Visita ao Pico das Cruzinhas no Monte Brasil, paisagem protegida, para obter assim uma panorâmica geral da cidade. Há oitenta anos ergueu-se aqui um padrão para assinalar os quinhentos anos da descoberta da Ilha Terceira. E daqui é possível ver a imponência arquitectónica da cidade e absorver Angra do Heroísmo sob a forma nebulosa e melancólica, há muito considerada monumento regional.Passaram trinta e dois anos sobre o enorme terramoto que arrasou com Angra do Herosímo, tendo este destruído a baixa da cidade e uma das suas mais emblemáticas igrejas, a Catedral da Sé (séculos XV e XVI), que teria novo episódio alguns meses mais tarde com a ocorrência de um incêndio que destruiu a talha dourada. A cidade seria reconstruída na sua forma original e reconhecida pela UNESCO como Património da Humanidade. Pela manhã houve também visita ao Mercado do Duque de Bragança, na Rua do Rego, para adquirir bens essenciais e participar no festival de cores ali disponível: anonas, castanhas, laranjas, bananas, ervas aromáticas, peixes vários e legumes com fartura. Longe do frenesim automobilístico das vetustas e admiráveis ruas da baixa, aqui ainda é possível conversar, discutir os preços, os cortes e os impostos, bem como caminhar como quem participa num espectáculo policromático com a banda sonora de palavras amigas e discretas.
quinta-feira, 20 de dezembro de 2012
terça-feira, 18 de dezembro de 2012
Do Medo
"É natural que quem quer "elevar-se" sempre mais, um dia, acaba por ter vertigens? Medo de cair? Mas então porque é que temos vertigens num miradouro protegido com um parapeito? As vertigens não são o medo de cair. É a voz do vazio por debaixo de nós que nos enfeitiça e atrai, o desejo de cair do qual, logo a seguir nos protegemos com pavor (…) Poderia dizer que ter vertigens é embriagarmo-nos com a nossa própria fraqueza, mas em vez de resistir-lhe, queremos abandonar-nos a ela (…) Embriagamo-nos com a nossa própria fraqueza, queremos ficar ainda mais fracos, cair por terra em plena rua à frente de toda a gente, ficar por terra, ainda mais abaixo que a terra."
in A Insustentável Leveza do Ser, Milan Kundera
sábado, 15 de dezembro de 2012
Cinema
Axial compromisso adiado
acre da maresia na respiração
nuvens brancas em movimento
imaginação em câmara lenta
fragmento pobre, gesto imperfeito
líquida atmosfera envolvente
vento acelerado da degradação
exaustiva repetição em desalinho
ferve agora o passado no presente
corre a lava no interior do vulcão
espreita-se o fotograma escorreito
apagam-se luzes de insatisfação.
acre da maresia na respiração
nuvens brancas em movimento
imaginação em câmara lenta
fragmento pobre, gesto imperfeito
líquida atmosfera envolvente
vento acelerado da degradação
exaustiva repetição em desalinho
ferve agora o passado no presente
corre a lava no interior do vulcão
espreita-se o fotograma escorreito
apagam-se luzes de insatisfação.
terça-feira, 11 de dezembro de 2012
Diários de Angra
Caminhar pelas ruas antigas de Angra do Heroísmo é descobrir-lhe o peso e as virtudes arquitectónicas do passado, passear e ver cada canto e espaço iluminado, ainda que à noite estes passeios estejam desertos e as estradas ocupadas por carros estacionados. Mesmo assim, com o passado espelhado nas fachadas, varandas e janelas, nem um único sinal que seja, um rasto possível ou imaginário da vivência da família ou da vida de José Júlio de Souza Pinto, pintor naturalista, angrense de nascimento, de quem José Augusto França disse ser "o mais brilhante dos paisagistas". Leio também que começou a desenhar aos quatro anos de idade, por influência da mãe, Anna de Souza Loureiro, também ela pintora, e que este ficava com o coração despedaçado sempre que lhe tiravam a lousa com os seus desenhos. É destas árvores com troncos que continuam a folha da vida por gerações a fio que impressionam e nos querem fazer acreditar na transmissão do "gene das artes". E, entretanto, em deambulações pelo jardim do Duque no centro da cidade - recentemente em livro de imagens com "humor e ternura" pelo fotógrafo Paulo Garrão - que imagino essa mesma continuação da tradição de pintores e artesãos da palavra ao longo dos tempos. O mesmo espanto sentido ao saber que o poeta angrense Rui Duarte Rodrigues (autor do livro com o título dos títulos - "Os Meninos Morrem dentro dos Homens", 1970) deixou descendência literária em Tiago Prenda Rodrigues, autor de um promissor livro de poemas com o singelo nome de "1" (2001, edições teatrinho, espaço de criação), estando este acessível em estantes de cafés da vida angrense, como é o caso do Dona Amélia. Em suma, as mãos percorrem esse trabalho de asa que é a transmissão dessa correia do passado até ao presente e a partir dali vivenciá-lo, irradiá-lo de energia e amplitude, mantendo a chama da vida acesa e contagiante.
