domingo, 11 de dezembro de 2016

[Quando M. me Enviou Sms]

Quando M. me enviou sms
a perguntar plo programa de fim-de-semana
senti a angústia da página em branco de sexta-feira
do cronista de domingo
mas depois lá esbocei este plano,
mais uma mnemónica, diria:
1.º mastigar a angústia como uma chiclete
ao som dos Táxi da altura em que a cuspia
sem qualquer preocupação com a pegada ecológica;
2.º passar pela secção dos Perdidos e Achados da PSP,
do Metro e dos STCP para ver se encontraram um
coração que há dias que não sinto o meu;
3.º listar todas as músicas de língua inglesa
que expõem um broken heart no refrão;
4.º desfazer a máxima:
«Toi, tu est un blogueur.
Moi, je suis une blagueuse.» (que construí a pensar no O'Neill)
sentindo-me digna de uma serviçal de Penélope, que as devia ter,
escondidas nas dobras da história, como escrevi a Z;
5.º rever o filme de Eris Riklis e deixar-te
sobre a tua mesinha de cabeceira este bilhete:
«Não verei o limoeiro crescer!»

Aviso ao leitor: pode começar pelo último ponto, passar ao terceiro, eliminar o segundo e acabar no primeiro. Pode mesmo não sair do primeiro. Ou passar todo o tempo no terceiro. E, se chegou até aqui, pode mesmo ignorar este poema.

Ana Paula Inácio, 2010-2011, Averno, Lisboa, 2011. (Respigado do blogue Hospedaria Camões)

O Olhar de cada um...

            “A grandeza da observação e a gestão do silêncio funcionam como principais instrumentos de aprendizagem. Mas algo me diz que cada um olha para o mar como olha para dentro de si mesmo.”

in “Os Últimos Marinheiros”, Filipa Melo, Edição Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2015.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Soneto 5

As horas em terno ofício emolduraram
Essa face gentil onde o olhar se demora
Hão-de ser as tiranas de si mesmas, as horas,
Como da fealdade que a perfeição supera.
Pois não repousa o Tempo, antes guia o Verão
Ao temível Inverno, para aí lograr;
A seiva enregelada, as folhas sem fulgor,
Soterrada a beleza, e em vez, desolação.
Assim, não fora a essência do Verão conservada,
Líquida prisioneira entre vítreas paredes,
O fruto da beleza por ela era roubado
E nem memória havia de beleza que fosse.
   Mas a flor, no Inverno, perde só a aparência,
   Sobrevivendo, doce, o que lhe deu substância. 


William Shakespeare, “31 Sonetos”, Tradução de Ana Luísa Amaral, Relógio D´Água.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

2ºDIA


Arquiteturas Film Festival 2016

Penúmbria em São Miguel

Fotograma de Penúmbria de Eduardo Brito
      Penúmbria teve, ontem à noite, a sua apresentação junto do público de São Miguel, inserido no Arquiteturas Film Festival. Trata-se de um pequeno filme de nove minutos que nos devolve em imagens, música (Joana Gama) e palavras a magia do cinema. Eduardo Brito, conhecido enquanto fotógrafo e argumentista, transporta-nos, suavemente e sem mácula, para esse seu universo de imaginação e fantasia. O resultado é eficaz dado que há espetadores que acreditaram na verosimilhança daquele lugar. A curta insere-se assim nesse mosaico criativo do autor, essencialmente associado às “Terras Últimas” e demais "Finis Terras", que ultimamente lhe interessa explorar. Com uma narração firme, plena de humor negro, ainda que escorreita e sombria, este filme é, também ele, um gesto e propósito arquitetónico que nos sugere a possibilidade de habitá-lo.  

A famosa capa de chuva azul


"It's four in the morning, the end of December
I'm writing you now just to see if you're better
New York is cold, but I like where I'm living
There's music on Clinton Street all through the evening."
Leonard Cohen

in"Famous Blue Raincoat" que se encontra no disco "Songs of Love and Hate", gravado no ano de 1970 durante os meses de Agosto e Setembro, editado apenas na Primavera do ano seguinte. Trata-se portanto do terceiro álbum de originais do cantor canadiano recentemente falecido.



segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Andar de Cima

De vez em quando as coisas acontecem,
subimos as escadas do prédio
e às vezes tropeçamos, deixamos
cair o saco das compras e as tangerinas 
rolam pelas escadas a baixo,
ou rolamos nós pelas escadas a baixo
e quando paramos estamos no meio da rua,
fora da ternura, fora do tecto.

in "Casas" de Miguel Castro Caldas, Livrinhos de Teatro, Artistas Unidos, edições Cotovia.

domingo, 4 de dezembro de 2016

Livros Sobre a Mesa de um País por Desvendar

Fotografia de Carlos Olyveira
Livros sobre a mesa: “ensaios” e “dissertações” de contemporâneos curiosos e atentos ao que se passa em seu redor. Letras lidas por entre cafés e dois dedos de conversa, desse prazer da leitura renovado e, talvez por isso, também acessível à(s) carteira(s).  Neste “Movimento Perpétuo – História das Migrações Portuguesas”, Ana Cristina Pereira acrescenta informação e dá achegas curiosas para esse retrato infindável de um povo viajante em tão redundante constação: “Em Portugal aprende-se depressa que as pessoas não são árvores. Não têm raízes como os plátanos ou as tulipeiras. Aquilo a que se chama território nacional é uma multiplicação de pontos de partida e de chegada. Há dez milhões de pessoas dentro e 2,3 milhões de pessoas fora. Um mapa múndi que se desenha amiúde, por força da necessidade feita vontade”. Será que é mesmo assim? Continuamos a ser empurrados para fora, como se não houvesse alternativa? E, mesmo assim, há que continuar a ler sobre o mar, ou então sobre os nossos pescadores, essa “raça” essencial de um povo, entender porque fazemos parte deste processo misterioso de estar vivo, na esteira de Raul Brandão. Escreve Filipa Melo, numa das páginas de “Os Últimos Marinheiros”: “Os tempos e os homens mudam, mas o fôlego cego e vivo do mar, não. Percebemo-lo à proa, quando ainda no escuro o hálito salgadiço no envolve e o vento, cúmplice, parece puxar-nos para dentro da boca vasta da água em volta. Ali, na ponta do vante, no topo da proa, seguiam, nos navios antigos, as carrancas e os leões da barca. Homens, mulheres, animais ou deuses, esculpidos em madeira maciça, cravados pela cintura no navio. Cortavam com alento o bafo salgado, como se desafiassem o desconhecido”. São leituras como estas que ajudam a compreender esse mosaico de um país que sabemos ainda por desvendar. Precisaríamos de saber ainda muito mais sobre a comunidade cultural e histórica onde vivemos. Estes livrinhos soltos, desempoeirados, pequenos fragmentos sobre o estado das coisas trazem a chancela da Fundação Francisco Manuel dos Santos. Ainda bem, agradecidos pela leitura e pela beleza de nos sabermos atentos e, por sinal, bem  vivos. 

Ontem, escrito numa parede da cidade

-Esta música eu já conseguiria dançar...

Dezembro à Beira Mar

Fotografia Carlos Olyveira

sábado, 3 de dezembro de 2016