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sexta-feira, 16 de maio de 2025

Em Escuta...

Ferry Gold, 2025
A Garota Não
A primeira audição de A Garota Não foi de absoluta surpresa: alguém que assumia o legado dos grandes cantautores nacionais – José Mário Branco e José Afonso. “Liberdade/querida Liberdade/ o nosso chão tem sonhos e vontade”, cantava Cátia Mazari Oliveira acompanhada  pela guitarra de Sérgio Miendes. Para além dessa assunção da herança, havia a firmeza de trilhar um caminho próprio, um desejo de partilhar canções que estivessem focadas na esperança e na transformação. Uma voz de veludo que nos incitava à urgência e à resistência de viver num país com tanto por mudar e concretizar.  
       O disco “Ferry Gold”, o terceiro de originais da “Garota Não”, chegou via caixa do correio. São 19 temas carregados de colagens, citações, apropriações, interlúdios e demais montagens. O CD, mais o livro, foram “costurados à mão, papel reciclado, muita paciência e amor”, com a assinatura do Artwork e costura da Ana Polido, contém ainda no seu interior as pinturas a óleo por Joana Batista. Para já, o tema “Alaska”, poema de João Quadros, encontra-se em modo repeat: “tudo começa numa estrada que termina no Alaska”. Em escuta atenta!

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

Imagine...

                                                                                                                              no possessions

            John Lennon deve ter sido das minhas primeiras grandes paixões musicais. Conheci a sua música, as suas canções, no momento em que foi assassinado em pleno início dos anos oitenta. Era muito miúdo e os Beatles chegariam depois tal como o Paul McCartney. Tinha dez anos quando comprei uma cassete com os temas do disco "Imagine". Durante um ano um sentimento platónico obrigou-me a telefonar e deixar tocar o tema "Woman" num gravador de cassetes até que a ouvinte desligasse a chamada. Com “Imagine” não resisto a pensar que não temos emenda e que só mesmo a imaginação nos salva.

sábado, 4 de maio de 2019

3/4: Música em Maio

Pascal Comelade -"Haikus en Pianos"
Há muita música para abrir o mês de Maio agora que sabemos que o Tremor só volta para o ano e...que edição interessante e animada foi a deste ano. Por isso, abandonem-se nostalgias e antigas memórias. Prepare-se agora o radar para o que existe em nosso redor, a máxima concentração e curiosidade para pensarmos no que aí vem. E o que aí pode amarar pode ser ainda mais interessante. E como é estimulante pensar que há tanta gente a fazer música, tanto em garagens como nos quartos, compondo e arriscandos ritmos e novos sons. É só necessário colocar os ouvidos à escuta nos lugares por onde passamos, mover a nossa atenção para sons oriundos da capital ou em álbuns e CD´s que pertencem a bandas e músicos que habitam na periferia do mundo, seja lá onde isso for. Há, com toda a certeza, muita gente a fazer música nos subúrbios de cidades como Porto, Gotemburgo, Barcelona, Manchester, Rosário, Pernambuco ou tantos outros sons provenientes de ilhas de antigos impérios.
          Maio promete assim muita música para ouvir, bem ou mal sentado, com um chávena de chã ou um copo de tinto, quem sabe abanar a cauda ou o capacete…música com alma para deixar o corpo fluir, escutar sob o signo da água e dos rios que correm em direcção ao grande mar, pois, é certo e sabido que ninguém ouve a mesma música da mesma maneira duas vezes…já dizia o filósofo antigo!

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Medeiros/Lucas: Falta um Mês

            
Medeiros/Lucas na Igreja da Mãe de Deus
Pontes I (Março 2017)
(Fotografia de Carlos Olyveira)
             
             

           Já passaram quatro anos desde o primeiro concerto desta dupla, organizado então pelo produtor, João da Ponte, na extinta Tascà da rua de Lisboa, em Ponta Delgada, Ilha de São Miguel. À altura deram um concerto para apenas duas dezenas de amigos, tendo servido para  alavancar este apaixonante projecto que conta já com três álbuns gravados: “Mar Aberto”, “Terra do Corpo” e “Sol de Março”. A novidade dos últimos dois discos trouxe também as letras do escritor micaelense: João Pedro Porto. Na memória ainda pairam os concertos na abertura do Tremor 2016, no Museu do Trabalho das Capelas, e aquele que abrilhantou a primeira edição do “Pontes – Gramáticas da Criação”, em Abril de 2017, onde estes tocaram na Igreja da Mãe de Deus. O novo regresso está marcado para o dia 17 de Novembro, às 21h30, no Teatro Micaelense, inserido no evento literário: "Arquipélago de Escritores". Falta exactamente um mês e, por aqui, há já quem aguarde com ansiedade o regresso destes príncipes do atlântico. 

quarta-feira, 21 de março de 2018

Tremor: O Quinto já cá está!

