quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

E depois de Amanhã há Agenda Sonho

"Somos um grupo de amigos com formações em diferentes áreas, que vive na ilha de São Miguel e que todos os anos se junta para criar esta agenda. A Agenda da Tipografia surgiu em 2014 e todos os anos é dedicada a um tema (que inclui citações das mais diversas áreas - literatura, poesia, antropologia, filosofia, teatro, populares, etc.). A sua composição envolve vários processos - tipografia, offset, serigrafia, etc. e parte do processo é manual, como a encadernação, a impressão da capa, etc.
Todos os anos procuramos introduzir pequenas diferenças. Este ano temos como tema o “sonho” e teremos uma capa impressa parcialmente em serigrafia e que vai brilhar no escuro. As nossas edições são limitadas a 750 exemplares numerados."

Amanhã há Gorgulho!

O Pasquim irrequieto é lançado amanhã, às 18h55.
O local escolhido: Tascá!

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

100 Anos de Ingmar Bergman: A Entrevista Ambicionada

Ingmar Bergman, Sven Nykvist, Erland Josephson e Liv Ullmann
«Irascível e impaciente, concordou, no entanto, em começar a nossa conversa (talvez a primeira ou única com um jornalista português) por aludir às suas funções e ambições como director da primeira cena nacional da Suécia. “Não quero ser dogmático. Não entrei aqui para reformar tudo. Sou um artista, não sou nenhuma vassoura. O que é bom deve manter-se. Recebi este cargo como se recebe um fato novo. A forma aparecerá com o tempo.” …. Na realidade, as de início muito criticadas medidas audaciosas então lançadas por Ingmar Bergman cedo começaram a surtir efeito e a recolher o aplauso geral. Ele chamou a grande maioria dos atores, encenadores, dramaturgos e diretores teatrais suecos, incluindo os intérpretes dos seus filmes, garantindo-lhes boas condições profissionais e financeiras. Libertou-os de exclusividades absurdas, dando-lhes plena autorização para aplicar o seu talento na valorização da arte e no benefício do público em todas as oportunidades possíveis. No Real Teatro Dramático ou noutros palcos, na capital ou na província, no cinema ou na televisão. Realizou teatro para crianças e estudantes em salas alugadas. Levou fragmentos do Dramaten vários pontos do país. Incluiu um reportório infinito, com as obras mais atuais e discutidas em qualquer ponto do mundo. Criou teatro a preços de cinema.
“O mais importante é a difusão do teatro e o direito do público de apreciar o melhor” – “Satisfeito com os resultados?” – perguntei. Resposta: “Nunca poderei estar contente desde que haja uma cadeira vazia num espetáculo.”.
(…). Sempre foi evidente que para Bergman a arte era um sacerdócio. Na sua opinião um artista só devia desempenhar figuras pelas quais se apaixonasse. Contrariamente ao normal, não forçava os atores a adaptarem-se sacrificadamente às personagens das suas obras. Ao criar histórias, modelava-as desde o princípio às características genuínas, mentalidade e temperamento dos artistas com quem contava. Detestava mudar de intérpretes nos seus filmes. Uma grande parte dos seus atores trabalhava com ele ininterruptamente há mais de vinte anos. “Quando trabalho num filme ou numa peça, todas as personagens se metem de tal forma na minha cabeça, que eu próprio chego a submergir nelas” – confessou.»
César Faustino in E, Revista do Expresso, 1 de Dezembro de 2018

domingo, 2 de dezembro de 2018

Cá Dentro Sou Eu que Mando

Não vislumbro qualquer veleidade em ser poeta profissional 
o cuidado do livreiro em estantes devidas
com letras em série exibidos nas livrarias
lidos por leitores com óculos de vidro de garrafa
ou outros mais expeditos a praticar comparações

O que eu sempre quis e sem qualquer tipo de redundância

é dar resposta a esta forma de me sentir à parte
afastado de qualquer verso, rima ou metáfora 
a intransigente angústia perante o inefável
fúria infinda de trazer calçado nas ruas 
uma meia de cada cor sempre comigo 
como se tivesse há muitas, muitas luas 
seis curtos e inolvidáveis anos 
o olhar incrédulo de minha mãe e eu a gritar: 
"-Cá dentro sou eu que mando!"

