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| Fotografia de Luís Andrade |
quinta-feira, 12 de outubro de 2017
Uma Noite de Poesia na Tascá
Aranhas e Visigodos
Guido: Porque os judeus e os cães não
querem. Todos devem poder fazer aquilo que lhes parece melhor, não te parece? Ali à
frente há uma loja, não há? Ali, por
exemplo, não é permitida a entrada a espanhóis e cavalos e... mais à frente, há também um farmacêutico, não há? Ontem, estava
eu com um amigo meu, um chinês, que por acaso tem um canguru e eu perguntei:
"Podemos entrar?", e alguém lá de dentro respondeu: "Não, aqui chineses e cangurus não entram". Sabes, fiquei bastante desagradado com toda aquela
situação. O que é que eu posso fazer?
Josué: Mas na nossa livraria toda a
gente pode entrar...
Guido: Não, a partir de amanhã também nós iremos escrever um
letreiro para colocar na porta. Quem é que tu consideras enfadonho?
Josué: As aranhas. E para o papá?
Guido: Para mim...os visigodos! Então
amanhã iremos escrever um letreiro com o seguinte: "Proibida a entrada a
aranhas e visigodos!". É quase certo que
o visigodos irão quebrar esse letreiro. Por isso, chega!
in “A Vida é Bela”, filme de Roberto Begnini, 1998 (Tradução Livre)
quarta-feira, 11 de outubro de 2017
terça-feira, 10 de outubro de 2017
segunda-feira, 9 de outubro de 2017
Uma Outonal Missiva de Janeiro Alves
Meu
caro amigo,
Gostaria de prefaciar esta carta com o
sincero desejo de a mesma o encontrar de rígida saúde e dotado do poder
criativo e construtivo que lhe permita desenvolver ideias com a novidade da
folhagem fresca coberta de orvalho matinal a agitar-se para fazer notar o seu
vigor num cenário de naturezas mortas.
Não deixa de ser curioso esse conjunto
de avistamentos da minha pessoa por locais diversificados e sem aparente
ligação, pois ainda aqui há uns dias um indivíduo que transporta alguma
reputação no circuito literário de Lisboa jurou a pés juntos que me tinha visto
a passear na Calle de la Noria, em Santa Cruz de Tenerife, estando eu encerrado
na minha vivenda a trabalhar desde o início do verão. Duvido até que ele lá tenha
estado, dada a situação calamitosa das suas finanças depois de mais uma obra
renunciada pela sua editora. De si eu não duvido pois essa é a sua morada
permanente, mas trata-se efectivamente de um equívoco, alguém que se anda a
fazer passar por mim de forma a tirar dividendos pessoais ou simplesmente
instalar a confusão. Peço-lhe que da próxima vez que me vir, chame a polícia de
forma a acabar de vez com esta brincadeira de mau gosto.
Passando a página, manifesto-lhe a minha
mais exaltada e até descontrolada euforia com a aproximação das Conferências da
Fajã, o supra-sumo dos eventos, a canela por cima do grande pastel de nata que
é este mundo moderno. Sei que devido à nossa longínqua amizade, e na qualidade
de organizador principal, o Doutor Mara não se esquecerá de me providenciar o
habitual lugar de destaque no programa do evento, assim como me enviar as
passagens de ida e volta em primeira, e a reserva no hotel do costume com
pensão completa. Para esta próxima edição tenho preparada uma matéria que vai
finalmente lançar os alicerces do “edifício” pós-moderno, unindo todas as
reflexões casuísticas numa única direcção que nos guiará a uma espécie de
Nirvana. Tudo isto, imagine, sem o uso de quaisquer psicotrópicos ou desinibidores
de consciência, pelo que poderemos prescindir do dealer da última edição.
