sábado, 15 de fevereiro de 2014

Invocações

hoje
os naufrágios nas gavetas
tomam o ritmo dos dias
na neblina de seu seio
a nudez e a luz
confundem-se nas camadas
do agnosticismo natural das coisas

(deus não é eterno

 por detrás das colinas do medo)

a distância
sobejando as trevas
feitas da prata e dos teus ossos
numa escura condensação
de ecos
e silêncios

germina-se ou derrama-se
o interior das coisas
conforme o sangue
ou as lágrimas
quando se adia o silêncio ofegante
das consequências
invocamos casas
melodiosamente desconhecidas
nas esquinas
quando surgem teus olhos
tua voz
inteiros concretos palpáveis
e juntos rompemos as palavras
das extensas narrativas do tempo


Leonardo Sousa in “há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida”, Letras Lavadas, 2013.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Fazendo nº89

          Saiu mais uma edição do Boletim Cultural Fazendo (https://issuu.com/fazendofazendo)na cidade da Horta, Ilha do Faial. Este é mais uma edição de um Fazendo renovado que retoma a sua periodicidade habitual, isto é, às suas edições mensais. Saúde-se mais um regresso do boletim cultural à comunidade leitora açoriana Estae número está já disponível na sua edição online: http://fazendofazendo.blogspot.pt. O design é fresco e arejado, pois conta com a marca de Ambas as Duas. O núcleo editorial é da responsabilidade do Tomás Melo e da Aurora Ribeiro, passando agora passou também a ser distribuído em quatro ilhas do arquipélago açoriano: Faial, Pico, Terceira e São Miguel. Esta nova edição do Fazendo continua, portanto, a informar que este boletim é comunitário, independente e, por isso, gratuito. 

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

O Burro Anão da Graciosa

Franco Ceraolo
(Janeiro de 2011)

Douta Inquietude

Levaste contigo a locomotiva
douta inquietação a rasgar
as virtudes do vento e do azul
as linhas do céu plangente
cartas por escrever com destino certo
ruidosos dias estilhaçados
de tudo o que se tem para dizer

João da Ponte

Fajã Grande

Fotografia de Tiago Rodrigues
(verão de 2013)

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Deviam ser rosas ou talvez vinho

Deviam ser rosas ou talvez vinho
À volta da mesa tudo parecia ter voltado
Muda mundo sem quedar mudo
De tanto que houve para dizer
Agora é o sol vestido e pouco mais

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Futurofagia

Ilustração de Luís Brum


Douta Melancolia

Trazes contigo a locomotiva
douta melancolia a resistir
das virtudes do vento e do azul
as linhas do céu plangente
cartas escritas sem destinatário
silenciosos dias amortalhados
de tudo o que não se é capaz de dizer.

 

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Canção para Paula e o Farol

Cinzas, magma, pedra-pomes
na terra prometida o esfumar
desolação, ventos consentidos,
deram por termo à travessia
lava e laços derretidos
comum paisagem elidida.


Recuo ao dominical espelho
sofá inclinado a bombordo
incansável vaivém nocturno
retomar de insular deriva
marés e moinhos agitados
apagam rosto do vulcão
o seco cerúleo das hortênsias
destino de funesta invernia.

De Cara a la Pared

foi talvez a nossa última canção.
oiço ainda os corpos a vincar a noite,
um campo minado de corações tristes
explodindo o rosto na parede.

muitas músicas depois
quando as paredes eram já outras
e nas caras se perdiam novos nomes

voltei a ela: ficara-me sempre, afinal,
um terrível verso solitário
e a culpa de a ter levado

a um coração onde as canções
morreriam de frio.

