. 
Um século depois, a sua casa de Vila do Conde continua por lá, intacta. ainda que, triste e amarguradamente, ouvem-se de novo os tambores da guerra na terra materna de tão ilustre artista.