terça-feira, 7 de dezembro de 2021

"Curta Açores" na Ribeira Grande

       Primeiro dia do Curta Açores-Festival de Cinema da Ribeira Grande com um filme belo e surpreendente oriundo da Sérvia: "Moon Drops", do realizador  Yoram Ever-Hadani. Uma narrativa cinematográfica feita de engenho e amor, evidenciando aquilo que o cinema possui de mais fantasioso e imaginativo. O Festival abriu ainda com outra curta sintonizada com o tempo actual - "Lista", da brasileira Luciana Oliveira e com argumento de Gustavo Pinheiro. Uma curta sobre a solidão do tempo presente agravada por um vírus desconhecido e em que a esperança é a última a morrer. Um texto que vive da força  e representação da actriz  veterana com origens micaelenses, Lília Cabral. 

segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

Foguetório

Há uma violência feroz no ar e depois há o mar
diz a antena, o écran, talvez o radar
é tempo do sacrifício, ossos contínuos
do ofício, desafios, por fios silenciamos
anda ver arder em Agosto o nosso sol
como um desgosto todo o ano
ninguém ganha uma pátria por acaso
ninguém nasce aqui por engano
ter um país é ter uma casa e não
um acaso de que só agora acordamos
Os teus dedos dão o sinal
há uma mão que o teu cabelo penteia
o país do risco ao meio no mapa
pisa o chão e calcorreia sem limite
é esse o nosso único propósito
depositar esperanças no sol e no vento
correria louca dos santos e dos mártires
desperta em nós floração
Quem viu a semente ser lançada?
pequena lembrança de um gesto
um balão rebenta em cores
cavalo rosa move-se a planar
subirá, subirá, subirá
Há um miolo de festa na boca
coro entrelaçado de gente
cai no chão aquecido embrulhado
urgente despe-se à luz de um tecido
levanta-se o véu sem escarcéu
e teme esta secular resistência
defendendo o corpo a corpo
enérgico o toque do sono
dá toque a reboque e cresce
entrada tardia em cena
riso cândido não é derrota
é o carrossel da animação
há a rapidez ao rodar da estação
entrou o Outono terminou o verão
desce à tristeza vem à melancolia
caro contentamento do adeus, enfim,
vitória ao vento, bóias ao mar,
pintar o quadro romper o círculo
Como foi possível chegarmos aqui?
Trazemos duas tábuas nos braços
chove tanto em Penafiel
laço antigo guarda-chuva caído
janela entreaberta e espreitar
vestidos e cortinados à porta
um raio contínuo de luz que entra
o capacete barroco ilude a queda, a morte,
veloz tirania do tempo presente
impaciente volúpia que rasga
gradação incerta da luta
graciosidade humana da criação
explode em brilho até o foguete cair
Nós?
Existimos.

(texto escrito a 27 de Setembro de 2012, enquanto assistia ao espectáculo "Arraial" da companhia Circolando no Mosteiro São Bento da Vitória, com o sonoro apoio dos Dead Combo)

domingo, 5 de dezembro de 2021

Um Poema de Ana Paula Inácio

 A mesa é feia e baixa, a cozinha escura e alta.

E elas? São duas, mulheres, estranhamente longilíneas.

O tampo limpo. Os copos secos. A lâmpada mal enroscada.

A roupa a bater nos vidros.

Batem à porta. Deixa entrar. É só o vento. Deixa passar.

Amanhã é domingo.

in "Vago Pressentimento Azul por Cima", Setembro, 2020 (Porto, Ilhas).

sábado, 4 de dezembro de 2021

Obrigado, Pedro Gonçalves!

Neste Mar...

 Fontes hidrotermais                               
  28 espécies de mamíferos marinhos
  6 espécies de tartarugas marinhas
  560 espécies de peixes
  10 espécies de aves marinhas nidificantes 
 » 400 espécies de algas 
 »1000 de espécies de invertebrados 
                                               in Blue Azores 

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

"notas sobre um naufrágio" de David Enia

"Alguém tentou remar, usando os braços por cima da borda. Alguém saltou para a água, tentando arrastar o bote a nado.
Um homem de quarenta anos aconselhou Bemnet a não se lançar ao mar, a não remar com os os braços, a ficar quieto, a poupar todas as suas energias, a não gastar forças.
Soou quase como uma ordem.
Bemnet decidiu dar-lhe ouvidos.
Alguém tinha a garganta tão seca que tossiu sangue.
Alguém, transtornado com sede, bebeu água do mar.
Verificaram-se as primeiras agonias, seguiram-se os primeiros vómitos, dentro e fora do bote.
Surgiram os primeiros casos de alucinação e os primeiros desmaios."

Edições Dom Quixote, 2021.

