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quinta-feira, 9 de novembro de 2017
terça-feira, 7 de novembro de 2017
Señoritas: Canções Dolentes ou Fábulas Urbanas?
“Disse-lhe que Portugal ainda tinha muitos
comunistas
mas o que ele queria saber era onde havia señoritas
que o levassem a dar uma volta.”
in A Naifa, disco “3 minutos antes da maré encher”, poema de Tiago Gomes.
A
Galeria Arco 8 há muito tinha anunciado
para o início de Novembro o concerto das Señoritas. Cumpriu-se a vontade e o motivo foi a
apresentação do álbum "Acho que é meu dever não gostar", o mais
recente projecto de Mitó Mendes e Sandra Baptista, cujo disco já tinha sido
estreado em Setembro do ano passado. Conviria recordar que o projecto “A Naifa”, banda anterior do
duo em questão e com impressão de Luís Varatojo, foi presença assídua em vários
palcos do arquipélago, tendo existido mesmo um concerto mítico, à semelhança
daquele dado no Teatro Faialense, em Maio de 2012, à altura carregado de grande simbolismo, pois tratar-se-ia do
primeiro concerto sem a presença do malogrado João Aguardela.
Na noite
de sábado, o público no Arco 8 foi maioritariamente feminino. As Señoritas despontaram em palco com a força e a segurança de quem
gosta muito daquilo que faz pois, segundo elas, continuam a ser livres de
gostar ou não. Mitó Mendes canta e toca guitarra, Sandra Batista toca acordeão
e baixo eléctrico e ambas socorrem-se dum 'leque' de programações que permite
intensificar e preencher as 12 canções do seu álbum debutante.
As
letras de Sandra Baptista são directas, com versos simples
e crus, a roçar emoções ferozes e com refrões disparados em revolta constante.
Depois da abertura com a canção que dá título ao álbum, o foco recai em “7
Pragas” e remete a audiência para um ambiente peculiar. Há, sem qualquer
dúvida, uma sensação de estranheza perante o arrojo minimal e que é traduzido
neste casamento entre um olhar português do século XXI com aquilo que se pode
chamar de pensamento urbano-feminista. A descontracção das duas em palco é bem
visível nas canções como “Mão Armada”, um tema sobre a tensão pós-menstrual, ou
“Nova”, que reflecte sobre quem recusa o envelhecimento, chegando mesmo a ouvir-se
um coro de gente a cantar em uníssono: “viver
bem/ sempre nova/ com os pés prá cova”. Pelo meio escutam-se outras
variações ou fábulas urbanas e eis que intuímos a religião impregnada de culpa
e de pecado em “Confesso” e “Confissão” - onde escutamos vozes gravadas em oração.
Há também um lado sombrio em marcha fúnebre quando se repete até à exaustão -
"Os funerais são os casamentos dos mortos", com uma letra a remeter
para uma existência dolorosa. Menos sombrias e com cadências ligeiras e soltas ouvimos a abordagem ao torpor dos órgãos em “Ciática” ou o regresso à infância com "Alice". A ousada proposta musical
parecia ter chegado ao fim mas a dupla, entusiasmada, sentia-se em casa.
Por
último, as senõritas regressaram ao palco para tocar os dois últimos temas,
despedindo-se com uma versão por elas tão bem conhecida – “Amanhã”- dos Sitiados, canção que nos elucida sobre uma vida sem conflito a que não podemos deixar de fazer frente:
“Alguém morre nos braços do mar/ alguém morre sem acreditar”. A verdade é que
ainda havia muito para dançar e desfrutar com o anunciado DJ Fellini,
certamente não o extraordinário realizador italiano, ainda que por
instantes pensássemos ter estado na cidade das mulheres.
segunda-feira, 6 de novembro de 2017
...
Naquele porto os metalómanos barcos
esmagam a paisagem
de energia brutal, parada.
Num barco soviético
o marinheiro põe o punho a meio gás
como o comunismo enjeitado na sua terra.
Disse-lhe que Portugal ainda tinha muitos comunistas
mas o que ele queria saber era onde havia señoritas
que o levassem a dar uma volta.
Tiago Gomes
esmagam a paisagem
de energia brutal, parada.
Num barco soviético
o marinheiro põe o punho a meio gás
como o comunismo enjeitado na sua terra.
Disse-lhe que Portugal ainda tinha muitos comunistas
mas o que ele queria saber era onde havia señoritas
que o levassem a dar uma volta.
