domingo, 14 de maio de 2017

Do Poeta Misterioso

Fotografia de Carlos Olyveira 
        “Alexandre O´Neill permanece, pelo menos para mim, um poeta misterioso. Um grande poeta misterioso que entrou na língua portuguesa e nela ficou, autorizando-nos a usar como nossas e de todos os dias as palavras e expressões que ele inventou. (…) Leiam-no porque têm agora uma oportunidade de o ler numa bela edição da Assírio& Alvim, “Poesias Completas& Dispersos”, editada por Maria Antónia Oliveira, a biógrafa e investigadora do poeta. A edição integra os poemas das sucessivas edições na Imprensa Nacional das Poesias Completas de 1951 a 1986 (algumas coreografadas à luz de novo conhecimento) e de outro livro de poesia “Anos 70: Poemas Dispersos”, de 2015, recolha de Maria Antónia Oliveira.

Clara Ferreira Alves, in Revista do Expresso, 6 de Maio de 2017

Trespassados

        "Não vão ser só os portugueses a ficar muito pobres nos próximos dez anos. Até as raças superiores terão de conter despesas e isso pode ser uma vantagem para nós: mais pobres, os do Norte talvez se sintam tentados a trocar Bali ou Rajastão como destino de férias de praia ou "culturais" em favor de locais mais baratos: as praias e o património exótico situado nas traseiras das suas casas.Portugal pode ser um desses destinos caseiros de emergência e, em vez de investimentos em eólicas, ou seja de atirarmos dinheiro ao vento, devíamos dedicar-nos a melhorar as praias, o acesso às praias, os hotéis, os campos de golfe, o património histórico-artístico português...e a disfarçar o melhor possível a devastação da paisagem urbana e rural a que nos dedicamos com afinco há 50 anos."

Paulo Varela Gomes, in Público, 16 de Abril de 2011

sexta-feira, 12 de maio de 2017

A Terra Vista do Mar de Davide Enia

          
            "Tinha cinco anos. Era a primeira vez que nadava sozinho dentro dele. Eu. Dentro do mar. E ele. O mar: acolhia-me. Um abraço quente. E carinhoso. Estava tão contente eu. Tinha cinco anos. E depois. Eu mijei dentro do mar. Com todo o meu ser mijei dentro dele. Tudo estava tranquilo. À minha volta. Dentro de mim...que já perdi tantas memórias. Demasiadas. Mas ainda me lembro de quando tinha cinco anos. Eu. Estava a nadar pela primeira vez sozinho dentro do abraço quente do mar em Agosto. E mijei dentro dele, eu. Enquanto ele, o mar, nunca me pediu nada em troca, nem perguntou porquê, só o seu murmúrio sedutor e leve, as ondas delicadas, às vezes suspensas às vezes rebentadas, que murmuravam languidamente ao meu ouvido de miúdo: mija...mija...mija"

excerto de "A Terra Vista do Mar", Davide Enia, tradução de Letízia Russo edição Livrinhos de Teatro dos Artistas Unidos.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Tabacaria Açoreana

É esta a minha rua – decidi
eu, por razão nenhuma.
Um grupo local, já velho, discute
diariamente política nacional.
Indiferente, e não menos assíduo,
o cão branco ladra (ou pede afagos?)
na varanda por caiar da casa em frente.

E há tabacos, jornais, revistas,
uma espécie de jardim
onde os fantasmas se riem
da nossa rude e descrente democracia.

De quando em quando, um vulto
suspeito pede-me lume, light,
algo que já não «bruxuleia firme»
– ou os rigorosos vinte cêntimos
que prefiro recusar, num sorriso coxo.

O cão recolhe-se. Não se lembra
do tempo em que a Casa das Palmeiras
trazia fausto e povo rico a esta rua
que se tornou tão minha.

Mesmo que não regresse.

Manuel de Freitas, Portas do mar, edição do Autor, 2011, com capa e ilustração de Urbano.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

A Periferia da Periférica

“Neste sentido, é importante investir em iniciativas que façam a ponte entre quem aqui trabalha e que, no âmbito de uma residência artística, um workshop, uma formação técnica, ou simples conferência, partilhe conhecimento com quem está mais longe dos centros, onde este tipo de experiência é mais regular, está disseminada de forma mais abrangente e não se encontra reduzida a uma cadência pontual e para uma público circunscrito, como é o nosso caso.”