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Carta Injuriosa de Janeiro Alves no Cair do Outono


Caro Doutor Mara,
               
Imagino que esta carta o encontre no auge da sua popularidade, depois do deplorável espectáculo na televisão pública, onde o seu nome surgiu ligado à libertinagem e à cultura ”imediática”, na circunstância do lançamento de um panfleto de qualidade duvidosa escrito por meia dúzia de papalvos. Imagino então o meu amigo colhendo exuberâncias desta situação plastificada, rodeado de ananáses e outros ornamentos exóticos, num estado de graça que o subjuga à tentação do sorriso artificial e dos inevitáveis tiques burgueses. No fundo, eu sei que gosta desse glamour da televisão e do cinema, da vernissage e do croquete. Não pretendendo esta carta tecer críticas a seu respeito, não poderia deixar de lamentar esta situação tendo em conta a nossa já longa amizade.
                Mas não é de facto este o motivo que me leva a escrever-lhe. Imagine o Doutor Mara que vou ser homenageado pela Sociedade das Artes e das Letras, pois esta semana fui surpreendido com o galardão de ”Pior Livro do Ano 2017” com a minha obra ”Compêndio Geral de Plantas Exóticas”. Neste momento preparo o discurso para a entrega de prémios, enquanto tiro da caixa o meu fato de asas de grilo, que já não via a luz do dia desde que o enverguei categoricamente nas últimas Conferências da Fajã perante a estupefacção geral dos presentes. Conto dizer apenas algumas palavras de agradecimento, ir ao beberete e de seguida levantar o cheque. Julgo que este acontecimento exponenciará as vendas do meu livro, pelo que este natal conto alugar a vivenda inteira em Penedono, e não apenas o quarto das traseiras com vista para a serra. Como forma de agradecimento pelos importantes contributos que o Doutor Mara foi emprestando ao meu livro, envio-lhe por correio um exemplar que poderá pagar a contra-reembolso. São 25 euros em numerário, Doutor. Não precisa de me agradecer.
                Acabo esta breve carta com um semblante de desconfiança repentina relativamente a um facto que gostaria de ver esclarecido por seu intermédio. Em Fevereiro deste ano, escreveu-me o meu amigo uma carta, em que referia ter ouvido um rumor de que eu iria merecer a distinção de melhor obra de 2017. O meu caro amigo percebeu quase tudo bem. De ”melhor” para ”pior” é apenas um pormenor de somenos. O que me intriga e me provoca um franzir de sobrolho é o seguinte: onde obteve essa informação, Doutor Mara?

Com apreensão e estima,           
Janeiro Alves

terça-feira, 27 de novembro de 2018

FALTA, Ver: no Cine Auditório da Lira do Rosário, Lagoa

FALTA, Ver:  

Ciclo de documentários com a presença do realizador Raffaele Brunetti e de Ilaria de Laurentis da produtora B&B Film.


Housing, de Federica di Giacomo, quarta-feira, dia 28 de Novembro, 21h30, Auditório da Lira do Rosário, Lagoa.



Hair India, de Marco Leopardi e Raffaele Brunetti, quinta-feira, dia 29 de Novembro, 21h30, Auditório da Lira do Rosário, Lagoa

O Céu que nos Protege

The Sheltering Sky, de Bernardo Bertolucci, 1990.

