sábado, 31 de outubro de 2015

"Superfície" de Rui Xavier

   
"À Superfície" de Rui Xavier
       Agora que mergulhamos nas profundezas daquilo que julgamos ser os abrolhos da nossa humanidade – "quantos seres humanos é que morrerão ainda à entrada da velha Europa?" – conviria assistir, isto é, ver com olhos de ver, a curta metragem “Superfície”(2008), do realizador Rui Xavier. O pequeno filme, com a duração de uns curtíssimos treze minutos, parte de uma ideia bastante simples: um homem de meia idade chega a uma praia para dar um mergulho no mar! E a partir daí é como se todo um mundo se concentrasse naquela força e presença de um actor, sobejamente expressivo e tenaz, como é neste caso, Marcelo Urgeghe. "Superfície” é, sem qualquer dúvida, um filme que continua a interrogar-nos, não perdeu actualidade pois continua a revelar a sua enorme sensibilidade perante a nossa frágil humanidade, emergindo como vitalidade e resistência, condensando na sua poesia toda a sua força e o lirismo, ali bem espelhados naquela deriva pessoal, humana e estética. É, certamente, muitas vezes na ficção e…num determinado tipo de cinema que encontramos, de forma substancial e profunda, as imagens e a poesia que necessitamos para sossegar esta nossa conturbada condição humana! 

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

"4´33"

Evocação de John Cage a partir de Nils Frahm

Aguentas em silêncio?
As tuas mãos 
entre uma nota e a outra
espera mais um pouco
nem uma vulgar medida
ou gesto eloquente ainda
o teu piano em diante
vibra a melodia irregular
Escuta
a virtude e a ascese 
nos teus dedos foragidos. 

Uma Ida ao Louvre…Michaelense!

      A Louvre Michalense é já uma lojas representativas do revitalizado centro de Ponta Delgada, na Ilha de São Miguel. Com o seu estilo tido como antigo ou clássico não deixando, por isso, de ser visitada com um misto de novidade e curiosidade, perante um passado que é agora motivo de delicados e saborosos encantamentos. Este renovado espaço centenário, que já foi chapelaria e loja de tecidos, ocupou o lugar da primeira exposição do pintor Domingos Rebelo no século passado. Agora é também local de encontro para pequenos-almoços, lanches e compra de presentes e iguarias de natureza insular. Há também algo que chama a atenção em cima das mesas: os cadernos Albo. O nome vem com uma fita escrito como se de um presente se tratasse: Albo Açores. Está associado ao nascimento do dia, ao começar da vida, inspiração, certamente, pois são pequenos cadernos cozidos à mão e com a vantagem de serem todos eles reciclados. Apresentam-se aos nossos olhos com desenhos de pássaros (tentilhões, estorninhos, garças, etc.). Homenageiam com o seu traço as aves que frequentam o ar e os céus açorianos bem como os peixes, essencialmente, chicharros, que se avistam nos mares profundo do Atlântico. Há também cracas desenhadas para lembrar sabores e mergulhos salinos até ao fundo do mar. Estes cadernos podem ser avistados, tacteados e levados para casa. Um regalo para os olhos. 

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Black Gold


Who Knows Where the Time Goes é cantado neste Black Gold pela Nina Simone. Que voz, que fio de luz aqui vai, parece vir de um túnel que pretendemos nosso...com a saída um pouco mais à frente. É uma canção ao vento, cantada com toda a urgência, talvez com uma dolência maior do que o original de Sandy Denny. E lembro essa indefinição permanente daquilo que é o tempo, esse poder desavindo dos relógios, os desencontros e encontros que o tempo, a passagem deste provoca, o fresco cintilar e pulsar das estações a cada momento que passa. Até que o tempo nos encontre. Ou não. 

Forte combustível é o Fogo



Do natural calor, invariável pressão
o gás
a confluência e os elementos
há-de resultar energia 
fonte de vida.
Forte combustível é o fogo
A liga metálica conjuga
ferro e carbono,
inevitável fusão, 
o aço.
Ativos agentes da resistência,
por subterrânea matéria armazenada,
em forma de bolhas, espasmos,
lava vulcânica acumulada
decorrentes da combustão
e...queimam!

terça-feira, 27 de outubro de 2015

I Never Saw a Philco Fridge

Tu podias viajar comigo na noite
ver como se propaga o ar
não se pode negar a indiferença
enfiaram-te o amor na cabeça
os filmes, os livros e os poemas que leste
agora vai-te embora com as grafonolas
desampara a loja dos fantasmas da infância
e não voltes desconfiado
o gelo não se parte,
solidifica ainda mais
conserva-se para a eternidade
um coração despedaçado não sobrevive
fica desarmado com tanta frieza

Hás-de saber guardar para ti o medo e o cuidado
a leveza com que desapareces da fotografia
não sei muito bem onde aprendeste esse orgulho
esse pequeno ritual do desprendimento
vale o que vale a saúde e desatinas
uma casa em ruínas e o desapego
quando sofres devagar e logo adormeces

Repetes o frente a frente
sem nada conseguir expressar
madrugada adentro
até deitar tudo a perder 
antes da alba nascer

Âmbula chega às Livrarias

O Leonardo, que também já foi Leonardo Sousa, apresentará amanhã na Livraria Solmar, Ponta Delgada, pelas 18h30, o seu segundo livro de poemas intitulado Âmbula. Este livro, com fotografia de capa de Fernando Resendes, tem a chancela da Companhia das Ilhas e surge depois de “Há-de Flutuar uma Cidade no Crepúsculo da Vida”, editado pelas Letras Lavadas, em 2013. Pelo que já foi possível avistar em momentos de leitura improvisada, não é uma súmula de poemas fácil de digerir, tão pouco se gasta numa só leitura, pois à semelhança do que escreve o poeta: (…)“enfim / é isto que escrevo sussurradamente / sentado em sítios que não me pertencem/sabendo / que se não me levantar destas estações sensíveis / toda a minha vida irrefutável e inútil vida será/ ver os outros partir. 

