sexta-feira, 28 de julho de 2017

Sobre a exibição de Cinema em São Miguel...

     “O encerramento de cinemas tem sido uma constante por todo o país, devido à profunda alteração dos hábitos de fruição cultural (e dos dowloads ilegais), por intermédio de uma plateia que não tem tempo a perder.
            Mesmo e apesar disto, os cinemas têm sido repescados como importantes elementos de revitalização dos centros históricos, não em formato multiplex, mas apontando a públicos mais especializados, exibindo aquilo que não tem lugar numa espaço mais massificado.
A recuperação do cinema Batalha, na cidade do Porto, com um projecto de arquitectura do mestre Alexandre Alves Costa, é um bom exemplo daquilo que devemos seguir, envolvendo, para o efeito, a comunidade local.
Apesar de Ponta Delgada ter recuperado a exibição comercial de cinema, o facto é que a programação existente não contempla uma série de opções, bloqueando o público cinéfilo acesso a uma maior diversidade.
Caberá ao exibidor privado garantir esse desígnio? Provavelmente não, na medida em que a sustentabilidade da sua actividade dependerá de um outro conjunto de acções. Simultaneamente, esta mesma opção afastará, paradoxalmente, um público potencial,
A cultura requer conhecimento, investimento e a criação de boas práticas. Sem um sólido desenvolvimento sócio-cultural, não será um plano (nem o Turismo) que o garantirá.”

Alexandre Pascoal, in Açoriano Oriental, 24 de Julho de 2017.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Rua do Quelhas 35.3º (Valsinha)

Morre-se devagar neste país
onde é depressa a mágoa e a saudade
ó meu amor de longe quem me diz 
como é a tua sombra na cidade

Morre-se devagar em frente ao Tejo
repetindo o teu nome lentamente 
cintura com cintura beijo a beijo
e gritá-lo abraçado a toda a gente

Morre-se devagar e de morrer 
fica a cinza de um corpo no olhar 
ó meu amor a noite se vier 
é seara de nós ao pé do mar 

Letra: António Lobo Antunes
Voz: Vitorino 
Música: João Paulo Esteves da Silva

sexta-feira, 14 de julho de 2017

A Melancolia Congénita

Fotografia de Carlos Olyveira
        "As janelas dos primeiros andares, logo acima das lojas e dos armazéns, são em geral guarnecidas com pequenas varandas de madeira entrelaçada, como nas janelas das nossas leitarias, pintadas de vermelho escuro, verde ou branco. Nas casas maiores vêem-se elegantes varandas de ferro. Pelas goteiras dos telhados escorre água em abundância e a telha da esquina toma frequentemente a forma de um pássaro de asas abertas, ou alonga-se para cima em comprida ponta. Os edifícios são caiados de branco e as ombreiras das portas, cantarias das janelas e cornijas ficam em geral da cor da pedra, cinzento-escuro ou negra. Os sapateiros trabalham sentados à entrada das portas, os alfaiates estão acocorados, o ferreiro com o ferro na rua, em frente da porta, cobre carvões em brasa. Os que eu vi sentados em bancos no interior das lojas, pareciam haver sacudido aquela melancolia congénita que lhes atribui, entregando-se a ruidosa alegria."

         in Um Inverno nos Açores e Um Verão no Vale das Furnas, de Joseph e Henry Bullar, escrito em 1838-39, numa edição do Instituto Cultural de Ponta Delgada, Ilha de São Miguel, Açores, 1986.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

A Mulher de Muitas Caras

Do sítio: www.garboForever.com
"Um velho preconceito condiciona, muitas vezes, o olhar dos espectadores de cinema sobre os filmes mais “antigos”. Por acção de uma cultura televisiva que tende a produzir ironia sobre qualquer manifestação artística a que não seja possível colar o rótulo de “actualidade”, tudo o que no remeta para épocas mais ou menos distantes é encarado como pitoresco, anedótico e, no limite, irrelevante.
O trabalho dos atores, por exemplo. De facto, não é verdade que o cinema mudo tenha sido habitado apenas por actores peritos em esgares mais ou menos histriónicos. Em primeiro lugar, a evolução da comédia até à eclosão do som, em finais da década de 1920, está longe de ser coisa banal ou desprezível; depois, os atores transfigurando desde os primeiros filmes que “reproduziram” a cena teatral até aos que, a pouco e pouco, souberam diversificar as escalas das imagens e enriquecer específico da montagem.
Nesse contexto, Greta Garbo (1905-1990) é um prodígio de versatilidade, subtileza e intensidade dramática. E não apenas porque passou, incólume, do mudo para o sonoro. Também porque toda a sua evolução revela um labor alicerçado na certeza d que a câmara de filmar, longe de ser um mero objecto de registo, é uma “coisa” que refaz as coordenadas do espaço e tempo, obrigando o actor/actriz a uma sofisticada arte corporal."


