sábado, 24 de janeiro de 2026

Na Língua da Maré

Crónicas de mar de de mareantes
Hélder Luís (Fotografia)
Abel Coentrão (Texto) 
Mútua dos Pescadores, 2022/2023

Vale a pena perceber a dimensão este projecto ambicioso que percorre a vida das colectividades piscatórias do norte até ao Algarve, sem esquecer os Açores e a Madeira. Com texto de Abel Coentrão e fotografia de Hélder Luís é muito raro encontrarmos um trabalho tão alargado e diversificado e ainda tão bem documentado nas suas imagens.  
   "Na Língua da Maré – Crónicas de Mar e de Mareantes” é uma longa viagem em torno dos conhecimentos marítimos ancestrais e que evoca o 80.º aniversário da Mútua dos Pescadores, financiadora do projecto. 
      Esta obra, editada em 2022, pretende ainda alargar todos os campos possíveis onde a cultura do mar se tem expandindo nos anos mais recentes, com referências óbvias à ciência, investigação, inovação e turismo. Um trabalho e leitura dignas! 

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Vozes de K. P. Kaváfis

Vozes amadas e ideais 
daqueles que morreram, ou daqueles que 
para nós se perderam como os mortos.

Por vezes falam-nos em sonhos,
por vezes ouve-as o pensamento.

E em seu som regressam por um instante 
ecos da primeira poesia da nossa vida - 
qual música distante, apagando-se na noite.
(1904)

in Aquele Belo Rapaz - Poesia Completa, Assírio & Alvim, Novembro de 2025.

Verso dos Capitão Fausto

 É sempre possível continuar a fingir 

Sobre Gente Feliz com Lágrimas

       Não me importo nada de ser o autor de Gente Feliz com Lágrimas, sobretudo agora que o reli. Não voltarei a dizer que não é o meu livro preferido. É um marco no meu percurso que me deixa orgulhoso. É a história da minha vida como ilhéu e açoriano, a história dos que, durante o salazarismo, recusaram o fechamento e saíram em busca do seu mundo. 

João de Melo, entrevista a Luís Ricardo Duarte, Ípsilon, 5 de Dezembro de 2025.

Em Escuta

    Will  Butler lançou “Policy” em 2015, o primeiro álbum de originais. Will, quase sempre apresentado por ser o irmão mais novo do vocalista dos Arcade Fire, Win Butler, é dado a improvisações e outras liberdades criativas, sendo também conhecido por tocar guitarra, baixo, percussão. Seis anos depois deste disco, deixaria os Arcade Fire em 2021, para se dedicar a vários projectos, tendo editado o seu terceiro disco de originais, “Sister Squares”, em 2023. Deste primaveril e debutante “Policy”, ficam no ouvido canções como “Take My Side”, uma rockalhada irónica e divertida, “Anna”, tema de fácil e alegre trauteio, a balada sentimental “Finish What I Started” ou a sentimental "Sing To Me". Este disco é música pop de valor acrescentado e  vale bem uma audição repetida e partilhada. 

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Eu Cantarei de Amor Tão Docemente

Eu cantarei de amor tão docemente
por uns termos em si tão concertados,
que dous mil acidentes namorados 
faça sentir ao peito que não sente.

Farei que amor a todos avivente 
pintando mil segredos delicados, 
brandas iras, suspiros magoados,
temerosa ousadia e pena ausente
 

Camões in Lírica Camões - Antologia, Expresso, dia 19 de Dezembro de 2026.

Sobre a Origem do Universo

    Um dos problemas complexos que poderia elucidar-nos sobre a razão pelo qual o mundo existe em primeiro lugar é precisamente o problema da origem do universo, e até do tempo que de uma forma ou outra levará certamente a uma concepção do universo totalmente diferente daquele que temos presentemente.
     O universo parece não querer que desvendemos esses mistérios e até hoje os nossos instrumentos não foram capazes de detetar sinais dessa origem e caso tenhamos recebido alguma informação ainda não fomos capazes de a entender. No mundo actual, um dos grandes fenómenos emergentes é o da origem da vida: como foram criadas as primeiras moléculas complexas e como é que dessas moléculas nasceram organismos inteligentes?

Jácome Armas, in Açoriano Oriental, entrevista de Rui Jorge Cabral, dia 18 de Dezembro de 2026.

Verso dos Divine Comedy

 I saw a man this morning

domingo, 18 de janeiro de 2026

Ocasional Alvejar de Jorge Kol

Ocasional alvejar
Ont´ agora era Natal,
e flanêur para o Sal
sol, mar e vendaval,
máquina no bornal.
Rastreia o areal,
a habitação social,
fixa Mara residência ou residencial?
Interroga-o o mural:
- Não é Alojamento Local!
Nem Residência Amaral!
Então, o que será afinal?
Doutor Mara negócio estival?

Jorge Kol, em época vinte e tal, de eleição presidencial, no ano de dois mil e tal.

Soma de K.P.Kaváfis

 Se feliz sou, ou infeliz, não examino.
Uma alegria porém guardo sempre no espírito - 
que da grande soma (essa soma deles, que eu detesto)
composta por tantos números, não faço parte; não sou eu
uma unidade entre as demais. Não me calculam
no valor total. Essa alegria me basta. 

(1897)

in "Aquele Belo Rapaz - Poesia Completa", Assìrio&Alvim, Novembro de 2025.

Em Escuta...

Rainy Sunday Afternoon, 2025 
The Divine Comedy

     “Rainy Sunday Afternoon" foi lançado no final do verão passado e que, doze álbuns depois, trata-se do regresso aos estúdios de gravação desta banda irlandesa. O vocalista Neil Hanon já leva trinta anos no activo e continua a demonstrar a sua vitalidade em canções como “The Man Who Turned Into A  Chair”, “Achiles”, “Rainy Sunday Afternoon”, sendo a favorita - ‘The Heart is a Lonely Hunter’. Um disco de belíssimas canções para escutar numa tarde chuvosa de domingo.

sábado, 17 de janeiro de 2026

Da Democracia

     Cada vez que aceitamos líderes que falam por si dizendo ser em nome do "povo" estamos a abdicar da nossa participação e a normalizar a concentração de poder. Não é retórica: é assim que se esvaziam democracias.

Catarina Valadão, in Açoriano Oriental, dia 17 de Dezembro de 2026.

Verso dos Nada

 Cos´è  la vita se machi tu

Jardim de Inverno

Um rumor de mar ao perto
e a breve agitação das rosas

-não aguardes outro sinal do vento
este serão sempre jardins da morte.

Caminhas entre palavras, inscrições
como nuvens baixas a teus pés. Os nomes 
mais leves do que as datas 
ardem ainda no lume que os sustenta,
uma lâmina abre os pulsos da infância, a mão
da criança noutra mão sobre portas há muito fechadas.

Agora, a Traurmasch de Mahler 
daria o fundo musical se a estridência dos metais 
não acordasse a quietação dos rostos 
captados no instante que em que a câmara os deixou
abstractos para sempre 
expostos à comoção alheia.

Deixa-os assim ao peso da chuva 
quando já não lhes resta um óbolo que redima a solidão
e os próprios vivos se interrogam sobre o desamparo
que será o deles no tempo de enfrentarem o silêncio 
a sua desolação irreparável.
(Janeiro de 2021)

Urbano Bettencourt,
in "Antes que o Mar se Retire", Companhia das Ilhas, 2023.