domingo, 28 de maio de 2017

"A poesia está cá dentro e sai quando deve sair"

“-Que leitura faz da poesia que tem sido editada nos Açores, especialmente pelos autores da nova geração?
-Emanuel Jorge Botelho: Autores da nova geração, conheço poucos nos Açores. Refiro o jovem Leonardo Sousa, que tem uma poesia muito boa. Mesmo na prosa não conheço muito e, do que conheço, talvez fosse preciso trabalhar um pouco mais, na minha opinião pessoal.
-É indiferente escrever na margem da Lagoa das Sete Cidades ou dentro do Metropolitano de Lisboa?
E.J.B: Eu acho que sim, por estranho que possa parecer. Lembro-me de andar com um caderninho na algibeira, durante as viagens de metro em Lisboa, e de me saírem coisas que, se calhar nas Sete Cidades não me sairiam…A poesia está cá dentro e sai quando deve sair."

Excerto da entrevista de Emanuel Jorge Botelho à “Biblioteca Açoriana”, Antena 1 Açores.

Um verso de Márcia

Eu sei que é fácil de montar o aparato da menina que é culta

Pescadores

Os filhos dos pescadores
São pequeninos búzios
De silêncio
E de sonoro fervilhar das ondas

As ruas dos pescadores
São como o convés dos barcos
E como o soalho das casas 
Dos pescadores

As mulheres vestem-se com redes 
E usam as conchas no lugar dos brincos
E nos dias em que choram
As ondas são manhãs sobre o meio-dia

Daniel Faria, edição de Vera Vouga, Quasi Edições, 2009.

Sala de Embarque: Mês de Junho

Cartaz de Júlia Garcia
   

        Mais duas apresentações a ser preparadas, organizadas, e já disponíveis para as vossas agendas: Vila Franca do Campo e Lagoa, 9 e 10 de Junho, respectivamente. Duas terras micaelenses, dois palcos que pedem outra vez a vossa receptividade, o vosso ânimo, a vossa boa vontade. E nós, cheios de entusiasmo, cada vez mais atentos, prosseguimos viagem. Com cara de muitos e bons amigos (muito obrigado, Lígia e Miguel!) que nos foram dizendo o que estava bem e o que estava mal, aguçando cada vez mais este nosso gosto por aprender, prontos por alcançar mais conhecimento ou ficarmos na posse de sábias experiências, sempre com a ideia presente que só através de muitos ensaios, bastante estudo e prática conseguiremos levar mais longe este nosso desempenho teatral. E, para já, iremos contar com o envolvimento de pessoas que juntaram a nós, sobretudo em Vila Franca do Campo, pois trata-se dum projecto de finalistas da Escola. Em breve, contaremos quais são os nossos futuros planos de embarque…

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Amarcord

Amarcord (1973) filme de Federico Fellini.
         
      Lo so, lo so, lo so
che un uomo, a 50 anni,
ha sempre le mani pulite
e io me le lavo due o tre volte al giorno
ma è quando mi vedo le mani sporche
che io mi ricordo di quando
ero ragazzo.



Tonino Guerra, poeta e argumentista de Amarcord.
 

quinta-feira, 25 de maio de 2017

O Regresso

Como quem vindo de países distantes fora de
si, chega finalmente aonde sempre esteve
e encontra tudo no seu lugar,
o passado no passado, o presente no presente,
assim chega o viajante à tardia idade
em que se confundem ele e o caminho

Entra então pela primeira vez na sua casa

e deita-se pela primeira vez na sua cama,
Para trás ficaram portos, ilhas, lembranças,
cidades, estações do ano.
E come agora por fim um pão primeiro
sem o sabor de palavras estrangeiras na boca.


Manuel António Pina, in "Como se Desenha uma Casa", Assírio&Alvim, Lisboa, 2011.

terça-feira, 23 de maio de 2017

Legível

apenas
por quem lê 
com a garganta 
presa 
por um cordel

Ana Paula Inácio, in ANÓNIMOS DO SÉCULO XXI, Averno, 2016.

מחשוב (hebraico)

Fotografia de André Almeida

Animal de Estimação

tive uma borboleta
bela
bala
brava
breve
como um dia

Ana Paula Inácio, ANÓNIMOS DO SÉCULO XXI, Averno, 2016.

Caelus (Deus Romano dos Céus)

Fotografia de André Almeida

Llorona

chorava
crente de que dos olhos
nasceriam flores

Ana Paula Inácio, ANÓNIMOS DO SÉCULO XXI, Averno, 2016.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Luke Howard: Conhecido por Nomear Nuvens

Luke Howard (1772-1824)
Imagem da Wikipédia



          Luke Howard nasceu em Londres, a 28 de Novembro de 1772 e foi um químico e um metereologista amador que desenvolveu um interesse inusitado pela ciência. Um dia teve uma bela ideia de criar uma nomenclatura para as diferentes nuvens que passam pelo céu, tendo sido esta apresentada em 1802 na Askesia Society. Este caracterizou as nuvens em três grupos: estratos (em camadas), cúmulos (as lanudas) e cirros (em forma de caracol). Há uma personagem na peça “Sala de Embarque” que não se cansa de falar nos nomes das nuvens:“Eu gosto tanto de olhar pelas janelas do avião. As nuvens parecem-me farrapos brancos a voar pelo céu. E todas elas com nomes muito curiosos. Há, portanto, a Cumulus, a Congestus, a Cumulonimbus, a Stratocumulus, a Nimbostratus, a Altocumulus, a Cirrus, a Cirrocumulus...”. Ontem, enquanto procurava no google o lastro sonoro de Luke Howard, um músico de origem australiana, deparei-me com o criador da tal "onomástica nefelibata", isto é, o autor da designação das diferentes nuvens existentes. E, deste modo, também descobri uma possível  e improvável banda sonora…

domingo, 21 de maio de 2017

O Porquê dos Interrogatórios...

     É com moderado optimismo e um sobrolho franzido que se apresenta o ciclo de interrogatórios trazido ao convívio dos apartamentos e vivendas portuguesas por intermédio de dois conceituados entrevistadores, DM e Alberto Ai, que alternadamente trarão à discussão e ao escrutínio tendencioso dos entrevistados temas da actualidade política, filosófica, artística e sociológica do século XXI, ficando de parte temas como electrodomésticos, jardinagem e artes marciais (já bastante consolidados nos finais do século XX). Será evitada a utilização excessiva de aliterações, prosopopeias ou estrangeirismos (sobretudo na sua vertente idiotista), promovendo-se ao invés um discurso directo puro e duro, contributo que se espera profícuo às novas gerações e outras.
Os entrevistadores de alterne dispensam apresentações. Ao som de “For Once In My Life” de Stevie Wonder, DM aparece em fato de banho vermelho, depois do seu habitual mergulho no pesqueiro de Ponta Delgada. Faz-nos um sorriso aberto, ainda ofegante, e dá-nos a indicação com o polegar de que está tudo impecável. Das ilhas para a capital do império português, avistamos Alberto Ai, a estacionar o seu clássico Citroen DS. Com um blazer verde e óculos escuros de massa, dirige-se agora ao seu apartamento, lançando-nos um piscar de olhos categórico de quem não gosta de facilitar.


A redacção do “Interrogatório”