Ontem começou o Tremor. É já a quinta edição. O primeiro dia teve lugar no Teatro Micaelense com a apresentação do festival pela organização, entidades públicas e demais promotores. A sala encontrava-se cheia de residentes e forasteiros para ver “Levantados do Chão”, esta primeira proposta realizou-se sob o signo do cinema e da música, onde vimos o fotógrafo Daniel Blaufucks juntar-se à Banda Lira das Sete Cidades para (des) alinhar a imagem mais o som na despedida do Hotel Monte Palace nas Sete Cidades. O autor não quis denominar de filme, ainda bem, pois as ditas “fotografias expandidas” valem pela ideia da ruína dum tempo em que só a natureza o altera. Os textos presentes nos créditos finais enunciam, portanto, uma visão do mundo que permanece e que, passados tantos séculos depois do povoamento, nada parece ter realmente mudado. As ruínas, a paisagem, o esmaecer das cores daquele edifício confirmam um "fazedor de imagens" de olhos bem abertos e ouvidos à escuta. Ali, sim, é a natureza que nos invade. No entanto, a duração deste propósito revelado pareceu-nos longo quanto à sua duração bem como a imagem assíncrona da banda com a imagem nem sempre resulte. Na parte de cima do teatro, retomar-se-ia a mistura com os músicos Rafael Carvalho, mestre na viola de dois corações, e Flip, amante dos sons electrónicos e experimentador, a esgrimir argumentos num diálogo sonoro imprevisto, evidenciando uma postura ambiciosa para uma proposta embrionária que ainda pode vir a dar frutos.
Por último, no já mítico Auditório Camões, o concerto dos regressados Três Tristes Tigres para dar conta do seu rock electrónico, com pendor na guitarra de Alexandre Soares (que garra e energia voltar a escutá-lo!) e a voz de Ana Deus, a relembrar temas de “Partes Sensíveis” (1993), “Guia Espiritual” (1996), "Comum" (1998) e "Visita de Estudo" (2001). Do álbum “Partes Sensíveis” recordaram-se canções como “Letra Morta” ou “Descapotável”, de “Comum” houve “Combat” ou “Motim” e ainda “Anormal”, “Kainever”, “Olho da Rua”, do álbum Guia Espiritual, onde não existiu lugar para o popular “Zap Canal”.
Hoje, quarta-feira, o tremor musical continuará, ao todo são cinco dias e trinta e nove concertos espalhados pelos sítios mais inusitados e inesperados desta ilha no meio do Atlântico. 

terça-feira, 13 de março de 2018

Arco 8: Pista para um Dj Mara (do)