Acabo esta modesta carta com um ar
abatido, cansado e sôfrego, devido ao calor que se faz sentir em Outubro na
capital do império Portuguêz, perfeitamente anormal para a época, adiando
inapelavelmente a minha investida ao guarda fato outonal, onde os meus sapatos
italianos de cetim afivelados se encontram acorrentados à espera de fazer
crepitar folhas caducas como estalidos de sal atirado ao fogo que arde sem se
ver, ser ou não ser, eis a questão, e à parte disso, desejo-lhe um agradável
serão.
Do seu humilde servo,
Janeiro Alves
Janeiro Alves
domingo, 8 de outubro de 2017
Um Postal Outonal para Janeiro Alves
Caro Janeiro Alves,
Decidi redigir-lhe este postal pois ainda não estou
em mim. O meu amigo pode não admitir mas penso ter estado consigo, no dia de
ontem, pelo menos três vezes em diversos rincões deste território ilhéu.
Curiosamente, julgo ter estado consigo numa caldeira, numa piscina de águas termais
e, por último, numa taberna popular a comer uma bifaninha de atum e a desembaular
uma garrafa de vinho tinto da Estremadura (e não é que também têm boas pingas?).
Acordei, entretanto, com este sentimento de que tudo isto não passou de um
sonho e ainda com a sensação que o universo se encontra em expansão. O amigo Janeiro não vai
acreditar mas desconfio cada vez mais da realidade e de todos os acontecimentos
que estão a suceder em catadupa.Será isto a pós-verdade? Estou cada vez mais senil e demente, essa é que é a
realidade.
Comunico-lhe também para anunciar que estou a
preparar as mais que aguardadas Conferências da Fajã. Este ano teremos
ilustres convidados oriundos de países distantes e outras personalidades de alto gabarito, destacadas e reconhecidas nas suas mais diferentes áreas e que vão desde a Filosofia Marinha ao Empalhamento de Aves Raras. Com a promessa de estar para breve o envio do convite e do programa, alegremente me despeço.
Com elevada
estima e consideração,
Doutor Mara
sexta-feira, 6 de outubro de 2017
...
A borboleta que poisou
no teu mamilo perdeu
vontade de voar.
Jorge Sousa Braga in Fogo sobre Fogo.
no teu mamilo perdeu
vontade de voar.
Jorge Sousa Braga in Fogo sobre Fogo.
quarta-feira, 4 de outubro de 2017
Os Cem Anos de Violeta Parra
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| Cartaz de Rodofo Chofre Saavedra |
Volver
a los diecisiete
Después
de vivir un siglo
Es
como descifrar signos
Sin
ser sabio competente
Volver
a ser de repente
Tan
frágil como un segundo
Volver
a sentir profundo
Como
un niño frente a Dios
Eso
es lo que siento yo
En
este instante fecundo
Se
va enredando, enredando
Como
en el muro la hiedra
Y
va brotando, brotando
Como
el musguito en la piedra
Ay
sí sí sí
Mi
paso retrocedido
Cuando
el de ustedes avanza
El
arco de las alianzas
Ha
penetrado en mi nido
Con
todo su colorido
Se
ha paseado por mis venas
Y
hasta las duras cadenas
Con
que nos ata el destino
Es
como un diamante fino
Que
alumbra mi alma serena
Lo
que puede el sentimiento
No
lo ha podido el saber
Ni
el más claro proceder
Ni el más ancho pensamiento
Todo lo cambia el momento
Cual mago…
in"Volver a los Diecisiete" de Violeta Parra
Mar
Se eu pudesse esquartejava-te
e com os braços levava-te comigo
sem criar ondas
para o interior de minha casa.
Féodor Marenko
e com os braços levava-te comigo
sem criar ondas
para o interior de minha casa.
Féodor Marenko
terça-feira, 3 de outubro de 2017
segunda-feira, 2 de outubro de 2017
Miguel Gonçalves Mendes: Cinema Instigação!
