Ainda
hoje o hábito contemporâneo do chá caracteriza-se por ser bebido às cinco da
tarde numa chávena de porcelana. O chá terá sido introduzido nos Açores por via
das naus e caravelas provenientes do oriente no século XVIII. Depois, foram
chegando biólogos e botânicos que aprofundaram o conhecimento da planta camelia
sinensis e tornaram o chá um fenómeno insular…até hoje!~
“Lúcia
e Conceição” é um documentário produzido pela “Cinequipa”, um grupo de
cineastas da RTP, liderada por Fernando Matos Silva. A realização do
documentário “Lúcia e Conceição” ocorreu no ano de 1974, um ano antes da
primeira emissão de televisão nos Açores, que teve lugar a onze de agosto de 1975.
Este documentário retrata as crianças e
adolescentes que trabalhavam nas plantações de chá, na Gorreana, freguesia da
Maia. A Fábrica da Gorreana é, ainda hoje, dos locais mais antigos da produção
de chá na Europa, com data da fundação de 1893. Em 1974, à altura deste registo
documental, o vencimento diário destes adolescentes que recolhiam a planta do
chá situava-se nos 36 escudos diários. Era um período social e histórico duma
zona rural marcada essencialmente por parcos recursos financeiros, pouca ou nenhuma
mobilidade social e ausência de luz elétrica.
As
adolescentes Lúcia e Conceição, que dão título à aventura cinematográfica em
pleno momento do advento da democracia, falam, sobretudo, em emigrar para o
Canadá, dada a ausência de trabalho remunerado na ilha. O pai de Conceição,
agricultor e camponês, plantava nessa altura essencialmente milho e beterraba.
O milho era um elemento fundamental para ser usado em casa para a feitura de
massa sovada, depois de ter ido à moagem comunitária. Conceição tinha mais
quatro irmãos, sinal de outros tempos em que os agregados familiares eram bem
mais alargados. Os hábitos quotidianos, ao final de cada dia destes adolescentes também, pois
após os trabalhos duros na recolha do chá, ainda havia tempo para ler “romances
de amor”, caprichos, publicações que deviam circular de mão em mão, dizemos
nós. Os adolescentes retratados neste documentário tinham maioritariamente a
quinta e a sexta classe da altura. Estes trabalhavam cinco meses na apanha do
chá e depois deslocavam-se para mais dois meses na atividade da apanha do
tabaco. Após visionamento do documentário, constatamos que estas crianças e
adolescentes tinham como único horizonte continuar as profissões dos progenitores,
sendo que eram raras para estes a oportunidade de prosseguir os seus estudos. Este trabalho da apanha do chá era feito
essencialmente pelas mulheres das zonas rurais, já que as da Ribeira Grande se
apartavam dos labores agrícolas, e tão só a dedicação às atividades de costura
e bordados, implicando por isso uma distinção com as mulheres das freguesias
que se dedicavam à agricultura e demais lides domésticas. Quando se lhes
pergunta pela alimentação que tinham em casa, estas desmancharam-se a rir.
Porque será? A alimentação destas crianças e adolescentes que trabalhavam nas
plantações de chá era feita sobretudo à base de peixe e batatas, apesar da abundância de vacas na ilha, sendo a carne para dias especiais.
No
início do documentário ouve-se ainda a voz do narrador assegurar que estes
adolescentes nunca verão este filme e que por isso não terão oportunidade de
fazer o seu autorreconhecimento. Passou entretanto quase meio século, o chá permanece
naquele lugar como elemento essencial e motor da economia local. A vida das
pessoas e das crianças, por sinal, mudou e bastante. O que dizer agora depois de vermos o
filme tantos anos depois?