sábado, 14 de outubro de 2017

"Prece Geral" de Daniel Blaufucks no Museu de Arte Sacra em PDL

A Exposição está patente até ao 31 de Janeiro de 2018
Aprendi a ver as suas fotografias em silêncio, circunspecto, na altura junto dum café desmedido com umas janelas em que se avistava o azul atlântico daquele mar. Sozinho, ainda muito jovem, fixava o seu apelido algo alienígena e apreciava o que de melhor podia conter a palavra respeito perante tamanhas imagens enigmáticas. Isso e também beleza. Recordo, por isso, as páginas dos Cadernos e suplementos do jornal “O Independente” em que este chegou a colaborar com regularidade. Alguns dos seus trabalhos, de tão sombrios e austeros, perturbavam e interrogavam, à altura, os dias de euforia pós entrada na união europeia. Tantos anos depois, regresso novamente às suas fotografias para agradecer-lhe o gesto, louvar este seu mergulho no mistério e na oração. Estas chapas são sobre o Mosteiro de Santa Maria Scala Coeli, a ‘Cartuxa de Évora', e revelam-nos o interior da fé e da dedicação bem como o que resta desse altar de prece e de reflexão. 

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Uma Noite de Poesia na Tascá

Fotografia de Luís Andrade 
          Talvez em Copenhaga ou em Aarhus isto também fosse possível, não se sabe. O casal de dinamarqueses pensa na eventualidade e no interesse pelas palavras, das rimas e dos versos nos tempos que correm. E riem-se com o nome Bodega, nomenclatura usada no país deles para descrever espaços como este. E, quem sabe, ou talvez seja mesmo impossível, apelidá-lo com esse título neste nosso país do sul. A conversa gira, portanto, à volta do interesse dos nossos contemporâneos pelos versos, metáforas, alegorias, aliterações e, talvez por isso, termine pousada sobre a oferta cultural nas grandes cidades e na periferia. No entanto, por aqui vai-se afiançando que não, há quem diga mesmo que a poesia anda à solta pelos territórios mais improváveis da  ilha, comentam que é partilhada por instantes nos quartos, nos cafés e nas ruas, dita por cabeças mais ou menos pensantes, algumas bastante tensas, outras esclarecidas e até mesmo emotivas. Há mesmo um Encontro Internacional de Poesia a decorrer esta semana. Desta feita, nesta noite de Outubro, a poesia concentra-se sobre as mesas de madeira deste pequeno estabelecimento denominado de Tascá, contida no interior dos livros espalhados ou amontoados, sendo dita e redita enquanto se bebem copos de vinho tinto ou cerveja, por vezes em bancos corridos  ou com os corpos encostados às portas abertas, porventura, para soltar o ar do tempo. Há também pausas para saber da vida, saborear as estrelas cadentes e o luar, espreitar o movimento dos carros e cantar loas às madrugadas vividas em território ilhéu. Tudo isto se passa numa rua com nome de antiga capital do reino, entretanto agora democracia. Uma coisa é certa: precisamos de poesia como pão para boca e por isso nem sempre à noite todos os gatos são pardos. 

Aranhas e Visigodos


Josué: Papá, por que é que os cães e judeus não podem entrar naquela loja?
Guido: Porque os judeus e os cães não querem. Todos devem poder fazer aquilo que lhes parece melhor, não te parece? Ali à frente há uma loja, não há? Ali, por exemplo, não é permitida a entrada a espanhóis e cavalos e... mais à frente, há também um farmacêutico, não há? Ontem, estava eu com um amigo meu, um chinês, que por acaso tem um canguru e eu perguntei: "Podemos entrar?", e alguém lá de dentro respondeu: "Não, aqui chineses e cangurus não entram". Sabes, fiquei bastante desagradado com toda aquela situação. O que é que eu posso fazer?
Josué: Mas na nossa livraria toda a gente pode entrar...
Guido: Não, a partir de amanhã também nós iremos escrever um letreiro para colocar na porta. Quem é que tu consideras enfadonho?
Josué: As aranhas. E para o papá?
Guido: Para mim...os visigodos! Então amanhã iremos escrever um letreiro com o seguinte: "Proibida a entrada a aranhas e visigodos!". É quase certo  que o visigodos irão quebrar esse letreiro. Por isso, chega!

 in “A Vida é Bela”, filme de Roberto Begnini, 1998 (Tradução Livre)

terça-feira, 10 de outubro de 2017

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Uma Outonal Missiva de Janeiro Alves