Tiago Gomes
domingo, 5 de novembro de 2017
Os Domingos de Lisboa
Os domingos de
Lisboa são domingos
Terríveis de
passar — e eu que o diga!
De manhã vais à
missa a S. Domingos
E à tarde
apanhamos alguns pingos
De chuva ou
coçamos a barriga.
As palavras
cruzadas, o cinema ou a apa,
E o dia fecha-se
com um último arroto.
Mais uma hora ou
duas e a noite está
Passada, e
agarrada a mim como uma lapa,
Tu levas-me p′ra a
cama, onde chego já morto.
E então começam as
tuas exigências, as piores!
Quer′s por força
que eu siga os teus caprichos!
Que diabo! Nem de
nós mesmos seremos já senhores?
Estaremos como o
ouro nas casas de penhores
Ou no Jardim
Zoológico, irracionais, os bichos?
Mas serás tu a
minha «querida esposa»,
Aquela que se me
ofereceu menina?
Oh! Guarda os teus
beijos de aranha venenosa!
Fecha-me esse olho
branco que me goza
E deixa-me sonhar
como um prédio em ruína!...
Alexandre O´Neill, in Poesias Completas, 1981.
sábado, 4 de novembro de 2017
Dos Versos...
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| Fotografia de Escultura de João Cutileiro (Biblioteca Pública e Arquivo de Ponta Delgada) |
Não me recordo
da primeira vez que li poesia. Desde que me conheço que aprecio ler livros de
poemas, há ali qualquer coisa de preciso na reunião das letras, no agrupar das metáforas, nesse colher de sentido acorrilhado num texto poético. Ainda hoje não
soube explicar porque me contento tanto ao ler poetas ou quem me terá persuadido
neste ímpeto e safra diária que faço das letras que carecem de explicação. A generalidade
das pessoas de quem gosto e de quem sou amigo preza muito ler ou faz hábito da
leitura de poemas no quotidiano. Desconfio também que somos melhores a ler os textos do que
a compreender as pessoas e o universo que nos rodeia. O que faz com que a
maioria das vezes sejamos surpreendidos com as suas reações ou a incoerência e impiedade
dos seus comportamentos ou mesmo que reconheçamos quando alguém age
deliberadamente com o intuito de agredir alguém e pretenda abertamente pôr a pata
em cima. Desconfiamos, claro, do mal e tentamos realizar uma leitura
esforçada dos gestos de quem o pratica, ainda assim convém que não façamos de conta que nada se
passou. Os filósofos a sério, aqueles que gostamos de seguir, são aqueles que
sabem interpretar a humanidade que nos rodeia e conseguem predizer o futuro. Os
poetas, felizmente, não têm essa pretensão. Há qualquer coisa de vate que
faz com que consigam ler por instantes os pensamentos dos outros sem dar uma explicação
racional do mundo e da humanidade. Desta feita, os poetas “explicam” através dos versos, da vida feita metáfora, intuição, a nossa existência. E, por isso, é que passamos os dias a lê-los.
Che Bellezza, Luigi Tenco!
A noite avançava muito alta no "Colégio 27" e o serão resumia-se a esperar pela música de Marino Formenti, que tocaria na véspera daquele feriado com os músicos locais que se decidissem a aparecer. Escancarados e apertados naquele minúsculo espaço de audição e fruição, saciados em petiscos de peixe do fundo e vinho branco fresco, aquela reunião de músicos prometia transformar-se em experiência de partilha, agitada que se tornou em ousadia e criatividade.
Marino Formenti saltaria entretanto para o piano para proferir em verso: "Mi sono innamorato di te/perche/
non avevo niente da fare" e fizesse com que alguém retivesse o nome de tal versejador - Luigi Tenco. Ao procurar a origem deste tema vejo que este foi gravado pela editora "Ricordi" em Novembro de 1962 e, por isso, não se parou de vasculhar sobre este cantautor de tão intensa e verdadeira declaração de amor. É que, logo de seguida, na conclusão da madrugada, os versos deste ainda ecoavam como borboletas esvoaçantes numa arrepiante e desconcertante certeza desse sentimento cristalino: “Mi sono innamorato di te/ e
adesso non so neppure io cosa fare”.