Renata Correia Botelho [in small song, Averno, 2010]

As Charlas Quotidianas do Doutor Mara na Travessa dos Artistas

   "As Charlas Quotidianas do Doutor Mara” tiveram hoje, domingo, a sua primeira apresentação pública na Travessa dos Artistas, em Ponta Delgada, com o capítulo “Futurofagia”, que contou com a participação do actor João Malaquias e da actriz Judite Fernandes, para além dos desenhos ilustrados e criados para o efeito, realizados pelo arquitecto/ilustrador Luís Brum.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Trazer o Exílio no Semblante

Ilustração de Pedro Valim
Não adianta debandar mas a verdade é que deixaram aquelas pessoas sós. Demasiado desamparadas. Remediar esse desapego dizendo que elas caminham sempre com as meias e os sapatos rotos. Que indigência ver aquela gente necessitada de alma por ali sem rumo nem vitória. A sua vida comporta químicos e líquidos e sobeja água incessante por todos os lados. E nas gavetas os passaportes ainda que só viajem pelas ruas do seu país sob protectorado. E vê-los ali, parados, sem tão pouco conseguir proferir os seus pensamentos em português piegas quase dói. Bem podiam começar logo pela manhã a escrever o seu primeiro poema com o título “Encharcados de Lágrimas” e propor às editoras ainda existentes que abrissem os seus pequenos livros de poemas com mais olhos do que barriga. Contos de barriga vazia. Sabe-se agora que escrevem melhor prosa do que poesia pois descrevem memórias de outras paragens de forma tão triste e pesarosa. Discorrem sobre partidas e amores quase todos eles desiludidos e evaporados tal como o álcool nocturno consumido em bares de cidades antigas, abandonadas. Sobreviveremos mesmo sem desejarmos, não tenhamos dúvidas. Ou talvez  estejamos já acostumados, anestesiados a essa certeza de nada nem ninguém já querer patavina nem ninguém por aqui. É certo: escaparemos deste lugar e exilar-nos-emos para lá do que está previsto. Confiaremos cegamente nas estatísticas e em tantas imagens que nos injectam e assaltam diariamente e, dia após dia, devagar, muito devagar, começarão todos a partir. E mesmo assim estas pobres pessoas ficarão sozinhas, cada vez mais isoladas, nesse país à beira-mar defenestrado. Por isso não devíamos ir embora nunca. Nem aceitar exílios prolongados que permitissem que qualquer pensamento de mudança se perdesse em calendas gregas, agora também irlandesas. Quanto ao mundo é normal que permaneça cedido a engravatados de tráficos e demais comércios e aos comentadores das vagas e da incerteza. Desterrados de qualquer fé ou convicção já não incomodaremos mais nada nem ninguém. Banidos das ruas e das praças é estimado que fiquemos quietos, letárgicos e desanimados. Deportados de sentido ou de qualquer esperança. Apartamos de qualquer força ou energia. Sucumbiremos a tanta vontade de nos movermos daqui para fora. Assumiremos que mais grave do que exilar-se é o exílio dentro de nós.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Ideologia


       “Meus heróis/Morreram de overdose/Meus inimigos/ Estão no poder/ Ideologia!/ Eu quero uma pra viver/Ideologia!/Eu quero uma pra viver/Ideologia!/Pra viver/ Ideologia!/Eu quero uma pra viver.”
Cazuza
Cazuza, cantor brasileiro, morreu quando tinha apenas trinta e um anos de idade e oito anos de carreira musical. Na sua curta existência gravou 126 músicas, mais 20 na voz de outros intérpretes e mais de 60 canções inéditas. Ontem, na Travessa dos Artistas, em Ponta Delgada, o novíssimo “Acorde Ortográfico”, composto por William Maninho Nascimento e Nélson Cabral decidiu homenageá-lo ao cantar, em forma de dueto, o tema “Ideologia”. Bonito, sem dúvida!

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Dança dos Estorninhos

A cantora em pose nada avista
desimpedido  palco ao cair da tarde
compõe-se de baile o desenho a cada ocasião
comportamentos artificiais desbotoam
no voo escondem feições em rosto de cão
desatinam no celeste céu, negra alomorfia.

Iludem o horizonte com meneios harmoniosos
ao comprido da brisa marinha se estendem 
afagando oceano em ondulado enlace.


Rosto de Cão, São Miguel, 29 de Janeiro de 2014.