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

FALTAM 3 Dias


           Assistiremos à performance da Patrícia Gabriel numa rua emblemática de Ponta Delgada - Hintze Ribeiro - no edifício da Sociedade Corretora, espaço carregado de vínculos históricos à cidade e à memória dos seus vizinhos. Esqueceremos, por instantes, a gentrificação e celebraremos as artes, os nossos possíveis ou já existentes talentos, assumir essa coisa tão frágil que é a identidade, a sua construção, sem abdicar dos costumes, da cultura local, comendo e bebendo os produtos que a terra nos oferece. Em boa verdade, vimos de muitos lugares e é dessa luz que é feito o mosaico artístico das nações, dos povos, dos locais. 
         Patrícia Gabriel agilizará alimentos à sua maneira, Raffaele Brunetti confirmará o seu cinema documental comprometido, Pedro Freire (Dj Fellini) encarregar-se-á de perambular em torno do equilíbrio sonoro, José Castelo destapará as portas do Auditório da Lira do Rosário, na Lagoa, como quem recebe amigos na sala de jantar, tornando assim os dias da FALTA inesquecíveis.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

sábado, 17 de novembro de 2018

Sol de Março sobe ao Palco do Teatro Micaelense




É hoje, no Teatro Micaelense, às 21h30, inserido no evento literário “Arquipélago de Escritores”, que se apresenta a banda de Medeiros/Lucas para mais um espectáculo da sua digressão do Outono. Em palco irão estar a voz de Carlinhos Medeiros, a guitarra de Pedro Lucas, o baixo de Augusto Macedo, a bateria de Ian Carlo Mendonza e os sintetizadores de Rui Souza. Durante o concerto serão ouvidos temas dos três álbuns editados: “Mar Aberto” (2015), “Terra do Corpo” (2016) e “Sol de Março” (2018), sendo as letras dos últimos dois discos pertença do escritor micaelense, João Pedro Porto. Assim, aguarda-se uma sala bem composta para uma noite musical com sabor a mar, corpo e luz.

Cabo Verde: E já lá vão três!


           A aventura musical caboverdiana nos Açores começou em Maio com o concerto dos Alma Crioula no Teatro Micaelense. Em palco, a presença e voz de Jenifer Soledad mas, sobretudo, ficou patente na mestria de Bau e respectiva descendência num concerto contido, mas  intenso. O músico Bau é autodidacta, já esteve ao lado de Cesária Évora ou acompanhou músicos como Tito Paris ou Bius, onde fundou os Gaiatos. A sua carreira viria a ter um momento alto com o tema “Raquel”, a "Mazurka" que foi parte integrante do filme Fala com Ela, banda sonora da obra do realizador Pedro Almodóvar. Este músico amante do cavaquinho, natural da ilha de Santiago, continua assim  a ter im papel impulsionador de novas vozes e talentos emergentes no seu país.
                Seguiu-se, em Setembro, a voz de Elida Almeida, cabeça de cartaz da edição deste ano do Azores Burning Summer Festival, em Porto Formoso, numa digressão por Portugal depois do sucesso retumbante no arquipélago cabo-verdiano. Numa noite de mornas, coladeras e funaná, o concerto terminaria ao rubro com o público rendido a dançar de forma vibrante, esforçando-se por cantar num crioulo improvisado as canções sugeridas em encore. Alguns minutos depois a festa cabo-verdiana tornou-se ainda mais intensa com o encerramento efetuado pelos Fogo, Fogo, que deu o mote para o primeiro dia do festival com uma prestação inesquecível rodeada de água e bailarico. Apesar do dilúvio, o público não arredaria pé.
              Agora em Novembro, no Festival "O Mundo Aqui", numa proposta assente na diversidade cultural e na integração social dos imigrantes no arquipélago, foi a vez de Nancy Vieira transportar na sua voz os aromas e sabores da terra de Cise e Bana. É certo que a acústica daquele espaço, o multiusos das Portas do Mar, pode não ser o melhor para a exploração das diferentes sonoridades em questão ou mesmo para um concerto desta natureza, no entanto os músicos e a cantora evidenciaram uma entrega intensa, empenhada e irrepreensível. Ao longo do concerto, a cantora revelou talento e demonstrou aos açorianos que as ilhas atlânticas são, muito embora já o soubéssemos há muito tempo,  curioso viveiro de músicos, canções bonitas, sentimentos de partilha e interessantes cumplicidades.