segunda-feira, 23 de junho de 2014

[Ó Lírio, não trates assim a flor do campo]

As senhoras da limpeza aguardam à entrada
carece de explicação  o desencontro
-ó lírio, não trates assim a flor do campo, (a cibernética agradece)
padece dum real  concreto  ou de esquecimento neste caso
de novo será coração-carmim concentrado a esvair-se
na polpa dos dedos o rebolar de palavras que não casam
o músico omisso devia constar  de reunião
como se enrolassem palavras sem querer
até ficarem exaustos num combate observado à distância
a  consciência do outro de cada vez a expressar
muito antes do cuidar no interior dos dias e das noites

As notas erradas são sempre falta de ar
brotam ganas e ânsias como se cantassem de madrugada
o solo de plantas saudadas pela rua na voz da criança-poeta.

domingo, 15 de junho de 2014

Os Homens da Ilha Terceira

na ilha Terceira passam todas as nuvens do mundo
na ilha Terceira nasce o branco movimento do céu
o cinzento é curto, passageiro
por causa dos olhos dos homens
na ilha Terceira há homens de olhos azuis à nossa espera
homens pacientes de uma imaginação gigante
porque estão habituados a ver pessoas partir
homens inteiros lânguidos fitando o Atlântico
recebem-nos em júbilo sem nos perguntarem o nome
ensinam-nos que o nome é o último indício da alma
e que o mar todos os dias rega o olhar de azul
dizem isto e mergulham, desaparecem na noite líquida
por entre marés vivas como se não doessem
a dor, o sorriso inesgotável que estes homens provocam
dura muitas ilhas e enraíza-se muito depressa
eu parto e crescem-me hortênsias nas pupilas,
hei-de regá-las obsessivamente de azul
quando a falta que eles me fazem descorar
na ilha Terceira a última coisa que morre é o olhar
morre primeiro a esperança, o dia, a vida, só depois o olhar

Dulce Cruz

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Poesia

A água se ensina pela sede
A terra, por oceanos navegados
O êxtase, pela aflição;
A paz, pelos combates narrados;
O amor, pela cinza da memória
E, pela neve, os pássaros.

Emily Dickinson

Farol

Fotografia de Eduardo Brito

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Do Mar

         "A minha mãe gostava muito do mar e levava-me até lá quando era pequeno. As minhas primeiras recordações são de caminhar à beira-mar com os meus amigos conversando sobre os primeiros encantamentos amorosos. Nós, enquanto espécie humana, vimos do mar, aprendemos a nadar antes de andar, nas águas da mãe onde somos feitos. Somos feitos de água em 70 por cento. (…) Mas para mim o mar é outra coisa. É o mar da posição horizontal, não da luta para dominá-lo, mas ao contrário, para se abandonar. É o mar da felicidade. É por isso que o mar está indissociavelmente ligado ao amor, a Eros. Para mim, era inconcebível o amor sem o mar. O mar está também na história da minha vida, das paisagens e do amor, isto é, desse grande abandono nos braços da vida. Sem luta. Nado muito mas isso não tem nada a ver com o desporto, não, não, é realmente abandonar-se em grandes braços amorosos."

Claude Magris, in Ler, Dezembro de 2013.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Dois Poemas de Eduardo Bettencourt Pinto

