segunda-feira, 14 de abril de 2014

Há Rótulos na Biblioteca de Angra

Os rótulos desenhados em papel anunciam vinhos regionais e declaram aberta aos olhos do público a exposição: «Vinum Culturae Nostrae Est». A colecção pertence a Luís Mendes Brum e encontram-se no hall da entrada da Biblioteca Pública de Angra do Heroísmo e à qual se juntam rótulos muito recentes da Adega Cooperativa dos Biscoitos C. R. L. e dos produtores Dimas Simas Lopes, José Manuel Mendonça Machado de Sousa e Rufino Simas, todos eles produtores da Verdelho dos Açores. Os nomes dos vinhos inscritos nestes pedaços de papel informam sobre o local de origem, desvendam a casta ou o tipo de vinho em questão, tornando-os apetecíveis, sugerem aromas, sabores e demais oportunidades de saboreá-los. E, logo à entrada, nesta casa dos livros ali estão os rótulos, muitos deles da zona vitivinícola dos Biscoitos, outros foram aprimorados nas fajãs de São Jorge ou na Ilha do Pico, expostos para serem vistos e apreciados e que possam servir de inspiração a novos e ousados rótulos, perpetuando deste modo uma imagem de marca que foram tendo ao longo dos tempos e a sua relação com o público consumidor e degustadores dos melhores néctares da região açoriana.
PS-O rótulo aqui publicado julgamos  ser da pertença de Abraham Abohbot, um desenhador de origem hebraica que terá vivido uma boa parte da vida em Angra do Heroísmo e, seguramente, foi dele o primeiro estúdio fotográfico da Ilha Terceira.

Sob o Signo...


Reservatório

Estagiar de tempos a tempos
um líquido coração enfermo
mancha e elegância da cor rubra
barricas de privação e desconsolo
algumas notas florais, fruta madura
língua no copo, falso equilíbrio
descer o volume subir a acidez
reservado depósito em néctar profundo
encorpado travo no duradouro final
tristezas diosas sem aroma nem idade

terça-feira, 8 de abril de 2014

Pavese e Alexandra sabem do que falam...

Foto: Frederico Rocha
"Amar Portugal é estar em Portugal porque se quer."
 
 Alexandra Lucas Coelho, após  receber o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, com o seu romance "E a Noite Roda".

Citando  Cesare Pavese:

“Un paese ci vuole. Non fosse che per il gusto di andarsene via. Un paese vuol dire non essere soli. Sapere che nela gente, nelle piante, nella terra, c´e qualcosa di tuo. Che anche quando non ci sei resta ad aspetarti.”

domingo, 6 de abril de 2014

Soneto Branco

Já ao fechar-se o talismã promete
fundo de areia à água azul dos sons
ao nome do navio que a sobrenada
tal como à estrela animal de seis pontas
lembrando a flor e o cheiro a maresia
recém-casados por amor de abrir
o peito à colheita da solidão
que as mais das vezes se chama poesia
depois quebra-se o encanto dão-se a ler
linhas sem feitiço corpos reféns
coisas da vida que aí se lhes rouba
no sentido que dão sem querer ter
ressurreições que trazem à lembrança
mortes que já mais houveram lugar

João Paulo Esteves da Silva


FAZENDO DAS ILHAS


    O Fazendo, jornal que aqui o Doutor adoraria ter fundado aos 20 anos, tem a edição nº91 do mês de Abril espalhada pelos sítios do costume, mas só no arquipélago açoriano, evidentemente. Há artigos e desenhos para todos os gostos e feitios. O design continua fresco e arejado, é da etiqueta de Ambas as Duas, e desta vez a capa pertence a Geni Jorge e João Bora. O núcleo editorial, a cabo de Tomás Melo e da Aurora Ribeiro, assegura que a edição chega a cinco ilhas: Faial, Pico, Terceira, São Miguel e Santa Maria. Uma aventura carregada de "peixe antigo". Esta nova edição do Fazendo mantém, portanto, o sucesso do passatempo “Rebus”, um quebra-cabeças extraordinário para qualquer sala de professores das ilhas em questão. Uma curiosidade: as ilustrações das últimas páginas centrais são do Les Gallagher. Já se sabia, claro.E leiam, se quiserem, aqui:http://fazendofazendo.blogspot.pt/