A música está no sangue, o seu vigor, encanto, energia e ritmo. Ouvi-la, querer partilhá-la com os outros. Outros românticos que cultivam o gozo, a seiva, o prazer pelos sons, instrumentos e vozes. São sons diversos, palavras e ritmos oriundos de geografias, por vezes próximas, outras bem remotas. Música com ânimo, génio e gente dentro. Respira-se, por instantes, a fúria dos desalinhados, a fulgência dos candeeiros nocturnos, pressentem-se os gritos e as exclamações de liberdade, estique-se a corda pela batida, arriscam-se passos de dança inusitados e comete-se também o desplante de combinar sonoridades que não lembram a ninguém, tão pouco ao próprio que elege o cardume sonoro. Resulta? Esperemos mais um pouco, a pista vai abrir. Aguente-se a investida, permita-se mais um devaneio e procure-se a comunhão com o que é raro, o difícil, isto é, encontrem-se cúmplices para a grande viagem musical da noite que se segue. Não é certo que chegaremos a porto seguro, alguém soa o toque dos transatlânticos e dá-se o pontapé de saída com a memória daquele músico apaixonado da guitarra. E, ao que tudo parece indicar, ninguém fica para trás ou de fora deste navio carregado de tesouros e surpresas. É música para um serão tardio e o que virá a seguir ninguém sabe, sendo certo que aquele meliante dos sons irá desafiar as convenções do mandarinato dos tocadores de música...
O que faz de nós amantes de música generosa e benigna? Querer ouvi-la bem alto, se possível, até raiar o vermelho, dançá-la, erguê-la numa taça e oferecê-la de bandeja a quem quiser, servir de transporte para esses situação de puro desvairo e deleite, desejo por abrir-se de forma porosa à decantação musical e, à semelhança de um bom vinho, degustá-lo e saboreá-lo na perspectiva de que é desta que está reunida a melhor colheita.
Convenhamos, por tudo isto que se passou já bem de madrugada, seria útil recordar que neste agrupamento sonoro houve elementos musicais muito díspares ligados pelo fio condutor daquela galeria, membranas dum corpo estranho à solta, que vai desde a pop britânica dos Shed Seven, Franz Ferdinand, Dans Le Sac Vs Scroobius, Memorie Tapes, Tindersticks até  aos portugueses Miguel Guia & Tó Ricciardi, Linda Martini, O´rquestrada, Galundum Galandaina, Bandarra, Gaiteiros de Lisboa, passando pela música cigana, marroquina, maliana, cabo-verdiana, angolana, argentina, brasileira, senegalesa, etc. Enfim, um oceano de portos e embarcações que confluem, melhor dizendo, navegam com se fossem uma paleta sonora diversa e variada. Uma rota com ondas e marés que se exploram, um suave cheirinho do que foi a influência das estações de rádio dos loucos anos oitenta e noventa na cabeça de um adolescente da província que continua a  gostar de escutar e sentir a música.

PS-Os respectivos agradecimentos ao Pedro Bento por ser, mais uma vez, um mecenas/apoiante da diversidade das espécies, um real protector das Espécies Musicais Raras ou em vias de extinção. 

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Joana Gama apresenta "Viagens na Minha Terra" no Teatro Micaelense


               No ano passado, Joana Gama trouxe-nos Satie.150, mais a narrativa biográfica do músico francês e o seu quotidiano místico e fantasioso em que a vida deste se confundia com a sua própria obra. É que agora que cai tanta chuva por estas bandas que nos servia tanto aquele legado de guarda-chuvas que Satie deixou no seu apartamento da periferia de Paris.
Desta vez, Joana Gama apresenta-nos “Viagens na Minha Terra”, um reportório composto por obras de Fernando Lopes Graça e Amílcar Vasques-Dias. O recital é na próxima sexta-feira, dia 17 de Novembro, às 21h30, no Teatro Micaelense. O preço dos bilhetes ronda os 7,5 euros.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

A Fechar Agosto

Party de Aldous Harding 


"I was as happy as I will ever be
Believe in me
I will never break from you
If there is a party, will you wait for me?"



in "Party" de Aldous Harding

domingo, 25 de junho de 2017

Susana Baca: Pura Seda Latino Americana

Imagem da Editora Luaka Bop

             Foi com a canção “De los Amores”, presente no álbum “Eco de Sombras”, editado em 2000, pela Luaka Bop, que Susana Baca abriu o espectáculo “Afrodiaspora”, a digressão que passou ontem à noite por São Miguel, pelo Teatro Micaelense. Começou assim e, muito bem, o seu Landó, nome cunhado pelo recitador e etnomusicólogo, Nicomedes Santa Cruz, uma espécie de dolência dos ritmos peruanos, essa particularidade de cadências lentas e arrastadas, o canto dos escravos afro-peruanos e da sua triste melancolia, ao mesmo tempo que nos surge aos ouvidos de forma pacífica e equilibrada na sua essência. Durante hora e meia somos transportados para um universo mestiço de várias tonalidades, tão rico de ritmos e expressões. 
Susana Baca, com os seus pés descalços, apresentou-se de laranja para cantar os seus poetas afro-peruanos, homenageou Frederico Garcia Lorca, Leonard Cohen ou Enrique Morente, evocou  Chabuca Granda, tendo sido extraordinariamente secundada pelos músicos que a acompanhavam: Oscar Huaranga (contrabaixo), Ernesto Hermoza (guitarra e charango) Hugo Bravo (percussões) e María Elena Beleván (violinista).
Por último, finalizou o concerto com um encore e com o público rendido de pé, regressando ao palco para dançar de forma mágica e radiosa ao som de Panalivio Zancundito. 

