quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Ruas Com Gente Dentro - Exposição de Fotografia de Carlos Olyveira no Out of Blue Hostel

«Quando somos levados a fixar durante muito tempo o mesmo objecto, transformamo-lo.»
Do manuscrito Contos do Gin Tonic
de Mário-Henrique Leiria

Doze são as imagens que fazem "Ruas com Gente Dentro", uma série de Carlos Olyveira, e têm como principal referência as ruas e lugares da baixa de Ponta Delgada - focando espaços que dão conta da renovação cultural e social da cidade. As fotografias, todas elas com a presença de pessoas, sob o signo do quotidiano e da novidade, mostram a individuação desses novos pontos de referência, desde a mercearia “gourmet”, o hostel em construção, o restaurante vegetariano, a galeria multi-artes, o estúdio de roupa, as lojas de artesanato, o trabalho na Tipografia até ao ócio criativo e tertúlias à volta dos ditos “cafés alternativos”.
O fotógrafo interroga, na sua estética a preto e branco, o discurso da mudança incutido pelas viagens de “baixo custo” e as transformações estimuladas pela movimentação do turista. Destaca-se nas imagens a presença humana, onde proximidade e relações são marcadas por esses códigos citadinos associados à transformação dos locais e do seu novo “modus vivendi”.
             Carlos Olyveira oferece-nos um possível mosaico citadino em forma de espelho, enceta um diálogo com os lugares de todos os dias e proporciona-nos campo aberto para perspectivas e sentidos distintos. E porque não afirmá-lo, um momento favorável para pensarmos em modos de nos representarmos e de nos vermos.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

História Daquela Bicicleta Que Eu Tive

“Um dia deram-me aquela rica bicicleta. Deram-me porque eu tinha treze anos e tinha feito exame. Depois disso fiz mais vezes anos e fiz outros exames, mas bicicletas é que não tive mais. E se ela andava! Ui! Se ela andava! Era uma coisa por demais. Mas eu conto: Todos  os meus amigos, aqueles em quem eu batia todos os dias (porque eu aos 13 anos, era muito forte, quase do mesmo tamanho que tenho hoje) depois todos os meus amigos, dizia eu, me festejaram e deram uma volta de experiência. E se ela andava! Logo ao princípio o Adriano foi direito ao muro da estação e só parou quando o muro o obrigou a tal. Aquilo é que ela andava! Também o Zé Pedro, que hoje é casado e tem três filhos estrábicos, saltou uma coisa que parecia um muro a todos nós, excepto a ele; só depois é que verificou que, de facto aquilo era um muro.”

in Obras Completas de Mário-Henrique Leiria, edição E-Primatur/Letras Errantes, 2017

Rua do Castilho nº33B

Fotografia de Carlos Olyveira 

Um Verso de Blanca Martin-Calero

Vivir en una isla es llegar a todos los rincones de la tierra con la punta de los dedos

domingo, 30 de julho de 2017

Ontem, escrito numa parede da cidade

O peixe dá sono!

Alvo Périplo: Gente que Corre!



           As fotografias de Jorge Kol continuam ali no renovado Largo do Colégio. Há uma semana estivemos naquele espaço a celebrar o movimento e a robustez de homens que correm no desempenho das suas funções ao ar livre, alvos corpos com chapéu rua abaixo, gente de vestes e postura semelhantes em ilhas diferentes: Madeira e Terceira. Para a realização das fotografias foram necessárias viagens, não a pé, mas sim de avião bem como várias partidas e regressos, como devem calcular. É preciso, portanto, tempo para fruir aquelas imagens que indiciam humanas e curiosas deslocações. Sempre com a ideia de fixar esses corpos e cordas que correm. 
Nessa performance, ao fim da tarde, quisemos também misturar textos e flores e, pelo meio, transportamos gente da rua até ao local expositivo num carrinho inventado para esse momento, soltando ainda manifestos da corrida e da vida que julgamos continua a existir. 
         Cumprimos, assim, a nossa participação na sétima edição do Walk and Talk, o festival de artes dos Açores que terminou ontem. 

sábado, 29 de julho de 2017

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Sobre a exibição de Cinema em São Miguel...

     “O encerramento de cinemas tem sido uma constante por todo o país, devido à profunda alteração dos hábitos de fruição cultural (e dos dowloads ilegais), por intermédio de uma plateia que não tem tempo a perder.
            Mesmo e apesar disto, os cinemas têm sido repescados como importantes elementos de revitalização dos centros históricos, não em formato multiplex, mas apontando a públicos mais especializados, exibindo aquilo que não tem lugar numa espaço mais massificado.
A recuperação do cinema Batalha, na cidade do Porto, com um projecto de arquitectura do mestre Alexandre Alves Costa, é um bom exemplo daquilo que devemos seguir, envolvendo, para o efeito, a comunidade local.
Apesar de Ponta Delgada ter recuperado a exibição comercial de cinema, o facto é que a programação existente não contempla uma série de opções, bloqueando o público cinéfilo acesso a uma maior diversidade.
Caberá ao exibidor privado garantir esse desígnio? Provavelmente não, na medida em que a sustentabilidade da sua actividade dependerá de um outro conjunto de acções. Simultaneamente, esta mesma opção afastará, paradoxalmente, um público potencial,
A cultura requer conhecimento, investimento e a criação de boas práticas. Sem um sólido desenvolvimento sócio-cultural, não será um plano (nem o Turismo) que o garantirá.”

Alexandre Pascoal, in Açoriano Oriental, 24 de Julho de 2017.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Rua do Quelhas 35.3º (Valsinha)

Morre-se devagar neste país
onde é depressa a mágoa e a saudade
ó meu amor de longe quem me diz 
como é a tua sombra na cidade

Morre-se devagar em frente ao Tejo
repetindo o teu nome lentamente 
cintura com cintura beijo a beijo
e gritá-lo abraçado a toda a gente

Morre-se devagar e de morrer 
fica a cinza de um corpo no olhar 
ó meu amor a noite se vier 
é seara de nós ao pé do mar 

Letra: António Lobo Antunes
Voz: Vitorino 
Música: João Paulo Esteves da Silva