quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Discos d´Outono

Angela Olsen - Faixa "Withe Fire"




"If you've still got some light in you then go before it's gone
Burn your fire for no witness, it's the only way it's done"


O Pico é uma roda viva



Fotografia: Dulce Cruz


terça-feira, 23 de setembro de 2014

Os Garajaus vão para Acra

Os garajaus vão para Acra
alegam a consistência das nuvens
 reforçam o princípio imutável das estações
esperam reunir-se no calor dos veleiros
à nova rota investem brancura no voo
desaparecendo na claridade da canícula
confiscando ao desfolhado Outono
o seu fim, precocemente, anunciado.

17

Construamos barcos para as madrugadas
insulares. Tábua a tábua, porões,
convés, mastreações, velames,
vento nas enxárcias...
Construamo-los nós mesmos: velas brancas,
lemes, mastros, cascos que se afundem
nos horizontes repetidos.
Vertiginosamente aquáticas estas mãos
que adormeceram tempo de mais
no emaranhado dos sargaços
saberão, certamente, como redimir-se.
Desçamos às profundidades oceânicas
galvanizados por essa voz extrema
que nos toca tão de perto
e sintamos em cada tábua que um carpinteiro
alcança a outro carpinteiro – antevisões
de serras, puas, prumos,
viagens puras – cartografia perfeita
inscrita no dorso azul e fusiforme
dos cardumes.
Inéditas seriam estas paisagens submersas
se o coração as não soubesse.
Construamos barcos, ilhas / barcos
derivando.

in "Arqueologia da Palavra", Heitor Aghá Silva, 1991.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Enfia as tuas Mãos

enfia as tuas mãos
não te incomodes
arranca essa coisa que te dói
aprende as artes da mandrágora
nenhum líquido te sobrará
depois de já não haver mais anéis
— nem do meu cabelo, nem do teu —
depois de já não haver mais nada
deixa a marca
dos animais que dormem todo o verão,
a viseira do cavaleiro andante,
a roca e o fuso,
deixa a marca dos animais
o selo, o número, o uivo, a pega
deixa o rio
a seda, a prata, um fruto seco
a embarcação


Ana Paula Inácioin «Vago Pressentimento Azul por Cima», Porto:Ilhas, 2000.

Colar de Pico

Fotografia de Tânia Santos

FAZENDO Cinema


O Jornal Fazendo irá apresentar, no próximo dia 25 de Setembro, pelas 21 horas, na Biblioteca Pública da Horta, uma sessão de cinema com três curtas-metragens rodadas nos Açores. Destas, duas, o “Ponta dos Rosais”, de Dinarte Branco e o “Varadouro”, de Paulo Abreu e João da Ponte, contarão com a presença dos seus realizadores. Ainda nesta sessão será projectado o “Ser Ilhéu”, de Francisco Rosas, que foi rodado em São Miguel e em São Jorge. A entrada, para visionamento dos três filmes, é livre e gratuita.

domingo, 21 de setembro de 2014

E que o Povo Cante...



