quarta-feira, 12 de junho de 2019

O Poema

O poema deve trepar a carne
         como uma sombra
ou talvez como um orquestro
que estremece em todo o corpo
        Trepar o silêncio
e as jarras onde germinam
       palavras intraduzíveis
Descer os jardins na fronteira
         entre a voz e a cidade
       Trepar as gargantas
onde o tempo germina
na confusão das folhas
ou as noites que se alongam
na neblina arrebatada dos ossos
Talvez uma árvore que trepe
todo o poema todos os degraus
todo o sangue toda a asma
As palavras em todos os átomos
todos os isótopos possíveis
Um abismo repleto de artérias
a lucidez e a loucura pressentidas
-a instintiva comorbidade da caneta
Um poema que trepe a maresia
                ou as algas
inventando a luz de um interlúdio
        contínuo no piano
Piano que se reencontra com a ilha
                    purificada
      com a madrugada pulmonar
                 das sílabas
                Um poema
     que trepe todas as torres
       que contornam a culpa
       e a inocência de deus
         Que trepe o vento
batendo nas searas onde nasce
o terno rosto da imortal mãe
                  Um poema
que trepe as ervas brotadas
que crescem em sua demência
ao redor da candura
onde se duvida de um resto de orvalho
               Um poema
                    isto é
uma casa triunfal que ascenda
um dardo de papel recortado de sentidos
em direcção aos astros
                   isto é
à destruição de toda a memória
e de todo o esquecimento.

Leonardo in "Há-de Flutuar uma Cidade no Crepúsculo da Vida", Letras Lavadas. 

segunda-feira, 27 de maio de 2019

Da Perda

“Cada qual procura o que sente perdido.”
Miguel Torga

A Festa


(imagem www.bertrand.pt)
“Não era, no entanto, uma humanidade alheia à festa. Com os mais chegados – e sempre à parte da obrigação do trabalho -, quase toda a gente do Antigo Regime fazia por divertir-se. Como e em quê? Os homens e as mulheres dessa época parecer-nos-iam, hoje, pessoas exageradamente sóbrias. O dia de trabalho prolongava-se de sol a sol, entre outras coisas porque muitos regulamentos locais, ou às vezes simples disposições normativas dos municípios, assim o exigiam, e é frequente que a narração da existência quotidiana dos indivíduos pouco importantes – a multidão que não é anónima, mas simplesmente pouco poderosa – no-lo provem de forma convincente. Os operários e os jornaleiros espanhóis de meados do século XVIII costumavam levantar-se pelas cinco horas da madrugada e trabalhar até ao anoitecer, e a sua diversão, no sentido próprio desta palavra, reduzia-se às poucas oportunidades que esta obrigação deixava: a conversa na praça pública enquanto esperavam alguém que os contratasse, ou à porta de casa, caída a noite, por vezes na taberna ou na casa de algum deles jogando às cartas no meio de uns copos de vinho. Os processos judiciais retratam frequentemente a mulher numa ocupação tão relaxante como estar à janela e fiar.
Entre os Europeus e os Americanos, por outro lado, a diversão que se pode classificar de comunitária continua a traduzir-se pela realidade pluriforme da festa, que parece consubstancial ao ser humano. Mas um acontecimento propriamente histórico, quer dizer característico deste período, consiste no esforço que fazem os governantes do Antigo Regime para submeter tudo à norma, facto já patente no século XV, mas sobretudo omnipresente nos séculos XVII e XVIII: refiro-me à submissão da festa à lei de que é exemplo importante, junto ao da marginalização dos loucos, os que se propuseram para ilustrar a tendência de sujeitar tudo à regra e marginalizar, isolar ou erradicar o que é alheio a ela.”

José Andrés – Gallego, in "História de Gente Pouco Importante”, Editorial Estampa, 1993.

sábado, 25 de maio de 2019

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Verso de Chico Buarque (Prémio Camões)

Olhos nos olhos, quero ver o que você faz

Revista LER nº152

         
              "A Companhia das Ilhas é uma pequena editora sediada na Ilha do Pico, um lugar altamente improvável para haver uma editora. Porém, é uma editora que já existe há alguns anos e faz um trabalho fantástico, não só de promoção de autores açorianos, mas também de outros autores. O Carlos Alberto Machado, o seu editor, tem um verdadeiro sentido de missão. No fundo, o que eles fazem é edição de serviço público, só que fazem essas edições com dinheiro privado. Quando encontramos pequenas empresas assim, com um compromisso tão grande com a cultura portuguesa e com a qualidade de editar livros bem-feitos e bonitos, se podemos construir parcerias neste país pequeno, acho que isso é muito importante."

Duarte Azinheira, in Revista LER, Inverno/Primavera, 2019, nº152.

Nómadas

Só o amor pára o tempo (só
ele detém a voragem)
rasgámos cidades a meio
(cruzámos rios e lagos)
disponíveis para lugares com nomes
impronunciáveis. É preciso percorrer os mapas
mais ao acaso
(jamais evitar fronteiras
nunca ficar para trás)
tudo nos deve assombrar como
neve
em Abril. Só o amor pára o tempo só
nele perdura o enigma
(lançar pedras sem forma e o lago
devolver círculos).

João Luís Barreto Guimarães, in O Tempo Avança por Sílabas, Quetzal, 2019.
(Poema inserido na revista LER, Inverno/Primavera, nº152)

Da Leitura

“Aquele professor não metia à força o saber, oferecia o que sabia. Era menos professor do que trovador – um daqueles prestidigitadores de palavras que frequentavam as hospedarias dos caminhos de Santiago e que cantavam canções de gesta aos peregrinos analfabetos.
            Como tudo tem de ter um início, todos os anos reunia o seu pequeno rebanho nas origens orais do romance. A sua voz, como a dos trovadores, dirigia-se a um publico que não sabia ler. Abria olhos. Acendia lanternas. Dirigia as suas gentes pela rota dos livros, peregrinação sem fim nem certezas, encaminhamento do homem para o homem.
-O mais importante, era ele ler para nós em voz alta, era a confiança que ele colocava imediatamente no nosso desejo de compreender…O homem que lê em voz alta eleva-nos à altura do livro. Ele dá verdadeiramente a ler!”
 Daniel Pennac in Como um Romance, pág.38, edições Asa.

quinta-feira, 16 de maio de 2019

Espera-me

Nas praias que são o rosto branco das amadas mortas
Deixarei que o teu nome se perca repetido

Mas espera-me:
Pois por mais longos que sejam os caminhos
Eu regresso.

Sophia de Melo Breyner Andresen, in Coral, Obra Poética, Caminho.

Hoje há Poesia Amanhã Não Sabemos*

...
"Eu queria cantar para dentro de alguém,
sentar-me junto de alguém e estar aí.
Eu queria embalar-te e cantar-te mansamente
e acompanhar-te ao despertares e ao amanheceres.
Queria ser o único na casa
a saber: a noite estava fria
E queria escutar dentro e fora
de ti, do mundo, da floresta.
Os relógios chamam-se anunciando as horas
e vê-se o fundo do tempo.
E em baixo ainda passa um estranho
e acirra um cão desconhecido.
Depois regresso ao silêncio. Os meus olhos,
muito abertos, pousaram em ti;
e prendem-te docemente e libertam-te 
quando algo se move na escuridão."

Rainer Maria Rilke, in Para Recitar Antes de adormecer. 
*Título que glosa o álbum da Banda do Casaco - "Hoje há Conquilhas Amanhã Não Sabemos"

segunda-feira, 13 de maio de 2019