sábado, 9 de março de 2019

Neste Mar Imóvel de Blanca Martín-Calero e Eduardo Brito

Blanca Martín Calero estabeleceu-se em São Miguel em 2013. Na edição de 2016 do PONTES, evento-homenagem em Ponta Delgada ao malogrado produtor, João da Ponte, Blanca publicou um poema nos "Cadernos de Poesia" intitulado “Cinquenta e Nove”. Foi através deste que Eduardo Brito, fotógrafo e cineasta, com quem partilha a edição deste livro, se conheceram tal como tiveram a ideia duma aventura editorial conjunta e consequente lançamento de “Neste Mar Imóvel”, com a chancela da Araucária Edições (https://araucaria.pt/).“Levaste a araucária do fundo da rua”, principiava assim o verso desse poema dedicado ao amigo comum e revelar-se-ia claro o ensejo de Blanca de expandir a sua sensibilidade a partir do universo das letras. Desde a sua chegada à ilha foram muitas as voltas que a vida deu pois, tal como podemos ver nos títulos do livro, afloramos a presença ou mesmo a ausência da ilha: “Vida Limitada”, “Ilha e o Desconhecido” ou “O Regresso". Da simbiose entre a escrita de Blanca Calero e a imagem de Eduardo Brito constata-se que as fotografias nascem deste percurso inicial, ainda uma partilha da sua "mirada curiosa" bem como a reflexão que brota dos interstícios da vivência no espaço insular. E, enquanto se contempla a ilha, comprova-se que esta é um "ninho" em que se entra e sai, ao mesmo tempo que se repara na força incontida das palavras: “O sotaque era grosseiro e rude como deve ser a verdade”. Ainda que Blanca saiba que se pode estar muito perto de pertencer à ilha, isto é, de fazer parte da sua geografia interior, ainda que ninguém poderá compreender muitas perguntas que podem continuar sem resposta, algumas deveras pertinentes: “Pergunto-me se nos podemos tornar ilhéus ou se devemos nascer numa ilha para o sermos.”, presente em “Ser Ilhéu”. O mesmo será dizer: olhemos para este mar imóvel e sintamos os navios passar.

Verso de Simon Diaz

La luna me esta mirando

Galeria Brui: Zunzum

 Exposição de Igor 16382
(Dia 13 de Março -18h às 22 horas)


sexta-feira, 8 de março de 2019

Inverno

Parece que eternamente sobre a terra
Choverá desolação e frio
A mesma neve de horror desencarnada
A mesma solidão dentro de casas

Sophia de Mello Breyner 

quarta-feira, 6 de março de 2019

Santa Clara Azul


Um Verso de Neil Hannon

But sometimes I long for a sign, anything

uma história saturada de mortos

eu agora trinta anos fumo bebo
rodeado de toda a tecnologia do homem
assusto-me com o grito de uma perdiz
ali fora na seara alentejana. Insones
os pássaros pelas noites e dias
e choro
neste verso avesso por um verso.
um filho qualquer que seja o seu sexo
mas não aqui connosco nós
não temos histórias para contar
senão a morte
ao deitar

Fernando Machado Silva, in Passageiros Clandestinos, Companhia das Ilhas, 2012.