Série Novos Vizinhos: 4ªTemporada

 

terça-feira, 30 de novembro de 2021

Van Gogh por Van Gogh de Jorge Sousa Braga

Gostaria de ter sido um girassol. Um girassol hirto no seu caule, de
longas folhas verdes desajeitadas e uma enorme corola doirada, se
guindo cegamente o sol.
Estou só e a minha cabeça explode em milhões de girassóis.

segunda-feira, 29 de novembro de 2021

Fim de Semana Musical no Arquipélago


     Os WE SEA apresentaram-se em palco nesta última sexta-feira, com Rui Rofino (voz), Clemente Almeida (sintetizador e baixo), Rómulo San-Bento (guitarra) e Pedro Rodrigues (bateria) perante uma blackbox do Arquipélago disponível e com a sala há muito esgotada. A audiência estava, por isso, pronta para aderir com rapidez, pois estava completamente sintonizada com o cancioneiro, notando-se que estes jogavam em casa dada a familiaridade que se sentia tal era o ambiente de festa pressentido a cada canção concluída. Com os temas dos álbuns anteriores intercalados com o a apresentação do seu novo trabalho, “Cisma” revelou-se um disco mais consistente, aprimorado e repleto de canções seguras e prontas a ser trauteadas e acessíveis a qualquer playlist de uma rádio bem perto de si. Foi, sem qualquer dúvida, um concerto muito bem conseguido, evidenciado uma etapa diferente e com um espírito de banda que se pretende que continue e solidifique. Houve tempo para alguns momentos a roçar a perfeição, com alguns novos temas ao vivo a soarem orelhudos, bem audíveis e ritmados, como são os casos de “Seja como For” ou “Cisma”. Por isso, há que dar os parabéns à banda pelos seus cinco anos de existência, esperando que a novidade se repita a cada novo disco e concerto ao vivo. 
      No domingo, ao fim da tarde, foi a vez de Luís Senra subir ao palco da blackbox para tocar e dar azo ao seu saxofone navegante, permitindo-se este a um diálogo da sua barca sonora de forma serpenteante e experimental no violino e poesia de Filipa Gomes. Desse empreendimento em palco, resultado da oficina intuitiva com o objetivo do concerto "Reflexos da Origem", há que ressaltar a graciosa construção erguida em pedras de basalto negro, sugerindo aqui uma experimentação cenográfica baseada na união dos músicos presentes. Uma prestação curta, é certo, mas sincera na expressão musical e do amor necessário a um mundo em colapso e em que cada um de nós se encarcerou e perdeu o norte mas que lentamente não tardará a voltar a abrir-se. E que, por isso, haja permanentemente música em redor.

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

Cinema Polaco: "Ida" de Pawel Pawlikowski

       Está disponível na RTP Play e é uma das continuadas surpresas que nos chega de um país com uma longa tradição cinematográfica: a Polónia.  "Ida", (2013), pertence ao realizador polaco Pawel Pawlikowski, actualmente com 64 anos de idade, e contou com o argumento de Rebecca Lenkiewicz. Após conhecimento do nome do realizador, havia, então, o risco da desilusão, depois de saber da autoria do belíssimo, para não dizer magnífico filme, “Cold War”, de 2018.
         "Ida" conta a história de uma jovem freira que é aconselhada no convento a visitar a família antes de fazer os respectivos votos. Ao descobrir que é de origem judaica, Ida (Agata Trzebuchowska) decide partir com a sua tia, Wanda Gruz (Agata Kulesza), em busca das suas raízes pessoais. A partir daqui é todo um mundo novo que se revela e desvela à sua frente. O ambiente claustrofóbico é facilmente reconhecível nos edifícios, carros, cidades e paisagens presentes no cenário desse período da Polónia do pós-guerra. Quem viajou nos anos noventa pelo Leste europeu, após a queda do muro de Berlim, já tinha visto certamente "A Insustentável Leveza do Ser"(1987), de Philip Kaufman, e, também este, um filme impregnado de fotografia a preto e branco, assente numa narrativa amorosa e de melancolia amarga desse período pesado associado ao fracasso do socialismo real. São imagens fortes marcadas pela nostalgia e pequenas libertações desses momentos repressivos, pontuados aqui e ali por momentos de esperança que viriam a resultar em "democracias", que se viriam a afirmar-se promissoras neste novo contexto político  europeu. 
          Ida” é, sem dúvida, uma obra de grande intensidade, com a presença e atmosfera do jazz daquele período. Por isso, há aqui uma espécie improviso interior. Esta explosão da tensão só damos conta no fim do filme, dado que de tanto segura e serena que é a personagem visto na sua decisão de implodir com tudo, sentido no seu caminhar em frente. O que morre em nós quando queremos saber a verdade do que fomos? Porque é que nos deixaram viver quando a obrigação era ter ficado sepultada naquele buraco?, sim, perguntamos nós!
         De qualquer forma, passados estes anos todos do fim do  bloco de leste, este cinema parece surgir fora do tempo, sem lugar, ainda que carregue dentro de si uma pulsão e nervo que impressiona pela força das suas imagens e rostos. Curiosamente o filme ganhou vários prémios: Óscar para melhor filme estrangeiro em Hollywood, melhor filme para a Academia de Cinema Europeu e melhor filme para a Academia Polaca de Cinema. Merecidos, evidentemente.