![]() |
| Ilustração de Luís Brum |
terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
Douta Melancolia
Trazes contigo a locomotiva
douta melancolia a resistir
das virtudes do vento e do azul
as linhas do céu plangente
cartas escritas sem destinatário
silenciosos dias amortalhados
de tudo o que não se é capaz de dizer.
douta melancolia a resistir
das virtudes do vento e do azul
as linhas do céu plangente
cartas escritas sem destinatário
silenciosos dias amortalhados
de tudo o que não se é capaz de dizer.
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014
Canção para Paula e o Farol
Cinzas, magma, pedra-pomes
na terra prometida o esfumar
desolação, ventos consentidos,
deram por termo à travessia
lava e laços derretidos
comum paisagem elidida.
incansável vaivém nocturno
retomar de insular deriva
marés e moinhos agitados
apagam rosto do vulcão
o seco cerúleo das hortênsias
destino de funesta invernia.
na terra prometida o esfumar
desolação, ventos consentidos,
deram por termo à travessia
lava e laços derretidos
comum paisagem elidida.
Recuo ao dominical espelho
sofá inclinado a bombordo incansável vaivém nocturno
retomar de insular deriva
marés e moinhos agitados
apagam rosto do vulcão
o seco cerúleo das hortênsias
destino de funesta invernia.
De Cara a la Pared
foi talvez a nossa última canção.
oiço ainda os corpos a vincar a noite,
um campo minado de corações tristes
explodindo o rosto na parede.
muitas músicas depois
quando as paredes eram já outras
e nas caras se perdiam novos nomes
e a culpa de a ter levado
a um coração onde as canções
morreriam de frio.
Renata Correia Botelho [in small song, Averno, 2010]
oiço ainda os corpos a vincar a noite,
um campo minado de corações tristes
explodindo o rosto na parede.
muitas músicas depois
quando as paredes eram já outras
e nas caras se perdiam novos nomes
voltei a ela: ficara-me sempre,
afinal,
um terrível verso solitárioe a culpa de a ter levado
a um coração onde as canções
morreriam de frio.
Renata Correia Botelho [in small song, Averno, 2010]
As Charlas Quotidianas do Doutor Mara na Travessa dos Artistas
"As Charlas Quotidianas do Doutor Mara” tiveram hoje, domingo, a sua primeira apresentação pública na
Travessa dos Artistas, em Ponta Delgada, com o capítulo “Futurofagia”, que
contou com a participação do actor João Malaquias e da actriz Judite Fernandes,
para além dos desenhos ilustrados e criados para o efeito, realizados pelo arquitecto/ilustrador
Luís Brum.
sábado, 1 de fevereiro de 2014
Trazer o Exílio no Semblante
| Ilustração de Pedro Valim |
Não adianta debandar mas a verdade
é que deixaram aquelas pessoas sós. Demasiado desamparadas. Remediar esse
desapego dizendo que elas caminham sempre com as meias e os sapatos rotos. Que indigência
ver aquela gente necessitada de alma por ali sem rumo nem vitória. A sua vida
comporta químicos e líquidos e sobeja água incessante por todos os lados.
E nas gavetas os passaportes ainda que só viajem pelas ruas do seu país sob
protectorado. E vê-los ali, parados, sem tão pouco conseguir proferir os seus
pensamentos em português piegas quase dói. Bem podiam começar logo pela manhã a
escrever o seu primeiro poema com o título “Encharcados de Lágrimas” e propor às
editoras ainda existentes que abrissem os seus pequenos livros de poemas com
mais olhos do que barriga. Contos de barriga vazia. Sabe-se agora que escrevem
melhor prosa do que poesia pois descrevem memórias de outras paragens de forma
tão triste e pesarosa. Discorrem sobre partidas e amores quase todos eles
desiludidos e evaporados tal como o álcool nocturno consumido em bares de
cidades antigas, abandonadas. Sobreviveremos mesmo sem desejarmos, não tenhamos
dúvidas. Ou talvez estejamos já acostumados, anestesiados a essa certeza de
nada nem ninguém já querer patavina nem ninguém por aqui. É certo: escaparemos
deste lugar e exilar-nos-emos para lá do que está previsto. Confiaremos cegamente
nas estatísticas e em tantas imagens que nos injectam e assaltam diariamente e,
dia após dia, devagar, muito devagar, começarão todos a partir. E mesmo assim
estas pobres pessoas ficarão sozinhas, cada vez mais isoladas, nesse país à
beira-mar defenestrado. Por isso não devíamos ir embora nunca. Nem aceitar exílios
prolongados que permitissem que qualquer pensamento de mudança se perdesse em
calendas gregas, agora também irlandesas. Quanto ao mundo é normal que permaneça
cedido a engravatados de tráficos e demais comércios e aos comentadores das vagas e da incerteza. Desterrados de qualquer fé ou convicção já não incomodaremos
mais nada nem ninguém. Banidos das ruas e das praças é estimado que fiquemos quietos,
letárgicos e desanimados. Deportados de sentido ou de qualquer esperança. Apartamos de
qualquer força ou energia. Sucumbiremos a tanta vontade de nos movermos daqui para
fora. Assumiremos que mais grave do que exilar-se é o exílio dentro de nós.