Revelação e Ousadia Lírica


(A propósito de “há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida” – de Leonardo Sousa, Letras Lavadas edições, 2013)

Houve um tempo que foi simples, demasiado simples até, escrever ou editar um livro em Portugal. Trabalho árduo será publicar um livro que contenha uma determinada identidade e que possua dentro de si um sentido de comunidade e diversas e intrincadas conexões estéticas, isto é, que goteje lastro e contamine tudo à sua volta num universo visível de centelha para lá de abarcar dentro de si um combinado sensível de partilha e inclusão. Impossível? Pode ser que não!
          O livro de poemas “há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida”, do jovem micaelense, Leonardo Sousa, é uma primeira obra que reúne dentro de si uma galáxia afectiva de diferentes autores, sendo, sobretudo, um livro de um autor com força e singularidade que editou o seu livro iniciático e que não é, certamente, mais um a povoar as estantes das livrarias ou das bibliotecas. Escrever um livro é, portanto, uma tarefa arriscada e, na maioria das vezes, um feito inglório, ainda que nos convençam do contrário. O autor que tem uma aguda consciência do exercício da escrita e da transpiração que esta requer, escreve na página 41 deste livro em forma de aviso: “fazer um verso é entregar a alma e mutilá-la muitas vezes”. Alma mutilada, portanto. Daí que este livro com o curioso título “há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida”, para além de ser a primeira súmula de versos e contos do autor, é também o anúncio da sua afirmação enquanto escritor e literato, a sua assunção de vida literária e sinónimo de revelação e ousadia lírica como podemos ler em “Nota Informativa I”: “não há utilidade em conhecer palavras / tua boca move-se com a lentidão das portas à noite /ou com a monotonia do lume que te passeia nos olhos/ continuas a procurar/ as sílabas que te levem ao derreter dos versos/ ou ao presságio da saliva dos espelhos”. Escrever ou procurar as sílabas que te levem ao derreter dos versos passou, portanto, a fazer parte da sua vida e este enfrentamento é digno de estima, elogio e admiração. Seria, no entanto, bom esclarecer que muito embora os encómios naturais a que esta primeira obra possa estar sujeita convém não embandeirar em arco ou desperdiçar loas de forma fácil e corriqueira pois acreditamos que ainda há muito caminho por fazer e desbravar. O livro convoca a poesia, a prosa e o conto sendo neste último registo que o autor arrisca abrir o jogo do que está para vir: “- rasurem a minha vida, quero escrever outra e medito, eis as minhas pernas um tanque e cicatrizes (…)”. O escritor está consciente que este é um livro de homenagem aos seus autores dilectos e que por ali ecoam vozes de leituras, lampejos e demais amores-perfeitos. Ele começa desta forma um diálogo de gigantes e comprova a presença dos autores eleitos em muitas das páginas do seu livro, o que convenhamos não há mal nenhum nisso e é até sinónimo de leitura e gratidão perante a obra de outros. Não será muito difícil encontrar aqui e ali ecos e ressonâncias de Paula Sousa Lima, Al Berto e o seu “Horto de Incêndio”, ou ainda marcas de intertextualidade de leituras mais recentes dos romances e crónicas de António Lobo Antunes, para além de toda a obra do seu poeta de eleição: Herberto Helder.
          A fasquia que Leonardo Sousa colocou perante si está, portanto, muito elevada e, só por isso, devíamos neste momento elogiar a sua ousadia e coragem lírica.

