sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Облако, Облако...

Fotografia Pessoal

Os Olhos de um Grego

“Como poderemos ver hoje a Lua com os olhos de um grego? Foi uma experiência que eu mesmo fiz, na minha juventude, durante a primeira viagem à Grécia. Navegava de noite, de ilha em ilha; estendido no convés, olhava o céu por cima de mim, onde a Lua brilhava, luminoso rosto nocturno que projectava o seu claro reflexo, imóvel, oscilando sobre a obscuridade do mar. Sentia-me deslumbrado, fascinado por aquele suave e estranho brilho que banhava as ondas adormecidas; sentia-me emocionado como se tratasse de uma presença feminina, próxima e simultaneamente longínqua, familiar mas inacessível, cujo esplendor tivesse vindo visitar a obscuridade da noite. O que estou a ver é Selene, dizia para comigo, nocturna, misteriosa e brilhante. Muitos anos depois, ao ver no ecrã do meu televisor as imagens do primeiro astronauta lunar saltitando pesadamente, com o seu escafandro de cosmonauta, no espaço triste de uma desolada periferia, à impressão de sacrilégio que senti hoje juntou-se o sentimento doloroso de uma ferida que não poderia ser curada: o meu neto, que como toda a gente viu nessas imagens, já não será capaz de ver a lua como eu a vi: com os olhos de um grego. A palavra Selene tornou-se uma referência meramente erudita: a Lua, tal como surge hoje no céu, já não responde a esse nome.”

in “O Homem Grego”, de Jean-Pierre Vernant, Editorial Presença

Chmura, Chmura...

Fotografia André Almeida

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Sala de Embarque: Evocar Albert Camus!

Fotografia Carlos Olyveira
Uma peça pede sempre os seus actores, a sua história e o seu público!  Agora que Sala de Embarque cumpriu o seu desígnio das três apresentações previstas, conviria evocar Camus e o seu optimismo, ainda que moderado. As três apresentações de Sala de Embarque não poderiam ter corrido melhor, no entanto, convém não exagerar nos festejos e foguetes. É claro que precisaríamos de um palco à altura das 180 pessoas que nessas três noites estiveram presentes na Galeria Arco 8, é certo que necessitaríamos de aprimorar ainda mais as marcações de pé e todos pudessem ver as expressões e movimentos dos actores, é provável que o texto poderia ser encurtado ainda mais…enfim, há sempre uma nódoa, por mais pequena que seja, que se poderá apontar. De qualquer modo, quando a poeira assentar, deveríamos confessar que aquilo que mais nos interessa nesta ideia de “Sala de Embarque” é o “processo”. Sim, todo o processo de elaboração, construção e montagem de uma ideia teatral. Essa estirada desmedida que é necessária até termos chegarmos ao dia da estreia na Galeria Arco 8, que começa com a escolha do título e escrita do texto, os seus ensaios diários e sistemáticos, passando pela concepção do cartaz e postal, até à montagem do cenário e venda dos bilhetes. Voltando, assim, a Albert Camus para partilhar a sua visão da vida e do mundo que tanto apaixona e entusiasma. Essa concepção presente no seu livro “O Mito de Sísifo” que afirma que apesar de a vida não ter qualquer intento, existe, no entanto, uma possibilidade de lhe atribuir sentido, isto é, a de procurar satisfação no processo (quando a pedra é transportada até ao cume) e não no objectivo final (quando a pedra cai e rebola de novo e é necessário transportá-la de novo até ao cume). Quando é que é a próxima viagem?

