sábado, 27 de maio de 2017
sexta-feira, 26 de maio de 2017
Amarcord
quinta-feira, 25 de maio de 2017
O Regresso
Como quem vindo de países distantes fora de
si, chega finalmente aonde sempre esteve
e encontra tudo no seu lugar,
o passado no passado, o presente no presente,
assim chega o viajante à tardia idade
em que se confundem ele e o caminho
Entra então pela primeira vez na sua casa
e deita-se pela primeira vez na sua cama,
Para trás ficaram portos, ilhas, lembranças,
cidades, estações do ano.
E come agora por fim um pão primeiro
sem o sabor de palavras estrangeiras na boca.
Manuel António Pina, in "Como se Desenha uma Casa", Assírio&Alvim, Lisboa, 2011.
si, chega finalmente aonde sempre esteve
e encontra tudo no seu lugar,
o passado no passado, o presente no presente,
assim chega o viajante à tardia idade
em que se confundem ele e o caminho
Entra então pela primeira vez na sua casa
e deita-se pela primeira vez na sua cama,
Para trás ficaram portos, ilhas, lembranças,
cidades, estações do ano.
E come agora por fim um pão primeiro
sem o sabor de palavras estrangeiras na boca.
Manuel António Pina, in "Como se Desenha uma Casa", Assírio&Alvim, Lisboa, 2011.
terça-feira, 23 de maio de 2017
Legível
apenas
por quem lê
com a garganta
presa
por um cordel
Ana Paula Inácio, in ANÓNIMOS DO SÉCULO XXI, Averno, 2016.
Animal de Estimação
tive uma borboleta
bela
bala
brava
breve
como um dia
Ana Paula Inácio, ANÓNIMOS DO SÉCULO XXI, Averno, 2016.
Llorona
chorava
crente de que dos olhos
nasceriam flores
Ana Paula Inácio, ANÓNIMOS DO SÉCULO XXI, Averno, 2016.
segunda-feira, 22 de maio de 2017
Luke Howard: Conhecido por Nomear Nuvens
![]() |
| Luke Howard (1772-1824) Imagem da Wikipédia |
Luke Howard nasceu em Londres, a 28 de Novembro de 1772 e foi um
químico e um metereologista amador que desenvolveu um interesse inusitado pela
ciência. Um dia teve uma bela ideia de criar uma nomenclatura para as diferentes nuvens
que passam pelo céu, tendo sido esta apresentada em 1802 na Askesia Society. Este caracterizou as nuvens em três grupos: estratos (em camadas), cúmulos (as lanudas)
e cirros (em forma de caracol). Há
uma personagem na peça “Sala de Embarque” que não se cansa de falar nos nomes
das nuvens:“Eu gosto tanto de olhar
pelas janelas do avião. As nuvens parecem-me farrapos brancos a voar pelo céu.
E todas elas com nomes muito curiosos. Há, portanto, a Cumulus, a Congestus, a
Cumulonimbus, a Stratocumulus, a Nimbostratus, a Altocumulus, a Cirrus, a
Cirrocumulus...”. Ontem, enquanto procurava no google o lastro sonoro de Luke
Howard, um músico de origem australiana, deparei-me com o criador da tal "onomástica nefelibata", isto é, o autor da
designação das diferentes nuvens existentes. E, deste modo, também descobri uma possível e improvável banda sonora…
domingo, 21 de maio de 2017
O Porquê dos Interrogatórios...
É com moderado optimismo e um sobrolho franzido que se apresenta o ciclo de interrogatórios trazido ao convívio dos apartamentos e vivendas portuguesas por intermédio de dois conceituados entrevistadores, DM e Alberto Ai, que alternadamente trarão à discussão e ao escrutínio tendencioso dos entrevistados temas da actualidade política, filosófica, artística e sociológica do século XXI, ficando de parte temas como electrodomésticos, jardinagem e artes marciais (já bastante consolidados nos finais do século XX). Será evitada a utilização excessiva de aliterações, prosopopeias ou estrangeirismos (sobretudo na sua vertente idiotista), promovendo-se ao invés um discurso directo puro e duro, contributo que se espera profícuo às novas gerações e outras.
