quarta-feira, 1 de junho de 2016

3ª Sessão na Galeria Miolo

         
Fotografia de Carlos de Olyveira
Depois de duas apresentações, são cerca de cinquenta as pessoas que já assistiram, inclusive, houve quem quisesse repetir, voltaremos à Galeria Miolo no fim de tarde de amanhã, quinta-feira, dia 2 de Junho, pelas 19 horas. O João Malaquias, cada vem mais confiante, ensaia o texto de forma a melhorar a cada apresentação, exaltando a cadência e o baloiço repetitivo do texto : “Navegador solitário? Não. Nem pensar. Quando foi a primeira vez que olhaste o mar…quando foi? Lembras-te? Tenho que confessar-te que és, por vezes, um marinheiro à deriva, perdes-te com os teus olhos cheios de mar, levitas na sua grande beleza afirmativa e deixas-te encantar com a sua expressão no horizonte, inspiras-te tal e qual os poetas com as musas, mergulhas bem fundo nas águas, navegas à superfície, mergulhas novamente e vens à tona, reaprendes a boiar… vais tendo vários empregos, agarras-te às palavras como polvos na infância se agarravam às tuas pernas. Tu sabes que não podes cometer nenhum excesso. Percebes? Qualquer excesso agora pode ser fatal(…)” À Galeria/Editora Miolo que acarinhou e apoiou este monólogo, ao público que esteve presente e divulgou esta produção de baixíssimo custo e, que simpaticamente apelidamos de “Teatro Pobre”, estamos "teatralmente"gratos!

Douta Inquietude

Levaste contigo a locomotiva
douta inquietação a rasgar
as virtudes do vento e do azul
as linhas do céu plangente
cartas por escrever com destino certo
ruidosos dias estilhaçados 
de tudo o que se tem para dizer

João da Ponte, Ponta Delgada, 12 de Fevereiro de 2016.

terça-feira, 31 de maio de 2016

João da Ponte: Um Activista Cultural!

Clique na imagem para Ler
“A produção cultural em Lisboa é muito mais fácil de fazer, em certo sentido. Noutro sentido, tem muito muito menos interesse porque há muita gente a fazer. Vive-se, eu penso, muito mais de resultados do que aqui porque a competição é feroz, a concorrência é feroz. Aqui…quando nós começamos havia muita pouca gente a fazer coisas. Neste momento, há mais algumas, felizmente. Mas, continuamos a ser poucos e há espaço. E eu sinto que a pequena coisa que fazemos…, apesar de ser uma pequena coisa, com pouco impacto, porque não teve nenhum reflexo nos media, por exemplo. Apesar disso, valeu a pena…”

in “Causas por Amor”, entrevista a João da Ponte, produtor cultural, Revista Ilhas, Abril/Maio de 2002.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Porquê, João?

            O João da Ponte faleceu, diz-me o outro João. Dos amigos não apetece desconfiar do que dizem. Eu não quero acreditar, não consigo. A notícia é triste, demasiado triste.  O João é das pessoas que não devia morrer. O João com quem eu partilhava o fim da tarde no ¾, as noites de poesia na Tascà, com quem eu debatia cinema, política, teatro, futebol e tantas outras coisas que fazem com que a vida valha a pena. Sim, o João gostava de discutir sobre tudo o que estava relacionado com a vida. O João adorava viver. O João não devia morrer. E morreu. 

domingo, 29 de maio de 2016

3ª Sessão na Galeria Miolo

Cartaz de Victor Marques

Luz da Tarde

Fotografia: Tânia Santos
(Loch Ness, Escócia, 2016)

Resposta a Janeiro Alves no Maduríssimo Maio

Apreciei abundantemente a ligeireza e a desfaçatez da sua carta, amigo Janeiro. Começo, de facto, a ficar deveras preocupado com a sua falta de maneiras e inexistência de delicadeza da sua parte. Serão, porventura, esses solilóquios junto da natureza e da árvore de pinho que o fazem retroceder a essa força vital e primitiva de outros tempos? Velhos, sim, foram os tempos em que o amigo Janeiro se dirigia à minha pessoa com respeito e reverência. Um verdadeiro gentleman na arte de congratular-se pelas bolas para o pinhal que tantas vezes lhe ofertei em anteriores missivas. O que é que se passa consigo, meu bom amigo? Será a febre dos fenos e seus respectivos esbirros e espirros?
A verdade é que eu já desconfiava que o nome de “Janeiro Alves” pudesse estar por detrás do enredo e consequente desaparecimento de mais uma obra prima de Miriam Manaia.  O que eu não sabia é que por esse motivo o amigo Janeiro aproveitasse para viajar até à Rússia e apanhasse uma valente bruega de vodka na bonita estação de Moscovo. Dizem, amigos comuns, pertencentes à União dos Amigos de Eisenstein, que só faltou trautear Alfredo Marceneiro e o “Playback”, de Carlos Paião, dado o fervor pátrio em que o nosso amigo estava imbuído. E, por fim, ainda lamentou a nossa trágica sorte pela perda das antigas colónias e os filhos e filhas que lá deixamos num manto de saudade irreparável. Que triste, Janeiro Alves. O meu amigo talvez ainda não saiba, mas tive uma fase da minha vida em que, também eu, chorava baba e ranho quando me traziam uma garrafa de “groguinho” da Ilha de Santo Antão.
Deixe-me dizer-lhe que sim, é verdade. Estou mal, muito mal, amigo Janeiro, pois sofro de uma patologia para o qual soube há instantes não haver cura mas apenas uma terapêutica preventiva. Padeço, portanto, de papiromania…um vício ignominioso e obsessivo por papéis. A enfermidade é tal que me faz engoli-los ou devorá-los consoante o momento em que os vejo ou encontro. Acordo sobrevoado de papéis, deito-me com papéis e bebo a pensar ficar rodeado por estes que acabo a julgar que, também eu, estou mergulhado até ao tutano nos célebres papéis do Panamá. Nada a fazer, penso. Muito embora, a psiquiatra, a Doutora Alice Campos Ferreira, me aconselhasse uma terapêutica de substituição: abrir uma conta no Livro das Caras ou realizar diariamente três quilómetros de caminhadas junto do mar!
            Por último, espero que Janeiro Alves se encontre bem aí para os lados de Belém. Coma, portanto, um pastel de nata para diminuir a azia, o que certamente lhe fará bem às próximas missivas a enviar e ajudará nas competências sociais a desempenhar.  
Com um grande abraço de amizade,

