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| Belissima de Luchino Visconti (1952) |
E não nos venham
falar da influência das comédias italianas sobre o cinema português dessa
altura: os filmes nacionais não eram eram mais do que aproveitamento comercial
da popularidade de grandes actores de revista e de comédia (eram os tempos
áureos do Parque Mayer), explorando temas como o futebol, as touradas, o fado,
estudantes e tricanas, a História pátria ou a alegre vida rural pondo acento
nas canções, que a rádio transmitia horas a fio e trauteavam nas ruas – “Água
fria da ribeira”, Ó Rua do Capelão”, “Capitão da Rua”, “Coimbra é uma Canção”,
etc. etc. Eram, no essencial, filmes de estúdio e de actores, onde a “gente
comum” nunca ia além da mera imitação, nem o pretendia.
Voltando a
Itália, resta a acrescentar que toda aquela imensa explosão de energias,
imaginação e desenrascanço veio dar, nos anos que se seguiram, o seu contributo
ao chamado “milagre económico italiano”. Um filme ainda nos anos 60 – o
admirável “As mãos sobre a cidade”, do Rossi – já lhe anunciava a matriz
essencial: o interminável conluio entre o mundo político e as mafias da
construção e do imobiliário, que desembocou há poucos na enorme balbúrdia da
Itália de hoje, surpreendida (???) consigo própria. Mas isso são outras histórias.
Do cinema italiano, passámos a receber a
conta-gotas quase só obras do Fellini, do Visconti e do Antonioni (valha-nos
isso!), e pelo meio mais uma ou outra pérola desgarrada, como o “Dia
Inesquecível”, retrato de corpo inteiro do fascismo italiano, como nenhum
outro.
Por cá, ainda
não chegou a hora de nenhum “milagre”. Seja o de Milão, ou porventura do do
Porto, eterno candidato a salvador não se sabe bem de quê. Quando muito,
espera-se pelo “milagre do Euro”, ou por qualquer outro que alguém nos traga,
tanto faz. Os filmes italianos terão sido apenas, afinal, a “fantasia” do Pão e
Amor que já então procurávamos.
in – Pão, amor e filmes italianos, Jornal Combate, nº 208 (Mar.), p. 27.
João Martins Pereira

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