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quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

"notas sobre um naufrágio" de David Enia

"Alguém tentou remar, usando os braços por cima da borda. Alguém saltou para a água, tentando arrastar o bote a nado.
Um homem de quarenta anos aconselhou Bemnet a não se lançar ao mar, a não remar com os os braços, a ficar quieto, a poupar todas as suas energias, a não gastar forças.
Soou quase como uma ordem.
Bemnet decidiu dar-lhe ouvidos.
Alguém tinha a garganta tão seca que tossiu sangue.
Alguém, transtornado com sede, bebeu água do mar.
Verificaram-se as primeiras agonias, seguiram-se os primeiros vómitos, dentro e fora do bote.
Surgiram os primeiros casos de alucinação e os primeiros desmaios."

Edições Dom Quixote, 2021.

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Exageros

         "O Alfredo atirou o jornal ao chão, irritadíssimo, e virou-se para mim:
        -Estes jornalistas! Passam a vida a inventar coisas, é o que digo. Então não afirmam que, no Sardoal, foi encontrado um frango com três pernas! Vê lá tu! É preciso descaramento.
        Ajeitou-se melhor no sofá e, realmente indignado, coçou a tromba com a pata do meio."

in Obras Completas de Mário Henrique Leiria, E-Prematur, 2017. 

quinta-feira, 14 de maio de 2020

Da Clareza

A clareza é a delicadeza do homem das letras.
                                                                                 Jules Renard (1864-1910)

domingo, 7 de outubro de 2018

A Fauna e a Flora

A fauna e a flora modelam-me os traços. Há uma ligação onde estou e o que sou, e um questionar o outro. Depois de sair de um lugar pergunto-me o que mudou em mim, que qualidade de paladar ou tacto, que tom, que subtil alteração ocorreu na forma de estruturar o pensamento.

Alberto Manguel

sexta-feira, 22 de junho de 2018

Raízes

"O enraizamento é talvez a mais importante e menos reconhecida necessidade da alma humana."
Simone Weil

sábado, 14 de janeiro de 2017

Os Pescadores de Raul Brandão

       "Quando regresso do mar venho sempre estonteado e cheio de luz que me trespassa. Tomo então apontamentos rápidos - um tipo – uma paisagem. Foi assim que coligi este livro, juntando-lhe algumas páginas de memórias. Meia dúzia de esboços afinal, que, como certos quadradinhos ao ar livre, são melhores quando ficam por acabar.
      Estas linhas de saudade aquecem-me e reanimam-me nos dias de inverno friorento. Torno a ver o azul, e chega mais alto até mim o imenso eco prolongado…Basta pegar num velho búzio para se perceber distintamente a grande voz do mar. Creou-se com ele e guardou-a para sempre. – Eu também nunca mais esqueci…."

Raul Brandão, Os Pescadores, 1924, Bertrand Edições.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Das Pessoas

"Descobri que não se deve adiar uma palavra, um sorriso, um olhar, uma carícia. Como me doía não ter dito(...) tudo, não ter feito confissões extremas. Eu percebia, ali, que nós olhamos tão pouco as pessoas amadas."
Nelson Rodrigues

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Do Prazer

O maior prazer que alguém pode sentir é o causar prazer aos seus amigos.

Francois de Voltaire (1621-1695)

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Da Cultura

            "São necessários anos de leitura atenta e inteligente para se apreciar a prosa e a poesia que fizeram a glória das nossas civilizações. A cultura não se improvisa."
Julieen Green (1900-1998)

domingo, 17 de julho de 2016

Da Desventura

"Nas desventuras comuns, reconciliam-se os ânimos e travam-se amizades."
Miguel Cervantes