Homem consigo próprio

E por uma voz que ainda não escutou
que se levanta do Inverno.
Esperou anos por uma sombra,
um pedaço de terra sem pedras,
uma janela donde pudesse olhar
a inviolável paisagem,
as distantes casa crepusculares, o pó
que derruba no silêncio
a tangível e cintilante melancolia do olvido,
Tomou a sua vida nas mãos, a transparência solar,
fluidez ardente da paixão
Nunca cantou do alto dos palcos da pesporrência
ou entre cintilantes plêiades de comissionistas
da moralidade, 
mas nas derrubadas colunas dos templos,
junto às lágrimas e ao sangue
dos dias
em que morria por tanto amar
um ramo de nespereira quebrado
no olhar duma mulher.
Tem agora postura soturna, alquebrada pelo
reumatismo
uma garça de angústia voa-lhe no coração.
Senta-se no átrio da igreja coçando os joelhos,
cabelos ralos adejando. As verrugas, acentuadas,
são profundas fissuras de mármore.
Alheio, vulnerável, quieto como um álamo,
não se lhe adivinha  o andarilho.
Esteve em Nova Iorque, viu ópera,
foi assaltado por um drogado numa galeria
em São Francisco enquanto se concentrava num
[Dalí,
comeu piza olhando, perturbado,
decotes desinibidos numa praça de Paris,
passou em frente à Casa Branca numa demonstra
[ção  contra a guerra, bebeu
tequila em esconsos povoados mexicanos
[até se esquecer do próprio nome, amou
tão febrilmente que julgou
pisar de leve a superfície dum paraíso
abstracto. Viveu como um príncipe
deserdado,
e trabalhou num fábrica de sabões  tantos anos
Que até a primavera cheirava a sabonete
reformado, ombros caídos, mãos calosas
e deformadas pela solidão,
sentiu no peito o ressoar
da última morte.
Fez as malas, juntou fotografias da sua juventude
em estações de neve, entre amigos e abraçado
a uma irlandesa,
seus pais, vultos cinzentos
na idade da memória.
Mas só ao chegar à ilha,
estonteado e perdido,
compreendeu que a saudade
nunca leva um homem
ao princípio do tempo.

Residência

Guardas as estações do sol e as harpas.
Os perfumados símbolos da terra cantam
no primeiro verão do olhar.
As mão levam-te a vasos de margaridas brancas,
sinuosos e claros oceanos.
Sentas-te à mesa da tribo e repartes o pão.
«Um homem que ama nas sombras o fulgor e as
[essências,
nunca chega tarde aos degraus da alegria», dizes,
o cheiro do vento e do trigo entre os dedos.
Não podes morrer contra o sonho contando
as pedras e alvoroços,
a face reflectida nos espelhos da alma.
Nunca partas dessa casa onde cresce agora
a voz das crianças, os rios da sua inocência,
as mais bravas e fragrantes ervas do amor.
Queres, eu sei, esse mar, a breve cama dos pombos
quando se abrigam nos rumores.
«Não há maior orfandade que chegar à ternura
sem palavras», dizes, os cisnes de Junho
nadando em círculos nos teus olhos.

  in “nove rumores do mar – antologia da poesia açoriana contemporânea”.

sábado, 7 de junho de 2014

Do Junho

O garajau supera o tubular Maio
denunciando o cálido éxodo rasante
o instante  brilho das escamas
em branco e espuma no estio chegando.

Sossego

Fotografia de Eduardo Brito

Dois Poemas de Heitor Aghá Silva

Estou profundamente humilhado

Estou profundamente humilhado
com o silêncio das acácias
estupidamente enigmáticas,
quando eu sei que elas escondem
o infinito das raízes?...
Graníticas, catedrais, transfiguradas,
embrulham-se na bruma
e riem-se de mim perdidamente
com seus cabelos verdes,
longos cabelos sensíveis,
simulando ao vento.

.................................................
................................................

Estou muito, muito magoado
com o silêncio das acácias.


Não me recordo

Não me recordo se havia alguma flor
no meu jardim.
Talvez fosse Verão...mas todas as manhãs,
ao acordar,
inexplicavelmente sentia saudades de mim..

Só sei chorar em português. Se a minha mãe
soubesse...
Como detesto os meus brinquedos de criança.
Talvez fosse verão, e houvesse flores...
Eu é que não fui um jardim da minha infância

Todos os astros se perderam no infinito.
Que saudades eu sinto de não ter sido um outro.
Talvez fosse verão, sei lá, e houvesse flores.
Só eu não fui ninguém entre o meu ser
e o sonho de outro.


in "nove rumores do mar-antologia de poesia açoriana contemporânea", organização de eduardo bettencourt pinto.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Entardecer

de tanto verso, a rua exausta:
leva numa mão migalhas de saudade, na outra a luz abatida
e enquanto uns dedos inventam a cura da ferida
os outros murmuram adeus à aridez da cidade

eu digo: o teu olhar castanho

eu passo sem rima pelo binómio
mágoa e amor pesam em cada um dos braços
o meu coração sustentáculo dança e imperioso
faz-me do corpo imprecisa balança

eu digo: o teu olhar castanho nebuloso
perdido ao fundo dos teus olhos

eu sigo sem equilíbrio, sem sossego, sem nada
só frémito, o medo de escolher a mão fechada
mover o músculo errático e ficar sem fim
na amargura que dos teus olhos desagua em mim

Dulce Cruz