sexta-feira, 31 de janeiro de 2014
Ideologia
“Meus
heróis/Morreram de overdose/Meus inimigos/ Estão no poder/ Ideologia!/ Eu quero
uma pra viver/Ideologia!/Eu quero uma pra viver/Ideologia!/Pra viver/
Ideologia!/Eu quero uma pra viver.”
Cazuza
Cazuza,
cantor brasileiro, morreu quando tinha apenas trinta e um anos de idade e oito
anos de carreira musical. Na sua curta existência gravou 126 músicas, mais 20
na voz de outros intérpretes e mais de 60 canções inéditas. Ontem, na Travessa dos Artistas, em Ponta Delgada,
o novíssimo “Acorde Ortográfico”, composto por William Maninho Nascimento e
Nélson Cabral decidiu homenageá-lo ao cantar, em forma de dueto, o tema “Ideologia”.
Bonito, sem dúvida!
quinta-feira, 30 de janeiro de 2014
Dança dos Estorninhos
A cantora em pose nada avista
desimpedido palco ao cair da tarde
compõe-se de baile o desenho a cada ocasião
comportamentos artificiais desbotoam
no voo escondem feições em rosto de cão
desatinam no celeste céu, negra alomorfia.
afagando oceano em ondulado enlace.
Rosto de Cão, São Miguel,29 de Janeiro de 2014.
desimpedido palco ao cair da tarde
compõe-se de baile o desenho a cada ocasião
comportamentos artificiais desbotoam
no voo escondem feições em rosto de cão
desatinam no celeste céu, negra alomorfia.
Iludem o horizonte com meneios harmoniosos
ao comprido da brisa marinha se
estendem afagando oceano em ondulado enlace.
Rosto de Cão, São Miguel,
Canção para Martina e o Beliche
Reler clássicos poetas pela manhã
hidrogénio, hélio, lítio na tabela
alvo xaile no diverso festival
leituras e varandas do sossego
o sol a colar a sombra na voz
secar semente calar recordação
químico perfume das mangas na canícula.
o terceiro mundo aflito
descem da escada o enleio inaudito
resgatar filmes sem cor nem abrigo
repetido relatório em comoção.
hidrogénio, hélio, lítio na tabela
alvo xaile no diverso festival
leituras e varandas do sossego
o sol a colar a sombra na voz
secar semente calar recordação
químico perfume das mangas na canícula.
Envio de missivas sem resposta
grafar nórdica desapariçãoo terceiro mundo aflito
descem da escada o enleio inaudito
resgatar filmes sem cor nem abrigo
repetido relatório em comoção.
quarta-feira, 29 de janeiro de 2014
Calças Vermelhas
amanhã vou
comprar umas calças vermelhas
porque não tenho rigorosamente nada a perder:
contei, um a um, todos os degraus
sei quantas voltas dei à chave,
sublinhei as frases importantes,
aparei os cedros,
fechei em código toda a escrita.
Amanhã comprarei calças vermelhas
fixarei o calendário agrícola
afiarei as facas
ensaiarei um número
abrirei o livro na mesma página
descobrirei alguma pista.
porque não tenho rigorosamente nada a perder:
contei, um a um, todos os degraus
sei quantas voltas dei à chave,
sublinhei as frases importantes,
aparei os cedros,
fechei em código toda a escrita.
Amanhã comprarei calças vermelhas
fixarei o calendário agrícola
afiarei as facas
ensaiarei um número
abrirei o livro na mesma página
descobrirei alguma pista.
Ana Paula Inácio
terça-feira, 28 de janeiro de 2014
Cidades de Passagem
Tenho viajado muito
nem sempre na melhor altura.
Em Bolama ninguém me acompanhou
na casa de chá em ruínas onde as chávenas
estremeciam sempre que uma granada
caía sobre a praia.
Passei por Trieste numa tarde triste.
Na sala do Hotel Garibaldi o pianista
amparava-se nos Nocturnos de Chopin, à meia-luz,
havia uma chuva fina e George Sand
não apareceu.
