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sexta-feira, 1 de novembro de 2024

Ilhéus de António Cícero

uma onda pode vir do céu,
imponderável como as nuvens,
e cair no dia feito um véu
ou a tampa de um ataúde.
e nada impede que se afundem
neo-atlânticas e arranha-céus
ou que nossas cidades-luzes
submersas se tornem mausoléus.
em arquipélagos, os ilhéus
pisarão ruínas ao lume
do mar, maravilhados e incréus
e devotados a insolúveis
questões, espuma, areia, fúteis
e ardentes caminhadas ao léu.
 
                in A Cidade e os Livros, Rio de Janeiro, Record, 2002

quinta-feira, 4 de abril de 2024

Um Tal de Fernando Assis Pacheco

Vivo com ele há anos suficientes 
para poder dizer que o reconheceria 
num dia de Novembro no meio da bruma
é como uma pessoa de família

adorava os pais mas tinha medo
quando zangados se punham aos gritos
e se chamavam nomes odiosos
não invento nada vi-o crescer comigo

chorava então desabaladamente 
e eu com ele sentindo-nos perdidos 
o cobertor puxado sobre a cabeça 
seria trágico se não fosse ridículo 

mesmo depois a noite que urinasse 
no pijama era um protesto civil 
encharcou assim grande parte das Beiras 
não lhe perguntem se foi feliz 

Fernando Assis Pacheco, in Respiração Assistida, Lisboa, 25 de Maio de 1995

sábado, 25 de dezembro de 2021

"Contigo aprendi coisas tão simples como" de Ruy Belo

Contigo aprendi coisas tão simples como 
a forma de convívio com o meu cabelo ralo
e a diversa cor que há nos olhos das pessoas 
só tu me acompanhaste súbitos momentos 
quando tudo ruía em meu redor 
e me sentia só e no cabo do mundo
contigo fui cruel no dia a dia 
mais do que mulher tu és já a minha única viúva 
Não posso dar-te mais do que te dou 
este molhado olhar do homem que morre 
e se comove ao ver-te assim  presente tão subitamente.

sábado, 9 de maio de 2020

Chamo-te porque tudo está ainda no princípio

Chamo-te porque tudo está ainda no princípio
E suportar é o tempo mais comprido.

Peço-te que venhas e me dês a liberdade,
Que um só dos teus olhares me purifique e acabe.

Há muitas coisas que eu quero ver.

Peço-te que sejas o presente.
Peço-te que inundes tudo.
E que o teu reino antes do tempo venha.
E se derrame sobre a Terra
Em Primavera feroz precipitado.

Sophia de Mello Breyner Andresen

segunda-feira, 22 de abril de 2019

A Uma Criança que Dança no Vento

Dança aí junto do mar,
Que te importa
O rugido da água, o rugido do vento?
Sacode a tua cabeleira
Molhada de gotas de sal;
Tu que és tão jovem ignoras
O triunfo do néscio, não sabes
Que o amor mal se ganha e logo se perde,
Nem viste morrer o melhor operário
E todos os feixes por atar.
Por que hás-de temer
O terrível clamor dos ventos?

W.B.Yeats (1865-1939)

domingo, 3 de fevereiro de 2019

Um Poema de Leonardo

não digo ilha
nem sufoco sinónimo
não digo o teu nome
o mel golpeia a lingua
fecha-te os lábios 
estou cercado

in Caderno dos Mitos Pessoais, Edições Artes e Letras, 1ºEdição, Dezembro de 2018.

domingo, 19 de novembro de 2017

Um Poema de Leonardo

detrás dos tambores de uma grande asma
um ardor arfa no vidro 
um eco 
com o seu vento de longe 
acorda-te apenas com os dedos
esboço 
de uma derrocada de flautas tristes

trata-se
de um anjo bêbedo que veio dizer-te 
que a fractura abriu pálpebras nas paredes 
que uma leve lua fende o chão 
do rumor de um exército de cascos 
que se aproxima

vem ajudar-te nos preparativos do festim 
para nos receber 
chegaremos cansados 
as preces encheram de pó as estradas 
os soldados suspiram por haxixe 
os cavalos não bebem ouro há três dias

prepara-nos banhos vinhos música 
acende todas as velas do oásis 
espalha os incensos  
enquanto esta carta atravessa a alegria 
do reencontro

ao chegarmos  
a mais alada das minhas filhas descerá
dir-te-á ao véu do ouvido ouve 
vê 
chove neste inferno 
por isso dança

e um dia 
ao regressares tu pelos passos da criança
sorrir-te-á pelo caminho 
a memória confusa de tudo isto que te escrevo agora 
em silêncio porque 
ambos sabemos 
felicidade e oxigénio e voz
tudo isto é inflamável

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

"In God We Trust"

Os portugueses de New Bedford
ainda moram na ilha
E transportam a candura própria
de quem respira o ar de São Miguel
Diferem dos outros credos, mesmo dos cristãos,
pois tem uma relação menos materialista
com o "american dream".
Quando olham as notas verdinhas do Tio Sam,
chamam-lhe uma dólar
com a ternura de quem faz amor
com uma couve tronchuda
depois das geadas de Janeiro (tão tenrinha).

