segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

A Pé por PDL

            Quando o Inverno se instala, só é possível chegar a São Miguel de avião. Depois, começamos facilmente a percorrer as ruas de Ponta Delgada pelos próprios meios, usando os pés à velocidade do tempo que mais nos aprouver. É impossível passear por terra micaelense sem visitar o jardim António Borges e, se conseguirmos visitá-lo com uma visita guiada tanto melhor. Foi isso que aconteceu com a disponibilidade do funcionário Paulino, que teve o condão, a gentileza de mostrar árvore a árvore, recanto a recanto, tendo começado logo por apresentar o criador e desenhador daquele espaço - o paisagista, António Borges, erigido em busto à entrada, apercebendo-nos de imediato desse seu entusiasmo em reunir diversas espécies em cerca de 2,5 hectares, mesmo no centro da cidade insular. De imediato, a atenção foca-se numa “Phicus Macrophyla”- normalmente apelidada por Figueira Australiana, ostentando várias raízes externas como se fossem rugas salientes a marcar a passagem do tempo e da velhice. O Jardim António Borges é a imagem de marca do romantismo pitoresco do séc. XIX, tendo sido concretizado entre 1858 e 1861, passando para o domínio público na segunda metade do séc. XX, mais concretamente a 11 de Setembro de 1957. O responsável pela introdução deste riquíssimo e vasto património arbóreo, verdadeiro amante de botânica, dedicou uma boa parte da sua vida à preservação destas espécies, exóticas na ilha. Todo o espaço do jardim é um encantado passeio pela diversidade e variedade, onde podemos encontrar a Palmeira das Canárias, a Araucária Colunária, o Eucalipto-Limão, Jacarandá, Maciço de Bambu, etc.
          Depois de visitarmos aquela floresta encantada, e, continuando o percurso pedonal em redor da cidade insular, é agora tempo de visitar o Coliseu Micaelense, representante centenário da monumentalidade da época em que foi erigido, contém também um pólo museológico, possibilitando assim o acesso ao seu acervo histórico que data de 1912. Actualmente acolhe peças teatrais e concertos musicais, sendo a maior sala de espetáculos do arquipélago açoriano. Segue-se o périplo em direcção ao Teatro Micaelense, espaço destacado da vida social e cultural da urbe insular, com a apresentação pública em 1951, obtendo um projecto de requalificação no ano de 2004. Outro lugar de interesse histórico, desta feita de cariz religioso, é a sinagoga "Sahar Hassamain”, recentemente aberta ao público, após tantos anos encerrada. Trata-se da mais antiga sinagoga portuguesa, situada na rua do Brum, nº16, a sua recuperação tem sido feita de forma gradual e consistente, no sentido de manter no seu interior os traços, os sinais e as memórias da passagem da cultura hebraica pelas ilhas. De seguida, ainda antes que a noite caia, é necessário frequentar a Galeria Fonseca e Macedo, criada no ano de 2000 e com o propósito de servir a arte contemporânea. Neste momento, a galeria pede-nos para convocar o olhar no caleidoscópio de imagens/pinturas de Miguel Branco, um autor fascinado com a paisagem e fauna das ilhas, evidenciando a sua atenção e sensibilidade para uma síntese de pequenos quadros intitulados de “Ínsula”.
          Por último, para terminar este calcorrear escorreito pelas artérias da cidade, conviria visitar a rua de Pedro Homem e a galeria…Miolo. É um novo ponto de paragem e observação na rua de Pedro Homem, no centro histórico de Ponta Delgada. Segundo reza a história, Pedro Homem foi escrivão do Ouvidor do rei D. João III, viveu e morreu por ali, caracterizando-se por possuir capacete ou adaga e terá sido o introdutor de várias aves - falcões, cisnes e milhafres - na Ilha de São Miguel. A nova galeria que passa agora a existir no número 45 desta rua pretende ser, cinco séculos depois, mais um ex-libris de forte atracção e interesse, não só histórico, mas também cultural e turístico. E porquê? É que nesta rua já existe o restaurante vegetariano “Rotas”, o "Hostel The Nook", o Bed and Breakfast “By Lapsa” e, para além de tudo isto, há também um cabeleireiro, um dentista e uma farmácia na esquina.