Meu caro amigo,

Gostaria de prefaciar esta carta com o sincero desejo de a mesma o encontrar de rígida saúde e dotado do poder criativo e construtivo que lhe permita desenvolver ideias com a novidade da folhagem fresca coberta de orvalho matinal a agitar-se para fazer notar o seu vigor num cenário de naturezas mortas.
Não deixa de ser curioso esse conjunto de avistamentos da minha pessoa por locais diversificados e sem aparente ligação, pois ainda aqui há uns dias um indivíduo que transporta alguma reputação no circuito literário de Lisboa jurou a pés juntos que me tinha visto a passear na Calle de la Noria, em Santa Cruz de Tenerife, estando eu encerrado na minha vivenda a trabalhar desde o início do verão. Duvido até que ele lá tenha estado, dada a situação calamitosa das suas finanças depois de mais uma obra renunciada pela sua editora. De si eu não duvido pois essa é a sua morada permanente, mas trata-se efectivamente de um equívoco, alguém que se anda a fazer passar por mim de forma a tirar dividendos pessoais ou simplesmente instalar a confusão. Peço-lhe que da próxima vez que me vir, chame a polícia de forma a acabar de vez com esta brincadeira de mau gosto.
Passando a página, manifesto-lhe a minha mais exaltada e até descontrolada euforia com a aproximação das Conferências da Fajã, o supra-sumo dos eventos, a canela por cima do grande pastel de nata que é este mundo moderno. Sei que devido à nossa longínqua amizade, e na qualidade de organizador principal, o Doutor Mara não se esquecerá de me providenciar o habitual lugar de destaque no programa do evento, assim como me enviar as passagens de ida e volta em primeira, e a reserva no hotel do costume com pensão completa. Para esta próxima edição tenho preparada uma matéria que vai finalmente lançar os alicerces do “edifício” pós-moderno, unindo todas as reflexões casuísticas numa única direcção que nos guiará a uma espécie de Nirvana. Tudo isto, imagine, sem o uso de quaisquer psicotrópicos ou desinibidores de consciência, pelo que poderemos prescindir do dealer da última edição.  
Acabo esta modesta carta com um ar abatido, cansado e sôfrego, devido ao calor que se faz sentir em Outubro na capital do império Portuguêz, perfeitamente anormal para a época, adiando inapelavelmente a minha investida ao guarda fato outonal, onde os meus sapatos italianos de cetim afivelados se encontram acorrentados à espera de fazer crepitar folhas caducas como estalidos de sal atirado ao fogo que arde sem se ver, ser ou não ser, eis a questão, e à parte disso, desejo-lhe um agradável serão.
Do seu humilde servo,
Janeiro Alves

domingo, 8 de outubro de 2017

Um Postal Outonal para Janeiro Alves

Caro Janeiro Alves,

Decidi redigir-lhe este postal pois ainda não estou em mim. O meu amigo pode não admitir mas penso ter estado consigo, no dia de ontem, pelo menos três vezes em diversos rincões deste território ilhéu. Curiosamente, julgo ter estado consigo numa caldeira, numa piscina de águas termais e, por último, numa taberna popular a comer uma bifaninha de atum e a desembaular uma garrafa de vinho tinto da Estremadura (e não é que também têm boas pingas?). Acordei, entretanto, com este sentimento de que tudo isto não passou de um sonho e ainda com a sensação que o universo se encontra em expansão. O amigo Janeiro não vai acreditar mas desconfio cada vez mais da realidade e de todos os acontecimentos que estão a suceder em catadupa.Será isto a pós-verdade? Estou cada vez mais senil e demente, essa é que é a realidade.
Comunico-lhe também para anunciar que estou a preparar as mais que aguardadas Conferências da Fajã. Este ano teremos ilustres convidados oriundos de países distantes e outras personalidades de alto gabarito, destacadas e reconhecidas nas suas mais diferentes áreas e que vão desde a Filosofia Marinha ao Empalhamento de Aves Raras. Com a promessa de estar para breve o envio do convite e do programa, alegremente me despeço. 
Com elevada estima e consideração,
Doutor Mara

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Os Cem Anos de Violeta Parra

