sábado, 31 de março de 2018

Do Cinema Português

           
         "Não há dúvida que no cinema português dos anos 2000, alojado no coração da sua vitalidade produtiva e em alguns dos seus sucessos internacionais, vislumbramos os riscos de uma academismo daquilo que foi anteriormente, praticado por cineastas  muito conscientes do valor das exigências formais herdadas, hábeis no seu artesanato, e assim, portadores de um saber incontestável, também ele herdado. 
          No entanto, como o mostra o filme de Pedro Pinho A Fábrica do Nada, concluído na Primavera de 2017 e apoiado na inspiração e trabalho colectivo dos seus amigos da produtora TerraTreme, estas qualidades adquiridas (exigência formal, habilidade e saber de artesãos) podem ser convocadas por uma sinceridade criadora perante o risco de academismo, de modo a indicarem então a via de uma contra-tendência."


Jacques Lemière in  O Cinema Português em Écran Panorâmico, revista Electra, Março 2018.

quinta-feira, 29 de março de 2018

No teu amor por mim há uma rua que começa*

Fotografia de Carlos Olyveira
Vale a pena dessacralizar a poesia, mesmo quando é substituída pelos acordes do momento, acreditar que esta possa viajar em redor dos territórios mais inverosímeis da ilha, à semelhança do Tremor da passada semana, que é comentada, partilhada nos quartos, nos cafés, nas ruas, nas repartições, nas escolas, nos parlamentos e que é dita por cabeças pensantes, algumas tensas, outras esclarecidas e, até mesmo, as mais emotivas.
Houve, entretanto, na semana que passou, o Dia Mundial da Poesia com honras de poetas ditos e celebrados. Recentemente teve também lugar o Dia Mundial do Teatro e,  por aqui, houve quem  se atrevesse a encher a boca de baboseiras e continue a alimentar projectos megalómanos e afins, quando é tão raro vê-lo ou até mesmo fazê-lo. O Teatro é para ser feito! Não tem eco nem bandeira, os jornais e políticos pouco ou nada dão conta deste doloroso e apagado desinteresse. Por isso, relevante é continuar dizendo (e não declamando, que palavra horrorosa!) poemas nesta noite primaveril com a concentração sobre os livros pousados nas mesas de madeira desse pequeno estabelecimento com tradição de leitura poética. A rua onde isto se passa tem nome de antiga capital do reino, agora democracia europeia. Ou, então, soltar o ar do tempo nesta pausa pascal para simplesmente saber da vida, deleitar-se com as estrelas cadentes e fruir o esplendoroso luar de Março, pois o sol, sim esse astro luminoso, é garantidamente de Medeiros/Lucas.

*Ruy Belo, in "Aquele Grande Rio Eufrates".

quarta-feira, 28 de março de 2018

Tremor: Aguardemos 2019!


      Terminou a quinta edição do Tremor. E culminou no Arco 8 da melhor forma na alta madrugada de sábado o dia mais marcante deste acontecimento musical. Ao longo da semana já tinha havido os concertos surpresa do "Tremor na Estufa" e demais iniciativas espalhadas pelos mais variados lugares de Ponta Delgada e da Ilha de São Miguel. E o que nos apraz dizer deste evento? Os mais que merecidos parabéns e felicitações à organização e um desmedido obrigado aos músicos pelos concertos proporcionados. Ficam também outras propostas, tais como a exposição "Narcisismo das Pequenas Diferenças", de Pauliana Pimentel, o retrato duma juventude segundo a origem e o contexto social, ainda que sem pontes de contacto, a ver na Galeria Fonseca e Macedo ou ainda o filme “Levantados do Chão”, de Daniel Blaufucks, que nos comove pelo abandono do Hotel Monte Palace e o gesto soturno e delicado da Banda da Lira das Sete Cidades. Dos benignos e memoráveis momentos guardar-se-á tantos e diferenciados e, por isso, registe-se assim o concerto dos "10 mil russos" no Túnel das Sete Cidades, numa deriva sonora misturada  com a beleza da paisagem, ainda a cantora Baby Dee, na sua entrega solitária e encantatória, no Auditório Camões, ou os Snapped Ankles, num revivalismo electrónico e dançante, no belíssimo Teatro Ribeiragrandense. E...foi tão bom que custa pensar que só regressa no ano que vem.

sábado, 24 de março de 2018

sexta-feira, 23 de março de 2018

quarta-feira, 21 de março de 2018

Tremor: O Quinto já cá está!

