domingo, 5 de abril de 2020

“Cafarnaum”: O Mundo pelo Olhar de Zein


Cafarnaum”, que significa caos ou lugar de turbulência, é um filme árabe de origem libanesa, que venceu o Prémio do Júri do Festival de Cannes, em 2018. Nadine Labaki escreveu e realizou este filme, tendo, também ela, um pequeno papel enquanto actriz. Este é uma história de uma criança de um bairro pobre de Beirut que decide processar os pais por ter nascido, melhor, pelo mau viver e maus tratos infligidos por estes. Não é, por isso, uma história banal ou mesmo espectacular, o facto de ser tão crua e realista é revelador de que há ali qualquer coisa muito próxima e tocante das personagens ali caracterizadas.
A realizadora filma o seu Zein do início até ao fim do filme, as suas peripécias e anseios, como se estivesse a escalar o Monte Olimpo. Ela não larga o seu pequeno actor, plano atrás de plano, aproveitando a sua destreza e diálogo fácil junto da câmara. Abas Kiarostami dizia que o seu cinema pretendia ser uma visão do mundo através do olhar das crianças. Nadine Labaki parece ter escutado as suas sábias palavras, seguindo este lembrete da melhor forma possível, ou então reviu muitas vezes filmes como "Pixote", de Hector Babenco, ou ainda "Los Olvidados", de Luís Buñuel. É que "Zein" parece não representar e, por isso, é por demais convincente e autêntico, cativando e prendendo o espectador num turbilhão de emoções, daí que o resultado só poderia ser belo e pungente.
Esta película conta ainda com a banda sonora de Khaled Mouzanar, num registo de enorme arrebatamento e delicadeza e tal, como já foi anteriormente referido, com um "actor" irrepreensível e  magnetizante - Zain Al Rafeea. Caso para perguntar: quem pode ficar indiferente  este retrato cruel de uma infância perturbadora e dolorosa? O filme, no entanto, não pode ser visto como um dramalhão, sendo que as cenas passadas no parque de diversões ou no carrossel são pura magia cinematográfica, para além de uma fotografia que nos convida a intuir os cheiros, lugares e vivências ali representados.
Uma última nota para referir que, aquando da apresentação do filme em Cannes, o público presente prestou-se a uma ovação de quinze minutos na presença da realizadora, produtor e do seu  actor de doze anos, de origem síria, que vivia à altura em Beirut, mudando-se assim, à semelhança do que acontece no filme, não para a Suécia, mas sim para a Noruega, onde actualmente já vai à escola. Pura premonição?

sábado, 4 de abril de 2020

PDL: Um Coração Invisível

Fotografia Carlos Olyveira
E, subitamente, não há ninguém nas ruas da urbe principal de São Miguel. Ponta Delgada está agora deserta, desde que há cinco anos, com o aparecimento das companhias aéreas de baixo custo, se renovava de forma intensa e imprevista com tudo aquilo que o turismo podia mudar para melhor: iniciativa, criatividade e variedade na oferta de propostas, tanto comerciais como culturais.  
À parte as rendas para habitação de longa duração que dispararam em flecha, algumas mesmo para preços estratosféricos, foi muito interessante reparar na renovação de muitos edifícios e casas bem como no florescimento do comércio nas ruas do centro histórico. A cidade de Ponta Delgada ganhou, assim, uma nova dinâmica e colorido, pautada por um turismo muito eclético e diversificado. Deste modo, apareceram restaurantes para diferentes gostos e carteiras, alguns com muito bom gosto, cafés, lojas gourmet, galerias de arte e ainda outros serviços comerciais que se adaptaram e restauraram a sua montra e leque de oferta.  
Por esse motivo era, até há bem pouco tempo, muito entusiasmante constatar os diferentes linguajares à volta dos cafés e das praças, misturados com o sotaque local e ainda o ambiente de festa e de modernidade que por aqui se vivia. Por esta altura do ano, deveríamos estar todos a viver intensamente os dias do “Tremor”, um festival de música que todos os anos apresenta uma panóplia alargada de artistas oriundos das mais distintas partes do mundo, com um programa muito sui generis e eclético, marcado sobretudo por surpresas e descobertas. O dia principal do Tremor realiza-se a um sábado e é digno de registo e muito interessante verificar a dinâmica de que como a cidade interage com próprio festival, pois os concertos podem ser realizados, ora num café, igreja, estufa ou mesmo numa loja de roupa.
Ponta Delgada parece agora uma cidade adormecida, ainda que estes dias iniciais da Primavera com muita luz não deixem a cidade descansar de tanta beleza e comoção. O seu coração está, por agora, invisível, porventura aguardando com esperança e paciência que as artérias que lhe davam vida possam de novo fazer circular o seu melhor sangue.