       O suplemento Ípsilon do Jornal Público dedicou uma capa, seis páginas e uma recensão crítica ao filme,“Alentejo, Alentejo”, de Sérgio Tréfaut e, que, saúde-se agora, chega às salas de cinema portuguesas. O interior do suplemento contém também a apreciação de dois críticos do jornal – Luís Miguel Oliveira e Vasco Câmara - com duas estrelas ao documentário, e que é sinónimo de razoável. Quem escreve a recensão sobre o filme, o jornalista Jorge Mourinha, atribui-lhe a apreciação de três estrelas, sinónimo de bom. Não se pode deixar de pensar que houve aqui alguma contenção crítica ou avareza encomiástica após considerável destaque efectivo, palpável, visível aos olhos de um leitor assíduo do jornal. Arriscaríamos dizer que talvez tenha havido aqui um pequeno desacerto com essa celebração do país que canta, com aquilo que há de melhor numa comunidade que se organiza para preservar e manter viva uma das suas mais antigas tradições, e que  o demonstra com  alegria e a disponibilidade representada por todos os que se envolveram neste enorme labor. E, curiosidade das curiosidades, celebra o cante enquanto come, enquanto bebe, ou em lugares públicos, muitas vezes de braço dado. Por outro lado, ainda bem que nem todos podemos dizer maravilhas ou ter grandes arrebatamentos após visionarmos este trabalho documental, bem como podemos, inclusive, discordar de semelhante prémio almejado e conquistado em festival de cariz interno. E que do ponto de vista crítico  ou cinematográfico podemos considerar que a razoabilidade é aceitável dentro de um panorama de reconhecimento amplo e merecido.  Ou, então, será que estamos sob efeito desse drama social que nos afecta enquanto cidadãos deste país  à beira mar defenestrado e que se trata dessa nossa eterna dificuldade de gostarmos de nós próprios, simplesmente de  nos orgulharmos de sermos quem somos e de nos revermos nessa pertença à alma que julgamos ser portuguesa?

Dois Poemas de Heitor Aghá Silva

Na mão direita o silex 

Na mão direita o sílex,
a pedra tosca.
Preênsil o sonho adere
o gume rápido,
à súbita e excessiva claridade.
Galho a galho, feericamente iluminado,
treparei às bagas mais desejadas
e nos ramos mais altos dos meus olhos
sílaba a sílaba construirei
as luzes rápidas
da minha anunciada humanidade.
 
Trepador exímio
 
Trepador exímio de cíclicas mutações
visceralmente confluo
às regiões remotas
onde a Primavera permanece intacta.
Comovido pelo remoinho ancestral
no vértice mais criativo
redescubro a água e a luz,
raiz e sonho da memória biológica
assimilada.


in "A Arqueologia da Palavra", Heitor Aghá Silva, 1991.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Gato Filósofo

eu sou um racionalista
por isso não saio de casa
indolente

no dia em que vem o cio
vou ao bordel em silêncio
consciente

quando volta a acalmia
sou sem remorsos nem filhos
ausente

tudo é poema na vida
se pensado em geometria
persistente.

in feldegato cantabile, José Martins Garcia, 1973, Livraria Paisagem.

Natureza Extrema

Fotografia de Eduardo Brito

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Baleias e Baleeiros: o álbum de família da baleação!

Francisco Soares da Silva em Baleias e Baleeiros 
       Ver um filme com a sala do teatro faialense completamente a abarrotar, com galerias e camarotes repletos, ainda mais com um público atento e silencioso, pareceu mesmo coisa de outro tempo. Finalmente percebe-se que dar a ver ou mostrar mesmo o que foi a baleação  nos Açores, num relato feito na primeira pessoa  pelos seus intervenientes, não só não é coisa ancestral ou mesmo coisa histórica  para ser encerrada em museus ou arquivos,  mas é essencialmente  uma experiência para ser vivida enquanto cultura baleeira que persiste e coexiste com a nossa existência contemporânea. É que foram mais de duas horas entregues a este retrato pessoal e afectivo da baleação, particularmente à volta da Ilha do Pico e da Ilha do Faial e em que o "personagem principal" é o avó do próprio realizador, Francisco Soares da Silva, picaroto e natural de Santa Cruz das Ribeiras.  O “avô Chico” e, essencialmente, Luís Bicudo, estão de parabéns, não só pela realização de tão relevante filme, mas também por terem sabido reunir a família da baleação açoriana em torno deste tesouro oral que começa agora  a ser desvendado e conhecido por todos. Por fim, terminar a exibição do documentário com "Santiana", uma música popular das Flores, na magnífica voz de Carlinhos Medeiros, bem como exibir um belíssimo conjunto de fotografias a preto e branco de diferentes autores, não conseguiu deixar de provocar emoções de exaltação tal como expressar o sentido de agradecimento e admiração por semelhante e valioso trabalho de cariz memorial.