Miguel Mansilha

domingo, 15 de janeiro de 2017

Ânsia de Ser

       revolvo-me em ânsias de vir a ser alguma coisa pra cá dos cérebros parvamente adormecidos em não querer ser vácuo vontade e ainda pra cá dos espíritos grandemente iluminados em redenção apoteótica do século vinte.
     pirâmides-Nada esfíngicas e espumantes são hoje para mim pesadelo constante  acordar tarde invadido em vago receio espectral e histérico de não triunfar de não vir a ser aquilo onde se resume toda a minha ânsia todo o trabalho positivo do meu ser lúcido que vive agora pra cá do outro romanticismo-parvo falta vontade de ser morto felizmente na minha vida.

no dens´umbroso deserto de desilusões com ventos alíseos de Tédio com dunas de desespero e caravanas  de desiludidos achei um oásis  de luz minh ´alma esguiando-se para o infinito lambem-me as faces contraídas em rictus  féericos de terror enroscando-se por mim arquejante de ânsias com ondulações voluptuosas de sereias as labaredas  de todos os incêndios há séculos pra dentro da história e acesos hoje à minha louca imaginação absurda e ansiosa no rodopiar dos meus pensamentos em velocidade  genial muito maior que a da hélice  de qualquer  aeroplano muitíssimo maior que qualquer  velocidade positiva existente no estado actual civilização incompleta do mundo dos grandes  inventos infinitamente pequenos à vista dos que falta  inventar tantos e tão grande que o nosso pensamento não atinge  dado o limite  parvo balisa de ferro que o restringe em opacidade banal. "

Almada Negreiros, Poesia Futurista Portuguesa (Faro  1916-1917), Selecção e Prefácio de Nuno Júdice.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Isto não é um poema sobre o verde

Isto não é um poema sobre o verde
dos campos do meu avó por onde
correu a minha infância.
Isto não é um poema sobre o amor
da minha mãe. Um amor tão grande
que lhe deu forças para me levar
em braços para o hospital só para eu não
morrer daquela vez.
-E morremos tantas vezes nesta vida!
Isto não é um poema sobre a língua do
animal que me lambe as feridas nem sobre
as mãos do homem que me sustenta o coração.
Isto não é um poema sobre o mar grande
que rodeia a ilha nem sobre os peixes
os corais as baleias e os barcos que
habitam esse mar.
Isto não é um poema sobre danças
insanas movidas a raiva e etanol.
Isto não é um poema sobre o arrepio
das canções do Jeff nem sobre a luz
de “Laughing Heart” de Bukowski.
Isto não é um poema sobre as veredas
que atravessei ladeadas por cardos
que castigam as pernas nuas e
nos enchem a boca de palavrões.
-Às vezes é preciso dizer porra!
Isto não é um poema sobre o meu medo
o medo do lobo mau o medo de Al Berto
o medo de Rosselini e o medo de Martins Garcia
Isto não é um poema sobre o palito na boca
do Ryan Gosling nem sobre o sorriso sádico
da esteticista a arrancar bandas de cera.
Isto não é um poema sobre a alegria concreta
de um prato de chicharros fritos com
batata doce para o almoço.
Isto não é um poema sobre o sossego do gato 
que dorme em cima das minhas coxas
nem sobre as inquietações do funcionário da repartição.
Isto não é um poema sobre a vaca sagrada
da ilha nem sobre a vaca profana do Caetano.
Isto não é um poema sobre jardins marinhos
nem sobre o brilho de prata de água pura.
Isto não é um poema sobre a pomba do
Espírito Santo nem sobre a fé mal amanhada
dos homens.
Isto não é um poema com foguetes e roqueiras
e fogo de artificio no final
Isto não é um poema. Mas podia ser.

Gina Ávila Macedo, in Grotta-arquipélago de escritores, Letras Lavadas, 2015.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

El Mar

Antes que el sueño (o el terror) tejiera 
mitologías y cosmogonías, 
antes que el tiempo se acuñara en días,
el mar, el siempre mar, ya estaba y era.
¿Quién es el mar?¿Quién es aquel violento
y antiguo ser que roe los pilares
de la tierra y es uno y muchos mares
y abismo y resplandor y azar y viento?
Quien lo mira lo ve por vez primera,
siempre. Con el asombro que las cosas
elementales dejan, las hermosas
tardes, la luna, el fuego de una hoguera.
¿Quién es el mar, quién soy? Lo sabré el día
ulterior que sucede a la agonía. 