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Palavras

          "As palavras são uma coisa com que lutei muito em criança: ler, escrever, encontrar um sentido. Depois, tornou-se um jogo, um divertimento e agora posso usá-las para questionar algo."

Laure Prouvost 

quarta-feira, 4 de março de 2020

Cá estão as Asas

“E era uma vida incomparável, uma vida de alegria e entusiasmo em que se desenvolvia aquele amor como uma flor ébria de seiva. Era uma vida livre, sem restrições nem limites. Tinham a sensação de uma liberdade física absoluta, como se os sentidos estivessem libertos de entraves desconhecidos, como se os olhos se movessem mais livremente nas órbitas e as orelhas ouvissem sons que habitualmente são imperceptíveis. Era uma vida de seres sobre-humanos. Que maravilhosa sensação! Voar como os pássaros, em silêncio, no ar submisso; ver, como deuses, a mudança ininterrupta de cenários; descer as planícies nos vales, subir ao longo das colinas, andar de cidade em cidade, acompanhar os rios, desvendar florestas, e tudo isto graças à potência dos músculos, ao funcionamento correcto dos pulmões, à tenacidade do querer. E isto tudo sem quaisquer inconvenientes. Gostam do sol que lhes aquece a nuca, mas também gostam da chuva que os fustiga e do vento que os açoita, porque se sentem formidáveis, vencedores dos elementos, donos do mundo.”

Maurice Leblanc, in “De Bicicleta, Antologia de Textos”, Relógio D´Água, 2018.

sábado, 15 de fevereiro de 2020

"Cine Voyage" de Vítor Rua & Daltonic Brothers no Arquipélago


                A noite prometia uma viagem, um percurso visual e sonoro à volta de imagens que fazem parte dos sonhos e pesadelos de quem venera fotogramas em movimento. O itinerário cinematográfico apresentado começou com encontros e desencontros de linhas e geometrias que possibilitavam alargar fontes criativas bem como permitir derivas da imaginação. Só depois de algum tempo do trajecto gráfico inicial é que fomos brindados pelas sequências cinemáticas a preto e branco do dealbar do século vinte, tal como se tratasse de uma alucinação, em modo transe hipnótico. Uma andança entusiasta, ainda que programada, que só ficaria completa com o guitarrista projectado na tela a sugerir um corpo visível aumentado que se desloca no tempo e no espaço após ter sido engolido por tão onírica expedição.

Da Arte

             "Sou por uma arte que faça mais do que sentar o rabo no museu. Sou por uma arte que cresça não sabendo sequer se é arte, uma arte que é dada a hipótese de começar do zero. Sou por uma arte que se envolva com a porcaria do dia a dia e ainda saia por cima. Sou por uma arte que imite o humano, isto é, cómica se necessário, ou violenta, ou seja o que for preciso. Sou por uma arte que adquira a sua forma a partir das linhas da vida, que se torça e se estenda impossivelmente e acumule e cuspa e pingue, e seja doce e estúpida como a própria vida."

Claes Oldenburg in Arte na Cidade, de Mário Caeiro, Temas e Debates, 2018

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

"Os Açores de Madredeus" de Rob Rombout


Hoje estreia, na ilha do Faial, o documentário "Os Açores de Madredeus", com a presença do realizador Rob Rombout. O filme foi realizado há 25 anos em várias ilhas do arquipélago e, será exibido no Teatro Faialense, às 21h00.

Katia Weyher na Galeria Brui

Inauguração dia 20 de Fevereiro