Organizado
pela Galeria Arco 8, terminou na última quinta-feira um ciclo de cinema dedicado
a Miguel Gonçalves Mendes. Os seus documentários foram sendo exibidos ao longo
de três semanas deste recente mês de Setembro e sempre com entrada gratuita. O ciclo
começou com “Nada Tenho de Meu”, seguindo-se “Cruzeiro Seixas: Cartas do Rei
Artur” (aqui enquanto produtor), depois “Autografia” e, por fim, “José e
Pilar”. Estes dois últimos filmes apresentados e, que tiveram lugar na passada quarta e quinta-feira, contaram com a presença do realizador que acedeu conversar e acolher
perguntas duma vasta e interessada audiência que aproveitou a presença deste em território insular. Sendo assim, uma palavra de apreço e gratidão para o Pedro Bento, sempre
ele, a pontuar a chamada “actividade cultural alternativa do Outono”, marcando assim
a rentrée da ilha e anunciando a partida do estio de calendário, ainda que este tarde em arrefecer. Graças a ele, e à sua persistência, foi mais uma vez possível ver cinema de cariz documental e, essencialmente, instigante!
Registe-se,
assim, que todo o trabalho documental visa dar conta do objecto em questão e
aproximar esse mesmo objecto do público espectador. Estes filmes não só
aproximaram como também promoveram o pensamento sobre aquilo que somos e
andamos à procura. Comece-se pelo inquietante “Nada Tenho de Meu”, que nos
pareceu ser o trabalho mais complexo dado tratar-se de uma procura da
identidade individual e do real, sabendo de antemão que grande parte do que contamos sobre nós próprios há muito de inventado, ficcionado. Seguiu-se “Cruzeiro Seixas: Cartas do Rei Artur”,
documentário revelador de uma paixão entre essas duas figuras maiores do
surrealismo, amantes das pintura e das
letras, aqui revelado em registo epistolar e intimista. Nada que já não
tivéssemos sondando no visionamento de “Autografia”, apresentado algum tempo antes e ao que se sabe um retrato livre
e despojado da vida dum poeta maior da língua portuguesa, infelizmente já
desaparecido: Mário Cesariny. Neste documentário vemos a importância da
confiança e da liberdade discursiva criada entre quem filma e se deixa filmar. Por
último, o visionamento de “José e Pilar” que são três actos de amor em
conjunto, um olhar errante e exaustivo sobre uma relação a dois, o poder e a
força impressa no outro por quem sabe que só o amor nos leva pela estrada mais directa ao
coração. Sim, é verdade, aqui vemos um homem que escreve novelas e uma mulher
que se dedica a tomar conta da vida deles os dois. Uma experiência intensa, de
tão rica como imaginada, ao intuir o movimento realizado inicialmente até o sabermos, por fim, concluído.
No
final de todas as sessões, ficámos a saber que Miguel Gonçalves Mendes já
encerrou as filmagens do seu documentário, “O Sentido da Vida”, produzido por
Fernando Meirelles, encontrando-se agora em fase de montagem. As filmagens
duraram quatro anos e o filme foi rodado na Islândia, Brasil, Macau, tendo
começado em Vila do Conde. Assim o possamos rapidamente ver tal qual esperemos que seja mais uma razão para que, à semelhança dos sete ilustres convidados presentes na narrativa, o realizador possa continuar a dar a conhecer o seu trabalho e, assim, regressar ao arquipélago açoriano.
domingo, 1 de outubro de 2017
A Meu Favor de Alexandre O´Neill
Tenho
o verde secreto dos teus olhos
Algumas
palavras de ódio algumas palavras de amor
O
tapete que vai partir para o infinito
Esta
noite ou uma noite qualquer
A
meu favor
As
paredes que insultam devagar
Certo
refúgio acima do murmúrio
Que
da vida corrente teime em vir
O
barco escondido pela folhagem
O
jardim onde a aventura recomeça.
sexta-feira, 29 de setembro de 2017
Da Geografia
"É claro que a Geografia me serviu muito. Sabia distinguir num relance, a China do Arizona. É muito útil, sobretudo quando andamos perdidos na noite."
in
Principezinho, Antoine Saint-Exupéry.
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