Doutor Mara

terça-feira, 24 de maio de 2016

Amanhã, na Galeria Miolo, pelas 21 horas

Fotografia de Carlos Olyveira

        Depois de uma primeira apresentação em que não coube mais ninguém, chegamos, inclusive, a pensar repetir no próprio dia, iremos voltar à Galeria Miolo na noite de amanhã, quarta-feira, dia 25 de Maio, pelas 21 horas. O João Malaquias vai assim afinando o texto e repetindo de forma sistemática as suas repetidas derivações: “Será que podes controlar o que os outros pensam de ti? Não. Não podes controlar o que os outros pensam de ti. Não podes. Podes é parar de pensar sobre isso, pois podes. À tua frente, um espelho para olhar. Fixas o teu olhar no espelho. Espelho que em latim se diz speculum. Eis o teu reflexo nesta distância que vai de ti aos outros. Devolve-te agora uma imagem que julgas ser autêntica, verdadeira, real. Um espelho inclemente que te diz que vais envelhecendo a cada dia que passa.” Ao Vitor Marques e Mário Roberto, responsáveis pela Galeria/Editora Miolo, e  ao público e restantes pessoas que têm acarinhado e apoiado este monólogo, produzido enquanto espectáculo por apenas seis euros, champanhe incluído, o nosso mui obrigado!

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Missiva de Janeiro Alves neste Maio Maduro

Caro Dr. Mara,

À excepção do envio dos inevitáveis filetes de peixe, todo o conteúdo da última carta que lhe remeti no dia 1 de Abril não passou de um mero exercício de ficção, em nada correspondendo à verdade. Espero que tenha apreciado.
Gostaria de lhe dar uma explicação sobre o quadro subtraído da exposição da nossa amiga Miriam Manaia. Tratou-se de uma cabala, meu caro. Foi recolhido por um indivíduo que se fez passar por Janeiro Alves, mas que na realidade fazia parte de uma ala extremista da Máfia Russa sedeada em Volgogrado. Os meus capatazes puseram-me em contacto com o cabecilha, com quem encetei complexas negociações. Naquela mesma semana viajei para a Rússia com o objectivo de resgatar a obra de mãos criminosas, e a missão foi um sucesso. Não consegui trazer o quadro, mas fiz muitos amigos e diverti-me bastante por lá. Fui muito bem tratado, e no final ainda fui presenteado com um conjunto de bonecas russas em porcelana e duas garrafas de vodka.
Esclarecido este ponto, queria partilhar consigo o facto de me encontrar agora num período de reflexão, e de ter regressado à jardinagem. A complexa e fascinante geometria das plantas fornece-me concisas indicações de conduta, e alegres ilusões de beleza e proporção. No final, a frescura da erva cortada e dos ramos podados cintila no ar, e a passarada precipita-se harmoniosamente pelo jardim, comemorando uma espécie de libertação das trevas. Acredite Dr. Mara que este retiro me tem fornecido o vigor mental necessário para regressar com toda a pujança ao implacável relógio suiço que é a cidade onde vivo.
Mas deixemos para trás os pequenos trechos de quotidiano que salpicam a trajectória disforme da minha luta, e foquemo-nos em aspectos mais relevantes, e que têm a ver com a sua individualidade. Dir-lhe-ei desde já que me chateia, já para não dizer que me aborrece, o facto de saber de si sempre por interposta pessoa. Sei tudo sobre si, Dr. Mara, pese embora o facto de pouco me contar. Sei que anda muito ocupado na escrita, que escreve para cinema, para teatro e mais além, para si ou para alguém, de noite e de dia, à excepção de comer e beber, já não pára de escrever. Dizem-me que o vêem de vez em quando a passar meio apressado, com a barba por fazer, e com papéis a esvoaçar dos bolsos do seu casaco. Este seu invejável fulgor na escrita seria para mim motivo de regozijo em toda a plenitude do termo, não fosse a preocupante circunstância de o terem visto a entrar no consultório de um psiquiatra. O que se passa consigo Doutor Mara?

Com a mais profunda amizade,

Janeiro Alves

sábado, 21 de maio de 2016

Mar

Faz-se chamas com a fúria cava
de uma onda ou a táctil cobertura
de uma espuma

Começa em silêncio, embalando
uma canção de dentro, chamando
para a distância a promessa do reverso
afundado do mundo

Se digo mar
falo do homens que não passam
de sobras esquecidas para quem o destino
ilude, com um mais do que desesperado brilho
o recorte de um pesadelo
E acabam
com os corações
pescados ao largo de Lampedusa.

E não sei – nem sabem estes versos -,
como deixar que não seja o mar,
com o mesmo som sem lamento e sem delírio,
que traga mais ruína
à memória com que ainda se escreve Europa
enquanto regressa e acentua
a diferença entre tempo e eternidade
e me encontra à espera da manhã
a sua superfície em frente,
como se olhasse através do fim.

Rui Miguel Ribeiro, in “Mar”, livro de fotografia de Tiago Miranda.