domingo, 18 de dezembro de 2016

"Menina" em estreia no Teatro Micaelense

"Menina" é o novo álbum de
Cristina Branco
            Um disco acabadinho de chegar aos escaparates e ali está, Cristina Branco, mais a sua banda, em palco no Teatro Micaelense. “E às vezes dou por mim”, com  letra de André Henriques (Linda Martini), inicia a ponte para uma grande noite, já que atente-se nos versos da canção que abre o mais recente álbum “Menina”: “E às vezes dou por mim/Quando ninguém está a ver/Ser que é por tanto crer/Que ninguém me quer/Sozinha na moldura/Na casa dos meus pais/Dizem que estou madura/E eu não quero esperar mais”. Como pano de fundo, discreta e imponente, a guitarra portuguesa, aqui tocada exemplarmente por Bernardo Couto. Seguiu-se uma hora e meia de espectáculo musical com muitas e bonitas palavras, ainda a intensidade da partilha. No final, desfeito o gelo, os músicos voltaram ao palco para encher de novo o coração de lindas melodias, frases e versos controversos de  gente cheia de alma. Certo é que foi um belo serão musical. Estamos, sem qualquer dúvida, na presença de um disco orelhudo que merece a repetição da escuta.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

O Bob é nobel da Literatura!

     Confesso: nunca fui grande admirador da voz do Bob! No entanto, os meus parabéns pelo Nobel, ainda que para Bob Dylan o prémio não deva adiantar grande coisa! Certo fim de tarde tive que aturar um jovem, pouco mais velho do que eu, um daqueles direitolas sem emenda, que se queixava que um dia as letras do músico norte-americano seriam ensinadas nas escolas e universidades, e que ainda por cima teríamos de suportar aquela esquerdalhice insuportável, mais a lamechice das suas canções. Enfim, tinha que ser, diria ele, para quem a humanidade estaria perdida. Houve também muitos melómanos que me tentaram convencer da grandeza, e que quem adorava a música como eu, teria mesmo que fazer um esforço muito grande para gostar do baladeiro. Defeito meu, nunca consegui, nunca fui capaz. Certo é que fui fazendo várias tentativas, nunca entrou. Nunca consegui. Para mim, a sua voz é demasiado roufenha e arrastada para o meu gosto. Nada contra. O problema, sei-o, é meu. E mesmo agora que o Bob é Nobel, assobio para o lado!

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Homenagem a Artur Santos



Muito antes de Giacometti, Fernando Lopes Graça ou Tiago Pereira, Portugal teve um homem que quis conhecer a sua música: Artur Santos. Sabemos agora que um duo de músicos (Ana Paula Russo e José Bon Sousa) editou um disco à volta das recolhas deste ávido conhecedor, um verdadeiro indagador das músicas do Minho, Beira Alta, Beira Baixa, Alentejo, Madeira e, claro, Açores. Por isso, de imediato vem à memória a recolha que este efectuou das canções do pastor do verbo, José da Lata, contadas como fábulas de luz nos terrenos da Terra Chã, na Ilha Terceira.


domingo, 28 de agosto de 2016

ARCO 8: Da Melancolia Marítima ao Funaná e Coladera

álbum "Intelectual" de Ildo Lobo  (imagem daqui
www.lusafrica.com)
     Um concerto de música pop açoriana e a promessa de dançar os ritmos musicais de Cabo Verde, com o DJ Milhafre, atraíram um mar de gente na noite de sexta-feira à Galeria Arco 8. Os WE SEA começam lentamente a ganhar lastro com os temas “Ser de Ver” e “Camaleão”, ainda que necessitem, talvez por isso, de aumentar e dar consistência ao seu reportório tal qual adquirir cortiço e arrojo nesse seu conceito de jovem banda pop açoriana. Foi com uma enchente de público muito jovem e desperto para aquele tipo de música que pudemos assistir a uma prestação enérgica, ainda que algo tímida e excessivamente contida, deixando assim claros sinais de que algo de muito entusiasmante está prestes a explodir, não fosse esta ilha vulcânica. Pena, também, o som não ter estado nas melhores condições para escutar como deve ser a voz e o timbre  de Rui Rofino, entregando dessa forma a leveza de suaves jorros à guitarra de Luís Barbosa e a segurança das teclas de Clemente Almeida. A seguir, só não dançou quem não quis, pois Cabo Verde tem música para dar e vender, a maioria gravada em Paris e Roterdão. Foi assim que DJ Milhafre repescou e respigou o que melhor existe naquele arquipélago, aproveitando para "funanizar" aquele barrancão em noite de fim de semana, também ele, ilhéu.