Os entrevistadores de alterne dispensam apresentações. Ao som de “For Once In My Life” de Stevie Wonder, DM aparece em fato de banho vermelho, depois do seu habitual mergulho no pesqueiro de Ponta Delgada. Faz-nos um sorriso aberto, ainda ofegante, e dá-nos a indicação com o polegar de que está tudo impecável. Das ilhas para a capital do império português, avistamos Alberto Ai, a estacionar o seu clássico Citroen DS. Com um blazer verde e óculos escuros de massa, dirige-se agora ao seu apartamento, lançando-nos um piscar de olhos categórico de quem não gosta de facilitar.
A redacção do “Interrogatório”
sexta-feira, 19 de maio de 2017
Interrogatório II
Encontrei Giorgio delle Mare numa esplanada duma ilha atlântica que, por
razões de sigilo profissional, jamais poderei revelar o nome. É sim senhor, bem
lá no meio do Oceano Atlântico onde se avistam jangadas de cagarros, posição
estratégica propícia a longas e demoradas conversas. Foi aí, portanto, que
avistei Giorgio mais a sua cigarrilha de tabaco ilhéu, camisa às flores, muito
garridas e berrantes, por sinal, mais o seu chapéu de panamá feito por artesãos
locais. Soube, entretanto, que “Gigio”, tal como é conhecido pelos amigos mais
próximos, somente trabalha três horas pela manhã, dedicando-se ao “acto
conversatório” durante boa parte da tarde e concretiza uma vida um tanto ou
nada dissipada q.b. pela noitinha.
Giorgio é, sem qualquer dúvida, um personagem riquíssimo em narrativas
contemporâneas e que, após tantas viagens em veleiro em modo solitário, ainda
uma vida de ramboia faustosa e derramada na juventude, encontra-se hoje
retirado junto de uma lagoa insular, dedicando-se assim à plantação de camélias
junto do enxofre mas com uns desvios à mistura. Não seremos nós que iremos
fazer a sua biografia não autorizada, no entanto aconselhamos vivamente que
estamos na presença de uma história pessoal longa e digna de acontecimentos de
registo de figurar em qualquer livraria ou rede social avançada.
Doutor Mara: A que se dedica concretamente, pois há todo um mistério à volta disso. Não nos diga que também tem uma plantação de camélias sinensis?
Doutor Mara: A que se dedica concretamente, pois há todo um mistério à volta disso. Não nos diga que também tem uma plantação de camélias sinensis?
Giorgio
Delle Mare: Doutor Mara, admiro
os seus métodos de persuasão. Nem sei como me encontrou. Vamos lá a isto então,
que ainda tenho de ir ali abaixo, e depois voltar para cima. Tenho estado
dedicado à construção de uma nova embarcação para regressar ao mar e deixar as
ilhas. Tem sido um trabalho solitário de força bruta quase animal, pelo que
tento equilibrar com o sensível estudo da botânica, de forma a não me tornar num
ser rude e acéfalo. É por isso que me dedico à fascinante complexidade das
camélias, que por vezes me leva à comoção em lágrimas.
DM: Giorgio
delle Mare, sendo assim o que é feito de si, ou melhor, o que é feito do seu
antigo chapéu de palha feito da planta Carludovica Palmata, confecionado em
trama fechada, visível apenas em países como o Equador e demais vizinhança?
GDM:
Nunca mais o usei por duas razões: primeiro porque esse chapéu relaciona-se
com um tempo passado, e não sou dado a saudosismos. Em segundo lugar porque a minha
aparatosa queda de cabelo transforma o chapéu num apetrecho de ocultação da
calvície, e eu gosto de assumir as transformações que o tempo vai operando em
mim. Está bem guardado numa caixa de papelão, introduzida dentro de um baú de
madeira, guardado na arrecadação do sótão, por sua vez fechado à chave, chave
essa que desapareceu há uns meses. Há-de aparecer… Mas se quer saber, já cumpriu a sua missão. É um efectivo
apetrecho de categoria e elegância quando utilizado em determinadas circunstâncias
sociais ou políticas. É um chapéu que tanto pode ser usado na praia, como numa
festa de smoking, transmitindo ao seu
portador uma sensação ilusória de confiança na penetração em determinados circuitos
de elite.
