quarta-feira, 6 de maio de 2020

I Know This is So Wrong

I know this is so wrong
Arriscar o sabor daquela porção
Prender o fio sem que este se quebre
Pronunciar idiomas na corda bamba
Esquecer o porvir desse apartar

I know this is so wrong
A luz do cabelo em desassombro
A hipotética vizinhança a florir
Mãos largas na despedida
Uma inclinação a despontar

terça-feira, 5 de maio de 2020

Chegou Primavera

“Chegou a Primavera. O vale de lágrimas que se espraia à frente da minha janela volta ao verde e floresce. A relva viçosa cobre o chão, esconde lixeiras e a geena transforma-se no vale de Saron onde crescem, além dos lírios, lilases, rubínias e paulownias.
Sinto uma tristeza de morte mas o riso alegre das raparigas que brincam, invisíveis, debaixo das árvores, toca-me o coração e desperta-me para a vida. E a vida corre, e a velhice aproxima-se; mulher, filhos, lar, tudo foi devastado. Outono por dentro, Primavera por fora. (...)”

August Strindberg (1849-1912)in “Inferno”, tradução de Aníbal Fernandes.

"A Herdade": um filme de Tiago Guedes

O filme “A Herdade”, de Tiago Guedes, acabou de ser exibido na RTP 1, em quatro episódios. Esta longa metragem teve um enorme impacto aquando da sua estreia, registando 70 mil espectadores em sala, venceu inclusive um prémio Bisato d´Oro (Melhor Realização) no Festival de Veneza tal como ainda foi nomeado enquanto película representante de Portugal nos Óscares do ano passado.
Tiago Guedes compôs aqui um retrato vivo do Estado Novo até ao Portugal contemporâneo através de uma família proprietária de um latifúndio a sul do Tejo. O filme incide sobretudo no final da ditadura, os acontecimentos do pós 25 de Abril até à normalização europeia, com a entrada na CEE. O realizador contou nessa tarefa com a colaboração do argumentista Rui Cardoso Martins, sendo que a tessitura psicológica e dramática das personagens esteve a cargo do realizador. Ressalte-se deste modo a representação do actor Albano Jerónimo, com trejeitos de galã irascível, ao interpretar o papel de João Fernandes, o dono da herdade, e que tem o condão de prender e seduzir o espectador nessa travessia à volta da nossa história recente. O “dono disto tudo” não poderia ter sido melhor representado num país e num mundo em transformação, aliás, numa mudança que não teria mais retorno. Curiosamente, a sua personagem faz muito lembrar outra do cinema português - a de “Tomás Palma Bravo”, obra de Fernando Lopes/José Cardoso Pires, em o “Delfim”. A acompanhá-lo estão também Sandra Faleiro (Leonor), Miguel Borges(Joaquim) João Pedro Mamede (Miguel),  entre outros, numa produção de Paulo Branco. “A Herdade” é, pois, um filme suado e bem trabalhado, com garra e uma banda sonora que cria tensão suficiente, para lá de uma fotografia que apela a um tempo lento e delicado. 

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Como um rio

Releio as tuas cartas
como se fosse verão
e de novo o mundo começasse

nascem dos olhos as palavras
como um rio
à procura do mar que as abrace.

Artur Goulart
, in "nove rumores do mar- antologia de poesia açoriana contemporânea", organização de Eduardo Bettencourt Pinto.

sábado, 2 de maio de 2020

Um Verso de Sybille Baier

I lost something in the hills

Dois Poemas de Luís Xarez

deixei-te um bilhete

deixei-te um bilhete 
debaixo de uma pedra

como não o leste

deixei-te um bilhete 
escrito na pedra 

como não o leste


deixei-te um bilhete 

escrito na árvore

como não o leste 


deixei-te um bilhete 

escrito no céu

e sei que nesse dia leste 


mas nunca soubeste


nem que era para ti 


nem quem era eu 


na lua 


sempre na lua 

dizem-me uns olhos verdes de ciúme 
das minhas asas abertas recebeste o luar 

olhos onde um dia vi a antecâmara do lume

lume que não a lua mas só o sol pode incendiar

sempre na lua

dizem-me outros com o dedo espetado
acordando-me da forma mais crua


in "assim", edição de autor, Dezembro de 2019.