Del Giudice julgava ainda
poder encontrar-se com Gerti;
ela, porém , partira há muito levada
por um verso de Montale: i sedicenti vivi
non sono tutti morti.
Na estação o Anjo serviu-nos um café forte.
D.G. partiu também por fim
pude ver o comboio perder-se
por entre a chuva e a noite.
Em Amesterdão
marinheiros mijavam para o céu
que não havia
e as estrelas caíam,
mesmo assim, nos seus cabelos. Um cantor rouco
de raivas e ternuras comovia-se até aos ossos
com a virtude das mulheres infiéis.
Urbano Bettencourt
nem sempre na melhor altura.
Em Bolama ninguém me acompanhou
na casa de chá em ruínas onde as chávenas
estremeciam sempre que uma granada
caía sobre a praia.
Passei por Trieste numa tarde triste.
Na sala do Hotel Garibaldi o pianista
amparava-se nos Nocturnos de Chopin, à meia-luz,
havia uma chuva fina e George Sand
não apareceu.
Del Giudice julgava ainda
poder encontrar-se com Gerti;
ela, porém , partira há muito levada
por um verso de Montale: i sedicenti vivi
non sono tutti morti.
Na estação o Anjo serviu-nos um café forte.
D.G. partiu também por fim
pude ver o comboio perder-se
por entre a chuva e a noite.
Em Amesterdão
marinheiros mijavam para o céu
que não havia
e as estrelas caíam,
mesmo assim, nos seus cabelos. Um cantor rouco
de raivas e ternuras comovia-se até aos ossos
com a virtude das mulheres infiéis.
Urbano Bettencourt
segunda-feira, 27 de janeiro de 2014
Canção para Helena e a Pensão
Perdido o reencontro
na estação
subsiste o reflexo de canais e diques
o raso périplo à nação sem cortinados
as bicicletas ainda atravessam a lembrar
o varonil apelo em alcova de pitança
depois de incursões nas areias febris
a consumação da adultez na decrépita Atenas
e as brasas a poisar no fogo das boleias.
companhia de homens de bigode farto
aventura de tenaz tulipa em sintonia
o girassol à chegada e a bicicleta.
subsiste o reflexo de canais e diques
o raso périplo à nação sem cortinados
as bicicletas ainda atravessam a lembrar
o varonil apelo em alcova de pitança
depois de incursões nas areias febris
a consumação da adultez na decrépita Atenas
e as brasas a poisar no fogo das boleias.
Ao delicado endereço
rumar
tão esticados
passeios nas estradascompanhia de homens de bigode farto
aventura de tenaz tulipa em sintonia
o girassol à chegada e a bicicleta.
Beatriz, Beatriz!
Excertos de uma entrevista da actriz Beatriz Batarda a Lúcia Crespo no suplemento Weekend
do Jornal de Negócios, no dia 24 de Janeiro de 2014:
![]() |
| Beatriz Batarda em "Quaresma" de José Álvaro de Morais |
I
“Por vezes, sinto uma certa indecisão na forma de estar do portugueses,
se devemos ser activos no desenhar do caminho do país ou apenas seguirmos, numa
posição demissionária e ausente, responsabilizando os governantes e
desconsiderando o poder individual. Eu tento participar, dentro daquilo que é o
meu espaço e a minha limitação, no desenho daquilo que pode ser o futuro. A
verdade é que não sei muito mais do que isto. Tenho, desde que me lembro,
dedicado a vida à representação, à arte de contar histórias, e também ao
ensino, esperando poder contribuir para a passagem de um testemunho.”
II
“Não sei qual o caminho futuro que nos propõem ao sujeitarem-nos a
tanto sofrimento. Seria muito injusto culparmos a geração dos nossos pais, mas
não podemos deixar de pensar que eles são, de certa forma, responsáveis, porque
nos foram passando o seu próprio desencanto.”
III
“A cultura, por exemplo, é um dos espaços mais humanos e democráticos a
partir do qual pode nascer a reflexão e diálogo, por ser interior, por ser
íntimo. Às vezes, a vida corre e não nos permite fazer esse exercício do
espelho, e a cultura devolve-nos esse momento. Não é, como disse, uma função
moralizante, nem tão pouco pedagógica, mas é a de criar espaço de diálogo. A
ausência, o vazio, o silêncio – que eu espero que não venha a acontecer de uma
forma definitiva - é de facto uma perda grave para todos os portugueses. Acho
legítimo dizer que a nossa sanidade está em risco."
sábado, 25 de janeiro de 2014
Subscrever:
Mensagens (Atom)