DM: Sabemos que abomina as redes sociais ainda que gostasse de saber sobre o que é feito dos seus velhos amigos de longas e intermináveis noites de boémia, bem como das suas amigas predilectas com quem se enamorou ou percorreu com elas os recantos mais belos das capitais europeias ou mesmo as mais afamadas marinas mundiais. Não tem qualquer curiosidade em saber o que é feito de toda esta gente?
DM: Sabemos que abomina as redes sociais ainda que gostasse de saber sobre o que é feito dos seus velhos amigos de longas e intermináveis noites de boémia, bem como das suas amigas predilectas com quem se enamorou ou percorreu com elas os recantos mais belos das capitais europeias ou mesmo as mais afamadas marinas mundiais. Não tem qualquer curiosidade em saber o que é feito de toda esta gente?
GDM:
Não. Ou melhor, tenho alguma
curiosidade, mas não quero saber. Tendo em conta a vida desregrada que
levávamos nesses loucos anos, temo que os meus amigos sobreviventes possam ser
hoje em dia seres estropiados ou dementes, com marcas indeléveis de uma vida de
perdição. Reencontrá-los seria como a cena do filme “Intervista” de Fellini onde o realizador e companhia visitam Anita
Ekberg na sua moradia, e esta, já desfigurada pela impiedosa acção do tempo,
recorda com Marcelo os tempos do La Dolce
Vita, numa ode à beleza efémera da jovialidade.
DM: Giorgio delle Mare, refreie esta minha curiosidade, mas para quem vivia nos altos mares e agora se muda para o interior de uma lagoa, será caso para perguntar: que tempestade ou nortada atravessou a sua cabeça?
DM: Giorgio delle Mare, refreie esta minha curiosidade, mas para quem vivia nos altos mares e agora se muda para o interior de uma lagoa, será caso para perguntar: que tempestade ou nortada atravessou a sua cabeça?
GDM:
Após alguns dias
de lucidez mental ilusória resultante do ambiente atmosférico favorável,
resolvi parar nesta ilha para me abastecer, vindo do Panamá. Queria uma noite
de civilização, queria beber vinho e estar com mulheres. Acabei por me juntar a
um grupo de estrangeiros vindos de um país também ele estrangeiro, que
praticavam turismo. Bebemos muito, e sem saber como, viemos parar a esta lagoa,
talvez numa boleia de caixa aberta às tantas da manhã. Não me lembro de mais
nada. No dia seguinte acordei, estava sozinho em cuecas de elástico junto à
lagoa. Tinha sido roubado pelos turistas. Algumas pessoas olhavam-me ao longe,
curiosas, e ouvia-se um burburinho de reprovação colectiva. Tinha de deixar a
ilha rapidamente. Mais tarde, um lavrador ajudou-me a chegar ao porto. À
chegada, não avistei o meu barco. Tinha sido levado. Isto foi há 7 anos, ali ao
fundo, naquela baía. Vê-se daqui…
DM: Giorgio,
imagino que depois de conhecer as mulheres mais lindas do universo nessas
cidades portuárias, vulgo marinas, julgo que essa sua dedicação às camélias,
como dizem por aqui, é um tudo ou nada metafórica. O que nos tem a dizer sobre
isso?
GDM: A vida é ela própria uma metáfora. As mulheres são neste momento uma alegoria. As camélias poderão efectivamente ser uma personificação, e a ilha… uma hipérbole.
GDM: A vida é ela própria uma metáfora. As mulheres são neste momento uma alegoria. As camélias poderão efectivamente ser uma personificação, e a ilha… uma hipérbole.
DM: Dizem que
por aqui encontrou a alegria e que deixou de procurar a felicidade? Qual é a
diferença, meu caro amigo?
GDM:
Jamais em tempo algum fiz tal afirmação! Não acredite no
que dizem por aí a meu respeito, Doutor - É o diz-que-disse corriqueiro! Já me
chamaram curandeiro, alquimista e bruxo, dizem que vivo no luxo em cama de
diamantes e elefantes africanos. Deixe-se de enganos! Até já me chamaram poeta
maldito, não dá para acreditar! E vai-se consolidando o mito, só porque em
certas circunstâncias digo coisas a rimar.