quinta-feira, 2 de novembro de 2017
Poesia na Tascá
Lugar na esquina
A entrada é virada para norte
A porta tem 2m de altura e 1m de
largura
completamente aberta
Apenas 5 mesas
A mesa onde me sento dista 3,45m
da porta
A altura da mesa é de 75cm
A largura é 80cm
O comprimento é 80cm
A cadeira está voltada para a
porta através da qual
posso, numa distância de 3,45m
ver a rua
A rua pela qual passam
transeuntes
Transeuntes que não podes julgar
O julgamento que não podes
concluir
A conclusão que é incompleta
Incompleta porque a porta só tem 1m de largura
Na mesa está:
Um copo
Diâmetro 60mm
Altura 150mm
Uma chávena
Diâmetro 45mm
Altura 70mm
Com um prato com um diâmetro de
120mm
No copo está água
Na chávena está um café pingado
Pingado que está a acordar
curiosidade
A curiosidade que é inviável
Inviável porque não há tempo
Tempo que eu observo sentado
Sentado em frente da porta que
Só tem 1m
Neste espaço estou sentado eu
A minha altura é 1,89m
85kg de peso, mais ou menos 1kg
45 de calçado
Cabelo curto e barba
Cara um pouco longa
Cara que está estática
Estática porque nada distrai a
sua atenção
Atenção que está em todo o espaço
Espaço estou sentado
completamente sozinho
Em frente à porta de apenas 1m
Petar Šćulac, artista plástico.
quarta-feira, 1 de novembro de 2017
terça-feira, 31 de outubro de 2017
Outubro
“October/
And the trees are stripped bare/ Of all they wear/What do I care/ October/ And
kingdoms rise/And kingdoms fall/ But you go on...and on...”
Paul
Hewson, U2
Outubro despede-se e todos
sabemos que qualquer adeus pode ser triste sobretudo quando uma das partes faz
questão de lamentar a partida ainda que sem lamúria ou sinais de pranto. O
décimo mês termina agora, comprovando-se que musicalmente ainda mexe. Sem ter
sido convulso, tornou-se, à medida que o tempo meteorológico se foi deteriorando,
algo vivo e secreto. Desse tempo fluido ocorre verificar este concertado de
dias em que o sangue escorreu de forma perpétua e colorida, à semelhança do que
diria Cézanne. Ouvir dizer no final de “Ilusão”, de Sofia Marques, o mestre das
artes de palco, Luís Miguel Cintra, que a realizadora nada sabia de filmes nem
de filmar quando começou e que agora realizou um documentário carregado de belos
enquadramentos e planos reveladores e perfeitos. E ainda assistirmos ao
partilhar desta insatisfação dum homem que viveu do palco, alimentou-se da vida
dos textos e que tanto nos pode ainda ensinar. E dois dias depois, naquele mesmo
palco, uma italiana, Giovanna Barbanti, a dialogar com os sons e o silêncio, naquele
barroco dilacerante ou jogando com loops sincopados de temas contemporâneos, delicados, possuídos de
exaltação e sentido. Fica aqui essa certeza mesmo quando a matemática dos
tempos exige contenção. E logo de seguida a ousadia da Orquestra AngraJazz, com mais de vinte de músicos, homenagear Duke Ellington num registo
inédito nos palcos nacionais. E como se não bastasse, a democracia das palavras
em período crescente com a ilha literária a trazer dois novos livros – “Os
Ossos Dentro da Cinza”, a poesia de Emanuel Jorge Botelho e “A Brecha”, um romance de João Pedro
Porto. E Novembro que não tarda a entrar…
segunda-feira, 30 de outubro de 2017
Do Tempo
“Apanha os botões de rosa enquanto podes
O Tempo voa.
E esta flor que hoje sorri
Amanhã estará moribunda.”
domingo, 29 de outubro de 2017
Godot, em Balbucio, Antes de Entrar em Cena
para Antero de Quental
quando eu já cá não estiver
para gostar das coisas a que dei um nome
quem lhes dirá que o meu estava dentro delas
como uma folha de tília
desenhada no frio de uma ardósia?
que fique, pelo menos,
na badana de cada noite,
o lume de as ter comigo
e o risco, rubro,
de uma lágrima.
Emanuel Jorge Botelho, edições Averno, Outubro de 2017
O Outro Lado da Esperança
"Posso viver sem o cinema, mas não posso viver sem árvores. Não consigo viver sem um beija-flor numa árvore. Enquanto houver um pássaro continua a haver esperança."
Aki Kaurismäki in Ìplson, Jornal Público, dia 27 de Outubro de 2017
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