sexta-feira, 8 de maio de 2020

Maio Azul

Fotografia de Tânia Santos
O mês de Maio nos Açores é o momento do ano em que passa por aqui a baleia azul, o maior animal marinho existente nas profundezas do Atlântico. Os biólogos marinhos asseveram que o fundo do mar das águas açorianas é usado enquanto “estação de serviço”, benéfico para que as baleias se abasteçam, pouco tempo antes de rumarem viagem até aos calotes polares. Quem teve um dia a oportunidade de assistir a esta passagem, à superfície, é certo, e, pelo mais pequeno instante que seja, sabe o quanto é difícil esquecer tamanho acontecimento e contentamento visual, guardando para si  memórias inolvidáveis.
Por esta altura, os Açores seriam também a porta de entrada na Europa para milhares de velejadores e aventureiros do mar. As marinas enchem-se todos os anos de iates, veleiros, bem como de outro tipo de embarcações em trânsito. Alguns são mesmo exemplares dignos na arte da construção naval hodierna, para lá das réplicas de embarcações de séculos anteriores que aproveitam a Primavera para navegar. Nas marinas avistavam-se marinheiros, iatistas, skippers, que, durante a sua estadia ou visita, vão deixando pinturas das suas bandeiras nas amuradas ou passeios, enquanto vão conhecendo os habitantes locais ou relatando as suas façanhas e aventuras. Há também navios-escola carregados de juventude que encontra no mar espaço de aprendizagem, ciência ou terapia…ou mesmo com muita esperança no futuro, como o caso do célebre “Três Hombres”, que todos os anos regressa para servir de exemplo em ações do comércio justo, mantendo-se fiel ao transporte de mercadorias ao sabor do vento e das velas.

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Do oceano trouxe o mito

do oceano trouxe o mito as tempestades
marés e vento ondinas e sereias
do oceano trouxe a intensa escuridão
da Atlântida diluída em minhas veias

do oceano trouxe garças e procelas 
do poeta herdo a angústia que me acorda
do oceano trouxe o ritmo que regressa 
sempre ao cais de onde parto a toda a hora

Madalena Férin, in "nove rumores do mar - antologia de poesia açoriana contemporânea", selecção de Eduardo Bettencourt Pinto, edição Institituto Camões Colecção Insularidades, 2000.  

Verso dos Linda Martini

A ver se deixa de doer

quarta-feira, 6 de maio de 2020

I Know This is So Wrong

I know this is so wrong
Arriscar o sabor daquela porção
Prender o fio sem que este se quebre
Pronunciar idiomas na corda bamba
Esquecer o porvir desse apartar

I know this is so wrong
A luz do cabelo em desassombro
A hipotética vizinhança a florir
Mãos largas na despedida
Uma inclinação a despontar

terça-feira, 5 de maio de 2020

Chegou Primavera

“Chegou a Primavera. O vale de lágrimas que se espraia à frente da minha janela volta ao verde e floresce. A relva viçosa cobre o chão, esconde lixeiras e a geena transforma-se no vale de Saron onde crescem, além dos lírios, lilases, rubínias e paulownias.
Sinto uma tristeza de morte mas o riso alegre das raparigas que brincam, invisíveis, debaixo das árvores, toca-me o coração e desperta-me para a vida. E a vida corre, e a velhice aproxima-se; mulher, filhos, lar, tudo foi devastado. Outono por dentro, Primavera por fora. (...)”

August Strindberg (1849-1912)in “Inferno”, tradução de Aníbal Fernandes.

"A Herdade": um filme de Tiago Guedes

O filme “A Herdade”, de Tiago Guedes, acabou de ser exibido na RTP 1, em quatro episódios. Esta longa metragem teve um enorme impacto aquando da sua estreia, registando 70 mil espectadores em sala, venceu inclusive um prémio Bisato d´Oro (Melhor Realização) no Festival de Veneza tal como ainda foi nomeado enquanto película representante de Portugal nos Óscares do ano passado.
Tiago Guedes compôs aqui um retrato vivo do Estado Novo até ao Portugal contemporâneo através de uma família proprietária de um latifúndio a sul do Tejo. O filme incide sobretudo no final da ditadura, os acontecimentos do pós 25 de Abril até à normalização europeia, com a entrada na CEE. O realizador contou nessa tarefa com a colaboração do argumentista Rui Cardoso Martins, sendo que a tessitura psicológica e dramática das personagens esteve a cargo do realizador. Ressalte-se deste modo a representação do actor Albano Jerónimo, com trejeitos de galã irascível, ao interpretar o papel de João Fernandes, o dono da herdade, e que tem o condão de prender e seduzir o espectador nessa travessia à volta da nossa história recente. O “dono disto tudo” não poderia ter sido melhor representado num país e num mundo em transformação, aliás, numa mudança que não teria mais retorno. Curiosamente, a sua personagem faz muito lembrar outra do cinema português - a de “Tomás Palma Bravo”, obra de Fernando Lopes/José Cardoso Pires, em o “Delfim”. A acompanhá-lo estão também Sandra Faleiro (Leonor), Miguel Borges(Joaquim) João Pedro Mamede (Miguel),  entre outros, numa produção de Paulo Branco. “A Herdade” é, pois, um filme suado e bem trabalhado, com garra e uma banda sonora que cria tensão suficiente, para lá de uma fotografia que apela a um tempo lento e delicado. 

