sábado, 1 de julho de 2017

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Ítaca

Quando saíres a caminho da ida para Ítaca,
faz votos para que seja longo o caminho,
cheio de aventura, cheio de conhecimentos.
Os Lestrígones e os Ciclopes,
o zangado Poséidon não temas,
coisas assim no teu caminho não acharás nunca,
se o teu pensamento permanecer elevado, se emoção
requintada o teu espírito e o teu corpo tocar.
Os Lestrígones os Ciclopes,
o selvagem Poséidon não encontrarás,
se com eles não carregares na tua alma,
se a tua alma não os colocar à tua frente.

Faz votos para que seja longo o caminho.
Para que sejam muitas as manhãs de verão
Nas quais com que contentamento, com que alegria
entrarás em portos vistos pela primeira vez;
para que páres em feitorias fenícias,
e para que adquiras as boas compras
coisas de nácar e coral, de âmbar e de ébano,
e essências de prazer de qualquer espécie,
quanto mais abundantes puderes essências de prazer;
para que vás a muitas cidades egípcias,

Deves ter sempre Ítaca na tua mente.
A chegada ali é o teu destino.
Mas não apresses em nada a tua viagem.
É melhor durar muitos anos;
e já velho fundeares na ilha,
rico do que ganhaste no caminho,
sem esperares que te dê Ítaca riquezas.

Ítaca deu-te a bela viagem.
Sem Ítaca não terias saído ao caminho.
Mas já não tem para te dar.

E se um tanto pobre a encontrares, Ítaca não te enganou.
Sábio como te tornaste, com tanta experiência,
Já hás-de compreender o que significam Ítacas.

Kostandinos Kavafis, edições Relógio D´Água, tradução, prefácio e Notas de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis.

Ontem, escrito numa parede da cidade

-E que tal o Alaska?
-É frio!

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Resposta a Janeiro Antes Deste ir a Banhos

Caro Janeiro Alves,

Acuso a recepção entusiasta da sua ferial missiva, típica de um homem que sabe que só o verão vale a pena e que esta é a mais louca, livre e estouvada das estações. Na canícula, creio, temos tudo para sermos felizes excepto os grilos. Nada contra os seus cânticos mecânicos e repetitivos mas desconfio que na infância suportava muito melhor o seu rebarbativo rumor. De certeza que e, fazendo jus à sua carta estival sobre os doutores e engenheiros que partiram de férias e que não mais regressaram, estes deverão, pelo menos, lembrar-se do trilar, ou melhor, do “gri-gri” de outros verões.
Também eu, amigo Janeiro, continuo entusiasmado com o turismo e sobretudo com a sua capacidade de irradiação. Imagine só que há instantes, nesta cidade em que me calhou viver, me vieram interrogar se estaria disponível para vender esta missiva que me encontro a escrevinhar para si. Segundo o casal de jovens turistas, no seu país de origem desconhecem já o que é a caligrafia e o próprio acto de escrever missivas em esplanadas. Este acto quotidiano tornou-se, porventura, excêntrico. Por sinal, até me queriam oferecer bom dinheiro mas disse-lhe que podiam fazer um registo fotográfico e que procurassem um lugar na sombra. Curiosamente, enquanto insistiam na aquisição da missiva, o empregado do café proferiu num português arrematado e doce: “Vocês querem é mamar!”. Estes, embebecidos e discretos, afastaram-se da mesa sem antes dizer: “You are really an artist!”
E o aluguer de casas? O meu amigo nem queira saber mas há dias passei nas ruas do agora denominado "Centro Histórico" e reparei que as casas onde tinha morado são agora sítios de alojamento local. Ainda bem que fui salvo a tempo pela nossa amiga Miriam que me arrendou um pequeno tugúrio baratinho junto do mar e que me serve, essencialmente, para assentar a moleirinha e o costado durante a noite. 
Por último, auguro-lhe assim umas férias inesquecíveis e espero que volte pois estou já a salivar pelo envio dum tupperware de filetes de peixe que seguramente me enviará da cidade mais piscatória do sotavento algarvio: Olhão!
 Com elevada estima,
Doutor Mara

