sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Açores

                                                         I
  "Entretanto, tudo em Portugal se detiorou, sobretudo o verão. Ou pelo menos assim pensava, até que a Fátima e os Açores surgiram como hipótese de fugir à grunhificação do nosso litoral e caminhar para zonas líquidas de outra intensidade. Descobri nos Açores o Portugal que julgava perdido e nunca mais abandonei essa pacificação de viver."

                               II
"Tudo cansa menos que na Horta, mais húmida, aparentemente mais cheia e, contudo, menos dotada de abundância, os iates trazem consigo uma gente mais boçal, há um café de ademanes turísticos por junto de  armazéns  dos Bensaúde onde estes labregos das ondas se juntam, um espaço desagradável com um comércio de osso, fotografia e isqueiro, um pouco para o porto como as loja bentas para o santuário de Fátima."
                                               
                                                                                       III
"(...) O Corvo de Raul Brandão, como os Açores de Raul Brandão, há muito que deixou de existir. Com a chuva, a luz da água que tombava nas encostas, na cercania do porto ficava mais nítida do que com o sol. Comecei a despedir-me dos palheiros, ao cimo, à direita, pelo alto de Vila Nova, e no porto, quase rente às hélices, as crianças nadavam e gritavam e viam partir lanchas como a nossa para a pesca, para a vida sem Deus. Não era um éden; era uma terra que queria viver  e o tentava fazer bem. Talvez um pouco monótona, talvez com enraizados pré-conceitos, mas com rádio local, com vídeos, como na Amadora ou em Rio Tinto ou em Torre de Dona Chama- sem a agressão de uma sociedade do anonimato, com as agressões de uma sociedade de vizinhos. Sobretudo, com as mesmas formas de morrer."
                      Joaquim Manuel Magalhães, Do Corvo a Santa Maria, Relógio de Água, 1993

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Teatro

O jogo não é fácil
há um aviso logo à entrada
no seio da farândola noctívaga
até à canada deserta de acesso interdito
fogo ébrio em angra de mar
o porta estandarte do gerúndio
de volta ao palácio no alto da luz iluminada
não adormeças cedo em letargia dominante
navegar à flutuante ilha em alto mar
ateador esforçado de litanias sem cardápio existencial
velha e incessante transumância
redobras atenção ao ouvido
na primazia do homem com a tez de salitre a perorar:
-queres polvos, leãozinho?

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Tempo de Experimentar

"2: Sagrado, Profano"

        O Experimentar Na M'Incomoda tem novo disco, desta feita intitulado "2: Sagrado, Profano" e que teve a sua apresentação pública no teatro faialense, Ilha do Faial, no passado dia 9 do mês de Novembro. O segundo disco volta a juntar Aurora Ribeiro, Zeca Medeiros, Pedro Gaspar, "Pietá" Pedro Machete, Jácome Armas e, agora a voz de Mi, cantora sueca. É mais um capítulo da reinvenção da  tradição e acrescenta à música dos avós as tecnologias deste tempo acelerado. Adiciona deste modo vários pontos de vista  à  paleta sonora musical existente, refaz os temas com muitas camadas, samplers e maquinaria envolvente. Retoma, inclusive, de forma arriscada e intuitiva o trabalho efectuado por músicos como Carlinhos Medeiros e José da Lata. Quem ouve à primeira vez não escapa à ínclita descoberta, ao trabalho de divergência e mistura da música insular bem como se expõe à enérgica investida da invenção e cumplicidade com estes "novos temas tradicionais". Desde os temas "sagrados" "São José a Caminhar" e "Interlúdio: Cantar ao Divino" às profanas "Lira" e "Sol" - com a voz de Pietá - tudo serve para Pedro Lucas revirar a batida e voltar a dar... com respeito (ou falta dele?) e intensidade. Em Novembro houve apresentações do disco ao vivo (15, Music Box), em Lisboa e (17, Passos Manuel) no Porto. É, sem dúvida, tempo de experimentar...