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Da Certeza

           "A única certeza que tenho é que o meu coração tem de se preparar para o que quer que aí venha. Hoje mais do que nunca é preciso cuidar da minha casa interior. Hoje mais do que nunca é preciso acordar com as andorinhas e esticar o corpo como os gatos para receber o dia. Caminhar pela casa e abrir as janelas. Lavar as mãos, o rosto e cantar mentalmente duas vezes parabéns. Ligar o rádio para ouvir as notícias da manhã. Abrir a porta do quintal para deixar entrar o cheiro do jasmin. Fazer o café, partir o pão e celebrar cada refeição do dia. Dar graças. Fazer as compras para quem precisa e caminhar pelos matos. Hoje mais do que nunca é preciso apanhar funcho, acelgas, mantrasto  e, no regresso a casa, limpar, arrumar, lavar, deitar fora, organizar. Enfrentar o desorganizado escritório e arrumar os livros. Limpar o pó. Dividir autores, alfabetar, escrever, ler...reler. Descobrir o que nunca se leu. Esvaziar caixas. Arrumar estantes. Conseguir enganar o caos interior. Ser verbo e gerir esta inquietação surda."

Cristina Taquelim, in Diário da Quarentena, Jornal Público, 18 de Abril de 2020.

"-O que é a liberdade nas circunstâncias que estamos a viver hoje?

           -Para nós, burgueses que podemos estar confinados, é simples: acordar, lavar corpo e  casa,  ler, discutir, pensar, contrapor, falar com os outros por todos os modos possíveis, dormir. Mas somos poucos. Para a imensa maioria não é nada. Nem nunca foi."

Jorge Silva Melo in "PVEC", Casa da Achada, Abril 2020.

Ontem, escrito numa parede da cidade

Há vida em Marte?

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Oráculo

o que aí vem?
o que vem lá?
quem saberá?

ninguém sabe onde está quem saberá

dizem que só deus sabe 
mas ninguém sabe de deus
onde andarará?

ninguém sabe o que deus sabe 
e ele disse saberá?

quem saberá 
o que aí vem e o que depois virá?

entre tantos enganos alguém acertará?

entre o que aí vem é o que vem lá

Luís Xarez, in "assim", Dezembro de 2019. 

Da Racionalidade

"A racionalidade é uma obrigação  que temos como espécie."

Carlos Fiolhais, Jornal de Letras, Artes e Ideias, Abril 2020.

quarta-feira, 29 de abril de 2020

O “Ardina” Chega Sempre à Hora Certa


Não se avista ninguém nas ruas e, subitamente, há um homem que canta, mal e desafinado, é certo, mas canta, há outro que grita frases soltas e desconexas e há ainda quem distribua, sempre que pode, jornais aos amigos. Os jornais encontram-se agora sem compradores, a versão impressa vende muito pouco. E desde que o confinamento começou, aguentam-se os mais robustos financeiramente, os que já estavam instalados há mais tempo ou aqueles que sempre tiveram um grande grupo económico por detrás. Os jornalistas são pessoas que vivem de palavras, têm que comer, vivem com famílias ou necessitam de pagar as suas contas e encher o frigorífico. Os quiosques abrem a horas certas para que os leitores possam ler as notícias, tactear o virar das folhas, pressentir o cheiro a tinta do jornal impresso.
O “Ardina”, habituado à sua disciplina e hábitos matinais, valoriza os pequenos gestos e este tipo de coisas, já que dá a sua volta higiénica para fazer as suas compras diárias e manter os músculos activos, ao mesmo tempo que faz a radiografia matinal da cidade, acompanhado pela sua objectiva. Uma coisa é certa, ele parece conhecer de ginjeira as pessoas que gostam de ler, aqueles que, tal como ele, não passam um dia sem folhear as páginas de um jornal actual, ou mesmo antigo. Talvez, por isso, habituou-se recentemente a bater-lhes à porta, ou então, a deixar os periódicos e as revistas na caixa do correio. “Depois faremos contas!”, diz, despedindo-se com um sorriso nos lábios, como quem sabe das virtudes e dos vícios humanos, ou somente do simples e permanente prazer de ler um jornal. Este ardina não é um ardina qualquer, ao contrário dos ardinas tradicionais ele distribui os periódicos no seu carro, por iniciativa individual, por amizade, por mera atenção ao outro. Sem que ninguém lhe peça ou lhe faça alguma exigência. Este “ardina” é um amigo, um bom amigo, mas contas são contas!

Ananás "Smooth-Cayenne"


"-Onde alimenta a esperança no futuro nestes dias?

-Nos jovens. No céu, à noite. Nos livros."

Alberto Manguel, entrevista de Luís Ricardo Duarte, Jornal de Letras, 8 a 21 de Abril de 2020.