Ontem começou o Tremor. É já a quinta edição. O primeiro dia teve lugar no Teatro Micaelense com a apresentação do festival pela organização, entidades públicas e demais promotores. A sala encontrava-se cheia de residentes e forasteiros para ver “Levantados do Chão”, esta primeira proposta realizou-se sob o signo do cinema e da música, onde vimos o fotógrafo Daniel Blaufucks juntar-se à Banda Lira das Sete Cidades para (des) alinhar a imagem mais o som na despedida do Hotel Monte Palace nas Sete Cidades. O autor não quis denominar de filme, ainda bem, pois as ditas “fotografias expandidas” valem pela ideia da ruína dum tempo em que só a natureza o altera. Os textos presentes nos créditos finais enunciam, portanto, uma visão do mundo que permanece e que, passados tantos séculos depois do povoamento, nada parece ter realmente mudado. As ruínas, a paisagem, o esmaecer das cores daquele edifício confirmam um "fazedor de imagens" de olhos bem abertos e ouvidos à escuta. Ali, sim, é a natureza que nos invade. No entanto, a duração deste propósito revelado pareceu-nos longo quanto à sua duração bem como a imagem assíncrona da banda com a imagem nem sempre resulte. Na parte de cima do teatro, retomar-se-ia a mistura com os músicos Rafael Carvalho, mestre na viola de dois corações, e Flip, amante dos sons electrónicos e experimentador, a esgrimir argumentos num diálogo sonoro imprevisto, evidenciando uma postura ambiciosa para uma proposta embrionária que ainda pode vir a dar frutos.
Por último, no já mítico Auditório Camões, o concerto dos regressados Três Tristes Tigres para dar conta do seu rock electrónico, com pendor na guitarra de Alexandre Soares (que garra e energia voltar a escutá-lo!) e a voz de Ana Deus, a relembrar temas de “Partes Sensíveis” (1993), “Guia Espiritual” (1996), "Comum" (1998) e "Visita de Estudo" (2001). Do álbum “Partes Sensíveis” recordaram-se canções como “Letra Morta” ou “Descapotável”, de “Comum” houve “Combat” ou “Motim” e ainda “Anormal”, “Kainever”, “Olho da Rua”, do álbum Guia Espiritual, onde não existiu lugar para o popular “Zap Canal”.
Hoje, quarta-feira, o tremor musical continuará, ao todo são cinco dias e trinta e nove concertos espalhados pelos sítios mais inusitados e inesperados desta ilha no meio do Atlântico. 

terça-feira, 20 de março de 2018

Uma Carta Surpreendente de Janeiro Alves para JB Malaca

Caro JB Malaca,

Depois de algumas noites sem dormir e gastos imprevistos em fármacos (ainda não é desta que troco de esquentador), decidi pôr fim à amplificação deste equívoco, que de tão caricato parece um neo-surrealismo abstracto. É realmente lamentável que sendo o meu amigo Malaca uma pessoa tão informada, não tenha ainda discorrido sobre a razão deste estrutural lapso. Farei por elucidá-lo, hoje que acordei imperturbado. Faça o favor de me seguir.
Não querendo pôr em causa a dignidade do meu caro amigo Doutor Mara, nem tampouco levantar falsos testemunhos, o que é facto é que essa sua conhecida mania de deambular pela cidade sempre com o seu sobretudo atestado de manuscritos importantes misturados com contas para pagar, o borda d’água, um ou outro paliteiro e papelinhos de embrulhar caramelos, um dia tinha de resultar mal. Como seria de esperar, houve uma tarde em que por força das recentes intempéries insulares, tudo voou dos bolsos desse admirável, e se espalhou num bailado literário às portas da Igreja do Colégio. Parecia a imagem de um milagre, que rapidamente se transmutou em catástrofe. De entre os documentos que foram parar a mãos erradas constavam as mais recentes cartas trocadas entre nós. Quis o destino malfadado, esse inferno de mil pragas, que as cartas se colassem às mãos da famigerada dupla FN e PG, que se apropriou indevidamente das mesmas em benefício próprio, com o intuito de capitalizar prestígio em insigne circuito intelectual. Mas isto não fica por aqui. Ao saber da circunstância da publicação de duas das nossas cartas em certa revista literária, contactei a respectiva direcção para reclamar da fraude. Riram-se categoricamente, afirmando de forma não menos categórica que eu e o Doutor Mara habitávamos apenas no campo da ficção. Eu que em carne e osso lhes falava ao telefone, não existia! Veja ao que isto chegou, caro JB. Neste momento a dupla FN e PG está incontactável e em parte incerta, e nós nada podemos fazer, pois não existindo não dispomos de personalidade jurídica.
Por fim, não posso deixar de referir que a sua carta dirigida a Doutor Mara é um tanto ou quanto paradoxal. Se por um lado ela faz a apologia da discrição sobre o assunto para bem dos intervenientes, por outro cultiva a polémica de forma inadvertida e precipitada. Quando a poeira assentava já novamente no tapete, o meu caro amigo volta a sacudi-lo. Meu caro JB Malaca, permita-me a seguinte interrogação: Quais são as suas verdadeiras intenções?