Alexandre Pascoal, in Açoriano Oriental, 8 de Maio de 2017 

domingo, 7 de maio de 2017

Chuvadas de Maio

Fotografia de Carlos Olyveira

A Ilha em Imagens

       
Francisco Afonso Chaves
Colecção Museu Carlos Machado
       Hoje é sábado e nem sombra dos volantes pés de Tatiana Grenkova no palco do Teatro Micaelense. Decidimos por isso esclarecer arrumações, asseio e demais organização de tudo aquilo que nos está em redor. Uma certeza: amanhã é domingo e, se não for para mapear e nutrir para dentro, isto é, desencantar e desarrumar o abecedário, alimentar memórias  e puxar o lustro às palavras pois não terá valido a pena a passagem das horas, ai esse tempo ceifeiro que em nós habita. Aqui mesmo ao lado, há também e, sobretudo, no Núcleo de Santa Bárbara, as fotografias de Francisco Afonso Chaves para (re) ver. É uma pequena parte das sete mil imagens do eminente naturalista que adorava fotografar, algum tempo após ter deixado Lisboa e se ter fixado no arquipélago,  residindo aqui a maior parte da sua vida. A exposição dá pelo nome de “A Imagem Paradoxal” e é uma experiência sensorial e visual riquíssima, essencialmente, quem desconhece ou até mesmo para quem conhece estas paragens. 

sábado, 6 de maio de 2017

As Mãos da Pianista

Concerto de Carla Bley, Steve Swallow e Andy Sheppard em Angra do Heroísmo 
Fotografia de Margarida Quinteiro (Festival AngraJazz 2013)

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Diogo Fonseca expõe no Hostel Out of Blue

   Diogo Fonseca inaugurou ontem a sua primeira exposição de fotografia no “Hostel Out of Blue”. Num corredor contíguo à sala de estar deste alojamento local estão expostas sete fotografias com o título conjunto “A Viagem”. As imagens exploram a ideia de périplo no perímetro insular, onde o grão adensa o mistério e a dúvida, marcados pelas intensidade e a textura das paisagens locais, evidenciando a pujança e tonalidade de formas e cores. Este trabalho fotográfico revela cuidado e intencionalidade prévias, visível nos suportes e disposição, sendo prenúncio de bons augúrios para promissoras propostas futuras. 

PS-As fotografias da inauguração desta exposição foram realizadas pelo fotógrafo Carlos Olyveira.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

"Amarcord" o filme da vida de Zeca Medeiros

Amarcord será exibido dia 27 de Maio
no Teatro Micaelense
Este filme de Federico Fellini foi realizado em 1973 e retrata Itália dos anos 30, a vida na cidade de Rimini e de um adolescente daquela altura. Num misto de ficção e realidade, pois trata-se das recordações do realizador, Amarcord é um quadro pitoresco e fantasmagórico  pré-segunda Guerra Mundial e onde se anuncia já a presença de Il Duce
Federico Fellini convocou para este filme a sua galeria de personagens extravagantes, dando assim a conhecer os tempos da sua juventude e a sua visão da Itália daquele período, contando para isso com a música evocativa, plena de imagens, de Nino Rota. O realizador explicaria alguns anos mais tarde, numa conversa com Damian Pettigrew, as razões que o levaram a realizar tal filme: "O Amarcord é uma reflexão sobre a incapacidade de observarmos criticamente o nosso passado fascista, um passado que recusamos, mas do qual nunca nos poderíamos separar: o que faz parte do passado de cada um de nós forma inalteravelmente uma parte íntima de si próprio. Por isso o Amarcord é mais um exame do presente do que uma nostalgia. Na realidade, quando foi estreado o Satyricon, muitos viram o filme como um comentário sobre o Maio de 68. Creio que filmes como Casanova ou O Navio podem ser interpretados como reflexos de uma certa actualidade, como o jornal da noite. (...) Muitas vezes simplifiquei o sentido cabalístico da palavra amarcord, dizendo que é um termo romagnolo e que significa "Lembro-me". Mas não é bem verdade. Penso que a ideia original me ocorreu depois de ter lido qualquer coisa sobre o sueco defensor do aborto Hammercord, e que a sonoridade do seu nome o ponto de partida. Se se juntarem as palavras amare (amar), cuore (coração), ricordare (lembrar) e amaro (amargo) obtém-se Amarcord."

"Car ma vie, car mes joies"*

*versos de "Je ne regrette rien" de Edith Piaf