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Arquitectura

Amanhã é outra vez sábado
o nosso encontro é num plano inclinado
linhas e traços de cariz festivo 
assim como quem não quer a louça
carregar livros por ruas de subida inóspita
descer com as compras Outono/Inverno
o medo é o saldo do futuro hipotecado 
virar páginas coleccionar gravuras 
a fotografia é o pintor sem fantasia
paga-se fim de semana com sossego
quanto é que tiraram do bago?
Amanhã é outra vez sábado 
entrar em casa habitualmente 
realizar educada saudação do dia 
a cabeça finda a noite não desliga 
afogam-se glândulas no mergulho
a coluna a amparar a rapariga 
e um estranho clarão disseminado. 


La Tendresse

«Somos dois a envelhecer 
contra as bordoadas do tempo
Mas quando vemos chegar
a morte trociscta 
sentimo-nos sós»


Jacques Brel
       "Gosto da ternura. Gosto de dar e receber. Mas, de um modo geral, todos temos falta de ternura, sem dúvida porque não ousamos dá-la nem recebê-la. Sem dúvida, também, porque a ternura devia vir dos pais, e a família já não é o que era antigamente. A ternura esvai-se dia a dia e o drama é que não há nada que a venha substituir. As mulheres, em especial, já não são ternas como antigamente. O amor é uma forma de expressão da paixão. E a ternura é outra coisa diferente. A paixão desaparece mais cedo ou mais tarde, mas a ternura é imutável. Existe concretamente. Tenho a sensação de ter nascido terno. Penso que aquilo a que eu chamo amor nas minhas canções é, na realidade, ternura. E sempre o foi, mas só agora começo a aperceber-me disso."

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Diários de Angra II

A Recolha das Batatas, 1898, Óleo sobre tela,
Paris, Museu d'Orsay
  Procuro por aqui sinais da existência do pintor José Júlio de Souza Pinto. O pintor nasceu  em Angra do Heroísmo, a 15 de Setembro de 1856 e era filho do Dr. Lino António de Souza Pinto, natural de Valongo, e de Ana de Sousa Loureiro, da freguesia da Sé, no Porto. O seu irmão, António de Souza Pinto, também se dedicou à pintura. Descubro assim que viveu nas ilhas atlânticas até aos catorze anos, para além dos primeiros anos na Ilha Terceira, passou por Santa Maria e São Miguel. No Museu de Angra do Heroísmo há alguns desenhos dele mas, segundo vozes avisadas do museu, não há qualquer referência na obra deste à sua vivência na ilha Terceira. E pergunto: o que é que terá acontecido? Primeiro, a ausência de referências na obra do pintor ao seu local de nascimento e crescimento, por outro lado a inexistência por aqui de uma obra, uma rua, uma placa evocativa da sua origem terceirense. É curioso que este tenha pintado "A Volta dos Barcos" aos trinta e cinco anos...

Do Alexandre, fotógrafo.


       Era filho de um poeta maior da língua portuguesa que, devíamos saber, pelo menos dez poemas, de cor e salteado: Alexandre O´Neill. Acrescentamos o nome Delgado - era filho de Noémia Delgado - primeira mulher do poeta - e temos Alexandre Delgado O´Neill de Bulhões. Aqui está um fotógrafo português do século passado, desaparecido prematuramente aos 37 anos mas que antes esteve nas ilhas açorianas a fotografar a pesca ao atum e a caça ao cachalote. Em 2007, a editora Assírio e Alvim lançou o livro de fotografias "Reportagem nos Açores", com um prefácio de Alfredo Saramago que nos conta o seguinte: "O Alexandre, ao longo da sua curta existência, entendeu que a fotografia era um meio caminho entre o mítico e o místico e que, na maioria das vezes, o fotógrafo não passa de um sedutor de imagens."