Uma Ferial Missiva de Janeiro Alves

Caro Doutor Mara,

Noticio-lhe de forma entusiasta o seguinte acontecimento: Eu, Janeiro Alves, vou de férias. Finalmente ausentar-me-ei da minha presente localização geográfica, para surgir num desses resorts com tudo incluído e abanadores de folha de palmeira, vestido a rigor e preceito, com camisa às flores e colar ao peito. Já tenho comigo os panfletos, e posso dizer-lhe que o empreendimento para onde vou é de segmento alto, bem climatizado e bem frequentado, e com ambiente exótico e ornamentos tropicais, apesar de ser no Algarve junto a uns estaleiros navais. Se o Doutor pudesse vislumbrar estas fotos coloridas de encher o olho, poderia fazer uma pequena ideia da sensação caribenha que me invade neste momento. E imagine que tudo isto não me custará um tostão! Apenas tenho de ir levantar o voucher a um hotel aqui nas redondezas, e assistir a uma pequena reunião de apresentação de um colchão. É coisa para meia hora.
Doutor Mara, neste momento tenho os olhos como que raiados de sangue e o coração a palpitar como uma criança, pela efémera e ilusória felicidade proporcionada por esta incursão ao fantástico mundo do turismo. Já me imagino bronzeado a dançar quizomba junto às piscinas com as belas monitoras e animadoras culturais. Vai ser demais, Doutor! Debruço-me porém sobre uma problemática, a meu ver razoável dentro daquilo que são os padrões superiormente estabelecidos para a boa saúde mental, mas esgotante neste meu processo de circunstancial euforia: E se eu não voltar? Conheço alguns indivíduos que foram de férias e nunca mais voltaram. Inclusivamente Doutores e Engenheiros, que estavam bem na vida. O mais longe que tenho ido ultimamente é a Sacavém, e como o Doutor bem sabe, tenho uma certa tendência para viver as consequências do meu constante deslumbre. Hoje posso ter uma certa contenção, amanhã já não. Hoje sou o respeitável Senhor Janeiro, boa tarde, como está, prazer em vê-la, e amanhã já sou o Janeirinho rei da festa da espuma, venha mais uma, esta pago eu!
Mas se bem me conhece, não me deixarei vencer por esta grave e hipotética situação. Estou neste momento a fazer as malas onde, pelo sim pelo não, incluo um fato completo, que usarei apenas em situações extremas de necessidade de reposição do meu estatuto e dignidade.
Por fim, manifesto o desejo de saber da sua pessoa, e de como espera atravessar o período estival. Aceitarei a sua habitual resposta - “esperarei sentado que passe a correr” – pois sei que aprecia mais a frescura outonal e as folhas caducas a crepitarem por debaixo dos seus sapatos italianos de cetim afivelados, e assim nada mudará e tudo ficará como sempre foi, ou seja, na mesma. Mas conjecturas à parte, aguardarei a sua resposta enquanto saboreio um cocktail à beira da piscina e lavo as vistas com cloro de alta qualidade.
Deste seu amigo em turismo,
Janeiro Alves 

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Dois Poetas do Norte da Europa

 Difícil de dizer

Difícil de dizer que tudo é sem sentido
para um homem que sabe que um sentido
viria a mudar tudo.

Um dia o teu nome será ungido
pelo mar!
O mundo perdeu o seu teor salino
mas a tua boca tem um gosto a sal.

Lars Forssell

No Outono

No Outono
ou na primavera –
o que é que importa?
O mar respira tão pesadamente
O mar fica tão polido depois disso
As catástrofes esquecem-se tão rapidamente
depois disso e a partir de agora

Gunnar Ekelof

(Tradução de Vasco Graça Moura)

Do Roubo do Tempo

           "Procuro alguma pureza do estado de decadência em que estamos a viver. Por outro lado a minha fotografia é também uma forma de resistência à violência do progresso, que está a roubar-nos tempo. Já não há tempo para pensar, só queremos o fútil."
Paulo Nozolino

domingo, 25 de junho de 2017

Cumprimento Colegial

Fotografia de Carlos Olyveira



Ontem, escrito numa parede da cidade

Sócrates não vales nada! 
Assinado: Aristófanes.

Susana Baca: Pura Seda Latino Americana

Imagem da Editora Luaka Bop

             Foi com a canção “De los Amores”, presente no álbum “Eco de Sombras”, editado em 2000, pela Luaka Bop, que Susana Baca abriu o espectáculo “Afrodiaspora”, a digressão que passou ontem à noite por São Miguel, pelo Teatro Micaelense. Começou assim e, muito bem, o seu Landó, nome cunhado pelo recitador e etnomusicólogo, Nicomedes Santa Cruz, uma espécie de dolência dos ritmos peruanos, essa particularidade de cadências lentas e arrastadas, o canto dos escravos afro-peruanos e da sua triste melancolia, ao mesmo tempo que nos surge aos ouvidos de forma pacífica e equilibrada na sua essência. Durante hora e meia somos transportados para um universo mestiço de várias tonalidades, tão rico de ritmos e expressões. 
Susana Baca, com os seus pés descalços, apresentou-se de laranja para cantar os seus poetas afro-peruanos, homenageou Frederico Garcia Lorca, Leonard Cohen ou Enrique Morente, evocou  Chabuca Granda, tendo sido extraordinariamente secundada pelos músicos que a acompanhavam: Oscar Huaranga (contrabaixo), Ernesto Hermoza (guitarra e charango) Hugo Bravo (percussões) e María Elena Beleván (violinista).
Por último, finalizou o concerto com um encore e com o público rendido de pé, regressando ao palco para dançar de forma mágica e radiosa ao som de Panalivio Zancundito. 

Verso de Ruy Belo

À sombra dos plátanos as crianças dançarão

sábado, 24 de junho de 2017

Petar Šćulac na Galeria Arco 8

Imagem daqui: http://arco8.blogspot.pt/

            Petar Šćulac já expôs em Pula, na Croácia, a cidade que o viu nascer no início da década de 80 do século passado. Aliás, várias galerias de Pula e Zagreb já tiveram a oportunidade de exibir recentemente os seus trabalhos. Este pintor, que vive actualmente em São Miguel, é um apaixonado pelo mar, cursou Engenharia Técnica Naval, daí o seu gosto pela composição dos materiais e estruturas bem patente nas obras que agora apresenta na Galeria Arco 8. O seu exacerbado gosto pelo desenho está presente nos temas evidenciados, misturando assim técnicas e objectos muito próximos da realidade e do quotidiano. E, por isso, encontramos por aqui máquinas de costura, guardas-chuva, máquinas de filmar, mesas de jantar, dependendo sempre da perpectiva que o pintor pretende dar. 

          Os trabalhos de Petar Šćulac são por demais coloridos, repletos de figuras em perspectiva, alguns expostos mesmo de cima para baixo, o que permite interrogar formas convencionais de exibição aos expectadores, sendo, por isso, o público convidado a participar com a sua interpretação e sentido crítico, criando a sua própria narrativa dos objectos expostos numa caixa lá presente.