domingo, 17 de julho de 2016

Walk and Talk: O Método em Trio Sonoro

Imagem do sítio do Walk and Talk
        
         "3rd Method" agitou e encantou a pequena plateia que se encontrava, na noite de ontem, no interior do espaço do Walk and Talk, decidida a escutar o seu projeto de improvisação musical, um comboio sonoro rodeado de electrónica, funk e várias escapadelas plenas de ritmos variados e groove. O método é permitir a liberdade criativa de cada um dos participantes e viajar nessa combinação e simbiose de sonoridades. Ao longo de quase duas horas, os interessados em escutar boa música, souberam agradecer e fazer parte desta locomotiva criativa. Parabéns a este novo projecto que apenas tinha actuado por duas vezes na Galeria Arco 8!

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Sonhos

Dreams de Sten Erland Hermundstad
(imagem You Tube)
          Quanto vale um sonho? Quando custa perder um sonho? E os sonhos todos juntos quanto valem? E perdê-los todos num só dia? E abrir mão deles podemos? Há dias em que podíamos muito bem construir todo um universo à volta deles?A música contribui para esse edifício onírico à volta dos sonhos de olhos abertos.Sonhos que permitem que absorvemos o ar todo do mundo, a respiração dos pequenos gestos quotidianos, o esplendor da vida que ao nosso lado se agita. Por isso quando sonhamos sabemos que há sonhos que são unicamente nossos, que nada nem ninguém nos consegue tirar...

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Satie 150 no Teatro Micaelense

Joana Gama por Eduardo Brito
Erik Satie“Sonneries de la Rose + Croix (Air du Grand Prieur)
John Adams“China Gates”
Erik Satie“Gnossienne n.º1”
Carlos Marrecos“Três Prelúdios Sobre o Mar”
Erik Satie“Gymnopédie n.º1”
Arvo Pärt“Für Alina”
Erik Satie“Embryons Desséchés”
John Cage“Dream”
Erik Satie“Sonatine Bureaucratique”
Alexander Scriabin“Vers la Flamme”
Erik Satie“Cinéma

sexta-feira, 29 de abril de 2016

WE SEA: Fézada Musical!

Nada como festejar a noite de 24 para 25 de Abril e ouvir música variada e diferentes músicos em conjunto com muita alegria e alvedrio de tocar. O lugar escolhido já tinha sido palco recente do último Tremor ainda que o nome dado ao evento estivesse eivado de um sentimento e carga revivalista. De qualquer modo, esta salutar e curiosa iniciativa permitia um regresso ao espaço do Solar da Graça para encontrar diferentes tipos de propostas musicais. Entretanto, não demorou muito para a grande surpresa da noite soasse aquando do nome da banda em palco fosse sussurrada pelo Rodrigo. A banda já tinha tido outro nome – Broad Beans (Favas Guisadas) e que agora a formação reduzida tinha ganho outra nomenclatura.  E, se havia coisa que dava logo para ver nestes WE SEA, era o enorme à vontade, concentração e entusiasmo com que se apresentaram em palco. Estes chegaram mesmo a ironizar com o ferro de engomar que servia de base aos instrumentos do vocalista. A banda é constituída pelo Rui Rofino, voz e teclas, que demonstra grande confiança na batida e atmosferas musicais e por Clemente Almeida, no teclado e respectivas criações melódicas.
                Foi assim que, numa noite de cravos e música diversa, o espaço do Solar da Graça deu a conhecer estes WE SEA, em pleno estado de graça, com a vantagem do primeiro tema “Ser de Ver” soar de imediato a intensidade e paixão. Que belo poema-canção! É que, subitamente, a banda ribeira-grandense tomou conta daquelas mesas de madeira e público presente com aqueles desenhos e quadros nas paredes a lembrar uma ilha de outros tempos. Rui Rofino canta, por isso, com muita alma e entrega na língua de Antero de Quental.  Quem ouviu pela primeira vez, soou logo a descoberta  e prevê algo muito arejado em embrião, o que só augura um futuro promissor.

