quarta-feira, 6 de março de 2019
uma história saturada de mortos
eu
agora trinta anos fumo bebo
rodeado
de toda a tecnologia do homem
assusto-me
com o grito de uma perdiz
ali
fora na seara alentejana. Insones
os
pássaros pelas noites e dias
e
choro
neste
verso avesso por um verso.
um
filho qualquer que seja o seu sexo
mas
não aqui connosco nós
não
temos histórias para contar
senão
a morte
ao
deitar
Fernando
Machado Silva, in Passageiros Clandestinos, Companhia das Ilhas, 2012.
segunda-feira, 4 de março de 2019
Missiva Pré-Primaveril com Destino a Janeiro Alves no Entrudo Pleno
Caro
Janeiro Alves,
Redijo-lhe
estas linhas nos debutantes sussurros primaveris de 2019, desejando que o meu
amigo se encontre guarnecido das mais promissoras expectativas para o próximo
estio, que segundo asseveram as mais altas patentes da meteorologia, será o
mais quente de sempre. Quaisquer mangas cavas ou demais refrescos e gelados será
sempre pouco para o verão tórrido que se avizinha!
O
motivo desta missiva é interrogar-lhe sobre o seu conhecimento de um tal
Felício Chanfra. Recebi um convite duma publicação azórico-lusitana de
reconhecido gabarito para interrogar este psicoterapeuta dada a sua reputação,
trabalho e reconhecimento em terapias psicológicas oportunamente avançadas.
Encetei com contumácia as questões necessárias e li mesmo toda a literatura
ilustrada sobre a Psicologia Moderna. Até aqui labor intenso e esforçado. O meu amigo Janeiro Alves sabe que sou um brilhante interrogador, possuidor de um
estrepitoso charme e assertivo nas minhas convicções hodiernas. Doravante, eis que não
saberei o que me irá acontecer. É que quando procurei recolher informações
sobre Felício Chanfra no grande motor de busca global, fui confrontado com
ausência biográfica, surgiram mesmo algumas frases redondas e referências próprias de uma
fragilidade inconfundível, muitas delas poderiam mesmo constar de qualquer
mural nas redes sociais. Isto, para não falar de uma hiperealidade abissal. Indaguei assim a razão do
sucesso de Felício na lista das personalidades promissoras deste novo século, e nada
consegui concluir. Na lista de grandes promessas figuram ainda o
irreparável Victor Klaus e o inefável Alberto Ai. Conjecture lá, Janeiro Alves, tamanho descaramento!
Como
deve imaginar, não sei o que hei-de fazer para diminuir a ansiedade, desatei por isso a
escrever e escutar interrogatórios de forma compulsiva, socorrendo-me apenas da recordação dos momentos de folia quando interroguei Giorgio Delle Mare e
Andar Carrasco. Em breve, faço questão de lhe endereçar o resumo, a súmula do
depressivo e suculento encontro que irei ter com esse famoso psicoterapeuta retirado do mundo. Segundo me afiançam, convirá também ficar atento aos ligeiros
achaques e altivez a que habituou o seu público desde que ganhou o Prémio Sigismundo F, atribuído pela Academia
dos Atos Falhados.
Despeço-me
no ápice da euforia e no cúmulo da folia sobretudo pelo trabalho que o meu
amigo tem vindo a realizar em prol da literatura de cordel, augurando-lhe, desde já, um
Feliz Entrudo. Com um até breve na caixa do correio.
No esplendor máximo da estima e da consideração,
Doutor Mara
A Mesa está Posta de Jorge Silva Melo

“São textos dispersos, textos que
escrevi, entrevistas, coisas que disse, cinquenta anos de viver e de andar a
pensar e a fazer. É uma escolha, são textos díspares em que água mole foi
batendo em pedra sempre dura, mas não está cá tudo, nem pensar, há textos
perdidos, outros que ficaram de lado, outros que andam por outras recolhas*.
São cinquenta anos insistentes, felizes, teimosos, sempre a defender, ó
monotonia!, essa coisa mais linda que é viver entre palavras, palavras de
outros, antigos, modernos, tantos. São textos recuperados, corrigidos,
revistos, alguns inéditos, tanta coisa sobre Teatro, pois é, foi uma vida.”
Jorge Silva Melo
*Apresentação do livro no dia 7 de Março, no Teatro da Politécnica.
domingo, 3 de março de 2019
sábado, 2 de março de 2019
O meio literal português
Nem cá nem lá,
no meio literal português cada um ocupa
o seu lugar, a meio caminho entre aquele que
a providência lhe destinou e aquele a que
o alpinismo de planos rasos o fez ascender.
Os romancistas revolvem-se em trezentas páginas,
no pânico de corpos enterrados vivos em caixões de papel,
e os poetas empregam-se
em produzir mais versos do que os minutos todos
de todos os leitores.
Os críticos esbracejam, nem contra nem pelo contrário,
nunca há pedra que a boca não engula.
E uns e outros, ofendidos como putas pudicas,
curvados
pela constatação que ninguém os lê,
convertem-se ao cinismo
de quem já leu tudo o que não quis ler.
Falar alto, intimidar de copo na mão,
em provocações e poses de taberna, continua a ser
a melhor forma de ocupar o espaço.