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Como um rio

Releio as tuas cartas
como se fosse verão
e de novo o mundo começasse

nascem dos olhos as palavras
como um rio
à procura do mar que as abrace.

Artur Goulart
, in "nove rumores do mar- antologia de poesia açoriana contemporânea", organização de Eduardo Bettencourt Pinto.

sábado, 2 de maio de 2020

Um Verso de Sybille Baier

I lost something in the hills

Dois Poemas de Luís Xarez

deixei-te um bilhete

deixei-te um bilhete 
debaixo de uma pedra

como não o leste

deixei-te um bilhete 
escrito na pedra 

como não o leste


deixei-te um bilhete 

escrito na árvore

como não o leste 


deixei-te um bilhete 

escrito no céu

e sei que nesse dia leste 


mas nunca soubeste


nem que era para ti 


nem quem era eu 


na lua 


sempre na lua 

dizem-me uns olhos verdes de ciúme 
das minhas asas abertas recebeste o luar 

olhos onde um dia vi a antecâmara do lume

lume que não a lua mas só o sol pode incendiar

sempre na lua

dizem-me outros com o dedo espetado
acordando-me da forma mais crua


in "assim", edição de autor, Dezembro de 2019.

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Da Certeza

           "A única certeza que tenho é que o meu coração tem de se preparar para o que quer que aí venha. Hoje mais do que nunca é preciso cuidar da minha casa interior. Hoje mais do que nunca é preciso acordar com as andorinhas e esticar o corpo como os gatos para receber o dia. Caminhar pela casa e abrir as janelas. Lavar as mãos, o rosto e cantar mentalmente duas vezes parabéns. Ligar o rádio para ouvir as notícias da manhã. Abrir a porta do quintal para deixar entrar o cheiro do jasmin. Fazer o café, partir o pão e celebrar cada refeição do dia. Dar graças. Fazer as compras para quem precisa e caminhar pelos matos. Hoje mais do que nunca é preciso apanhar funcho, acelgas, mantrasto  e, no regresso a casa, limpar, arrumar, lavar, deitar fora, organizar. Enfrentar o desorganizado escritório e arrumar os livros. Limpar o pó. Dividir autores, alfabetar, escrever, ler...reler. Descobrir o que nunca se leu. Esvaziar caixas. Arrumar estantes. Conseguir enganar o caos interior. Ser verbo e gerir esta inquietação surda."

Cristina Taquelim, in Diário da Quarentena, Jornal Público, 18 de Abril de 2020.

"-O que é a liberdade nas circunstâncias que estamos a viver hoje?

           -Para nós, burgueses que podemos estar confinados, é simples: acordar, lavar corpo e  casa,  ler, discutir, pensar, contrapor, falar com os outros por todos os modos possíveis, dormir. Mas somos poucos. Para a imensa maioria não é nada. Nem nunca foi."

Jorge Silva Melo in "PVEC", Casa da Achada, Abril 2020.

Ontem, escrito numa parede da cidade

Há vida em Marte?

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Oráculo

o que aí vem?
o que vem lá?
quem saberá?

ninguém sabe onde está quem saberá

dizem que só deus sabe 
mas ninguém sabe de deus
onde andarará?

ninguém sabe o que deus sabe 
e ele disse saberá?

quem saberá 
o que aí vem e o que depois virá?

entre tantos enganos alguém acertará?

entre o que aí vem é o que vem lá

Luís Xarez, in "assim", Dezembro de 2019. 

Da Racionalidade

"A racionalidade é uma obrigação  que temos como espécie."

Carlos Fiolhais, Jornal de Letras, Artes e Ideias, Abril 2020.