quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

(Fechou a Escola em Grijó)

Dantes enviavam-se as crianças a caminho da escola
e eram como pássaros de som nas manhãs de Grijó
Não eram muitas, mas as vozes joviais
davam sinais que a aldeia resistia,
continha à distância o deserto que as ronda
como a alcateia ronda uma rês tresmalhada.

Agora as crianças, todas as manhãs,
são acondicionadas como mercadorias
numa viatura com vocação de furgoneta.
Lembram judeus amontoados

em vagões jota a caminho de algures.
Vão aprender em terra o que os seus pais
E os pais dos seus pais aprenderam em Grijó.


A.M. Pires Cabral (Gaveta de Fundo, edição Tinta da China, Novembro de 2013)

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

"A História dos Açores" de Tiago Rosas

     Tiago Rosas realizou um pequeno filme de animação com o título “História dos Açores”, na totalidade dois anos de labuta continuada e intensa. Trata-se de uma curta-metragem de escassos dezoito minutos e onde podemos ver e ouvir em desenho animado uma visão/perspectiva histórica das ilhas açorianas através de diferentes épocas socioeconómicas. A voz da narração pertence a Zeca Medeiros que nos vai contando a cultura, as lendas, os mitos e as transformações ocorridas no arquipélago desde o povoamento até aos nossos dias. Saliente-se aqui a visão particular do autor do filme sobre a história do arquipélago – o retrato do período pós ciclo autonómico é nisso muito interessante e estimulante, tanto visual como narrativamente - conferindo assim um carácter e marca autoral à animação que é sempre salutar de manter. A produção é da Anfíbios e os textos de Magda Furtado são ditos de forma cuidada e atraente, não deixando por isso de ser rigorosos, o que seria pedagógico e motivo de curiosidade para a divulgação deste trabalho junto das escolas e dos centros de formação bem como junto de todo o público interessado nesta visão particular da História dos Açores.

À Deusa do Engano Hei-de Ir

A Deusa do Engano encena
atrai os incautos pela rua acima
pautados aventureiros do êxodo pela sede
cansados das agruras do mar
da labiríntica floresta cativos
a sedução não permite desistir
mensageira das delícias do bem-querer
desponta a luz na janela lá do alto
a casa iluminada cai
quase morre na artéria
Pedro Homem à medida desenhada
humana escala
loa à arquitectura
darandina presente de volantes
mínimos bordos sem vasteza
apelo e chegadaao leito da diva 
do demorado engano
à  sua pretensa 
infatigável morada

domingo, 12 de janeiro de 2014

As Nádegas

Picasso precisou apenas de quatro traços. Para desenhar o mundo.

Jorge Sousa Braga

Impressões

ao E.J.B

No Shopping Solmar dois poetas encontraram-se em pleno centro de cópias ambos possuíam problemas de impressão.

Autógrafos

1.

Eu acredito no meu pai
nascido em 1941
quando vem, de manhã, todo nu
tapar-me com um cobertor

Paulo Campos dos Reis

sábado, 11 de janeiro de 2014

NEPAL-A Verticalidade do Silêncio na Galeria Arco 8

     O  fotógrafo Pepe Brix, natural da Ilha de Santa Maria, nasceu em 1984 no seio de uma família com pergaminhos no mundo da fotografia. Recentemente viajou pela Índia e pelo Nepal acompanhado pela sua máquina fotográfica mais a sua determinação infinda de registar o que os seus olhos iam vendo e observando ao longo da viagem. Com o decorrer de tal empreitada foi descobrindo o aprumo dos gestos e do silêncio dos nepaleses, de tão magnificente geografia, bem como das suas paisagens e cultura. Pepe Brix apresenta agora as suas fotografias a preto e branco, patentes até ao dia 9 de Fevereiro na Galeria Arco 8. São imagens deste périplo nepalês com a entrega de quem viaja e a reciprocidade de quem recebe contando sempre com o particular ensejo de fixar os rostos e os olhares das gentes, do(s) modo(s) de vida à religião. O fotógrafo dá-nos a ler também os seus escritos bem como ainda o texto de apresentação desta exposição dedicada ao Nepal onde podemos ler que “o travo milenar da sua cultura confere ao país um núcleo magnético incrivelmente denso.”A abertura da exposição está marcada para as 22 horas da noite deste sábado.

Vânia Dilac: Cantora ou Diva?