Energia e Ética

Sei isto: a minha energia está canalizada
Para a palavra fazer, gosto da ideia da construção
E o que dela existe nos movimentos normais.
Agrada-me a palavra engenharia e o que ela
Representa: não saias de um sítio sem deixares algo
Atrás de ti. Dirijo-me apenas às coisas que me excitam
Positivamente e me levam a fazer outras coisas, dirijo-me
Às pessoas de que gosto, nunca às de que não gosto;
Sempre me pareceu insensato que se pare,
Nem que por um momento, de admirar, há
Sempre actos e coisas que nos ajudam
neste cálculo infernal da distância entre o dia de hoje
e a nossa morte. E qualquer pessoa dar um passo que seja
em direcção ao que não aprecia, para insultar, ou derrubar,
parece-me brutal perda de tempo, uma falha grave
no órgão de admirar o mundo
(deves combater uma ou duas vezes na vida,
se combateres duzentas vezes
é porque os combates são fracos).
Não sei pois como viver. O que li e vi
Serve-me apenas para ser mais lúcido, não
Para ser melhor pessoa. Adquiri esta regra (ou nasci com ela):
- e é talvez uma moral -
mover-me apenas em direcção ao que gosto.
Se o prédio alto, escuro, feio
me impede de ver o sol, não fico a insultá-lo, não
moverei um dedo para o deitar abaixo:
contorno sim os edifícios necessários
até chegar ao espaço de onde possa receber aquilo que
quero. Se chegar lá de noite, montarei acampamento.


Gonçalo M. Tavares- 1. Edição: Relógio D’Água, 2004

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Declaração Urgente à Primavera!

         Hoje acordei com vontade de dizer um palavrão à Primavera. Não disse. Calei-me a tempo. Pela manhã alguém quis dar-me uma palavrinha e quase me estragava por definitivo este dia de plena invernia. Foi talvez assim que passei a jornada entre médias palavras, não esquecendo que por vezes há pequenas palavras que nos salvam – “um cafezinho, bem dispostinho?”, “está cá um friozinho” – e tudo de imediato se recompõe para salvação dos nossos e dos pecados dos outros. O mundo é demasiado grande mas não seria mesmo nada, ou mesmo muito pouco, sem estas pequenas coisas. E, no entanto, o Inverno já vai longo, comprido e quase sem remissão. Ò Prima, não queres dar um sinal à Vera para aparecer?
       Entristece-me assim e, de que maneira, ver tão maltratada esta debutante estação do ano e constatar por dentro do interior dos dias o falso e ambicioso admitido tomo primaveril de calendário tão incaracterístico, tão incomum e tão impróprio para consumo. Dar por mim a pensar que a estação das estações é agora um logro, isto é, ela, a Primavera, ao contrário de todas as previsões, afinal ainda não tinha chegado. E, por muito que os pássaros cantem, as flores brotem e os dias sejam maiores não se consegue avistar um raio de luz mínima que seja. O sol e a Primavera deste ano talvez venham mais tarde, talvez venham daqui a bastante tempo como veio a encardida a notícia de que Bergen é há muito a capital europeia do bacalhau ou que só agora se saiba que o desenhador judeu, Abraham Abobbot, era de estatura baixa e usava um lenço à L´avalier. Ou que talvez só agora visionemos uma película em que se dá a devida relevância em ter uma vaca no Burkina Faso. O que é um facto e, assumo desavergonhadamente à frente de toda a gente, é que invariavelmente e, por diversas vezes, traí o destino a que me estava destinado. E, desculpem, é que não me importo mesmo nada ou pouco de dar as voltas necessárias à Primavera. E, caso for mesmo necessário, casar-me-ei com ela já no próximo domingo!

terça-feira, 1 de abril de 2014

Os Pássaros Nascem na Ponta das Árvores

Os pássaros nascem na ponta das árvores
As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
Os pássaros começam onde as árvores acabam
Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se
Deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal
Como pássaros poisam as folhas na terra
Quando o Outono desce veladamente sobre os campos
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores
Mas deixo essa forma de dizer ao romancista
É complicada e não se dá bem na poesia
Não foi ainda isolada da filosofia
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a mão a inúmera mão?
Eu passo e muda-se-me o coração