Um pelo Menos

"Acredito no que faço, e que nos cabe honrar o que fazemos. É uma luta diária, antes de mais contra a facilidade, e se cada um não acreditar não sei por que os outros hão de acreditar. No caso das crónicas, será também, muitas vezes, uma forma de intervenção no colectivo. Não escrevemos para ter muitos leitores, mas acredito  em escrever para (e talvez por) um, pelo menos."

Alexandra Lucas Coelho, in Público, 24 de Janeiro de 2015.

sábado, 23 de janeiro de 2016

66-12-ZZ

Como um velho comerciante de carros falido
parecias saído de um filme de Tarantino.
Com as minhas plumas em forma de asas
e a maquilhagem de anjo doente
parecia saída de um filme de Wenders caído.
Relativamente às plumas, em forma de asas,
trazia os cálculos anotados
da distância a manter do Sol
e a imagem de Ícaro em chamas.
Mas naquele dia tudo correu mal.
O que poderíamos fazer de diferentes filmes saídos?
E choveu.
E o nevoeiro nem um cometa deixou ver.
A minha maquilhagem desfez-se,
confundiu-se com os veios das plumas
que se colaram à minha coluna vertebral
como um colete de forças.
E tu velho comerciante
já não me pudeste enganar
e vender um artefacto voador
por um coração ferido.

Ana Paula Inácio

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Missiva a Janeiro Alves antes do Findar do Mês

 Amigo Janeiro Alves,

    Estranhamente hoje acordei com o refrão de “Voyage, Voyage”, dos Desireless, e dei por mim com chuveiro junto da boca a cantar: “Plus loin que la nuit et le jour,/(voyage voyage)Voyage (voyage)/ Dans l'espace inouï de l'amour./ Voyage, voyage/ Sur l'eau sacrée d'un fleuve indien,/ (voyage voyage)Voyage (voyage)/Et jamais ne revient”, um tema pertencente à dupla Rivat e Dubois. E, é verdade, lembrei-me de si, o meu magnífico viajante Janeiro Alves, amante do norte, ainda que sempre envolvido em grandes mariscadas, já para não dizer “suomices”. 
         Aceitei, portanto, de bom grado a embalagem de filetes de peixe que me enviou do norte europeu. Adorei, adorei, adorei. Sinceramente não me custou interceder perante o embaixador dada as circunstâncias em que o meu amigo se encontrava e a sua necessidade urgente de anonimato bem como essa sua inusitada vontade de emanar divagações de bolso. No entanto, deixe que lhe diga que o amigo Janeiro deveria fazer um retiro por aqui, mais concretamente no conhecido “Cu de Judas”, longe de qualquer avistamento ou proximidade humana. O que me diz sobre isso?
                Escrevo-lhe também para dizer que atravesso um momento crucial da minha existência pois decidi fazer um périplo por diversas universidades e centros do conhecimento com o intuito de proferir a seguinte conferência: “O Fim do Trabalho: Um Futuro de Ouro?” e em que pretendo elucidar a sociedade em geral sobre o que irá surgir depois do trabalho, tal e qual o conhecemos. O meu amigo bem sabe que as máquinas produzem muito mais e em pouco tempo, não parando de produzir desempregados. É urgente, à laia do que escreveu o Paul Lafargue, em “Le Droit de La Paresse” (O Direito à Preguiça), corria o ano de 1883, reclamar de baixo para cima: “E os filantropos da indústria continuam a aproveitar as crises de desemprego para fabricar mais barato.” É tempo de abandonarmos o trabalho como obrigação/dever e voltarmos a defender o trabalho enquanto livre escolha de fazermos o que gostamos e queremos. Não concorda, meu caro amigo?
            Aproveito também, agora que sei que voltou ao seu tugúrio no Estoril, para lhe augurar um “Soft Power Relaxante”, enquanto bebo por aqui o poderoso néctar das montanhas de Kowatunturi que o meu amigo colocou no pacote. E agora vou ao correio pagar a sua encomenda, a amizade longínqua com o meu amigo Janeiro fica sempre mais cara que as demais.

Ampexo com estima,
Doutor Mara

Ontem, escrito numa parede da cidade

Antes Amália  que Woody Allen

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Ettore Scolla

      O cinema mais belo do mundo perdeu mais um dos seus grandes:Ettore Scolla. Recordarei sempre o inacreditável e audível riso provocado pelo seu “Feios, Porcos e Maus”, tal como a alegria de saber que o cinema pode falar da vida e das pessoas que vivem ao nosso lado, as pessoas que vivem connosco.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Janeiro Alves apanha um avião para o quotidiano...