Com o devido respeito e amizade,
Janeiro Alves (o próprio)

Um poema de Vítor Baluarte


(Versos do canto da Rua D´Agoa)
A terra dá
a quem veio do mar
mais do que lugar
pés realmente assentes
a homens valentes
que vem descansar

a terra dá
a quem caiu do céu
suave impacto
fazendo com o chão pacto
de aqui caído pertencer

 a terra dá
de volta ao corpo o corpo
que na terra jaz morto
acolhedor  porto
de mar coveiro que produz
sepultura submissa a cruz

a terra dá
e tira a quem
em mãos tinha terra
e de terra se viu sem
desta terra de ninguém

sábado, 17 de março de 2018

Sala de Embarque: Um ano Depois!

              Irá fazer agora um ano em que nos propusemos apresentar a peça Sala de Embarque no palco do Teatro Micaelense. A experiência, a todos os títulos intensa, tornou-se profícua e favorável para a aprendizagem dos intervenientes no processo, deixando em todos nós um travo de saudade e melancolia. A partir das três apresentações iniciais na Galeria Arco 8 e, com o convite do Teatro Micaelense, fomos encarando aquele desafio como uma caminhada conjunta a que nos aventuramos em alcançar. A nós juntar-se-ia a actriz Lígia Soares que se tornou cúmplice duma encenação mais física e ousada, que o digam João Malaquias,  Henrique Santos, Margarida Benevides e Joana Matos que comprovariam um trabalho contínuo, dedicado e bastante esforçado. Nos bastidores conseguimos contributos preciosos na comunicação e grafismo da Júlia Garcia, as fotografias do Carlos Olyveira, a luz e o som do Diogo Fonseca, os cenários de Ana Lúcia Figueiredo e André Almeida e, ainda que com menor incidência, o apoio dramatúrgico do Miguel Castro Caldas. Agora, quando olhámos para trás, constatamos que tudo isto deveu-se a um trabalho de equipa com  abnegação e consistência, para lá da solidez das ideias teatrais a que nos esforçamos em transmitir.
“Aproveita enquanto andamos por aqui”, dizia-me muitas vezes a Joana Matos, para convencer-nos que a viagem se encontrava no início e que deveríamos aproveitar aquele momento. Ainda hoje nos interpelamos porque fizémos uma única vez no palco do teatro, dado que era grande o investimento e entusiasmo por representar naquele palco. E depois de termos esgotado a capacidade da sala e terem ainda disponibilizado mais dezassete lugares para quem quisesse assistir, ficou-nos por ali uma leve insatisfação e uma alguma tristeza ou incompletude no resultado final. No entanto, sentimo-nos agradecidos a todos os que se empenharam com a nossa passagem pela sala do Teatro Micaelense.
E para quando uma digressão pela ilha? A pergunta de tantas vezes repetida que algum tempo depois decidimos colocar mãos à obra. E, dada a proximidade das festas e do verão, deparámo-nos com várias dificuldade em levar a peça ao Teatro Ribeiragrandense pois houve sempre incompatibilidade com datas e disponibilidade do elenco. Conseguiríamos depois apresentar em sessão dedicada às escolas e, com a colaboração dos finalistas do secundário, no auditório escola de Vila Franca do Campo. E ainda pouco tempo antes das férias, acampámos no formidável “Cineteatro Lagoense Francisco D´Amaral Almeida”, na cidade da Lagoa, com direito a vários dias em cima do palco para ensaios e trabalho de luz e som com o Cristóvão Ferreira, numa experiência que resultou aprimorada e harmoniosa como se constatou no trabalho final. Curiosamente, reconhecemos hoje que esta terá sido a nossa melhor apresentação das seis efectuadas.
Em suma, um ano depois, fica a evocação e  memória teatral pois façamos jus e força para que outras e novas aventuras teatrais surjam no horizonte. Assim haja oportunidade.

Antes da Ordem do Dia

Deveríamos concentrar-nos na escrita
ou então proferi-lo oralmente
sobre aquilo que aqui hoje nos trouxe
já foi simplesmente apelidado de inconsequente
sobretudo déja vu
(perdoem os franceses pelo anacronismo do termo)
E se fossem todos dar uma volta ao bilhar grande
ou confirmarem a minha presença na esquina
é que não me contenho de descontentamento
lavem os dentes ou remetam-se ao silêncio
é tudo o que me ocorre  neste instante

sexta-feira, 16 de março de 2018

(...)

"As autoridades marítimas investigam o misterioso desaparecimento da linha
do horizonte ao longo de toda a costa atlântica."


Jorge Sousa Braga, in "A Greve dos Controladores de Voo" (1994).