Cartaz de Rodofo Chofre Saavedra

Volver a los diecisiete       
Después de vivir un siglo
Es como descifrar signos
Sin ser sabio competente
Volver a ser de repente
Tan frágil como un segundo
Volver a sentir profundo
Como un niño frente a Dios
Eso es lo que siento yo
En este instante fecundo
Se va enredando, enredando
Como en el muro la hiedra
Y va brotando, brotando
Como el musguito en la piedra
Ay sí sí sí
Mi paso retrocedido
Cuando el de ustedes avanza
El arco de las alianzas
Ha penetrado en mi nido
                                               Con todo su colorido
                                       Se ha paseado por mis venas

                                                                Y hasta las duras cadenas
                                                                  Con que nos ata el destino
                                                                        Es como un diamante fino
                                                                Que alumbra mi alma serena 
                                                                        Lo que puede el sentimiento
                                                                    No lo ha podido el saber
                                                           Ni el más claro proceder
                                                                    Ni el más ancho pensamiento
                                                                         Todo lo cambia el momento
                                                           Cual mago…

in"Volver a los Diecisiete" de Violeta Parra 

Mar

Se  eu pudesse esquartejava-te 
e com os braços levava-te comigo
sem criar ondas
para o interior de minha casa. 

Féodor Marenko

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Miguel Gonçalves Mendes: Cinema Instigação!


         Organizado pela Galeria Arco 8, terminou na última quinta-feira um ciclo de cinema dedicado a Miguel Gonçalves Mendes. Os seus documentários foram sendo exibidos ao longo de três semanas deste recente mês de Setembro e sempre com entrada gratuita. O ciclo começou com “Nada Tenho de Meu”, seguindo-se “Cruzeiro Seixas: Cartas do Rei Artur” (aqui enquanto produtor), depois “Autografia” e, por fim, “José e Pilar”. Estes dois últimos filmes apresentados e, que tiveram lugar na passada quarta e quinta-feira, contaram com a presença do realizador que acedeu conversar e acolher perguntas duma vasta e interessada audiência que aproveitou a presença deste em território insular. Sendo assim, uma palavra de apreço e gratidão para o Pedro Bento, sempre ele, a pontuar a chamada “actividade cultural alternativa do Outono”, marcando assim a rentrée da ilha e anunciando a partida do estio de calendário, ainda que este tarde em arrefecer. Graças a ele, e à sua persistência, foi mais uma vez possível ver cinema de cariz documental e, essencialmente, instigante!
Registe-se, assim, que todo o trabalho documental visa dar conta do objecto em questão e aproximar esse mesmo objecto do público espectador. Estes filmes não só aproximaram como também promoveram o pensamento sobre aquilo que somos e andamos à procura. Comece-se pelo inquietante “Nada Tenho de Meu”, que nos pareceu ser o trabalho mais complexo dado tratar-se de uma procura da identidade individual e do real, sabendo de antemão que grande parte do que contamos sobre nós próprios há muito de inventado, ficcionado. Seguiu-se “Cruzeiro Seixas: Cartas do Rei Artur”, documentário revelador de uma paixão entre essas duas figuras maiores do surrealismo, amantes  das pintura e das letras, aqui revelado em registo epistolar e intimista. Nada que já não tivéssemos sondando no visionamento de “Autografia”, apresentado algum tempo antes e ao que se sabe um retrato livre e despojado da vida dum poeta maior da língua portuguesa, infelizmente já desaparecido: Mário Cesariny. Neste documentário vemos a importância da confiança e da liberdade discursiva criada entre quem filma e se deixa filmar. Por último, o visionamento de “José e Pilar” que são três actos de amor em conjunto, um olhar errante e exaustivo sobre uma relação a dois, o poder e a força impressa no outro por quem sabe que só o amor nos leva pela estrada mais directa ao coração. Sim, é verdade, aqui vemos um homem que escreve novelas e uma mulher que se dedica a tomar conta da vida deles os dois. Uma experiência intensa, de tão rica como imaginada, ao intuir o movimento realizado inicialmente até o sabermos, por fim, concluído.
No final de todas as sessões, ficámos a saber que Miguel Gonçalves Mendes já encerrou as filmagens do seu documentário, “O Sentido da Vida”, produzido por Fernando Meirelles, encontrando-se agora em fase de montagem. As filmagens duraram quatro anos e o filme foi rodado na Islândia, Brasil, Macau, tendo começado em Vila do Conde. Assim o possamos rapidamente ver tal qual esperemos que seja mais uma razão para que, à semelhança dos sete ilustres convidados presentes na narrativa, o realizador possa continuar a dar a conhecer o seu trabalho e, assim, regressar ao arquipélago açoriano.