sábado, 8 de dezembro de 2012
Social-Democracia
Diários de Angra
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| "A Volta dos Barcos" (1891) de José Júlio de Souza Pinto |
Como se fosse a primeira vez, aliás, é sempre a primeira vez quando quando voltamos aos lugares onde apenas estivemos de passagem. Regresso assim a Angra do Heroísmo com uma antiga missão: encontrar "vestígios de vida" do pintor naturalista, José Júlio de Souza Pinto. Há três anos deu-se um caso insólito na Ilha do Faial, fui surpreendido com um postal à entrada do Museu Municipal da Horta e, mais tarde, pela respectiva obra na sala de exposições. A pintura intitula-se "A Volta dos Barcos", consta também a indicação (Póvoa, 1891), um ano antes da ocorrência da maior tragédia marítima naquela cidade. A partir de 28 de Fevereiro de 1892, as mulheres e os pescadores poveiros deixaram de poder usar cores garridas e passaram a trajar de preto. O quadro é elucidativo da angústia, o desespero contido de quem espera indefinidamente por alguém que lhe é próximo e não sabe se volta. O pintor José Júlio de Souza Pinto nasceu antes da invenção do cinema, mas é através dele que eu imagino, visualizo, recrio a vida dos meus antepassados naquele tempo. Adriano de Souza Lopes diz mesmo que foi nesta cidade nortenha que este pintou os melhores quadros de composição. Por isso, decidi "procurá-lo" na terra onde nasceu e viveu até aos três anos de idade, pois logo a seguir o seu pai mudar-se-ia para a Ilha de Santa Maria, para aí exercer as funções de Juiz de Direito.
sexta-feira, 7 de dezembro de 2012
Açores
I
"Entretanto, tudo em Portugal se detiorou, sobretudo o verão. Ou pelo menos assim pensava, até que a Fátima e os Açores surgiram como hipótese de fugir à grunhificação do nosso litoral e caminhar para zonas líquidas de outra intensidade. Descobri nos Açores o Portugal que julgava perdido e nunca mais abandonei essa pacificação de viver."
II
"Tudo cansa menos que na Horta, mais húmida, aparentemente mais cheia e, contudo, menos dotada de abundância, os iates trazem consigo uma gente mais boçal, há um café de ademanes turísticos por junto de armazéns dos Bensaúde onde estes labregos das ondas se juntam, um espaço desagradável com um comércio de osso, fotografia e isqueiro, um pouco para o porto como as loja bentas para o santuário de Fátima."
III
"(...) O Corvo de Raul Brandão, como os Açores de Raul Brandão, há muito que deixou de existir. Com a chuva, a luz da água que tombava nas encostas, na cercania do porto ficava mais nítida do que com o sol. Comecei a despedir-me dos palheiros, ao cimo, à direita, pelo alto de Vila Nova, e no porto, quase rente às hélices, as crianças nadavam e gritavam e viam partir lanchas como a nossa para a pesca, para a vida sem Deus. Não era um éden; era uma terra que queria viver e o tentava fazer bem. Talvez um pouco monótona, talvez com enraizados pré-conceitos, mas com rádio local, com vídeos, como na Amadora ou em Rio Tinto ou em Torre de Dona Chama- sem a agressão de uma sociedade do anonimato, com as agressões de uma sociedade de vizinhos. Sobretudo, com as mesmas formas de morrer."
Joaquim Manuel Magalhães, Do Corvo a Santa Maria, Relógio de Água, 1993
quarta-feira, 5 de dezembro de 2012
Teatro
O jogo não é fácil
há um aviso logo à entrada
no seio da farândola noctívaga
até à canada deserta de acesso interdito
fogo ébrio em angra de mar
o porta estandarte do gerúndio
de volta ao palácio no alto da luz iluminada
não adormeças cedo em letargia dominante
navegar à flutuante ilha em alto mar
ateador esforçado de litanias sem cardápio existencial
velha e incessante transumância
redobras atenção ao ouvido
na primazia do homem com a tez de salitre a perorar:
-queres polvos, leãozinho?