segunda-feira, 9 de maio de 2016

"Maio" de Raul Brandão

      "Já rebentaram as fontes. Toda a terra se agita, viva, dentando cá fora o seu sonho. Dir-se-ia que sob o chão que pisamos correm rios de tinta que transbordam, subindo nos troncos, cobrindo-os de roxo, de branco, de púrpura e verde…. Vai por esse mundo um deboche de cor. As plantas aparecem-nos na mais linda toilette, os bichos vestem as suas roupas mais ricas. Não há princesa na terra que possua tão maravilhosos tecidos, sedas, oirescências, desenhos, aplicações de igual beleza e juntamente de fragilidade tamanha…. Vi ontem uma vespa a passear numa pétala de rosa…. Tinha caído um desses aguaceiros de Primavera rápidos e precipitados – mas logo o céu correu a jorros, dourando a terra.
(…) O português, que é sempre um poeta, tem esta falha – não ama as flores. Em qualquer canteiro se podem criar obras de prodígio; a mais mesquinha terra é fácil de converter-se em sonho. Pois vê-la-eis estéril e abandonada. Há neste doce país o desprezo da flor – a não ser que ela se possa trocar em moeda corrente. Não é raro vermos numa praça pública abater-se sem protesto uma árvore. É até vulgar!.... Quando uma árvore começa a ser bela, esgalhada e enorme, cheia de ruídos e de sombra, surge o vereador e corta-a, sem imaginar, sequer, que mais vale um simples e humilde plátano do que um conselheiro de Estado. O político é inútil…. Faz mais diferença à natureza o assassinato de uma grande árvore, que dá sombra e frescura, que a alta missão de purificar a atmosfera, do que a morte de meia dúzia de conselheiros de Estado gravíssimos e calvos. Perdoem-me!...
Ah sim! Maio, não era? Era de Maio que eu vinha falando?.... Já rebentaram novas fontes e não há valado, carreiro de aldeia onde não cresçam lírios selvagens, lindas florinhas graciosas e humilíssimas…. As raparigas cortam-nas, enfeitam com elas os cabelos e os seios – e riem, coram, se as olhamos. Só na cidade não há flores. Ontem, ao entardecer, deparei na rua com este caso enternecedor e banal. Nem já se diferenciavam as ressequidas. Uma triste rapariguinha que passava, descalça, de saia rota e cabelos ao vento, apanhou-as da poeira. Sacudiu-as e pondo-as no peito, partiu a cantar numa satisfação imensa, alegre como um pássaro.
Era decerto condão das flores – mas também de Maio que chegou, com a sua magia e o seu sonho. Rebentaram novas fontes, e a terra di-la-eis agitada e viva. Sob o chão que calcamos correm rios de tintas que transbordam e cobrem de árvores de roxo, de púrpura, de verde."

in Brasil-Portugal, Lisboa, 16 de Maio de 1901, pp.125-126- Tb. In Vimaranense, Guimarães, 5 de Maio de 1917, p.1. Retirado do livro A Pedra ainda espera dar flor, dispersos. Raul Brandão (Organização Vasco Rosa).

sexta-feira, 1 de abril de 2016

5 x Novalis

-“Os órgãos do pensamento são as partes genitais da natureza.”
-“A vida é uma doença do espírito, uma acção apaixonada.”
-“Os jornais são já livros feitos em comum. “O escrever em comum” é um sintoma interessante que faz prever um grande aperfeiçoamento na arte da escrita. Talvez um dia se escreva, se pensa, se aja em massa. Comunas inteiras, países, empreenderão uma obra.”
-“Muita gente se agarra à natureza porque, como meninos mimados, têm medo do pai e procuram refúgio perto da mãe.”
-“Pode haver momentos em que um abecedário nos parece poético.”

Frederico Lopoldo de Hardenberg dito Novalis in “Fragmentos” – Tradução de Mário Cesariny.

quinta-feira, 24 de março de 2016

3 x Novalis

-"A poesia é o real absoluto. Isto é o cerne da minha filosofia. Quanto mais poético, mais verdadeiro."
-"Todo o objecto amado é o centro de um paraíso."
-"O mar é uma essência líquida de rapariga."

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Somos a Língua que Falamos

          “Todo o grupo que seja objecto de preconceito tem isto a dizer: somos a língua em que somos falados, somos as imagens em que somos reconhecidos, somos a história que estamos condenados a recordar porque fomos impedidos de ter um papel activo no presente. Mas somos também a língua em que questionamos estas suposições, as imagens com que invalidamos os estereótipos. E somos também o tempo em que vivemos, um tempo do qual não podemos estar ausentes. Temos uma existência própria e já não queremos continuar imaginários.”
Alberto Manguel

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Errores non Falsos

            (..) A verdade é o que consideramos real, mas precisamos da mentira poética, a mentira que diz a verdade profunda para entender a realidade. Sabemos o que é uma guerra, podemos ter estado numa guerra, ter-lhe sobrevivido, mas é a Ilíada que nos ajuda a pôr essa experiência em palavras, a focá-la. A experiência concreta, material, é demasiado complexa. Precisamos de inspiração poética para extrair dessa experiência um novo sentido. O que Dante chama “errores non falsos” são as invenções poéticas que são verdadeiras num sentido profundo.”
Alberto Manguel