João Lopes, in “Açoriano Oriental” 13 de Julho de 2017

quarta-feira, 12 de julho de 2017

A Terra dos Homens

            “A terra ensina-nos muito mais sobre nós do que todos os livros. Porque nos resiste. O homem descobre-se quando se mede com o obstáculo. No entanto, para o atingir, necessita de uma ferramenta. Precisa de uma plaina ou de uma charrua. Na sua lavra, o camponês vai, pouco a pouco, arrancando alguns segredos à natureza, extraindo uma verdade que é universal.”
                                     in Terra dos Homens, Antoine Saint-Exupéry, edição Relógio d`Água (pág 11)

terça-feira, 11 de julho de 2017

Se eu Vivesse Tu Morrias no Teatro Micaelense

nós gostávamos que vocês
não nos lessem
ao mesmo tempo
que fazemos
gostávamos que vocês
em vez de nos lerem
ao mesmo tempo que fazemos
nos lessem
antes de fazermos
nós damos um tempo
para vocês lerem
e depois fazemos
e assim, por um lado, podem ler sem renunciar
a verem-nos fazer o que leram
e por outro lado
e isto é o mais importante
vocês sabem o que vamos fazer
É certo que podem preferir não saber
o que vamos fazer
e isso é perfeitamente compreensível
lerem previamente o que vamos fazer é como
se deixassem de estar aqui pela primeira vez
é perfeitamente compreensível que vocês
queiram ter a ilusão de que estão aqui pela primeira vez
sem saber o que vem
e ao que vêm.

mas para nós é importante
que saibam o que vamos fazer
é que se eu vivesse
(faz gesto com as mãos abrangendo todos)
tu morrias.

de Miguel Castro Caldas, sábado, dia 15 de Julho, 21h30, palco do Teatro Micaelense (Espectáculo integrado na 7ª Edição do Walk and Talk

Quando Foi que nos Sentimos Felizes?

“O que se transmitia assim, de geração em geração, com o lento progresso de um crescimento de árvore, era a vida mas era também a consciência. Que misteriosa ascensão! Surgidos de uma lava em fusão, de uma massa estelar, de uma célula viva miraculosamente germinada, vamos, pouco a pouco elevando-nos ao ponto de escrevermos cantatas e de calcularmos vias lácteas.
          A mãe não se limita a transmitir a vida: tinha ensinado aos filhos uma linguagem, tinha-lhes confiado a bagagem tão lentamente acumulada no decorrer dos séculos, o património espiritual que ela mesmo recebera como herança: esse pequeno lote de tradições, de conceitos e de mitos que constitui toda a diferença que separa Newton ou Shakespeare do bruto das cavernas.
        O que sentimos quando temos fome, aquela fome que impelia os soldados de Espanha, sob a chuva das balas, para a lição de Botânica, que impelia Mermoz para o Atlântico Sul, que impelia outro para o seu poema, é que a génese ainda não está concluída e porque nos falta tomar consciência de nós mesmo e do universo. Precisamos de lançar pontes na noite. Só ignora isto quem pensa que a sabedoria se estriba numa indiferença que julga ser egoísta; contudo, tudo desmente essa sabedoria! Companheiros, meus companheiros, tomo-vos como testemunha: quando foi que nos sentimos felizes?”
in Terra dos Homens, Antoine Saint-Exupéry, edição Relógio d`Água, (pág 140)

Um Verso de Konstandinos Kavafis

Quando de repente, à hora da meia-noite, se ouvir

Ontem, escrito numa parede da cidade

Não fazes um filho para andar toda a vida com ele ao colo.