DM:O Giorgio
delle Mare foi também um grande actor de cinema e praticante de badmigton. De
quê, em concreto, o meu caro amigo, tem saudades?
GDM:
Sinto saudades de Emma e Anna, duas irmãs polacas com corpos
esculturais de ringue de patinagem artística, com caras de bonecas russas em
pele renascentista e olhos esverdeados, seios em forma de pera rocha e
traseiros desenhados por mestres da ergonomia divina. Conheci-as em Barbados
numa filmagem, e fizemos longos serões a jogar xadrez no meu barco.
DM: O que é que o
meu caro amigo gostaria dizer aos seus grandes amigos e amigas de longa data e
que já não sabem de si desde que o avistaram em manifestações contra a
incineração?
GDM: Não me procurem. Se por acaso me encontrarem mesmo sem me procurarem, finjam que não me conhecem. Mas não venham meter conversa comigo, pois eu sei que estão a fingir que não me conhecem, só para meterem conversa. Percebe-se logo quando as pessoas fingem que não nos conhecem. Conheço bem esse fingimento, pois já houve situações em que perante velhos conhecidos, eu próprio tive de fingir que não os conhecia. Mais vale preservarmos o imaginário do que foram, pois o que foram geralmente já não são. Prefiro as gentes da ilha, ou até mesmo a solidão. Mas uma coisa não mudou: Abaixo a incineração!
GDM: Não me procurem. Se por acaso me encontrarem mesmo sem me procurarem, finjam que não me conhecem. Mas não venham meter conversa comigo, pois eu sei que estão a fingir que não me conhecem, só para meterem conversa. Percebe-se logo quando as pessoas fingem que não nos conhecem. Conheço bem esse fingimento, pois já houve situações em que perante velhos conhecidos, eu próprio tive de fingir que não os conhecia. Mais vale preservarmos o imaginário do que foram, pois o que foram geralmente já não são. Prefiro as gentes da ilha, ou até mesmo a solidão. Mas uma coisa não mudou: Abaixo a incineração!
quinta-feira, 18 de maio de 2017
domingo, 14 de maio de 2017
Do Poeta Misterioso
![]() |
| Fotografia de Carlos Olyveira |
“Alexandre O´Neill
permanece, pelo menos para mim, um poeta misterioso. Um grande poeta misterioso
que entrou na língua portuguesa e nela ficou, autorizando-nos a usar como
nossas e de todos os dias as palavras e expressões que ele inventou. (…) Leiam-no
porque têm agora uma oportunidade de o ler numa bela edição da Assírio& Alvim, “Poesias
Completas& Dispersos”, editada por Maria Antónia Oliveira, a biógrafa e
investigadora do poeta. A edição integra os poemas das sucessivas edições na
Imprensa Nacional das Poesias Completas de 1951 a 1986 (algumas coreografadas à
luz de novo conhecimento) e de outro livro de poesia “Anos 70: Poemas Dispersos”,
de 2015, recolha de Maria Antónia Oliveira.”
Clara Ferreira Alves, in Revista do Expresso, 6 de Maio de 2017
Trespassados
"Não vão ser só os portugueses a ficar muito pobres nos próximos dez anos. Até as raças superiores terão de conter despesas e isso pode ser uma vantagem para nós: mais pobres, os do Norte talvez se sintam tentados a trocar Bali ou Rajastão como destino de férias de praia ou "culturais" em favor de locais mais baratos: as praias e o património exótico situado nas traseiras das suas casas.Portugal pode ser um desses destinos caseiros de emergência e, em vez de investimentos em eólicas, ou seja de atirarmos dinheiro ao vento, devíamos dedicar-nos a melhorar as praias, o acesso às praias, os hotéis, os campos de golfe, o património histórico-artístico português...e a disfarçar o melhor possível a devastação da paisagem urbana e rural a que nos dedicamos com afinco há 50 anos."
Paulo Varela Gomes, in Público, 16 de Abril de 2011
Subscrever:
Mensagens (Atom)






