segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Eu Cantarei de Amor Tão Docemente

Eu cantarei de amor tão docemente
por uns termos em si tão concertados,
que dous mil acidentes namorados 
faça sentir ao peito que não sente.

Farei que amor a todos avivente 
pintando mil segredos delicados, 
brandas iras, suspiros magoados,
temerosa ousadia e pena ausente
 

Camões in Lírica Camões - Antologia, Expresso, dia 19 de Dezembro de 2026.

Sobre a Origem do Universo

    Um dos problemas complexos que poderia elucidar-nos sobre a razão pelo qual o mundo existe em primeiro lugar é precisamente o problema da origem do universo, e até do tempo que de uma forma ou outra levará certamente a uma concepção do universo totalmente diferente daquele que temos presentemente.
     O universo parece não querer que desvendemos esses mistérios e até hoje os nossos instrumentos não foram capazes de detetar sinais dessa origem e caso tenhamos recebido alguma informação ainda não fomos capazes de a entender. No mundo actual, um dos grandes fenómenos emergentes é o da origem da vida: como foram criadas as primeiras moléculas complexas e como é que dessas moléculas nasceram organismos inteligentes?

Jácome Armas, in Açoriano Oriental, entrevista de Rui Jorge Cabral, dia 18 de Dezembro de 2026.

Verso dos Divine Comedy

 I saw a man this morning

domingo, 18 de janeiro de 2026

Ocasional Alvejar de Jorge Kol

Ocasional alvejar
Ont´ agora era Natal,
e flanêur para o Sal
sol, mar e vendaval,
máquina no bornal.
Rastreia o areal,
a habitação social,
fixa Mara residência ou residencial?
Interroga-o o mural:
- Não é Alojamento Local!
Nem Residência Amaral!
Então, o que será afinal?
Doutor Mara negócio estival?

Jorge Kol, em época vinte e tal, de eleição presidencial, no ano de dois mil e tal.

Soma de K.P.Kaváfis

 Se feliz sou, ou infeliz, não examino.
Uma alegria porém guardo sempre no espírito - 
que da grande soma (essa soma deles, que eu detesto)
composta por tantos números, não faço parte; não sou eu
uma unidade entre as demais. Não me calculam
no valor total. Essa alegria me basta. 

(1897)

in "Aquele Belo Rapaz - Poesia Completa", Assìrio&Alvim, Novembro de 2025.

Em Escuta...

Rainy Sunday Afternoon, 2025 
The Divine Comedy

     “Rainy Sunday Afternoon" foi lançado no final do verão passado e que, doze álbuns depois, trata-se do regresso aos estúdios de gravação desta banda irlandesa. O vocalista Neil Hanon já leva trinta anos no activo e continua a demonstrar a sua vitalidade em canções como “The Man Who Turned Into A  Chair”, “Achiles”, “Rainy Sunday Afternoon”, sendo a favorita - ‘The Heart is a Lonely Hunter’. Um disco de belíssimas canções para escutar numa tarde chuvosa de domingo.

sábado, 17 de janeiro de 2026

Da Democracia

     Cada vez que aceitamos líderes que falam por si dizendo ser em nome do "povo" estamos a abdicar da nossa participação e a normalizar a concentração de poder. Não é retórica: é assim que se esvaziam democracias.

Catarina Valadão, in Açoriano Oriental, dia 17 de Dezembro de 2026.

Verso dos Nada

 Cos´è  la vita se machi tu

Jardim de Inverno

Um rumor de mar ao perto
e a breve agitação das rosas

-não aguardes outro sinal do vento
este serão sempre jardins da morte.

Caminhas entre palavras, inscrições
como nuvens baixas a teus pés. Os nomes 
mais leves do que as datas 
ardem ainda no lume que os sustenta,
uma lâmina abre os pulsos da infância, a mão
da criança noutra mão sobre portas há muito fechadas.

Agora, a Traurmasch de Mahler 
daria o fundo musical se a estridência dos metais 
não acordasse a quietação dos rostos 
captados no instante que em que a câmara os deixou
abstractos para sempre 
expostos à comoção alheia.

Deixa-os assim ao peso da chuva 
quando já não lhes resta um óbolo que redima a solidão
e os próprios vivos se interrogam sobre o desamparo
que será o deles no tempo de enfrentarem o silêncio 
a sua desolação irreparável.
(Janeiro de 2021)

Urbano Bettencourt,
in "Antes que o Mar se Retire", Companhia das Ilhas, 2023.

Origem de Janeiro

       É o mês que os romanos consagraram ao deus Jano. Dividade antiquíssima, de origem ignota, tem-se como filho de Apolo e Creusa, provavelmente oriundo de Atenas. (...) Etimologicamente, Ianus significava «passagem», («Janela» tem origem em januellla, dimintivo de janua, «porta de entrada, acesso»).