Ruy Belo

ALENTOS

(Sephi alter)
        
       I
a amendoeira
acho que é dia
vou entre línguas
que ninguém sabe
amarga e branca
em pleno inverno
o sol já vinha
florescia
fora da amêndoa
dentro das línguas
ninguém sabia
que despertava
com a flor primeira
acho que é dia
       
         II
mexe mexe damasqueiro
ainda sem  folhas ali
com as origens à mostra
todo o por dentro de fora
que até se vê através
das flores que não vieram
toca no que ainda dorme
mexe no mês de Janeiro
fica desarmado um ninho
onde o tronco se bifurca
desabitado  uma roda
de restos em turbilhão
mexe dentro da origem
toca na polpa do alperce
invisível mas que vem
relâmpago no caminho.

            III
se te lembras da China
ou se já tudo esqueceste, diz,
amoreira tão alta, cansada de
tudo. cantas  agora em silêncio,
escuta-se   
a tua altura sem neve.
lembras-te ao menos do verão
da fadiga, folha após folha
dizendo amoras amoras
dizendo tudo da seda da fruta.
cantar, diziam amoras
nos sinais do Outono
a cair a cantar

              IV

querem as uvas sair daqueles meandros
daquelas matérias mortiças;
vide dormindo sem presença
passa despercebida
tempo concentrado, vida escura
querem que  pague a fé na sepultura
que hás-de florir
dar sombra verde uma turba de mãos
estender-te velocíssima
agarrar trepar aumentar invadir o espaço
fazer brotar cabelos de bagaço
sei por ouvir dizer
por histórias contadas repetidas
coisas do teu futuro
cachos sumos bebedeiras
bondades crimes carreiras.
acreditas que sonhei
estar sentado à tua sombra
num socalco de Lisboa
e depois vinha uma abelha
de Évora com um ferrão
(daqueles que suicidam qualquer abelha em qualquer lugar)
para me comer à mão?

       V
nespereira
não pereira
que já seca
que já arde
na fogueira
pêra seca
sobre a mesa
desespera
a noite inteira
dizes freira
sempre verde
gargalhada
não esperada
cócegas dentro da nêspera
tragédias de Inês Pereira
nome doce
no caroço
abrasivo
na dentada
riso vivo
amarelo
como a casca
como a chama
alaranjada
quatro nozes
vinte vozes
contra a alma
mil algozes
no regresso do Japão
casa queimada não gozes

João Paulo Esteves da Silva

sábado, 29 de março de 2014

Guia Açoriano (II)

