quinta-feira, 2 de setembro de 2021

Agosto de João Habitualmente

 Tarda-me tudo tanto tudo sob os dedos

 Não sou capaz de nada

algo que esconde um rastilho

atear um fogo

planear uma emboscada

 

Mesmo os teus cabelos 

tarda-me em tê-los

 

Esperei por ti

o cumprimento dos dias

Começava logo de manhã

e ficava na mesma pedra até ao sol posto

 

E no entanto sabia que não virias

Desde criança que chego ao Inverno em Agosto

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

September de David Sylvian

The sun shines high above

The sounds of laughter

The birds swoop down upon

The crosses of old grey churches

We say that we're in love

While secretly wishing for rain

Sipping Coke and playing games

September's here again

September's here again

segunda-feira, 30 de agosto de 2021

Sweet Thing de Alexandre Rockwell

    "Sweet Thing", de Alezandre Rockweel, aborda o universo de três criançass à deriva num mundo em que os adultos desapareceram ou estão entretidos ou "absorvidos" nos seus dramas pessoais. Com a sombra presente e imaginária da diva "Billie Holiday", a estrela do filme é a pequena Billie (Lana Rockweel) que nos encanta pela simplicidade com que nos guia pelas encruzilhadas e peripécias da sua vida, bem como  do seu irmão Nico (Nico Rockweel) e do amigo Malik (Jabari Watkins). A singularidade do filme reside nesse universo mágico que é a infância, ainda que povoado de fantasmas e travessuras, ausente de protecção e cuidado pelos progenitores e demais. A vivacidade e sagacidade dos personagens é acompanhada por uma banda sonora feliz e condizente, intuindo assim que nada melhor que a música para poder sentir as agruras da existência ou vivências felizes que povoam a tela onde se desenrola a acção. O poster aqui do lado do filme é pertença de Jana Jarger e espelha bem a curiosidade intrínseca que é percorrer estes noventa minutos duma infância à deriva, um universo adulto em ruínas, ainda que com hipótese de redenção, envolvendo estes personagens plenos de força e encantamento.

Scratch Lee Perry (1936-2001)

          Assisti a um concerto seu no Festival Músicas do Mundo, na cidade de Sines, em 2009. Para lá da festa e do reggae a palavra que mais ouvi da boca dele foi "Peace"!

domingo, 29 de agosto de 2021

Um Verso de Miguel Machete (Bandarra)

 Temos na terra um dizer que é diferente do de fora

O Fim dos Princípios na Antena 1/Açores

            Uma voz segura e irrepreensível. Um tom justo e directo na leitura de poemas e textos diletos. O cuidado na escolha das músicas do jingle e do fecho do programa. A luz e a gravidade na abordagem aos imaginários literários. Um programa dedicado aos autores de livros que merecem ser lidos e escutados. A responsável pelo dito cujo é a Helena Barros. Aqui na Antena 1: https://www.rtp.pt/play/p9024/e563/www.rtp.pt/play/p9024/e563951/o-fim-dos-principios951/o-fim-dos-principios

segunda-feira, 26 de julho de 2021

"Mais uma Rodada" de Thomas Vintemberg

       "Druk" é um filme de Thomas Vintemberg e foi convertido para português com o título de "Mais uma  Rodada" e que, após ter estreado em Abril e uma presença vitoriosa em dezenas de festivais e na secção internacional dos óscares, chegou agora à sala do Teatro Micaelense.
    "Mais uma rodada" parte de um citação de um filósofo norueguês Finn Skårderud,   que sustenta que o nosso corpo necessita de 0,5 de álcool no sangue para funcionar como deve ser. Os quatro professores do filme passam a acreditar nisso, à semelhança de outras figuras históricas, ainda que tentem ludibriar e contornar quotidianos chatos e aborrecidos até que as coisas desatam mesmo a correr mal ou ultrapassam os limites do desejável. Nenhum mal vinha ao mundo se isto não se passasse  na organizada e ultra desenvolvida Dinamarca, país nórdico com altos índices de literacia e civilidade mas em que qualquer  iniciação à vida adulta é feita com a ajuda de quantidades colossais de álcool no sangue, com o hino nacional como pano de fundo. 
      Thomas Vintemberg filma obsessivamente Mads Mikkelsen (já o tinha feito em "Caça", 2013) - o seu olhar intenso e perdido, os seus movimentos delicados e bruscos, os seus gestos mais visíveis e secretos. Ele sabe, no entanto, que é um actor em estado de graça (basta ver a forma como dança no final), e é, pois, de uma segurança e brilhantismo que não se pode ocultar esta presença absolutamente estimulante e cativante. É por isso que "Mais uma Rodada"  faz jus ao título, sobretudo para lembrar que esta obra permanecerá na memória por muitos e muitos anos e, que quem a viu merece, por essa mesma razão, celebrá-la e fazer o respectivo pedido

quinta-feira, 22 de julho de 2021

Obrigado, Dinis Botelho!

         Hoje foi-se embora um dos mais bonitos seres humanos que conheci em São Miguel: Dinis Botelho. Conheci-o há seis anos, quando aportei novamente por aqui, altura em que o concurso de professores me tinha trocado as voltas. Felizmente, guardei a energia para outras coisas que ainda hoje me orgulho de ter feito com outros tantos cúmplices, inclusive o Dinis. Por isso, publiquei, no Boletim Cultural Fazendo, Março de 2016, o meu primeiro encontro com este mestre das artes gráficas, aproveitando para relatar o seu trabalho tipográfico minucioso e a sua prolixa e fecunda abertura aos meus novos que despontavam interesse numa arte que nos parece muito antiga e que afinal continua  tão bela e actual (a Júlia Garcia que o diga)! Desta feita, sempre que alguém estava de visita a São Miguel, a Tipografia Micaelense era quase sempre a porta de entrada para conhecer o Dinis e o Eduardo no exercício das suas funções. Mais tarde, acompanhei também grupos de alunos que se espantavam com as máquinas, os tipos e a figura daqueles tipógrafos rodeados de letras e de tinta. O Dinis Botelho recebia sempre toda a gente com a modéstia dos mestres, a alegria de quem gosta do que faz e queria transmitir, a quem não sabia, o gosto por aprender. Não sei o que me irá acontecer quando voltar à Tipografia Micaelense sem vê-lo por lá com o cigarro em punho, não sei, mas sei que já tenho muitas saudades de cumprimentar o Dinis tal como gostaria de agradecer-lhe a alegria de muitos dias que fui vivendo por aqui! Obrigado, Dinis!