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

À Terceira Ilha: o olhar lento do viajante

 No culminar do Outono chega-se à Ilha Terceira de avião, com uma gare do aeroporto completamente deserta, típica de um domingo insular. O destino inicial é São Mateus, àrea rural na zona envolvente de Angra do Heroísmo, composta de colinas e pequenos vales, nascida desse contraste entre a forte ruralidade e a evidente presença do mar. Passagem, no entanto, obrigatória pelo centro histórico da cidade de Angra do Heroísmo, a caminho de completar no próximo ano as suas três décadas de património da Humanidade, declaradas pela UNESCO no ano de 1983. À chegada a São Mateus avista-se a sua acolhedora e agradável baía com os barcos encostados ao porto e pescadores olhando o horizonte em descanso domingueiro.
Regresso nos dias seguintes à cidade de Angra que se abre ao fascínio da arquitectura, a sua vetusta e assinalável personalidade, o seu impulso desenhado ao longo de séculos e o seu conjunto arquitetónico rico e diversificado. O início deste périplo é pela Sé Catedral, a sede da religiosidade do arquipélago, exemplar da arquitectura filipina acrescentado a uma igreja gótica do século XV, fustigada pelo terramoto de 1980 e mais tarde por fogo posto, tendo a sua reconstrução permitido respeitar a traça original. Uma simpática senhora dá-nos a ver a capela-mor, repleta de pinturas e pratas do séc. XVII e ainda a sacristia com móveis de jacarandá, avistamos também a parede composta por uma galeria de retratos a óleo dos prelados diocesanos. E nem só do passado regurgita a arquitectura de angra, já que o século XX trouxe consigo o Palacete Silveira e Paulo, durante muitos anos a Escola Comercial de Angra, obra arquitectónica do mestre micaelense João da Ponte, característico da imponência visual ao cimo da Rua do Galo, actualmente a casa da Direcção Regional da Cultura. Atravesse-se desta feita o centro da cidade para chegar ao edifício do Centro Regional de Segurança Social pertencente ao arquitecto da "geração moderna", Raul Chorão Ramalho, numa obra moderna e singular, aberta à luz e ao encontro. E se fosse necessário confirmar a enorme vitalidade cultural angrense, nada melhor do que confirmar in loco o leque variadíssimo de actividades de pendor reflexivo e artístico, num único fim de semana preenchido pela filosofia, teatro e música. Tempo, portanto, para assistir ao Colóquio Internacional Comemorativo do Dia Mundial da Filosofia, sob o signo de "A Filosofia, Hoje", organizado pelo Centro de Estudos Filosóficos da Universidade dos Açores, que teve enquanto oradores personalidades variadas: Viriato Soromenho Marques, João Branquinho, Marcelino Agís Villaverde, Magda Costa Barcelos, Nuno Ornelas Martins, entre muitos outros presentes no Pico da Urze. Depois foi a vez de assistir na sede do Alpendre à peça de teatro "Colmeia", num texto contemporâneo divertido, crítico e mordaz à sociedade e literatura light, evidenciando assim a necessidade de partilha do riso e do humor com a assistência. No foyer do Centro de Congressos de Angra do Heroísmo houve também atenção e reforçada expectativa para ver e ouvir o concerto de Luísa Alcobia, acompanhada ao piano por Grigory Grytsyuk, numa encantadora viagem pela música dos séculos com as partituras de Mozart, Schubert, Fauré, Luís Freitas Branco, o açoriano Francisco de Lacerda e, por último, Erik Satie.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Renovação de um Mundo Comum...

Hannah Arendt
   "A educação é assim o ponto em que se decide se se ama suficientemente o mundo para assumir responsabilidade por ele e, mais ainda, para o salvar da ruína inevitável sem a renovação, sem a chegada dos novos e dos jovens. A educação é também o lugar em que se decide se se amam suficientemente as nossas crianças para as não expulsar do nosso mundo deixando-as entregues a si próprias, para não lhes retirar a possibilidade de realizar qualquer coisa de novo, qualquer que não tínhamos previsto para, ao invés antecipadamente as preparar para a tarefa de renovação de um mundo comum."

PS- Da Hannah Arendt, claro.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Santo Amaro, sempre!