O pântano reproduz-se e as pegadas, come-as a lama.
Madalena Castro Campos, in "A Gun in the Garland ", Companhia das Ilhas, 2019.
no meio literal português cada um ocupa
o seu lugar, a meio caminho entre aquele que
a providência lhe destinou e aquele a que
o alpinismo de planos rasos o fez ascender.
Os romancistas revolvem-se em trezentas páginas,
no pânico de corpos enterrados vivos em caixões de papel,
e os poetas empregam-se
em produzir mais versos do que os minutos todos
de todos os leitores.
Os críticos esbracejam, nem contra nem pelo contrário,
nunca há pedra que a boca não engula.
E uns e outros, ofendidos como putas pudicas,
curvados
pela constatação que ninguém os lê,
convertem-se ao cinismo
de quem já leu tudo o que não quis ler.
Falar alto, intimidar de copo na mão,
em provocações e poses de taberna, continua a ser
a melhor forma de ocupar o espaço.
O pântano reproduz-se e as pegadas, come-as a lama.
Madalena Castro Campos, in "A Gun in the Garland ", Companhia das Ilhas, 2019.
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019
Da Literatura
"Desde os gregos que a literatura nasce como forma de acesso às verdades mais misteriosas e irracionais do ser humano. A catarse está presente em Shakespeare, Kafka ou Pessoa, só para citar alguns nomes muito conhecidos. Nomear uma dor é uma tarefa de uma literatura. Ao mesmo tempo, a catarse é também uma exaltação da vida. Quando somos capazes de nos explorarmos por dentro, a nossa vida estende-se a regiões inesperadas e insuspeitas. Lemos romances para entender o mistério da vida. Ninguém sabe o que ela é. Cabe aos escritores investigar esse mistério."
Manuel Vilas, in Jornal de Letras, Fevereiro.
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019
Do Sentido de Humor (2)
"Por isso me faz tanta confusão a ideia de que o riso é uma agressão ou um modo de inferiorizar alguém. Essa teoria existiu durante milénios. De Platão a Thomas Hobbes, o riso foi sempre identificado como escárnio e eticamente suspeito por ser considerado uma agressão. Hobbes dizia que nos rimos por causa de um sentimento de uma glória súbita, de nos percebermos superiores ao outro. Depois disso houve várias críticas sensatas sobre a ideia de quase nunca nos rimos da superioridade, mas sim da incongruência. Freud referiu o facto do sentido de humor ser uma espécie de superioridade, sim, mas de uma superioridade paternal. A superioridade do superego em relação ao ego.Uma coisa que acontece cá dentro, em que nós mesmos arranjamos uma estância de nos consolar."Tem calma, isto parece assustador e demasiado grande, mas se dermos um ou dois passos atrás conseguimos ver que não é assim tanto." Há uma dose saudável em conseguir criar essa distância em relação a nós mesmo, mas se não temos cuidado torna-se uma patologia mental."
Ricardo Araújo Pereira, in Revista do Expresso, 23 de Fevereiro de 2019.
Ricardo Araújo Pereira, in Revista do Expresso, 23 de Fevereiro de 2019.
Inútil como a mais inútil das mulheres
Impunha-se por imperativo de sanidade,
fazer anteceder cada palavra pela pergunta
para que serve?
Para que serve a poesia, para que serve a prosa.
Para que servem as imagens, para que serve o som.
Impunha-se, por reserva mental,
fazer anteceder cada pergunta pela pergunta
para que serve perguntar?
Registá-la, depois, pergunta ou resposta,
tentando não ceder à moralidade.
Sem para nem porquê,
a escrita talvez fosse uma forma aceitável de não existir.
Não pediria outra.
Madalena Castro Campos, in "A Gun in the Garland", Companhia das Ilhas, 2019.
fazer anteceder cada palavra pela pergunta
para que serve?
Para que serve a poesia, para que serve a prosa.
Para que servem as imagens, para que serve o som.
Impunha-se, por reserva mental,
fazer anteceder cada pergunta pela pergunta
para que serve perguntar?
Registá-la, depois, pergunta ou resposta,
tentando não ceder à moralidade.
Sem para nem porquê,
a escrita talvez fosse uma forma aceitável de não existir.
Não pediria outra.
Madalena Castro Campos, in "A Gun in the Garland", Companhia das Ilhas, 2019.
Neste Mar Imóvel
![]() |
| Textos de Blanca Martín-Calero e Fotografia de Eduardo Brito (Araucária Edições, 2019 (/https://araucaria.pt/ ) |
domingo, 24 de fevereiro de 2019
Do Sentido de Humor
"Uma das razões de ser considerada uma coisa pouco civilizada é por ser um fenómeno do corpo. Provoca uma vibração, desfigura a cara. Há uma espécie de abandono momentâneo em que não somos donos do nosso corpo. O riso também está associado à loucura e ao mal. A gargalhada do vilão é conhecida e o herói não se ri. Por outro lado, é isso a parte curiosa da conversa, é que se pode argumentar exatamente o contrário. O riso é sedutor. Um dos piores insultos que se podem fazer é dizer a alguém que não tem sentido de humor. As pessoas levam muito a mal."
Ricardo Araújo Pereira, in Revista do Expresso, 23 de Fevereiro de 2019.
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