Jorge Luis Borges, in Obra Poética, 2 (1960-1972), Biblioteca Borges, Alianza Editorial.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Soneto 34

Porque me prometeste um dia assim tão belo
E me fizeste andar sem que usasse o meu manto,
Deixando as nuvens baixas tomar o meu caminho
Escondendo o seu fulgor em nevoeiro imenso?
Não te basta brilhar pelas nuvens envolto
Pela tormenta, pois que não chega unguento
Que cura a ferida, mas não cura a desgraça?
Nem a tua vergonha me conforta o tormento:
Que a culpa do que peca traz só alívio leve
Àquele que mais sofre e suporta a ofensa.
    Mas as lágrimas suaves que o teu amor me dá
    São ricas e resgatam todo o mal que me fazes.

William Shakespeare, “31 Sonetos”, Tradução de Ana Luísa Amaral, Relógio D´Água.

domingo, 20 de novembro de 2016

La Voz a ti Debida

Para vivir no quiero
islas, palacios, torres.
¡Qué alegría más alta:
vivir en los pronombres!

Quítate ya los trajes,
las señas, los retratos;
yo no te quiero así,
disfrazada de otra,
hija siempre de algo.
Te quiero pura, libre,
irreductible: tú.
Sé que cuando te llame
entre todas las gentes
del mundo,
sólo tú serás tú.
Y cuando me preguntes
quién es el que te llama,
el que te quiere suya,
enterraré los nombres,
los rótulos, la historia.
Iré rompiendo todo
lo que encima me echaron
desde antes de nacer.
Y vuelto ya al anónimo
eterno del desnudo,
de la piedra, del mundo,
te diré:
«Yo te quiero, soy yo».

Pedro Salinas (1933)

sábado, 19 de novembro de 2016

Morte ao Meio Dia

No meu país não acontece nada
à terra vai-se pela estrada em frente
Novembro é quanta cor o céu consente
às casas com que o frio abre a praça

Dezembro vibra vidros brande as folhas
a brisa sopra e corre e varre o adro menos mal
que o mais zeloso varredor municipal
Mas que fazer de toda esta cor azul

Que cobre os campos neste meu país do sul?
A gente é previdente cala-se e mais nada
A boca é pra comer e pra trazer fechada
o único caminho é direito ao sol

No meu país não acontece nada
o corpo curva ao peso de uma alma que não sente
Todos temos janela para o mar voltada
o fisco vela e a palavra era para toda a gente

E juntam-se na casa portuguesa
a saudade e o transístor sob o céu azul
A indústria prospera e fazem-se ao abrigo
da velha lei mental pastilhas de mentol

Morre-se a ocidente como o sol à tarde
Cai a sirene sob o sol a pino
Da inspecção do rosto o próprio olhar nos arde
Nesta orla costeira qual de nós foi um dia menino?

Há neste mundo seres para quem
a vida não contém contentamento
E a nação faz um apelo à mãe,
atenta a gravidade do momento

O meu país é o que o mar não quer
é o pescador cuspido à praia à luz
pois a areia cresceu e a gente em vão requer
curvada o que de fronte erguida já lhe pertencia

A minha terra é uma grande estrada
que põe a pedra entre o homem e a mulher
O homem vende a vida e verga sob a enxada
O meu país é o que o mar não quer.


Ruy Belo                                                              

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Houve uma Ilha em Ti

Houve uma ilha em ti que eu conquistei.
Uma ilha num mar de solidão.
Tinha um nome a ilha onde morei.
Chamava-se essa ilha Coração.

Que saudades do tempo que passei.
Nenhum desses momentos foi em vão.
Do teu corpo, de ti, já nada sei.
Também não sei da ilha, não sei, não.

Só sei de mim, coberto de raízes.
Enterrei os momentos mais felizes.
Vivo agora na sombra a recordar.

A ilha que eu amei já não existe.
Agora amo o céu quando estou triste
por não saber do coração do mar.

Joaquim Pessoa, in 'Ano Comum'.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Os Melhores Anos da Minha Vida

Os melhores anos da minha vida
passaram comigo ausente, passaram
numa corrente subterrânea.
Não me apercebi de nada, distraído
com a queda das folhas,
a densa mistura de pão e desordem.

