quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Arlindo

      Olhei para ele e demorei algum tempo a reconhecê-lo. Tinham passado mais de dez anos desde que o vi num terreno junto das suas vacas no lugar mais ocidental da Europa. Era um dia de bruma intensa e foi a única pessoa que avistei no trilho efectuado. Enquanto trabalhava no seu terreno, tinha junto de si uma bandeira nacional pregada ao chão. À altura, cumprimentou-me e aproveitei para lhe tirar uma fotografia junto daquele símbolo nacional. A seguir, limitei-me a perguntar pelo seu nome e prossegui o caminho até ao Farol de Albernaz. Nas últimas vezes que lá tenho ido não o tenho visto mas sabia que andava lá por cima a mondar a terra. Voltei agora a vê-lo pela manhãzinha na estrada que vai dar ao centro da freguesia. Consigo transportava um rádio ao peito onde escutava o programa dedicado às bandas filarmónicas. Disse-me ter saudades do tempo em que as pessoas se respeitavam umas às outras, ainda se referiu ao quilo de amoras a quinhentos escudos, e que toda a gente comprava, por sinal, bem como afiançou, felizmente por ali, ninguém rouba nada a ninguém. Era domingo de festa na freguesia e ele ainda tinha que voltar à montanha antes de escurecer.  

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Ontem escrito numa parede da cidade...

O colchão deve ter sido inventado pelos primeiros campistas.

No interior do livro de Raul Brandão, um recorte de jornal...

Na Fajã

       Ao fim de 10 dias na Fajã, sabemos em que dia chega cada coisa e o que é que nunca chega. Por exemplo, este jornal nunca chega. Estou a escrever sobre um lugar de Portugal onde o PÚBLICO não existe.
        A Fajã tem uma rua que vai da montanha até ao mar, com a igreja, a mercearia, a tasca, o albergue, o largo das árvores e, no fim, em frente ao mar, o restaurante.
     No princípio de Setembro, a igreja prepara a festa. Ao lado, a mercearia mantém-se aberta todos os dias das nove às nove. Há o dia em que chegam os bolos lêvedos, a que toda a gente chama "bolos".           Há o dia em que chega a massa sovada, a que toda a gente chama "massa", e que é uma espécie de massa de pão-de-leite em forma de pão-de-ló.Há o dia em que chegam os queijos frescos, a que toda a gente chama "os queijos da Ilda", e que são os melhores do mundo. Há o dia em que chegam os iogurtes da ilha, autênticas bombas, em copinhos de vidro. Se há dia para verduras, nunca fiquei a saber, mas são pobres. A Fajã não é bom lugar para saladas.
     O albergue parece deserto, de tão quieto. O largo das árvores varia entre dois e três velhos. E no tasco estão os trabalhadores das obras.
Porque há obras na Fajã, e quem me explicou isso foi o meu amigo cozinheiro. É um rapagão de outra ilha com este talento autodidacta, por exemplo, polvo guisado, um polvo do céu. Foi assim que começámos a falar. Cumprimentei-o pelo polvo e ele perguntou-me se eu era do Porto. Do Porto? Porque haveria de ser do Porto? Ah, porque com as pessoas de Lisboa há sempre problemas, nunca nada está bem, disse ele. No fim da conversa, fiquei a saber que éramos vizinhos. Ele também morava na colina. E na conversa seguinte anunciou-me que se ia despedir porque se zangara com o patrão. Mas é fácil arranjar outro trabalho? Ele riu-se, já tinha trabalho, ia para as obras, que era o que gostava mesmo. Mas há assim tantas obras na Fajã? Ui, disse ele. Há muito trabalho nas obras, as pessoas daqui é que não querem. Os homens que param no tasco vêm de fora. E estão a fazer, por exemplo, a segunda, terceira e quarta casas do presidente da câmara em frente ao mar, ou aquele - como chamar-lhe? - empreendimento em frente às piscinas naturais. Estão a acontecer coisas na Fajã, disse o meu amigo cozinheiro. Felizmente, existe o mar, e o mau tempo, pensei eu. Longa vida ao mau tempo. O mar e o mau tempo são as barreiras naturais dos Açores.
       Mas é mesmo pensamento de lisboeta que lá vai 10 dias. A Fajã não quer ser o Funchal mas também não quer este isolamento. Não se nasce aqui, não se é operado aqui, mas morre-se aqui, e uma morte é sempre de todos.
      No dia em que vim embora, a Fajã estava de luto. Um homem que eu vira na véspera a mondar a erva, foi às rochas apanhar cabras para a festa da igreja e caiu. Eu soube quando o meu amigo cozinheiro me bateu à porta. Ia fazer de bombeiro, recolher o corpo.

Alexandra Lucas Coelho, 22 de Setembro de 2010.


sexta-feira, 11 de setembro de 2015

É hoje!


Ontem escrito numa parede da cidade...

     Aristófanes desconhecia as nuvens da Fajã Grande, assim tivesse percebido melhor os sofistas. 

As Flores, Flores...

      Apareceu, entretanto, um jornal pela mesa, com o nome de Monchique, gente que escreve, no interior do verde e das fajãs. Gente a espalhar palavras pela ilha, provavelmente para tornar mais solta a conversa dos homens no cair da tarde. O editorial constata o que já todos sabíamos, falta crianças a crescer no meio de tanto verde, falta também saber aproveitar melhor e de forma mais saudável um recurso tão útil como a água. Falta tanta coisa e mesmo assim há tanta coisa por aqui: o esplendor do verde e do azul (quando há!), o silêncio feito paz interior, as cascatas a jorrar água permanentemente, uma terra fértil onde brota tudo que se possa plantar. E por fim, um mar com tanto peixe, ainda que seja melhor e menos perigoso pescar no verão. E a Fajã Grande? Lugar de tanta beleza, espaço de prodigiosos encantamentos, apetecível para alemães reformados ou retiros prolongados de gente à procura de trilhos e de descanso. As Flores, as flores...

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Notícias do Congresso na Ponta da Fajã

Fotografia de Tiago Rodrigues
    Acabei de encontrar de forma surpreendente na Ponta da Fajã, Ilha das Flores, o meu mui amigo Janeiro Alves. A razão prende-se com mais um congresso anual de amantes das letras e do verde, que terá a presença de oradores oriundos de todas as ilhas do mundo, inclusive das Formigas. Este ano, como é já de todos bem conhecido, apresentarei a palestra com o título: "Dar Milho aos Pombos ou a Suspensão do Tempo sem Propriamente o Matar seguido de As Raparigas Bonitas são atraídas por Machos Alfa." Aguardo, portanto, com ansiedade saber o título da conferência de Janeiro Alves, pois há quem diga que nem ele próprio o sabe, mas será certamente uma pedrada no charco, neste caso um jorro de água na cabeça de alguma incauto que arrisque passar no Poço do Bacalhau. Curiosamente dizem também as más línguas que este ano há excursões de jovens activistas políticos do país inteiro para ouvir a conferência de Janeiro, pois acredita-se que quem ouve com atenção Janeiro sabe de onde vem e para onde vai o  dinheiro. Ainda não sei se voltarei a ver Janeiro Alves antes da sua prelecção mas foi uma honra ter partilhado uma bifana e uma mini em tão honrosa roulote que presta apoio aos conferencistas. Um amplexo e até breve com mais notícias.