         Vânia Dilac é diva das cantigas e das antigas pois tem o dom e a dádiva de encantar para quem tiver intenções de se deixar render e cativar pelo seu canto. Esta é, sem qualquer dúvida, uma voz desmedida, solta, com rédea livre de quem sabe que nada nem ninguém  pode travar aquele curso de águas cálidas que na sua voz habita na máxima energia e vitalidade. Por isso não lhe peçam grandes teorizações sobre os seus temas que interpreta – apenas que cante no auge da sua sinceridade vocal. Por mais que ela enfeitice com a sua voz este centro histórico da cidade de Ponta Delgada, em plena Travessa dos Artistas, com música sem muros nem ameias e, essencialmente, com o fervilhar da interpretação de temas de outros autores:“Blue Moon” de Frank Sinatra, “Fever”, de Peggy Lee, “Summertime”, de George Gershwin, “Sodade” de Cesária Évora ou “Halleluyah” de Leonard Cohen, é nos temas cantados em português que este ardente canto em tons de veludo ganha velocidade, espessura  e rumo. Acompanhada por Paulão (bateria) e Clayton (teclados) é, portanto, uma voz que propaga com rapidez  calor e chama neste Inverno frio e húmido. Ouvi-la a cantar Amália Rodrigues (“Barco Negro”), Paulo de Carvalho (“Mãe Negra”) ou Jorge Palma (“Frágil”) é acreditar que há um vulcão interior em ebulição pronto a expelir sons e trovas carregado dum eco feminino dolente e magoado, profundamente negro como a maioria das vozes da soul, a carimbar o timbre da sua alma africana. É de arrepiar quando  eleva a sua voz nas canções de Amália ou Jorge Palma,  naquele português misturado, modelado e mélico para de imediato lhe sentirmos a garra,  o enleio sonoro, o sentimento pujante em cada frase melódica. Uma pérola, evidentemente.
         Escutar Vânia Dilac é também um privilégio por podermos imaginar o quanto estará por vir já que aqui há qualquer coisa de vidro fino, delicado, um diamante em bruto por lapidar, e que é necessário preservar e cuidar enquanto ele irradia de fulgência e de brilho. A cantora  vive em São Miguel, bebe muita música soul e o blues num arquipélago que fica não muito longe do local de origem destes géneros musicais, sendo normal que  almeje voos mais altos ou  deseje cantar em outras paragens, palcos  e destinos. Entrementes, para uma cantora que absorve as águas cálidas da ilha há mais de trinta anos, ela nasceu em Moçambique, bem como sabe de cor e salteado as dores e as mágoas das nossas maiores cantoras que a precederam, bastava que cantasse e fizesse um disco pessoal com uma dezena de poetas ou cantores nesta língua que nos une para firmar e confirmar o seu talento neste tempo e espaço, o emergir de uma grande voz em território insular, tantos anos depois da fase de oiro das vozes femininas de 80/90 da música açoriana.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Filmes de Ingmar Bergman nas salas

Ingmar Bergman, Sven Nyqvist, Erland Josephson e Liv Ullman
     A Leopardo Filmes promove em Janeiro um ciclo de filmes do realizador sueco Ingmar Bergman nas cidades de Lisboa (Nimas) e Porto (Teatro do Campo Alegre). O país e os portugueses, agora apelidados de “suecos do sul”, terão uma oportunidade sem par de conhecer a obra deste superior criador da sétima arte. Dez filmes restaurados e um total de dezassete obras do realizador para ver em tela e depois passar  os dias e as noites a falar sobre eles. Está lá tudo o que é possível pensar sobre a alma humana e ainda as suas mulheres, todas elas de uma beleza singular e expostas enquanto actrizes como só ele as soube filmar, e por isso adivinharam ser as personagens que ele quis nos papéis mais dolorosos, intensos e impenetráveis –“Mónica e o Desejo”, “A Sonata do Outono”, “Lágrimas e Suspiros”,“Máscara” entre outros. Que júbilo poder (re) ver Liv Ullmann, Anita Björk, Ingrid Thulin, Harriet Andersson, Bibi Anderson ou Ingrid Bergman em papéis tão diferentes e desiguais mas com a nítida sensação e alguma certeza ao constatar que o cinema deste sueco, malgrado o seu desaparecimento recente, continua a ser uma excelente poltrona para pensarmos a vida e o mundo.

Entrevista, poema de Mircea Dinescu.

Aqui no campo está tudo bem e bonito
os princípios envelheceram um pouco
mas o álcool medicinal passado pelo pão rejuvenesce
e o médico recomenda-o para "uso interno".
Aqui o adro da igreja foi devolvido à agricultura
o porco mastigou a criança esquecida no berço
(de qualquer modo um e outro eram do Estado)
em geral está tudo bem aqui no campo
os pequenos vêem televisão de caneca nas mãos talvez dê leite
na rádio acabámos há muito a colheita
e em breve a acabaremos nos campos
em geral está tudo bem aqui no campo temos betão é bonito
se comprares o ovo na city
se a fábrica de chouriço deixar de piscar
o olho aos cavalos.

Aqui no campo está tudo bem
os bombeiros em geral põem fogo às casas é bonito
o tractor abre entre uns e outros
entre uns e outros um sulco profundo
está tudo bem e bonito.

Mircea Dinescu,  poemas, 1950, tradução de Rosa Alice Branco

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Batel

Não cheguei a roubar o coração
que fez mover o teu batel
juro que não fiz por mal
deixei-o intacto e sem mácula
talvez assim encontre o rumo
descubra finalmente sua rota
afinal era um barco de papel

Mosteiros: a Vera Ilha.

      “(…) mas estamos tão pouco
onde estamos”


José Tolentino Mendonça


         Foi inesperado e surpreendente aviso de poeta, pensei. Mas que havia de visitar um dia os Mosteiros, a vera ilha. E numa circunflexa e solarenga manhã de Janeiro cumpriu-se a visita a tão recôndita povoação. A negrura e o recorte dos Ilhéus e um céu pintado de azul claro mais o branco da espuma compõe a veracidade de tão magnífico lugar. O motor e o barulho das vagas na invernia e a proximidade das nuvens solidificam o cenário de um adormecido porto e com ele os seus barcos à espera que da bonança se possam aproveitar um dia  – um dos "boca aberta" tinha a denominação de Aristóteles – e a visão daquele rochedo  com o desenho de uma casa abandonada, a lembrar o Ilhéu das Cabras (agora percebo, amigo Rui), o sol de oiro ali derramado a lembrar a tua Terceira, a neblina que cai sobre as águas límpidas e cristalinas, como se tivessem a mesma forma  das rochas dos Biscoitos e a certeza de um tempo e inspiração que a qualquer momento retomem o seu curso, ainda que sem máquina fotográfica e apenas um bloco de apontamentos.

Aquoso

A minha cabeça é vagamente sólida
respiro como os golfinhos
afundo velhas carcaças no mar
é de prever que a quilha meta água.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Meia Praia

para o António Perdigão


Tentei ser pintor e o que vejo
não chega para uma única tela
atravesso o horizonte de olhos fechados
e escrevo o teu nome pela metade