há um aviso logo à entrada
no seio da farândola noctívaga
até à canada deserta de acesso interdito
fogo ébrio em angra de mar
o porta estandarte do gerúndio
de volta ao palácio no alto da luz iluminada
não adormeças cedo em letargia dominante
navegar à flutuante ilha em alto mar
ateador esforçado de litanias sem cardápio existencial
velha e incessante transumância
redobras atenção ao ouvido
na primazia do homem com a tez de salitre a perorar:
-queres polvos, leãozinho?
terça-feira, 4 de dezembro de 2012
Tempo de Experimentar
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| "2: Sagrado, Profano" |
O Experimentar Na M'Incomoda tem novo disco, desta feita intitulado "2: Sagrado, Profano" e que teve a sua apresentação pública no teatro faialense, Ilha do Faial, no passado dia 9 do mês de Novembro. O segundo disco volta a juntar Aurora Ribeiro, Zeca Medeiros, Pedro Gaspar, "Pietá" Pedro Machete, Jácome Armas e, agora a voz de Mi, cantora sueca. É mais um capítulo da reinvenção da tradição e acrescenta à música dos avós as tecnologias deste tempo acelerado. Adiciona deste modo vários pontos de vista à paleta sonora musical existente, refaz os temas com muitas camadas, samplers e maquinaria envolvente. Retoma, inclusive, de forma arriscada e intuitiva o trabalho efectuado por músicos como Carlinhos Medeiros e José da Lata. Quem ouve à primeira vez não escapa à ínclita descoberta, ao trabalho de divergência e mistura da música insular bem como se expõe à enérgica investida da invenção e cumplicidade com estes "novos temas tradicionais". Desde os temas "sagrados" "São José a Caminhar" e "Interlúdio: Cantar ao Divino" às profanas "Lira" e "Sol" - com a voz de Pietá - tudo serve para Pedro Lucas revirar a batida e voltar a dar... com respeito (ou falta dele?) e intensidade. Em Novembro houve apresentações do disco ao vivo (15, Music Box), em Lisboa e (17, Passos Manuel) no Porto. É, sem dúvida, tempo de experimentar...
sexta-feira, 30 de novembro de 2012
Arquitectura
Amanhã é outra vez sábado
o nosso encontro é num plano inclinado
linhas e traços de cariz festivo
assim como quem não quer a louça
carregar livros por ruas de subida inóspita
descer com as compras Outono/Inverno
o medo é o saldo do futuro hipotecado
virar páginas coleccionar gravuras
a fotografia é o pintor sem fantasia
paga-se fim de semana com sossego
quanto é que tiraram do bago?
Amanhã é outra vez sábado
entrar em casa habitualmente
realizar educada saudação do dia
a cabeça finda a noite não desliga
afogam-se glândulas no mergulho
a coluna a amparar a rapariga
e um estranho clarão disseminado.
La Tendresse
«Somos dois a envelhecer
contra as bordoadas do tempo
Mas quando vemos chegar
a morte trociscta
sentimo-nos sós»
contra as bordoadas do tempo
Mas quando vemos chegar
a morte trociscta
sentimo-nos sós»
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| Jacques Brel |
"Gosto da ternura. Gosto de dar e receber. Mas, de um modo geral, todos temos falta de ternura, sem dúvida porque não ousamos dá-la nem recebê-la. Sem dúvida, também, porque a ternura devia vir dos pais, e a família já não é o que era antigamente. A ternura esvai-se dia a dia e o drama é que não há nada que a venha substituir. As mulheres, em especial, já não são ternas como antigamente. O amor é uma forma de expressão da paixão. E a ternura é outra coisa diferente. A paixão desaparece mais cedo ou mais tarde, mas a ternura é imutável. Existe concretamente. Tenho a sensação de ter nascido terno. Penso que aquilo a que eu chamo amor nas minhas canções é, na realidade, ternura. E sempre o foi, mas só agora começo a aperceber-me disso."
quinta-feira, 29 de novembro de 2012
Diários de Angra II
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| A Recolha das Batatas, 1898, Óleo sobre tela, Paris, Museu d'Orsay |
Procuro por aqui sinais da existência do pintor José Júlio de Souza Pinto. O pintor nasceu em Angra do Heroísmo, a 15 de Setembro de 1856 e era filho do Dr. Lino António de Souza Pinto, natural de Valongo, e de Ana de Sousa Loureiro, da freguesia da Sé, no Porto. O seu irmão, António de Souza Pinto, também se dedicou à pintura. Descubro assim que viveu nas ilhas atlânticas até aos catorze anos, para além dos primeiros anos na Ilha Terceira, passou por Santa Maria e São Miguel. No Museu de Angra do Heroísmo há alguns desenhos dele mas, segundo vozes avisadas do museu, não há qualquer referência na obra deste à sua vivência na ilha Terceira. E pergunto: o que é que terá acontecido? Primeiro, a ausência de referências na obra do pintor ao seu local de nascimento e crescimento, por outro lado a inexistência por aqui de uma obra, uma rua, uma placa evocativa da sua origem terceirense. É curioso que este tenha pintado "A Volta dos Barcos" aos trinta e cinco anos...