Caro Dr. Mara,
          
       Devo-lhe, antes de mais, o facto de ter exercido a sua influência perante o embaixador, permitindo assim a minha libertação de tão intrincada circunstância. Nos meus últimos dias de Lapónia, houve ainda tempo para a cerimónia da minha canonização, com a inauguração da minha imagem em bronze por parte do bispo local, e o descerramento da placa que renomeou a Igreja luterana local com o meu nome – Holy Tammikuu (São Janeiro). O meu sósia tem sido capa de todas as revistas da especialidade, como um bucólico camponês que foi pulverizado pela graça divina. Acontecimentos bizarros estes Dr. Mara, que contados, ninguém acredita.
Felizmente fui resgatado com sucesso deste insólito. Após combinação estratégica, o corpo diplomático apanhou-me às 5 da manhã junto às bombas de gasolina locais, e ninguém me viu sair. Actualmente já deram pela minha falta e segundo me constou, fala-se por lá do milagre da minha ascensão. Subi aos céus Dr. Mara! Por esta é que eu não esperava, eu que sou uma geométrica besta mundana.
Já refeito deste episódio, regressei à vida quotidiana, apreciando o esplendor de todos os seus rituais. Voltei ao meu sossego, e ao anonimato. O anonimato faz-nos voyeurs do mundo, permite-nos ter a liberdade de nos mantermos presos ao fascínio dos acontecimentos, e transformá-los em matéria da nossa inspiração. Os mundos que habitam na nossa mente... O corpo divaga pelo vaivém das coisas, no crepúsculo da cidade, e cá dentro carregamos um mundo ainda maior, que às vezes transborda em esplendorosas manifestações. São as diferenças entre todos nós, Caro Dr. Mara, que abrem as portas do deleite, que são criadoras e construtivas. São essas diferenças, às vezes minúsculas, de pormenor, outras arrebatadoramente grandes, que a sociedade inconscientemente tenta suprimir, ao massificar os objectos, os sonhos e os comportamentos. A sociedade criou uma auto-estrada, confortável e espaçosa, com protecções metálicas dos lados, para todos caminharmos em segurança no mesmo sentido. E como é difícil sair da auto-estrada. Alguns, em desespero, até circulam em contramão, mas são rapidamente apanhados. Mas há outros caminhos, muitos caminhos, ramificações, atalhos e miradouros, para que cada um siga aquele que lhe for mais conveniente e agradável. Pela auto-estrada chegamos mais depressa, mas onde? E quando chegarmos pode ser o caos. Será que haverá estacionamento para toda a gente? Será que não haverá selvagens com fome a lutar por um pedaço de pão? Talvez a auto-estrada dê a volta ao mundo em círculo e nunca pare. E nela ficaremos quando acabar o combustível, até nos tornarmos pó.
Aqui pela metrópole, todos os mecanismos desta grande engrenagem estão bem oleados, com combustões de rara beleza visual e explosões de cor e alegria, apesar do dia, cinzento, e do vento, esta ventania, que ora nos traz, ora nos leva a agonia. Isto digo eu, que não sou de cá.
Perdoe-me estas divagações de bolso, Dr. Mara, mas como sabe, é a única pessoa que me ouve (com olhos de ler). E como já se faz tarde, tenho de ir dar milho aos pombos, no sentido figurado, claro. Aguardo notícias Marianas, e garanto-lhe que após alguns acontecimentos que efectivamente denegriram a sua imagem pública, é bem hora de sair do cativeiro e dar um ar da sua graça, pois o povo tem memória curta, e para além disso todos têm direito a uma segunda oportunidade.

Com admiração e reverência,
Janeiro Alves

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Da força

"As pessoas fortes são pessoas que raramente falam, que ouvem. Essa disponibilidade para receber é uma força."