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Uma Experiência com Riscos

         "Quando escrevo falo da minha experiência porque é o material que tenho. Unamuno dizia que falava dele porque era o que tinha mais à mão. O me interessa é converter a minha experiência numa experiência de todos os leitores. Isso tem riscos, mas quem não quer correr riscos não é escritor."
Javier Cercas

sábado, 18 de abril de 2015

O Céu que nos Protege (II)

         "Acordou, abriu os olhos. O quarto pouco ou nada lhe dizia; ele estava profundamente imerso na consciência donde acabara de vir. À falta de energia para determinar a sua posição o tempo  e espaço faltava-lhe o desejo disso. Estava algures, regressara de parte nenhuma através de várias regiões; no fundo da sua consciência havia a certeza de uma infinita tristeza, mas uma tristeza tranquilizadora, familiar. Não precisava de outro consolo. Nesse conforto, nessa tranquilidade, repousava, entretanto, tão absolutamente calmo, mergulhando depois num daqueles sonos leves, momentâneos, que acontecem após um prolongado, profundo sono. De repente, voltou a abrir os olhos e consultou o relógio de pulso. Não foi mais que um acto reflexo, pois ao saber as horas continuava confuso. Sentou-se, observou o quarto espalhafatoso, levou a mão à testa e, suspirando profundamente, deixou-se cair na cama. Mas agora estava desperto; alguns segundos depois já se sabia onde se encontrava, que era o fim da tarde, que dormira o som das chinelas sobre o chão liso, de ladrilhos, e esse som confortava-o, agora que atingira outro nível de consciência, em que a mera consciência de estar vivo não era suficiente. Mas como era difícil aceitar aquele quarto alto, estreito, com o tecto de vigas, os enormes e patéticos desenhos, estampados em cores neutras à volta das paredes, a janela de vidro vermelho e laranja, fechada. Bocejou: não havia ar no quarto. Mais tarde saltaria da cama alta, abriria a janela de par em par, e então lembrar-se- ia do sonho. Sim, apesar de não se lembrar de nenhum pormenor, sabia que sonhara. Do lado de fora da janela haveria ar, telhados, a cidade, o mar. Quando contemplasse o vento do anoitecer refrescar-lhe-ia o rosto, e nesse momento o sonho estaria lá. Agora só lhe restava ficar onde estava, deitado, respirando lentamente, quase a cair de novo no sono, paralisado naquele quarto sem ar, não à espera do crepúsculo mas deixando-se estar como estava até que ele chegasse."

in“O Céu que nos Protege”(The Sheltering Sky) – Paul Bowles, 1949

quinta-feira, 2 de abril de 2015

"O Céu que nos Protege" de Paul Bowles

O escritor Paul Bowles

      "Na mesa do canto mais escuro estavam sentados três americanos: dois homens novos e uma rapariga. Conversavam tranquilamente, e com modos de gente que tem todo o tempo do mundo para tudo. Um dos homens magro, de rosto ligeiramente crispado e ansioso, dobrava um dos grandes mapas multicolores que estendera pouco antes sobre a mesa. A sua mulher observava os movimentos meticulosos que ele fazia, com gozo e exasperação, os mapas aborreciam-na, e ele estava sempre a consultá-los. Mesmo durante os breves períodos de estabilidade das suas vidas, e que raros tinham sido desde o casamento doze anos antes, bastava que ele visse um mapa para estudá-lo apaixonadamente e se metesse, quase sempre, a planear qualquer nova viagem impossível, mas que eventualmente podia tornar-se realidade. Não se considerava um turista; era sim um viajante. A diferença reside em parte no tempo, explicava. Enquanto o turista geralmente está com pressa de voltar a casa ao fim de algumas semanas ou meses, o viajante, não pertencendo mais a um lugar do que a outro, move-se lentamente, ao longo de anos, de um lugar da terra para outro. Na verdade, era-lhe difícil afirmar, entre tantos lugares onde vivera, em qual deles se sentira mais em casa. Antes da guerra fora a Europa e o Próximo Oriente, durante a guerra as Índias Ocidentais e a América do Sul. E ela acompanhara-o, sem repetir demasiadas vezes ou demasiado amargamente as suas queixas. Nesta altura tinham atravessado o atlântico pela primeira vez desde 1939, com muita bagagem e a intenção de se manterem afastados todos o mais possível dos lugares de guerra. E assim fora, porque, pretendia ele, outra diferença importante entre o turista e o viajante é que o primeiro aceita a sua própria civilização sem questioná-la, enquanto o viajante, ao compará-la com outras civilizações, rejeita aquilo que não gosta. E a guerra era um aspecto da era mecânica que queria esquecer."

in “O Céu que nos ProtegePaul Bowles, 1949, trad. José Agostinho Baptista