Fotografia de Tiago Rodrigues
        Cheguei à Ilha Terceira ao tombar da tarde, tudo me parecia absolutamente fascinante. E à cidade de Angra somente uma hora depois. Chovia. Encontrei um centro da cidade carregada de história e de património e à qual tinham acrescentado o dado mundial e, que ainda assim, não era causador de atracção turística. As suas casas e ruas tem um mistério de séculos e foi nessa ânsia de busca de conhecimento e passado que mergulhei através do “taxista-poeta” nas histórias de uma cidade aberta à minha curiosidade. Descobri no caminho para a cidade de Angra que bem perto do centro há um cemitério hebreu. Tomei um banho no hotel, jantei um amanteigado prato de lapas no Aliança e telefonei novamente ao taxista que me tinha acompanhado. Solicitei que me acompanhasse ao “Campo da Igualdade”, ao mesmo tempo que interroguei sobre a possibilidade de vir comigo ao tão afamado cemitério hebreu questionei sobre se este sabia mais alguma coisa sobra a passagem dessa comunidade em Angra. Este disse-me que quando terminasse o serviço nocturno que me ligava. Entretanto, munido do prospecto turístico que me tinha sido oferecido no aeroporto, caminhei em direcção à elogiada baía de Angra, inscrita em todos os roteiros turísticos. Após uma centena e meia de escadas, deparei-me com o antigo Mercado Dona Maria Pia, actual Centro de Ciência, situado no antigo caminho dos Côrte-Reais e tinha sido inaugurado a 23 de Agosto de 1884, ainda que neste folheto não diga quem foi o desenhador ou arquitecto de tão particular edifício. Minutos depois, o taxista ligou e, após duas ou três histórias caricatas da sua profissão, referiu que estava a caminho. Cheguei ao cemitério de madrugada e com ele trazia um folheto encardido, muito antigo, sobre a presença hebraica na ilha, escrito por um tal de Pedro de Merelim, e que me cedeu para ler durante essa curta viagem. Descobri de imediato que um Fortunato Benjamim, às portas de deixar este mundo e sem vontade de se juntar às almas inglesas no cemitério protestante, comprou à câmara municipal um terreno por 300 mil réis em 1832 com o intento de juntar por ali as almas da sua comunidade. Quando ali aportamos, ainda tentei subir o muro mas assustei a minha companhia nocturna, refreando o ímpeto constatei que o melhor seria voltar quando este se encontrasse aberto ao público. De volta ao hotel, passei a noite em branco a ler aquele livro emprestado com a promessa que o devolveria em mão na manhã do dia seguinte.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Os Meninos Morrem Dentro dos Homens

“Os meninos/morrem dentro dos homens/ na volúpia escaldante de corpos pegajosos/ em negros e agudos penedos dos profundos abismos do desengano/ na luta do pão/ mel a escorrer das fontes da servidão/ os meninos/ morrem dentro dos homens/ à carícia cada vez mais nostálgica do sol-poente/ à descoberta do segredo guardado e resguardado/ e afinal efémero fortuito e banal.”

Rui Duarte Rodrigues, “Os meninos Morrem Dentro dos Homens” (1970)

quarta-feira, 19 de março de 2014

"Meu Pescador, Meu Velho" no Alpendre.


Meu Pescador, Meu Velho dia 20 no Alpendre
(Cine-Eco com extensão à Ilha Terceira pelo Cine-Clube)
  Amaya Sumpsi não faz parte dos conhecimentos deste escriba, tão pouco os pescadores de Porto Formoso, da Ilha de São Miguel. Não há também qualquer interesse escondido em promover ou divulgar este documentário, somente partilhar e querer estar próximo desta gente. No entanto, é caso para dizer que este foi o "o filme de 2013". Porventura, o filme surpresa, visto e apreciado nestes últimos tempos ou aquele que mais emoções causou. No fim deste filme a questão foi feita muitas vezes: para que serve a arte ou para que serve o cinema documental se não for para dar conta das pessoas que vivem em tempo real, isto é, que nos dê  a "ver" estes tempos conturbados que nos encontramos a passar e…a sofrer? Diversas vezes se questionou o facto de podemos ou não chorar quando vemos filmes com esta força e intensidade, com este poder de nos tocar e surpreender. Meu Pescador, Meu Velho é um documentário de uma riqueza por vezes indescritível e com um valor que podemos mesmo não estar à altura de corresponder. Portugal podia ter aprendido com "Os Pescadores" de Raul Brandão, escrito em 1923 e, quem sabe, talvez ainda possa aprender com este gesto de Amaya Sumpsi. Poucos filmes conseguiram ir tão longe e tão perto nessa busca da verdade  sobre o que cada um traz dentro de si. É certo que foi feito em sete anos, tempo suficiente para construir uma casa, mas que ainda assim vale a pena escutarmos o que estas pessoas nos dizem - e muito! - bem como guardar o legado e o lastro que este filme nos deixa para construirmos outro presente que não este. Ou, simplesmente, a alegria de estarmos vivos!