Orlando Neves, in Dicionário do nome das coisas e outros epónimos, Notícias Editorial.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Baloiço nas Caixas do Correio

          Entrar nos correios com cartas, envelopes, selos, e logo espantamos quem nos vê carregados daqueles papéis de outros tempos, embrulhos e encomendas de quem ainda não renunciou ou cansou de surpreender na caixa do correio. Esse foi, certamente, o mundo em que crescemos, um verdadeiro e distinto universo de caligrafias, moradas ou ainda pessoas que nos batiam à porta a confirmar endereços ou, simplesmente, a lembrança daquele Inverno da juventude em que bateram à porta para entregar o “Psycho Candy”, dos The Jesus And Mary Chain, numa caixa de papelão com os dizeres - contém disco!
Fotografia: Ester Gutzovà
      Hoje, tudo isto nos parece ultapassado, anacrónico, tal como se escrever postais ou cartas fosse do tempo da invenção do papiro ou ainda da tipografia de Gutenberg. Há, inclusive, países a cancelar o envio de cartas por falta de destinatários, enquanto estas notícias se dão como se de um mundo novo emergisse e nos trouxesse alguma paz ou sossego. Nada disso irá acontecer, acreditem.
      A deslocação é, pois, ao edifício dos correios para enviar um conjunto de “Baloiços” a todos aqueles que aqui não habitam e que não puderam estar na apresentação desse pequeno livro de poesia no Festival Bom Colesterol. Foram muitos? Alguns. Será que os livros ainda chegarão este mês? Aguardemos de forma esperançosa que sim.
       Na verdade, continuemos a escrever postais, cartas, façamos encomendas e partilhemos coisas de que nos orgulhamos e gostamos. Temos todas e mais algumas razões para continuarmos a fazê-lo e que poderíamos fazê-lo ainda mais de forma vasta e muito mais profunda. É que é sempre tão surpreendente abrir a caixa dos correios. Basta vontade!

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

O Meu Poema é Isto de Rui D. Rodrigues

Rui Duarte Rodrigues
Edição do IAC

Instituto Açoriano de Cultura
   Foi em 1970, aos 18 anos, que este editou o seu primeiro livro: “Os Meninos Morrem Dentro dos Homens”. Esse foi também o ano em que Salazar faleceu com 81 anos e que Jimi Hendrix, um dos maiores guitarristas de todos os tempos, deixou o mundo dos vivos, com apenas 27 anos.
      Rui Duarte Rodrigues, natural da Ilha Terceira, foi um conhecido jornalista angrense que desapareceu do nosso convívio na Primavera de 2004. Destes seus poemas de juventude até à idade adulta – o poeta só publicou apenas mais um livro (“Com Segredos e Silêncios”, 1994) – permanecendo desse seu gesto uma poesia implicada com o real, testemunho de um tempo vigoroso em que as palavras se empenhavam em expressar utopias e sentimentos, num empenhamento político-social intenso e comprometido.
          Registe-se, pois, esta edição do IAC (Instituto Açoriano da Cultura) intitulada “O Meu Poema é Isto - Poesia Reunida”, de Rui Duarte Rodrigues, num trabalho elaborado pelo linguísta Luís Fagundes Duarte. Saúde-se e torne-se, então, a ler poemas de um tempo em que a infância se perdia para sempre e os sonhos consumiam-se nos corpos juvenis que se tornavam velozmente adultos: “Os meninos/ morrem dentro dos homens/ na volúpia escaldante de corpos pegajosos/ em negros e agudos penedos dos profundos abismos do desengano/ na luta do pão/ mel a escorrer das fontes de servidão/ os meninos/ morrem dentro dos homens/ à carícia cada vez mais nostálgica do sol-poente / à descoberta do segredo guardado e resguardado/ e afinal efémero, fortuito e banal.”. A interrogação impõe-se: será que ainda podemos renascer? 

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Em Escuta...

   Este é um disco-documento daquilo que se passou no Ljubljana Jazz Festival,  em 1970, 1972 e 1973, registado pela Radio-Tv de Ljubljana, capital da Eslovénia.
   O disco abre com o piano de Bill Evans que anuncia “Nardis”, tema de Miles Davis, em quinze minutos de jazz deambulante entre Eddie Gomes no baixo e Tony Oxley na bateria. Na segunda faixa deste lado A escutamos o clássico de Williams “Monk” - “Round About Midnight”, aqui na voz de Karin Krog e o baixo de Arild Andersen. O Lado II é ocupado com o tema “Sonny´s Back”,  assinado por Grachan Moncur, e conta com as presenças de Archie Schepp (saxofone tenor), Dave Burrel (piano) Don Garret (baixo), Suzanne Fasteau (percussão) e Mahammad Ali (bateria). O disco termina com uma faixa intitulada “The Creators”, pertença de Herbie Lewis, e que conta com os músicos Bobby Hutcheson (vibrafone), Harold Land (saxofone tenor), Hal Galperp (piano), Reggie Johnson (baixo) e Joe Chambers (bateria). Jazz em estado puro.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Mano a Mano: Inspiração nas Sombras

    A dupla começou o concerto de forma discreta sem qualquer apresentação num diálogo de guitarras com as sombras a surgirem por detrás do palco, visíveis através da performance de Tiago Martins. Os músicos de “Mano a Mano” são os irmãos André Santos e Bruno Santos que tocaram o tema inicial "Caixa de Música - o Baile do Anjo",  enunciando desta forma um tributo carregado de sons extraídos de cordas ao desafio. Estamos, por isso, em Janeiro, e foi preciso esperar por “Agitações”  para que o ambiente aquecesse, sendo que a toada musical fosse  crescendo com a faixa "Sol e Sombra", até começarmos a ouvir a voz de Lourdes Castro em “Murmúrios do Mar Embalam os Calhaus” ou ainda o poema “Lourdes Castro – Rua da Olaria” no tema “Uma espécie de Pacto”, na voz do poeta José Tolentino Mendonça. O espectáculo terminaria da melhor forma num tema intitulado "Ein Herz", uma cadência repetitiva de baixo com o gravitas sonoro em crescendo, faixa composta por André Santos, sendo a mais intensa e perfeita para fechar este inspirado tributo à artista Lourdes Castro. 
      No final, os músicos deslocaram-se à entrada da Blackbox para assinar o disco “Trilogia das Sombras”, um objecto gráfico pensado e elaborado pela artista plástica madeirense, Carla Cabral.