 Gonçalo M.Tavares in Revista Ler.

sábado, 9 de janeiro de 2016

As Charlas na Galeria Arco 8

       "O texto incide essencialmente sobre uma entrevistadora, por sinal, bastante curiosa, que numa pose bastante reverente, pomposa e, até enfatuada, quer saber tudo a propósito deste cientista social que dá pelo nome de Doutor Mara. Um personagem meia louca e lunática que adora viver em cidades marítimas e campestres, dividindo assim a sua vida entre o isolamento –  hábitos de anacoreta e o seu gabinete citadino onde se dedica a estudos antropológicos de longo alcance. Este texto que se quer, tanto dramático como cómico, tem como ideia base contrariar aquela ideia muito presente de que os seres humanos têm sempre muitas ideias e factos significativos  para dizer ou contar, reforçados e ampliados pelos meios de comunicação social e redes sociais, isto é, o “hipermediatismo” dominante. Servimo-nos por isso deste Doutor Mara, habitual frequentador de tugúrios inimagináveis, que vão desde os jardins públicos, discotecas, tascas e afins, e que, aproveitando-se do seu estatuto de figura pública sem mácula, para dialogar e dissertar com o público sobre este mundo em que vivemos, não muitas vezes muito mal frequentado. Os actores Tiago Vouga e a Aurora Ribeiro estrear-se-ão em Ponta Delgada com os capítulos Ginecomagia, Tarantoterapia e Enomátria que terão palco na Galeria Arco 8, no dia 15 de Janeiro, sexta-feira, pelas 23 horas." 

(o autor do texto As Charlas Quotidianas do Doutor Mara)

Seis Poemas na Ilha de São Miguel

1- Clínica da Alma
a Alberto Manguel
Os egípcios avivaram com cuidado,
no mistério revelado, agradecidos,
antes de qualquer roubo ou guerra
sem ruína de outra sobrevivência
dicionários, livros e compêndios
perenes depositantes de memórias
Desse lugar infinito agora observamos
o secreto abecedário das estantes
em geografia de línguas alcandoradas
e nas remediadas doenças do presente
as perguntas inquietas por fazer

2-Da Caloura, as pedras

Trazem com elas o tom e o silêncio
delicadas brechas, destroços vários,
líquidas vozes desavindas
aspiramos ondas e demais histórias
Modelamos nuvens, entoamos metáforas
a fúngica bruma patenteada
nos lábios e nos dentes
e na tardinha tudo abafamos
com o marítimo som das evidências.

3- Queijadas de Papoila e Chá Verde

Houve vagas silenciosas em crescendo
e momentâneos enganos
Talvez possamos inventar um paradoxo
folhas frescas em verdes águas
No céu o paladar bem destilado
e o boca a boca reencontrado
caem grainhas da incerteza
à lenta paz dos órgãos
a virtude dos passos dados.

4-Momentâneos Empenhos

Professar ao vento a inspiração
declarar instantâneos empenhos
essa súbita vontade fulgurante
a impressão do tempo que passa
nas linhas ditadas e coser
os múltiplos desafios do devir
decididos incitamos a potência
num traçado augúrio preferido.

5-Tácita Recusa

Uma tácita recusa dos dias frios
como horas no tempo crepitam
dão o corte e o contraste
à erosão dos desvios consumados
rumor implícito nos gestos
uma vaga cobertura de promessas
na união sobejamente anunciada.

6-Vadia Epopeia

Consumamos um velho vício
mortiço fado espelhado na madeira
A luz nocturna sobre a mesa, 
condição, desolação, desarrumado
como uma seda fina a laborar
enfrentar essa suprema ilusão
confiança de ouro na tomada e
no brilho
exaltação dos ombros na partida. 

Ontem, escrito numa parede da cidade

-Não há festa nem festança que não entre Maria na dança.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Uma Carta de Janeiro Alves em Janeiro de 2016