segunda-feira, 4 de março de 2019

Missiva Pré-Primaveril com Destino a Janeiro Alves no Entrudo Pleno

Caro Janeiro Alves,

Redijo-lhe estas linhas nos debutantes sussurros primaveris de 2019, desejando que o meu amigo se encontre guarnecido das mais promissoras expectativas para o próximo estio, que segundo asseveram as mais altas patentes da meteorologia, será o mais quente de sempre. Quaisquer mangas cavas ou demais refrescos e gelados será sempre pouco para o verão tórrido que se avizinha!
O motivo desta missiva é interrogar-lhe sobre o seu conhecimento de um tal Felício Chanfra. Recebi um convite duma publicação azórico-lusitana de reconhecido gabarito para interrogar este psicoterapeuta dada a sua reputação, trabalho e reconhecimento em terapias psicológicas oportunamente avançadas. Encetei com contumácia as questões necessárias e li mesmo toda a literatura ilustrada sobre a Psicologia Moderna. Até aqui labor intenso e esforçado. O meu amigo Janeiro Alves sabe que sou um brilhante interrogador, possuidor de um estrepitoso charme e assertivo nas minhas convicções hodiernas. Doravante, eis que não saberei o que me irá acontecer. É que quando procurei recolher informações sobre Felício Chanfra no grande motor de busca global, fui confrontado com ausência biográfica, surgiram mesmo algumas frases redondas e referências próprias de uma fragilidade inconfundível, muitas delas poderiam mesmo constar de qualquer mural nas redes sociais. Isto, para não falar de uma hiperealidade abissal. Indaguei assim a razão do sucesso de Felício na lista das personalidades promissoras deste novo século, e nada consegui concluir. Na lista de grandes promessas figuram ainda o irreparável Victor Klaus e o inefável Alberto Ai. Conjecture lá, Janeiro Alves, tamanho descaramento!
Como deve imaginar, não sei o que hei-de fazer para diminuir a ansiedade, desatei por isso a escrever e escutar interrogatórios de forma compulsiva, socorrendo-me apenas da recordação dos momentos de folia quando interroguei Giorgio Delle Mare e Andar Carrasco. Em breve, faço questão de lhe endereçar o resumo, a súmula do depressivo e suculento encontro que irei ter com esse famoso psicoterapeuta retirado do mundo. Segundo me afiançam, convirá também ficar atento aos ligeiros achaques e altivez a que habituou o seu público desde que ganhou o Prémio Sigismundo F, atribuído pela Academia dos Atos Falhados.
Despeço-me no ápice da euforia e no cúmulo da folia sobretudo pelo trabalho que o meu amigo tem vindo a realizar em prol da literatura de cordel, augurando-lhe, desde já, um Feliz Entrudo. Com um até breve na caixa do correio. 
No esplendor máximo da estima e da consideração,

Doutor Mara

A Mesa está Posta de Jorge Silva Melo

“São textos dispersos, textos que escrevi, entrevistas, coisas que disse, cinquenta anos de viver e de andar a pensar e a fazer. É uma escolha, são textos díspares em que água mole foi batendo em pedra sempre dura, mas não está cá tudo, nem pensar, há textos perdidos, outros que ficaram de lado, outros que andam por outras recolhas*. São cinquenta anos insistentes, felizes, teimosos, sempre a defender, ó monotonia!, essa coisa mais linda que é viver entre palavras, palavras de outros, antigos, modernos, tantos. São textos recuperados, corrigidos, revistos, alguns inéditos, tanta coisa sobre Teatro, pois é, foi uma vida.”

Jorge Silva Melo

*Apresentação do livro no dia 7 de Março, no Teatro da Politécnica.

sábado, 2 de março de 2019

O meio literal português

Nem cá nem lá,
no meio literal português cada um ocupa
o seu lugar, a meio caminho entre aquele que
a providência lhe destinou e aquele a que
o alpinismo de planos rasos o fez ascender.
Os romancistas revolvem-se em trezentas páginas,
no pânico de corpos enterrados vivos em caixões de papel,
e os poetas empregam-se
em produzir mais versos do que os minutos todos
de todos os leitores.
Os críticos esbracejam, nem contra nem pelo contrário,
nunca há pedra que a boca não engula.
E uns e outros, ofendidos como putas pudicas,
curvados
pela constatação que ninguém os lê,
convertem-se ao cinismo
de quem já leu tudo o que não quis ler.
Falar alto, intimidar de copo na mão,
em provocações e poses de taberna, continua a ser
a melhor forma de ocupar o espaço.
O pântano reproduz-se e as pegadas, come-as a lama.

Madalena Castro Campos, in "A Gun in the Garland ", Companhia das Ilhas, 2019.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Verso de Rui Rofino

Finjo ser remanescente desta farta calhordice

Da Literatura

         "Desde os gregos que a literatura nasce como forma de acesso às verdades mais misteriosas e irracionais do ser humano. A catarse está presente em Shakespeare, Kafka ou Pessoa, só para citar alguns nomes muito conhecidos. Nomear uma dor é uma tarefa de uma literatura. Ao mesmo tempo, a catarse é também uma exaltação da vida. Quando somos capazes de nos explorarmos por dentro, a nossa vida estende-se a regiões inesperadas e insuspeitas. Lemos romances para entender o mistério da vida. Ninguém sabe o que ela é. Cabe aos escritores investigar esse mistério." 
Manuel Vilas, in Jornal de Letras, Fevereiro.