Santo Amaro (Foto FN)
    Em Santo Amaro, Ilha do Pico, conhecemos um homem, antigo construtor naval que, após nos oferecer queijo e vinho, nos disse: "Se o assunto for futebol, não sei dizer nada. Se quiserem falar de barcos, falarei convosco a noite inteira."

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Mar Imenso


Baía do Canto por FN

     "Sempre que regresso às ilhas atlânticas trago comigo o livro de Raul Brandão. Descubro na sua leitura livros e situações - na luz e no silêncio - coisas que me surpreendem, seduzem, fascinam. Mas é o convívio humano - olhares, gestos - e a sua generosa entrega, que me enriquece espiritualmente e aqui procurei evocar. O amor para com os outros é o melhor de nós. E é o melhor de nós que encontro no meio deste mar imenso."

Texto da exposição "Aproximações" da autoria do fotógrafo Jorge Barros, Casa da Cultura de Angra do Heroísmo.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Dívida Soberana



Albert Camus


"Hoje em dia, uma grande cidade é o único deserto ao nosso alcance."

Albert Camus

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Foguetório

Há uma violência feroz no ar e depois há o mar
diz a antena, o écran, talvez o radar
é tempo do sacrifício, ossos contínuos
do ofício, desafios, por fios silenciamos
anda ver arder em Agosto o nosso sol
como um desgosto todo o ano
ninguém ganha uma pátria por acaso
ninguém nasce aqui por engano
ter um país é ter uma casa e não
um acaso de que só agora acordamos
Os teus dedos dão o sinal
há uma mão que o teu cabelo penteia
o país do risco ao meio no mapa
pisa o chão e calcorreia sem limite
é esse o nosso único propósito
depositar esperanças no sol e no vento
correria louca dos santos e dos mártires
desperta em nós floração
Quem viu a semente ser lançada?
pequena lembrança de um gesto
um balão rebenta em cores
cavalo rosa move-se a planar
subirá, subirá, subirá
Há um miolo de festa na boca
coro entrelaçado de gente
cai no chão aquecido embrulhado
urgente despe-se à luz de um tecido
levanta-se o véu sem escarcéu
e teme esta secular resistência
defendendo o corpo a corpo
enérgico o toque do sono
dá toque a reboque e cresce
entrada tardia em cena
riso cândido não é derrota
é o carrossel da animação
há a rapidez ao rodar da estação
entrou o Outono terminou o verão
desce à tristeza vem à melancolia
caro contentamento do adeus, enfim,
vitória ao vento, bóias ao mar,
pintar o quadro romper o círculo
Como foi possível chegarmos aqui?
Trazemos duas tábuas nos braços
chove tanto em Penafiel
laço antigo guarda-chuva caído
janela entreaberta e espreitar
vestidos e cortinados à porta
um raio contínuo de luz que entra
o capacete barroco ilude a queda, a morte,
veloz tirania do tempo presente
impaciente volúpia que rasga
gradação incerta da luta
graciosidade humana da criação
explode em brilho até o foguete cair
nós? 
Existimos.


(texto escrito a 27 de Setembro enquanto assistia  ao espectáculo "Arraial" da companhia Circolando no Mosteiro São Bento da Vitória, com o sonoro apoio dos Dead Combo)

Associativos e Desempoeirados

      Quando não há ou o que existe não tem interesse, ou porque é muito caro e não é solidário, ou porque não gera nem se  multiplicam as  vozes, as pessoas juntam-se e fazem. Nestas associações há sempre muita carolice, muita invenção e dedicação bem como uma genuína vontade de marcar a diferença. Quem vai regularmente a Cedofeita, cidade do Porto, reconhece este empenho, para lá do lugar de convívio e encontro, identifica neste espaço da Associação Cultural Compasso uma abertura para a aprendizagem, a partilha de saberes e de intervenção social. Das aulas de blues, de permacultura,  yoga, sessões colectivas de poesia e de cinema, o espaço do Compasso é, essencialmente, um lugar aberto e dado à curiosidade e realização. Assim continue...