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

O Mar em Grande Plano

"Falésias-do-Mar era uma estância balnear em decadência. De favorita da classe aristocrática do século passado, transformara-se, agora, num areal envergonhado, onde as famílias modestas levavam os rebentos nos domingos de descanso. As ruas estreitas tinham sido concebidas para os peões descansados ou, quando muito para alguma carroça que fornecesse os moradores da zona. Por isso, as centenas de carros que sazonalmente, infestavam os caminhos, atropelavam-se, inevitavelmente, num buzimbué infernal.
Era assim todos os domingos de estio. As melancias tomavam o lugar dos brioches enquanto as toalhas de plástico tomavam de assalto o lugar dos linhos antigos.
Em Setembro, finalmente, o povo resignava-se a voltar à mediocridade da sua vida e as coisas sossegavam. Os hotéis, quase a fecharem portas, baixavam as suas tarifas. E os descendentes aristocratas desciam de novo ao mar, embrulhados nas suas cambraias verdes e nos seus fatos brancos de linho.
Com a nobreza vinha, como antigamente, uma outra espécie: os artistas. Pintores, à procura de paisagens desertas; actrizes a descansar de uma temporada exigente; cantoras a dar ar à voz.
Esta colecção de gente instalava-se, quase toda, no hotel Almaroz, uma ruína modernista, a precisar de restauro. A carpete vermelha estava desbotada e os degraus da escadaria rangiam. Mas as suas janelas continuavam a dar sobre a praia e as estátuas de um famoso escultor permaneciam ali para deleite dos frequentadores mais sensíveis. Além disso, os seus preços de final de estação eram metade dos praticados nos outros (raros) hotéis.
Nesse ano, com as cantadeiras e os diseurs, chegaram um cineasta envelhecido, a amante e o filho dela.
Waldemar Guimarães era um realizador quase esquecido. Por razões que escapam à inteligência, tinha tido um grande sucesso com os seus filmes, vinte anos atrás. As criadas e os magalas faziam bicha à porta dos matinés para verem os seus medíocres devaneios. Outros tempos. Agora, só no Ministério da Propaganda e Fitas era conhecido. À custa de favores e diplomacia, lá ia fazendo um filme de dois em dois anos. Coisas inócuas, que nem chegavam às salas de montagem, quanto mais aos cinemas, mas que lhe iam pagando as mordomias.
Todo o santo ano lá vinha ele ajaezado de mulher bonita. “Há sempre uma estúpida para ir na conversa”, dizia ele e com razão, que as coisas são mesmo assim e quem tem unhas é que toca guitarra.
Gracinha andava à nora quando o encontrara. Dois dedos de tanga e a citação com meia dúzia de nomes conhecidos foram suficientes para lhe passar a perna."

in Materna Doçura, Possidónio Cachapa, Assírio&Alvim, 1998.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

DOUTA MELANCOLIA

4 ANOS

Die Wolken, die Wolken

Fotografia de André Almeida

Sala de Embarque: a Falta

Ensaios de Sala de Embarque- Galeria Arco 8
(Fotografia Carlos Olyveira)
          Hoje vamos à Antena 1 Açores falar sobre a peça Sala de Embarque, gravaremos uma emissão com o Williams Maninho Nascimento. O que leva alguém a querer fazer peças de teatro, a escrever, a ler? O que é que se passa para alguém repetir um texto diariamente, de forma exaustiva, e depois dizê-lo publicamente? Por vezes, com  uma actuação de uma só noite, duas, não mais. E o que leva uma peça permanecer somente dois, três dias numa sala? Estas são as perguntas que gostaria de saber responder. Vivemos num momento em que se generalizou o domínio da cultura do entretenimento, caracterizada pela ligeireza e pela mediatização, eliminando qualquer pensamento ou crítica. E porquê “Sala de Embarque”? Sim, porquê falar dessa ideia de instabilidade, inquietação, esse motivo de desconforto que se alojou num alargado corpo/célula, estendendo-se como um vírus generalizado de partida, individual, alastrando a sua mobilidade um pouco por todo o lado. A consolidação desse desejo de partida. Afirmar aqui essa falta e falar de nós, aqui neste tempo e espaço, é disso que iremos conversar. É esse o nosso maior ensejo.