Caro Doutor Mara,
       
       
     Neste Natal, ao contrário dos restantes, resolvi enviar-lhe os votos de boas festividades desta terra longínqua onde me encontro, e um pedido de ajuda. Não imagina ainda o Doutor Mara o interesse circunstancial desta carta, verdadeiro manifesto da experiência que aqui tenho vivido. Se esta carta manifestasse algum interesse para o progresso da humanidade, o seu conteúdo seria comparado à ida do homem à lua, imaginário inverosímil mas agitador das mais assolapadas paixões. 
        Como sabe, nunca fui dado a Natais. Nunca me invadiu o espírito do bacalhau, e sinto um nervoso crepitante na espinha sempre que oiço “ho-ho-ho”. Como o Doutor Mara deve imaginar, não é que eu tenha nada contra o natal, é que nada tenho a favor.
       Este ano no entanto, encontrei um paradoxo nesta forma de estar. Sendo eu um experimentalista, não podia deixar de viver uma vez que fosse a experiência do natal, de forma a estudar a sua repercussão emotiva no indivíduo. Assim rumei à Lapónia, onde me encontro neste momento. Aluguei um pequeno casebre no meio da Floresta de Rovaniemi e levei comigo mantimentos para alguns dias. Fiquei numa pequena e confortável casa nórdica de madeira, com lareira e sauna exterior. Nos primeiros dias não saí, pois nevava muito. Passei-os a ouvir os Christmas Crooners, a ler alguns livros de natal, e a embrulhar alguns presentes para oferecer a mim próprio. Passados três dias decidi sair. Parara de nevar e aventurei-me pela floresta. Saí de casa às onze da manhã, altura em que nasce o sol, para aproveitar as duas horas de luz até ao por do sol da uma da tarde. No meio da floresta de gelo e luz ténue sem pontos de referência, engendrei uma forma de não me perder, desenrolando desde casa um grande novelo de lã que tinha levado para o efeito. 
       Depois de meia hora de caminho surgiu repentinamente uma matilha de glutões, e comecei a correr para me afastar deles. Não são perigosos para o homem, mas em matilha não arrisquei. Fugi desesperadamente, perdi o novelo e muita neve começou a cair. Depois de muito me afastar, os glutões acabaram por desaparecer no horizonte, e ali me vi, perdido e sem qualquer orientação. Começou então a escurecer e a densificar-se o meu receio de ali acabar os meus dias. Caminhei perdido à procura da casa, e o cenário parecia-me cada vez mais inóspito. Tinha poucas horas de vida. Acabei por cair de cansaço. 
      Acordei numa casa desconhecida. Embrulhado em cobertores, abri os olhos e uma rapariga fixava-me estupefacta. Começou a falar comigo em Finlandês, em tom aflito. Eu disse “I don’t understand Suomi! Do you speak English?”. Ela não falava Inglês, e falava comigo com lágrimas nos olhos. De repente, foi buscar uma fotografia para me mostrar. Era eu, vestido com roupas estranhas. Mas o que fazia a minha fotografia na sua casa? Perante o meu espanto, foi buscar mais algumas, ainda mais estranhas. Eram fotografias onde estávamos os dois, eu e ela, em várias situações do quotidiano.Enquanto eu olhava incrédulo para as fotos, ela abanava-me, chorava, e falava em finlandês num tom desesperado. O auge do irrealismo foi quando observei que numa das fotografias nos beijávamos, eu e aquela heidi das montanhas. Imaginei que deveria estar com sérias lesões cerebrais, ou com delírios febris. 
       Toda esta história culmina com a explicação para o sucedido, não menos insólita. Ouve-se a chave a rodar na porta de madeira velha, e uma voz grossa em finlandês. A rapariga, ainda com lágrimas nos olhos sobressalta-se. Seria obviamente o marido que chegava a casa. Eis que entra um homem igual a mim, fotocópia, cara chapada, sem tirar nem pôr. A rapariga observa-o, volta-se para mim, e para ele, e para mim, e desmaia. Encontrei um sósia de Janeiro Alves, Dr. Mara. E veja só onde o fui encontrar. 
        Acabaram por me salvar a vida, pois a rapariga tinha-me encontrado quase a desfalecer na neve, e trazido para casa pensando ser o seu marido, e que o mesmo estaria com amnésia. Acabámos os três a jantar bifes de rena com vinho quente, a comunicar por gestos e a rir de toda esta situação. Deram-me guarida nessa noite, e no dia seguinte, quando me preparava para zarpar, toda a aldeia me veio ver. Transformei-me na atracção de natal da aldeia, Dr. Mara, numa espécie de freak show escandinavo. Saí em todos os jornais da região, e muitos turistas começaram a aparecer passados alguns dias, engodados pelo fenómeno. Segundo os jornalistas, que falavam inglês, os locais viam a minha aparição como algo sobrenatural, e era intenção do chefe da aldeia erguer uma estátua com duas figuras em bronze: a do sósia Lapão, e a minha ao lado com umas asas de anjo.
Neste momento ainda não consegui sair daqui. Peço-lhe ajuda para que interceda pela minha deportação para Portugal, pois tenho receio que me utilizem para experiências científicas. Imagine a ironia Dr. Mara, um experimentalista alvo de experiências científicas. Peço-lhe que fale para a embaixada de Portugal em Helsínquia com a maior brevidade possível. Se tudo correr bem, será compensado com os melhores filetes de peixe que eu próprio transportarei das águas frias para o seu paladar. 
      Na esperança que esta carta lhe chegue às mãos, desejo-lhe os mais sinceros votos de vigor físico e intelectual para enfrentar de cara erguida os desafios que se levantam imponentes e categóricos neste ano de 2016.