Do Alexandre, fotógrafo.
Era filho de um poeta maior da língua portuguesa que, devíamos saber, pelo menos dez poemas, de cor e salteado: Alexandre O´Neill. Acrescentamos o nome Delgado - era filho de Noémia Delgado - primeira mulher do poeta - e temos Alexandre Delgado O´Neill de Bulhões. Aqui está um fotógrafo português do século passado, desaparecido prematuramente aos 37 anos mas que antes esteve nas ilhas açorianas a fotografar a pesca ao atum e a caça ao cachalote. Em 2007, a editora Assírio e Alvim lançou o livro de fotografias "Reportagem nos Açores", com um prefácio de Alfredo Saramago que nos conta o seguinte: "O Alexandre, ao longo da sua curta existência, entendeu que a fotografia era um meio caminho entre o mítico e o místico e que, na maioria das vezes, o fotógrafo não passa de um sedutor de imagens."
quarta-feira, 28 de novembro de 2012
À Terceira Ilha: o olhar lento do viajante
No culminar do Outono chega-se à Ilha Terceira de avião, com uma gare do aeroporto completamente deserta, típica de um domingo insular. O destino inicial é São Mateus, àrea rural na zona envolvente de Angra do Heroísmo, composta de colinas e pequenos vales, nascida desse contraste entre a forte ruralidade e a evidente presença do mar. Passagem, no entanto, obrigatória pelo centro histórico da cidade de Angra do Heroísmo, a caminho de completar no próximo ano as suas três décadas de património da Humanidade, declaradas pela UNESCO no ano de 1983. À chegada a São Mateus avista-se a sua acolhedora e agradável baía com os barcos encostados ao porto e pescadores olhando o horizonte em descanso domingueiro.
Regresso nos dias seguintes à cidade de Angra que se abre ao fascínio da arquitectura, a sua vetusta e assinalável personalidade, o seu impulso desenhado ao longo de séculos e o seu conjunto arquitetónico rico e diversificado. O início deste périplo é pela Sé Catedral, a sede da religiosidade do arquipélago, exemplar da arquitectura filipina acrescentado a uma igreja gótica do século XV, fustigada pelo terramoto de 1980 e mais tarde por fogo posto, tendo a sua reconstrução permitido respeitar a traça original. Uma simpática senhora dá-nos a ver a capela-mor, repleta de pinturas e pratas do séc. XVII e ainda a sacristia com móveis de jacarandá, avistamos também a parede composta por uma galeria de retratos a óleo dos prelados diocesanos. E nem só do passado regurgita a arquitectura de angra, já que o século XX trouxe consigo o Palacete Silveira e Paulo, durante muitos anos a Escola Comercial de Angra, obra arquitectónica do mestre micaelense João da Ponte, característico da imponência visual ao cimo da Rua do Galo, actualmente a casa da Direcção Regional da Cultura. Atravesse-se desta feita o centro da cidade para chegar ao edifício do Centro Regional de Segurança Social pertencente ao arquitecto da "geração moderna", Raul Chorão Ramalho, numa obra moderna e singular, aberta à luz e ao encontro. E se fosse necessário confirmar a enorme vitalidade cultural angrense, nada melhor do que confirmar in loco o leque variadíssimo de actividades de pendor reflexivo e artístico, num único fim de semana preenchido pela filosofia, teatro e música. Tempo, portanto, para assistir ao Colóquio Internacional Comemorativo do Dia Mundial da Filosofia, sob o signo de "A Filosofia, Hoje", organizado pelo Centro de Estudos Filosóficos da Universidade dos Açores, que teve enquanto oradores personalidades variadas: Viriato Soromenho Marques, João Branquinho, Marcelino Agís Villaverde, Magda Costa Barcelos, Nuno Ornelas Martins, entre muitos outros presentes no Pico da Urze. Depois foi a vez de assistir na sede do Alpendre à peça de teatro "Colmeia", num texto contemporâneo divertido, crítico e mordaz à sociedade e literatura light, evidenciando assim a necessidade de partilha do riso e do humor com a assistência. No foyer do Centro de Congressos de Angra do Heroísmo houve também atenção e reforçada expectativa para ver e ouvir o concerto de Luísa Alcobia, acompanhada ao piano por Grigory Grytsyuk, numa encantadora viagem pela música dos séculos com as partituras de Mozart, Schubert, Fauré, Luís Freitas Branco, o açoriano Francisco de Lacerda e, por último, Erik Satie.
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