quarta-feira, 9 de agosto de 2023

Da Biblioteca

       "Talvez a inspiração me venha da luminosa ideia de Rui Tavares que gostaria de ver construída, em Lisboa, "uma grande biblioteca pública de dimensão europeia internacional, aberta a toda a gente e a todas horas": Talvez seja a noção de que este torpor de Agosto nos deixa a todos indolentemente desinteressados da política. Ou talvez seja, por uma vez, simples, pura e inescapável preguiça. Seja como for, uma coisa é certa: tenho já a cabeça e o coração no "meu" Pico, esse imenso "torresmo" que sei que é azul e verde, mas que Raul Brandão chamou "roxo e diáfano, violeta e rubro" e onde, por esta altura do ano, me recolho há quase uma vida, na companhia da família e de uma boa pilha de livros."

Pedro Norton in O Paraiso, como dizia Borges é uma espécie de biblioteca, 8 de Agosto de 2023. 

terça-feira, 8 de agosto de 2023

Santo Amaro por Alberto Péssimo

in Santo Amaro Sobre o Mar
Urbano Bettencourt 
 

Da Religião dos Livros

         "A organização ocupa parte da vida do bibliófilo e é também uma das suas maiores aflições. Há quem arrume livros por épocas ou por ordem alfabética - há até um cliente famoso entre os alfarrabistas que organiza os livros pelas livrarias em que os comprou  - e quem opte simplesmente por uma organização afectiva. No entanto, ninguém, viva numas minúsculas águas-furtadas na Mouraria ou num castelo no Vale do Loire dispõe de espaço suficiente para os livros. Não há bibliófilo que não compre mais livros do que aqueles que cabem no espaço disponível, e que não sofra com a compra dos 11 volumes do Dicionário de Morais ou com os 65 da História de Espanha por Menéndez Pidal por não saber onde os há-de pôr. Alguns livros jazem  assim indefinidamente em escritórios e armazéns à espera de qualquer milagre da multiplicação do espaço que permita ao bibliófilo ter a sua biblioteca finalmente reunida e organizada."

Carlos Maria Bobone, in A Religião dos Livros, Fundação Francisco Manuel dos Santos 

domingo, 6 de agosto de 2023

Cinema ao Ar Livre: Curtas no Solar

         Uma noite de sábado deste início de Agosto para ver o Melhor da 31ª edição do Festival Curtas Metragens de Vila do Conde ocorrido no último mês de Julho, entre os dias 8 e 16.  A sessão começou com Rosemary A.D. (After Dad), do realizador estadunidense, Ethan Barrett. Uma pequena história ilustrada sobre o amor e a morte, animada pelo humor e a beleza dos desenhos explorados subtilmente por um narrador irónico q.b. Seguiu-se Natureza Humana, da realizadora portuguesa, Mónica Lima, detentora do Prémio do Público e Prémio Sociedade Portuguesa de Autores, tratando-se aqui de um sugestivo quadro sobre a espera e o desespero de um casal à procura de descendência. A realizadora soube contrastar a infertilidade com a explosão da natureza e a vivacidade das crianças em redor. Certamente um filme de alguém que adora a fotografia e o desenho arquitectónico. Outro filme foi Il Compleanno di Enrico, do realizador italiano, Francesco Sossai, conta-nos a chegada e presença num aniversário de uma criança e é, através do seu olhar e da sua procura de aceitação e compreensão, que o seu mundo se nos apresenta tão desconhecido e extravagante. Apesar de toda a estranheza, eis-nos perante um bonito gesto cinematográfico sobre a diferença e diversidade. Por último, foi exibida a curta 2720,  do realizador luso-suíco, Basil da Cunha, que obteve o prémio para Melhor Realizador Português. Trata-se de uma curta-metragem trágico-cómica de um bairro periférico de Lisboa em que a língua é o criolo mas a indiferença e a vergonha é toda nossa. No fundo, um filme enérgico, movimentado entre o interior e exterior, mantendo sempre o humor e a música como elementos de uma cultura maior.

Provérbio

Lua de Agosto dá no rosto

sexta-feira, 4 de agosto de 2023

Fuga em Dó Menor de Ana Paula Inácio

o tempo passa 
os dragoeiros ficam 

assim com os anéis 
os múltiplos dedos 

in Anónimos do Século XXI, edições Averno, Outubro de 2016

terça-feira, 1 de agosto de 2023

Sobre Um Pouco da Alma de Rui Machado

      “Apesar de não serem, entendidos de forma literal, poemas do lugar, são poemas marcados, inevitavelmente, pelo lugar. Quero dizer, são poemas de mim no lugar, poemas da maneira que são porque eu era daquela maneira ao estar ali. Afinal de contas, não se pode fugir disto: somos o que somos, e fazemos o que fazemos, também por causa dos lugares que habitamos. Cada um a seu modo, tal qual como a uva da vinha, somos frutos de um terroir (risos). Um Pouco da Alma não seria o que é, ou talvez nem sequer existisse, em parte ou no todo, se não fosse a experiência de viver aqui, na cidade da Horta e na ilha do Faial. Seja pelo ritmo ou pela respiração, seja por aquilo que é dito ou por aquilo que é somente insinuado, este livro tem, inevitavelmente, a marca do lugar. Isto apesar de evitar os localismos. Não se trata de uma questão de escolha, mas de um processo natural. Vivemos em lugares e neles é que respiramos e o vento nos sopra no rosto, ou não é assim?”

Entrevista a Rui Machado, Tribuna das Ilhas, Maio de 2023.

sábado, 29 de julho de 2023

Do Veto

      "Umas das razões que sustentam o veto do Presidente da República é a de que o diploma cria "uma disparidade entre o continente e as Regiões Autónomas". É que, nas ilhas, a solução adoptada foi a da devolução integral do tempo de serviço. Bem sei que os professores exigem ser colocados em escolas perto de casa, mas isto seria capaz de justificar um movimento pendular a nado. Honestamente, não encontro razão pra que os professores continentais não tenham os mesmos direitos dos professores das regiões autónomas. Será mais difícil lidar com crianças que vivem numa ilha? Só estou a ver uma explicação para esta discriminação: quem fez a lei tinha acabado de ler "O Deus das Moscas".

Manuel Cardoso, in E se a Carreira Docente fosse Decente?Expresso, 28 de Julho de 2023.