quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Mãos que Pescam

Fotografia de Filipa Alves

Poema

Alguma coisa onde tu parada
fosses depois das lágrimas uma ilha,
e eu chegasse para dizer-te adeus
de repente na curva duma estrada

alguma coisa onde a tua mão
escrevesse cartas para chover
e eu partisse a fumar
e o fumo fosse para se ler

alguma coisa onde tu ao norte
beijasses nos olhos os navios
e eu rasgasse o teu retrato
para vê-Io passar na direcção dos rios

alguma coisa onde tu corresses
numa rua com portas para o mar
e eu morresse
para ouvir-te sonhar


António José Forte in Uma Faca nos Dentes

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Convocação da Tristeza

Daqui a pouco convocarei a tristeza
junto de uma estante fria na noite
assomarei muito fumo, alguns versos e
o funny valentine


Talvez a dor ainda seja possível
esbanjarei todo o tempo da estação
sem qualquer trincheira afastarei
o temor  com a palma da mão
cuidarei  das unhas dos pés da lembrança em brasa, 
célula e choro,
pétala caída no esplendor do verão,
desolação em mim.

Ontem escrito numa parede da cidade

Todos gostamos de músicas pirosas quando estamos apaixonados.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Do Leitor

"Durante a minha vida, fiz muitas coisas que não tinha decidido fazer, e não fiz outras que tinha firmemente decidido fazer. Algo que existe em mim, seja lá o que for, age; algo que me faz ir ter com uma mulher que já não quero voltar a ver, que faz ao superior um reparo que me pode custar o emprego, que continua a fumar embora eu tenha decidido deixar de fumar, e que deixa de fumar quando me resignei a ser um fumador para o resto dos meus dias. Não quero dizer que o pensamento e a decisão não tenham alguma influência na ação. Mas a ação não decorre só do que foi pensado e decidido antes. Surge de uma fonte própria, e é tão independente como o meu pensamento e as minhas decisões. "
Bernhard Schlink, O leitor, pp. 16-17.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

70 anos de Mau Tempo no Canal

     
      Num texto ainda por ler e intitulado "O Homem Açoriano e a Açorianidade", o professor António Machado Pires  terá escrito: “A ilha em que nascemos é um eixo do Cosmos, uma pequena-pátria, um mundo de referências matriciais [...], um ponto de regresso ideal, uma Ítaca em que cada um é o Ulisses da sua própria e secreta mitologia”. Este ilustre pensador profere, amanhã, dia 21 de Novembro, pelas 19h30, na Biblioteca Pública João José da Graça, na cidade da Horta, uma conferência sobre os 70 anos da obra “Mau Tempo no Canal”, de Vitorino Nemésio. Será uma honra, uma distinta e enormíssima honra, ouvir tal personalidade eloquente e fascinante falar sobre tão afamada "obra nemesiana". 

Um Poema de Renata Correia Botelho

falhámos tudo: entregámos
os livros ao sepulcro
das estantes, ao amor

demos um colo de horas
certas, deixámos de abrir
janelas para cheirar a noite.

já nada nos lembra
que o poema só se forma
no fio da navalha.


Renata Correia Botelho, in Um Circo no Nevoeiro, 2009.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Da Poesia

              "A palavra, para existir, implica vida, vivência, convivência. Essa é a palavra do poeta. A poesia só existe quando nasce de um acontecimento existencial. Se não for assim, não me interessa. Os melhores poemas são os que nascem da vida. São os poemas que a vida engendra. O poema é o lugar onde a linguagem se transforma. O poema, para mim, é uma aventura, uma felicidade, como o amor. Não faço poesia para angariar glória, não penso entrar para a Academia, nem ficar rico. O meu poema, em geral, nasce do espanto."

Ferreira Gullar, antologia da poesia contemporânea brasileira, edição Alma Azul.

domingo, 16 de novembro de 2014

Eu gosto da tua cara contra o fundo

Eu gosto da tua cara contra o fundo
circunstancial, ocupas o espaço por onde a rua
se intromete, as tuas pernas magras no passeio
como as de um fantoche que só mexe os braços.

Ao canto uma árvore fazia sombra pequena
na desconversa. Estavas mais ou menos
a dizer: nenhum futuro neste sofrimento.
O teu melhor ângulo.


Rui Pires Cabral

Revolta


Susana Aleixo Lopes