Estava tudo em aberto, mas eu não sabia
senão de pequenas querelas,
e tímidos passos à toa, sempre à espera
de não ter futuro. Sentado, como um pobre,
sobre o poço de petróleo,
eu media com tesouras as semanas,
misturava-me com livros, ansiava
pelo dia em que deixasse de sangrar.

Os melhores anos da minha vida
troquei-os por isto.

José Miguel Silva in "Vista para um pátio seguido de Desordem".

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Douta Inquietude

Levaste contigo a locomotiva
douta inquietação a rasgar
as virtudes do vento e do azul
as linhas do céu plangente
cartas por escrever com destino certo
ruidosos dias estilhaçados 
de tudo o que se tem para dizer

João da Ponte, Ponta Delgada, 12 de Fevereiro de 2016.

sábado, 21 de maio de 2016

Mar

Faz-se chamas com a fúria cava
de uma onda ou a táctil cobertura
de uma espuma

Começa em silêncio, embalando
uma canção de dentro, chamando
para a distância a promessa do reverso
afundado do mundo

Se digo mar
falo do homens que não passam
de sobras esquecidas para quem o destino
ilude, com um mais do que desesperado brilho
o recorte de um pesadelo
E acabam
com os corações
pescados ao largo de Lampedusa.

E não sei – nem sabem estes versos -,
como deixar que não seja o mar,
com o mesmo som sem lamento e sem delírio,
que traga mais ruína
à memória com que ainda se escreve Europa
enquanto regressa e acentua
a diferença entre tempo e eternidade
e me encontra à espera da manhã
a sua superfície em frente,
como se olhasse através do fim.

Rui Miguel Ribeiro, in “Mar”, livro de fotografia de Tiago Miranda.

sábado, 7 de maio de 2016

Chet Baker

Amarga coincidência essa de te fotografarem
sentado no peitoril de uma janela tocando
trompete e o modo como morreste. A toada

limpa e morna que se ouvisse se tocavas para alguém
para a cidade ou apenas para a noite são perguntas
com tanto de inútil como de impossível de responder.

Permanece o forte tempero de ironia de que
o jazz é composto esse sorriso à dor uma forma
de unir tudo o que na vida é fuga.
Agora só essa toada de bicho nocturno confirma isso

a ironia a fotografia a forma como morreste e quem sabe
um engano que levasse o tempo de uma queda

de um corpo da janela ao chão da rua.

António Amaral Tavares

sexta-feira, 29 de abril de 2016

3 x William Shakespeare

Soneto 10

Recusa, por vergonha, que não sabes amar,
Tu, que para ti mesmo és tão pouco prudente!
Concede, se puderes, que és por muitos amado,
Porém, que a ninguém amas é por todos sabido.
Pois tu de um ódio tal te encontras possuído
Que mesmo contra ti não ousas conspirar,
E arriscas arruinar esse tecto tão belo,
E havias em desvelo dele melhor cuidar.
Ah, muda o teu pensar, para que eu mude o meu!
Deve o ódio ter lar mais belo que o amor?
Sê como é o teu estar, gracioso e encantador,
Ou ao menos a ti prova o teu bom sentir.
      Torna-te em outro eu, fá-lo por meu amor,
      Possa o belo viver quer nos teus, quer em ti.

Soneto 18

Poderei igualar-te a um dia de Verão?
És mais ameno e brando, e muito mais gentil.
Vacila ao vento rude o rebento em botão
E a vida do Verão, demasiado breve.
Queimando muita vez, o olho do céu brilha,
Muita vez sua face dourada se embacia;
E sempre o que é mais belo da beleza declina
Ao mando do destino ou natural porfia.
Mas não definhará o teu eterno Verão,
Nem a tua beleza há-de deixar de ser,
Nem a Morte dirá que em sua sombra és,
Quando, em eternos versos, no tempo tu cresceres.
     Enquanto alento houver e houver humano olhar,
     Hão-de viver meus versos, e tu neles viver.

Soneto 104

Para mim, belo amigo, nunca terás idade,
Pois tal como me foste, quando te olhei no olhar,
Assim me és: belo ainda. Três Invernos medonhos
Agitaram dos ramos três Estios em esplendor.
Três gentis Primaveras se tornaram Outonos,
Eu vi as estações em constante mudar,
Três perfumes de Abril queimados por três Junhos
Desde que então te vi; e ainda: igual frescor.
Ah! Porém, a beleza, sem passo percebido,
Como braço do tempo recua, rouba a forma;
E a tua doce cor, parecendo não mudar,
Varia na mudança, pode iludir-me o olhar.
     Para que tal não fora, escutai, vós, por nascer:
     Antes de vós nascerdes, o mais belo morrera.

William Shakespeare, “31 Sonetos”, Tradução de Ana Luísa Amaral, Relógio D´Água.