quarta-feira, 16 de março de 2016

Tremor: O Regresso dos Príncipes da Atlântida

Medeiros/Lucas - Ilustração de Mário Roberto.
No dia em que saiu um tema single do seu segundo disco, “Terra do Corpo”, intitulado “Sede”, com letra do escritor João Pedro Pedro Porto, a dupla Medeiros/Lucas inaugurou de forma surpreendente a edição do Tremor de 2016, com os seus já designados “concerto na estufa”. O lugar escolhido pela organização para dar o mote à terceira edição do festival foi o Oficina-Museu do Trabalho, em Capelas, contando com uma centena de pessoas na assistência. A Oficina-Museu do Trabalho é uma singular propriedade particular, uma casa típica do mundo de sonhos, capricho de alguém que pretendeu fazer do passado espaço de nostalgia e múltiplos encantos ainda que haja necessidade desse sítio vir a ser mais habitado, vivível e com marca de presente. Ali estão "expostas" uma livraria, tipografia, sapateiro, loja de fazendas, barbeiro, mercearia, ourivesaria, à semelhança da recriação de uma pequena rua dos ofícios em miniatura.
         Foi nesse ambiente peculiar que a dupla Medeiros/Lucas escolheu a “Canção do Mar Aberto”, um tema navegante e derivante, para encetar mais uma viagem em pleno mar alto, embalando e encantando uma plateia oriunda de todo o país, ansiosa por música bem perto do mar. Esta é, sem dúvida, uma canção que impõe consideração e aqui a consideração não é só bonita como também é intensa. Pedro Lucas continuou a viajar com a sua guitarra baloiçante, em jeito Marc Ribot delicodoce e com laivos de trovador, aproveitando para cantar o “Asas” na companhia do Carlinhos Medeiros. Uma canção que preenche na plenitude o copo vazio desse tempo ausente desde a saída de “Mar Aberto”. Começava assim de forma aguçada a curiosidade para o novo “Terra do Corpo”, que será apresentado no início do mês de Abril. Seguiu-se “Sina Saudade” e depois “Marinheiro”, um tema de Cervantes que Medeiros aproveita para reforçar as vagas revoltas dos mares atlânticos e as paixões portuárias e ainda o enérgico e encadeado “Fado do Regresso”. Ouviram-se ainda os temas novos “Sístole” e o curioso tema “Corpo Vazio”, num jogo repetitivo de vozes e guitarra. E, claro, a finalização do espectáculo caberia ao já emocionante “O Navio”, cantado sob a forma de hino açórico-universal que enaltece o cais enquanto ponto de todas as partidas e chegadas e que presume “vivas” de forma contagiante.
Para concerto inaugural deste Tremor de 2016, a intensidade e o brilho desta dupla não poderia ter sido melhor, tendo o alinhamento musical destes dois músicos açorianos durado apenas trinta e cinco minutos, com direito ao encore “Rema”, essa pequena pérola do cancioneiro tradicional, revisto aqui com paixão e brilhantismo. Ainda que só tivéssemos tido a oportunidade de ouvir quatro temas, “Terra do Corpo” promete ser um disco intenso e musicalmente bem composto, preenchido por diversos instrumentos em pano de fundo, contando com dignos convidados, que vai desde o contrabaixista Carlos Barreto, aos guitarristas Tó Trips e Filho da Mãe, os cantores Selma Uamusse e António Costa, vocalista dos Ermo, não esquecendo nem desmerecendo, evidentemente, os restantes elementos do grupo: Ian Carlo Mendonza e Augusto Macedo.
Por fim, uma nota para o público que esteve bem atento e reagiu com entusiasmo às novas investidas da dupla. Veremos agora como a banda se portará em palco após a digressão dos concertos que se seguem. Enquanto nota final, conviria lembrar que o primeiro concerto desta dupla, organizado pelo produtor João da Ponte, foi na Tascà na rua de Lisboa, em Ponta Delgada, Ilha de São Miguel. O escriba deste texto não pôde assistir mas quem lá esteve confirma que foi um concerto intimo para duas dezenas de amigos, tendo servido para o despertar e alavancar este apaixonante projecto, que assim ficou marcado pela primeira audição pública de temas que viriam mais tarde a fazer parte do disco “Mar Aberto”.