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Um ARQUIPÉLAGO na Ribeira Grande

     
    O Arquipélago - Centro de Artes Contemporâneas inaugurou no passado dia 16 de Outubro uma exposição intitulada “Um Horizonte de Proximidades”, permanecendo aberta ao público até ao dia 28 de Fevereiro. No seu interior e nos diversos espaços expositivos do Centro é possível efectuar o percurso de trinta oito artistas bem como apreciar as suas respectivas obras pertencentes à colecção António Cachola. Para além da diversidade e riqueza de perspectivas artísticas aqui expostas, é possível percorrer um edifício de rara beleza, com a imponência de uma estrutura sóbria e os seus diferentes dispositivos bem codificados, abertos assim para receber diferentes tipos e modalidades da arte contemporânea. Estamos, pois, na presença de um espaço pluridisciplinar, com múltiplas valências, um serviço educativo em funcionamento, espaço de livraria e biblioteca, e espaços propensos à ocorrência de residências artísticas. Curiosa também é a  proximidade do edifício com o mar e a sua interacção com a luz. 

sábado, 24 de outubro de 2015

Da Curiosidade

"Inventamos histórias para dar forma às nossas perguntas; lemos ou ouvimos histórias para perceber o que queremos saber. Nos dois lados da folha, somos levados pelo mesmo impulso questionador, pelas perguntas de quem fez o quê, e porquê, e como, para que possamos, por nossa voz, perguntar a nós próprios o que é que fazemos, e como e porquê, o que aconteceu quando se faz ou não faz alguma coisa. Neste sentido, todas as histórias são espelhos do que julgamos ainda não saber. Se for boa, uma história suscita no seu público tanto o desejo de saber o que acontece a seguir como o desejo contraditório de que a história nunca acabe: este duplo vínculo justifica o impulso de contar histórias e mantém a curiosidade viva."  

in Uma História da Curiosidade, Alberto Manguel, edições Tinta da China, 2015. 

Postal de Inverno para Miriam Manaia

Querida Miriam Manaia,

Amanhã retoma o horário de Inverno e eu sinto por mim adentro uma rara e obtusa melancolia, aquela coisa acintosa que me faz cair vertiginosamente no silêncio, afastando-me assim da voragem dos dias e do tempo, impondo deste modo um recolhimento interior que só terá ecos de si no relançar das folhas e das flores lá para os finais de Março com o advento da Primavera e da claridade dos dias. O meu ser quedará sombrio e triste, eu sei, nada a fazer.  
Curiosamente, amiga Miriam, encontro-me na sua cidade, habitando bem perto do solar dos Manaias, por isso não tardarei a bater-lhe à porta numa destas tardes da invernia onde farei tensões de me juntar a si  enquanto pinta ou escreve. Ou quem sabe ler os diários do Outono que tenho escrito por aqui.   
 Deste seu amigo, a frequentar novamente lugares de pendor natural e bucólico.

Atenciosamente seu,  

Doutor Mara

Da Injustiça

As nossas organizações sociais, no entanto, ainda existem rótulos, requerem catálogos e estes tornam-se inevitavelmente, hierarquias e sistemas de classe em que alguns assumem o poder e outros ficam excluídos. Toda a biblioteca tem a sua sombra: as infindáveis estantes de livros que ninguém escolheu, que ninguém leu, livros rejeitados, esquecidos, proibidos. E, no entanto, a exclusão de qualquer assunto da literatura, quer por arbítrio do leitor quer do escritor, é uma forma de censura inadmissível que degrada a humanidade de todos. Os grupos ostracizados pelo preconceito podem ser, e geralmente são, postos de parte, mas não para sempre. A injustiça, como já devíamos ter aprendido, tem um efeito curioso nas vozes das pessoas. Empresta-lhes potência e clareza, recursos e originalidade, que são todas elas boas coisas para se ter, se o que se pretende dor a criação de uma literatura. 
in "No Bosque do Espelho", Alberto Manguel, Tinta da China, 2013.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Ontem escrito numa parede da cidade...

I never saw a Philco Frige!

A Biblioteca Pública e Arquivo de PDL


       A recuperação do antigo Colégio Jesuíta para Biblioteca Pública e Arquivo de Ponta Delgada (projecto desde 1989, e obra desenvolvida longamente entre 1992 e 2001), é de Carlos Duarte (1926 -). Embora obtendo uma imagem com pouca visibilidade desde o exterior urbano, o programa conseguiu incluir uma vasta série de novos espaços e a recuperação de outros, entre os volumes, as galerias e os pátios existentes.
        Este edifício articula-se com o da igreja, cuja fachada religiosa de expressão  barroca, é a mais impressiva e original da cidade, dentro do gosto afirmativo e monumentalizante da Ordem. A nave e espaços internos anexos foram recuperados recentemente para instalação do Museu de Arte Sacra (projecto de José Cid e Isabel Cid (concluído cerca de 2005). 


in Arquitectura Contemporânea dos Açores, de José Manuel Fernandes e Ana Janeiro.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Ainda estranhamente te espero

Ainda estranhamente te espero
depois do clima, da chuva e do verbo
a ilha, porventura, aguarda o momento
sei que amanhã é já outro dia
virás vestida de azul em demasia

Desse anunciado reencontro
divertida volta na passada
nada de ajuda ou alimento
difícil acreditar no milagre
provável regresso à origem