segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

"A Construção Moderna" (1900-1919)

          "A história e a colecção completa desta revista que durou 542 números, publicados ao ritmo quinzenal, e depois trimestral, até Julho de 1919, estão agora no portal de "Revistas de Ideias e Cultura (RIC), à atenção dos historiadores, investigadores e demiais interessado na arquitectura portuguesa do início do século XX."
Sérgio C. Andrade, in Jornal Público, 26 de Novembro de 2019.

sábado, 21 de dezembro de 2019

Sem Mar

Dizes-me:
nunca há mar nos teus poemas

Pois não. O mar que conheço é baço
e o que nunca vi é estranho
insondável como poço, afoga-nos num lento abraço

Dizes-me depois:
nunca há mar, mas há aldeias

Pois há. E há mulheres, há sempre mulheres.
Umas a chegar, outras a partir.
Gosto de encontros, gosto de despedidas - Há sempre mulheres,
                                                                     (algumas despidas
Não me atrai as ondas 
o modo magnético de nos prenderem o olhar.
Prefiro-o à solta pelas aldeias 
é que tudo que há nelas me dá ideias
mesmo um triste poço, mesmo um monte baço

João Habitualmente, in "Um dia tudo isto e será meu (uma antologia)", Porto Editora, 2019. 

sábado, 14 de dezembro de 2019

O Olhar de Uma Inatingível Ternura

Desenho de Daniel Lopes 

Busto e Costas

Sei que gostas
de vestidos sem costas

e de grandes decotes nas blusas
sei que os vestes e usas 
Toda essa conspiração 
de tecidos que te despem
se destina à minha derrota:
vergas-me ao teu busto ardente
aniquilado pelo decote que te rasga o peito

Sei que gostas 
de blusas sem ombros
e de vestidos sem costas

sei que os vestes e mostras

e sei que usas 
finas rendas que te desvendam o busto 
e me reduzem a escombros

si que te olho 
e me assusto:
gosto de ti

com vestidos sem costas 
gosto eu e sei que gostas 
mas gosto mormente de blusas sem alças 
e de vestidos sem frente

João Habitualmente, in "Um dia tudo isto será meu (uma antologia)", Porto Editora, 2019. 

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Missiva Natalícia para Janeiro Alves

Ilhas Atlânticas, dia 9 de Dezembro de 2019
Caro Janeiro Alves,

Reestabeleço contacto com o amigo Janeiro, nesta tarde outonal, na esperança de descobri-lo moço e ambicioso. Sim, é verdade, a sua última missiva tresandava a desencanto e abandono. Inesperado, para não dizer surreal, este retorno às raízes do amigo Janeiro. Soa a ranço, para não dizer nostálgico, este professar dum adeus à antiga capital do império para refugiar-se no pinhal rodeado de vegetais e salchichas. Isso só pode simbolizar rendição à gentrificação, melhor, cedência ao “modus operandi turisticus” a que muitos dos nossos concidadãos foram submetidos.
Aproveito, assim, para comunicar-lhe que me tornei economicamente viável, já que acabei de participar num encontro literário com a preleção “E Rimbaud…gostava de Ramboia?”, com a assistência a rejubilar com tamanha agudeza e assertividade, não podendo deixar de soltar uma lágrima aquando da ovação de pé durante cerca de onze minutos. Nesta minha magnífica palestra não me esqueci de exaltar a paciência dos editores e livreiros que, ainda assim, continuam a convidar-me para estar presente nestes eventos de grande gabarito.
Desta feita, volto a referir que as suas mais recentes missivas revelam um Janeiro Alves cada vez mais eremita e misantropo. Por isso, não sei se irei aceitar o seu convite já que tenho receio de me distrair com o que terão para dizer figurões e personagens como Victor Klaus, Alberto Ai, Andar Carrasco, Fausto, Giorgio Delle Mare ou, imagine, soube da presença, este Natal, do curassário, Nikos Falácia Cautela, que me afiançou estar ansioso por degustar as iguarias e néctares dos deuses da sua mesa natalícia. Desconfio que serão muitos os artistas presentes mas, confesso-lhe, que o Movimento Alarvista está perdido, descamba a toda hora com tanta opacidade e nulidade criativa. A colocação de ananases em telas douradas não é bastante para renovar a arte hodierna.
Assim, despeço-me, já que estou atrasado e os correios estão a abarrotar de gente neste período. Aguardo, por isso, novidades suas apenas em Fevereiro…ou será que terei alguma surpresa pelo caminho?
Com a estima mais do que devida,
Doutor Mara

Ece Canli na Galeria Brui

Concerto de Ece Canli na Galeria Brui,
(7 de Dezembro 2019)

(Fotografia de Carlos Olyveira)

Agenda Amor 2020

Agenda Amor 2020 (Agendas da Tipografia Michaelense)
Fotografia de Carlos Olyveira

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Cinema Trindade, Porto. (Até dia 11-16h00 e 18h00)


“Aqui salienta-se a estreia, esta semana, de “Hálito Azul” de Rodrigo Areias. O cineasta e produtor de Guimarães partiu para os Açores e centrou-se em Ribeira Quente, povoação do sudeste de São Miguel. Areias faz um retrato abrangente daquela aldeia piscatória, usando como mote, ou contraponto, “Os Pescadores”, de Raul Brandão, texto que está a ser encenado, de forma experimental, pelo professor da escola local, com habitantes da aldeia. O filme destaca-se, em primeiro lugar, pela magnífica qualidade fotográfica, a cargo de Jorge Quintela, um dos mais talentosos diretores de fotografia da nova geração. Há uma riqueza tonal e de enquadramentos, que inclui filmagens em alto-mar e até sub-aquáticas. Depois, vale pelo sentido de proximidade. O realizador consegue dar-nos uma sensação de intimidade com aquelas pessoas, mais própria da ficção, como se a conhecesse desde sempre. Por fim, há um lado transgressor, experimental, de fronteira do género, que resulta muito bem, sobretudo através da força da interpretação de Zeca Medeiros. Um belíssimo documentário.”
Manuel Halpern, Revista Visão, 28 de Novembro de 2019

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Ladrões de Bicicletas

“Tinha curiosidade em saber o que fazem os ladrões, como passam os dias quando não estão a roubar. Passam-nos talvez a estudar, instruindo-se uns aos outros, entregando-se com paixão, com um zelo infinito, aos golpes que planeiam, interessando-se, nas tabernas, pelas proezas realizadas pelos seus parceiros, tendo ciúmes uns dos outros, como nós, os poetas, os artistas, que não fazemos outra coisa senão criticarmo-nos e atacarmo-nos uns aos outros, para grande divertimento – e para edificação – do público."

Luigi Bartolini, Ladri di Biciclete, in “De Bicicleta, Antologia de Textos, Relógio D´Água, 2019.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019