Janeiro Alves, em Rovaniemi - Lapónia

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

2015: Entre as Sombras e a Luz

        Um ano passou e com ele os doze meses findaram. Partem assim sem querer mais nada com a gente. Continuaremos daqui a pouco, certamente, com a energia de sempre. Poderia ter gostado muito deste ano, mas há igualmente coisas para lembrar e outras para esquecer, semelhante a todos os outros anos. É sempre assim: desviemo-nos do supérfluo, o essencial permanecerá. Após destrinça, ficam as leituras de poemas de Alexandre O´Neill, Sophia, Ruy Belo, José Miguel Silva, Karmelo C. Iribaren, Leonardo, Marta Chaves, João Habitualmente, Joaquim Castro Caldas, Emanuel Félix, Rui Duarte Rodrigues, João Paulo Esteves da Silva, o recém desaparecido Herberto Hélder, entre tantos outros, lidos nas noites de poesia da Tascà. Segundo, as coisas boas do ensaio literário que me vieram ter às mãos: os livros de Alberto Manguel, deliciosos de ler, sorver, assim mesmo quando o prazer inicial da leitura se renova, ou ainda a curiosidade por ler e ouvir o filósofo esloveno, Slavoj Žižek. Pelo lado dos ouvidos, a música, cada vez mais sons em palco e em escuta:  a dupla Medeiros/Lucas no Teatro Faialense, dois príncipes da Atlântida que compuseram um “Navio” lindíssimo de ver ao vivo ou a ouvir enquanto se olha o mar. A presença de Zeca Medeiros na escola, os concertos na sede do Sporting da Horta e as respectivas recensões semanais para o Múma - Música em Março, no Tribuna das Ilhas, Ilha do Faial. Ainda o maravilhoso concerto de Mbye Ebrima na Academia das Artes, em Ponta Delgada, Ilha de São Miguel. E também a audição da música de Dan Bejar, vocalista dos Destroyer, Selah Sue, Rodrigo Amarante e o surpreendente Benjamin Clementine. A publicação de dois poemas no Capítulos B, uma colectânea de poesia organizada pelo Luís Andrade com poetas a residir nos Açores. Os poemas eleitos para constar da súmula foram: “Uma Mulher em Férias é Bonita” e “A Melancia no Feno da Páscoa”. Este foi o ano em que voltamos a apresentar três capítulos (Ginecomagia, Tarantoterapia e Enomátria) das “Charlas Quotidianas do Doutor Mara”, postos nas tábuas do “palco” do Auditório ao Ar Livre da Biblioteca Municipal da Horta com as interpretações de Tiago Vouga e Aurora Ribeiro, replicando a representação por mais duas vezes para uma audiência de 150 pessoas. Foi também o tempo em que o cinema regressou ao ecrã do computador ou à televisão, por isso recorde-se "Nebraska", de Alexander Payne, "The Kid", de Charlie Chaplin, "Sinédoque - Nova Iorque", de Charlie Kaufman ou a curta-metragem "O Triângulo Dourado", de Miguel Clara Vasconcelos. Deve-se também guardar na memórias as viagens e as paisagens do Vale das Furnas, em São Miguel, o Vulcão dos Capelinhos e a Baía de Porto Pim, na Ilha do Faial, e a Fajã Grande, na Ilha das Flores. Por último, o maravilhoso jardim António Borges, em Ponta Delgada, que o funcionário Paulinho me deu a conhecer nas suas árvores mais do que centenárias, frondosas e vistosas – jacarandás, plátanos araucárias, bambu preto da China, figueiras australianas, eucalipto-limão, entre tantas outras. Tudo o resto é do domínio do indizível. Um feliz 2016!