sábado, 7 de outubro de 2023

Da vida

 A vida é curta e o dinheiro também.
                                                                                                                 Bertolt Brecht

sexta-feira, 6 de outubro de 2023

Sombra

Cai a tarde e tudo se esconde
Adeus ao dia, à sua curvatura,
A capa da alegria 

Lupinos de Seamus Heaney

 Ali estavam. E estavam com sentido. Só pelo facto de estarem.
Perfilados. Inacessíveis. Mas ali
Com certeza. Com certeza e inabaláveis.
Flores em dedos rosa de alvorada e azul meia-noite.

No início, um cacho de sementes, róseo e anil,
Peneirando leveza e ansiosa, ténue promessa:
Pináculos de lupino, erótica do porvir,
Pincel de bâton do azul e profundo ganho da terra.

Ó torreões de lápis de cor, vagens e caules que afunilam,
Aguentando firmes as nossas andanças de Verão,
E que mesmo quando empalidecem não vacilam.
E nada disto excedeu a nossa compreensão.

in "Luz Eléctrica", Tradução de Rui Carvalho Homem, Quasi Edições, 2003.

Ilustração de Luís Miguel Castro (I)

in cântico dos cânticos, apresentação
Augustina Bessa-Luís, Três Sinais Editores, 2001

Mulher I de Victor Bernardo Almeida

Obra presente na Exposição: "No Feminino
CMC, 2022.
 

quinta-feira, 5 de outubro de 2023

O mês de Outubro na Yuzzin

           A Yuzzin deste mês de Outubro aposta uma vez mais numa capa onde sobressaem as cores preta e branca,  muito provavelmente a tentar ajustar-se com a mudança de estação e da hora que se avizinha. É certo que estamos ainda com muita humidade no ar e com alguns dias solarengos a lembrar o verão. Portanto, há ainda muito para aproveitar nestes dias quentes e abafados antes da chegada  de mais um Inverno longo e líquido, à semelhança dos anos anteriores. Nesta edição da Yuzzin temos muita informação da atividade cultural insular, sendo este um belíssimo serviço público que a Associação Silêncio Sonoro presta à comunidade micaelense. É da política da agenda ir descobrindo mensalmente vários artistas e criadores, desta vez foi a artista Sara Massa,  uma artista plástica micaelense, e o Atelier Mezzo,  colectivo de arquitectos, há já algum tempo no terreno. A oferta musical é vasta e variada, basta por isso constatar que este mês há (dia 14, blackbox do CAC - Arquipélago), o concerto de Filipe Furtado Trio. Ainda no que concerne à música, o Ateneu Comercial (dia 21, às 21h30), oferece-nos um concerto com o argentino Santiago Córdoba. Este é também o mês do Fuso Insular, uma mostra anual de videoarte, regressar em força a Ponta Delgada e à Ribeira Grande no final de Outubro. A programação deste festival gira em torno da Igreja do Colégio e a blackbox do Centro de Artes Contemporâneas - Arquipélago, numa programação marcada pelo experimentalismo, a liberdade criativa e a aprendizagem teórica do mundo das imagens. A conhecer para quem ainda não conhece.

Uma frase de Bertolt Brecht

 A ciência conhece apenas um mandamento - contribuir para a ciência.

O Pianista do Triângulo

Francisco Lacerda 
     A primeira vez que escutei, ao vivo, a música do açoriano Francisco Lacerda foi, em Novembro de 2012, no foyer do Centro de Congressos de Angra do Heroísmo num concerto de Luísa Alcobia, acompanhada ao piano por Grigory Grytsyuk, numa encantadora viagem pela música dos séculos com as partituras de Mozart, Schubert, Fauré, Erik Satie e Luís Freitas Branco.
      Recentemente, deu-se, um pouco por todo o arquipélago açoriano, os “Encontros Sonoros Atlânticos”, um programa de concertos alicerçados/inspirados na obra do compositor e maestro, natural da Ilha de São Jorge, Frederico Lacerda. Foi, também, nesse mesmo catálogo, que nos deparamos com uma fotografia do músico jorgense digna de constar de qualquer biografia musical. Esta pícara e acrobática fotografia foi, muito provavelmente, tirada nos início do século XX, numa viagem de barco algures a meio do Atlântico. Quem terá sido o fotógrafo? 

quarta-feira, 20 de setembro de 2023

Da Felicidade

 

Elegia Múltipla (III) de Herberto Helder

 Havia um homem que corria pelo orvalho dentro.
O orvalho da muita manhã.
Corria de noite, como no meio da alegria,
pelo orvalho parado da noite.
Luzia no orvalho. Levava uma flecha
pelo orvalho dentro, como se estivesse a ser caçado
loucamente
por um caçador de que nada sabia.
E era pelo orvalho dentro.
Brilhava.
 
Não havia animal que no seu pêlo brilhasse
assim na morte,
batendo nas ervas extasiadas por uma morte
tão bela.
Porque as ervas têm pálpebras abertas
sobre estas imagens tremendamente puras.
 
Pelo orvalho dentro.
De dia. De noite.
A sua cara batia nas candeias.
Batia nas coisas gerais da manhã
Havia um homem que ia admiravelmente perseguido.
Tomava alegria no pensamento
do orvalho. Corria.
Ouvi dizer que os mortos respiram com luzes transformadas.
Que têm os olhos cegos como sangue.
Este corria assombrado.
Os mortos devem ser puros.
Ouvi dizer que respiram.
Correm pelo orvalho dentro, e depois
estendem-se. Ajudam os vivos.
São doces equivalências, luzes, ideias puras.
Vejo que a morte é como romper uma palavra e passar
 
– a morte é passar, como rompendo uma palavra,
através da porta,
para uma nova palavra. E vejo
o mesmo ritmo geral. Como morte e ressurreição
através das portas de outros corpos.
Como uma qualidade ardente de uma coisa para
outra coisa, como os dedos passam fogo
à criação inteira, e o pensamento
pára e escurece
 
– como no meio do orvalho o amor é total.
Havia um homem que ficou deitado
com uma flecha na fantasia.
A sua água era antiga. Estava
tão morto que vivia unicamente.
Dentro dele batiam as portas, e ele corria
pelas portas dentro, de dia, de noite.
Passava para todos os corpos.
Como em alegria, batia nos olhos das ervas
Que fixam estas coisa puras.
Renascia.

Herberto Helder (1930-2015), "A Colher na Boca"