terça-feira, 1 de agosto de 2017

História Daquela Bicicleta Que Eu Tive

“Um dia deram-me aquela rica bicicleta. Deram-me porque eu tinha treze anos e tinha feito exame. Depois disso fiz mais vezes anos e fiz outros exames, mas bicicletas é que não tive mais. E se ela andava! Ui! Se ela andava! Era uma coisa por demais. Mas eu conto: Todos  os meus amigos, aqueles em quem eu batia todos os dias (porque eu aos 13 anos, era muito forte, quase do mesmo tamanho que tenho hoje) depois todos os meus amigos, dizia eu, me festejaram e deram uma volta de experiência. E se ela andava! Logo ao princípio o Adriano foi direito ao muro da estação e só parou quando o muro o obrigou a tal. Aquilo é que ela andava! Também o Zé Pedro, que hoje é casado e tem três filhos estrábicos, saltou uma coisa que parecia um muro a todos nós, excepto a ele; só depois é que verificou que, de facto aquilo era um muro.”

in Obras Completas de Mário-Henrique Leiria, edição E-Primatur/Letras Errantes, 2017

Rua do Castilho nº33B

Fotografia de Carlos Olyveira 

Um Verso de Blanca Martin-Calero

Vivir en una isla es llegar a todos los rincones de la tierra con la punta de los dedos

domingo, 30 de julho de 2017

Ontem, escrito numa parede da cidade

O peixe dá sono!

Alvo Périplo: Gente que Corre!



           As fotografias de Jorge Kol continuam ali no renovado Largo do Colégio. Há uma semana estivemos naquele espaço a celebrar o movimento e a robustez de homens que correm no desempenho das suas funções ao ar livre, alvos corpos com chapéu rua abaixo, gente de vestes e postura semelhantes em ilhas diferentes: Madeira e Terceira. Para a realização das fotografias foram necessárias viagens, não a pé, mas sim de avião bem como várias partidas e regressos, como devem calcular. É preciso, portanto, tempo para fruir aquelas imagens que indiciam humanas e curiosas deslocações. Sempre com a ideia de fixar esses corpos e cordas que correm. 
Nessa performance, ao fim da tarde, quisemos também misturar textos e flores e, pelo meio, transportamos gente da rua até ao local expositivo num carrinho inventado para esse momento, soltando ainda manifestos da corrida e da vida que julgamos continua a existir. 
         Cumprimos, assim, a nossa participação na sétima edição do Walk and Talk, o festival de artes dos Açores que terminou ontem. 

sábado, 29 de julho de 2017

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Sobre a exibição de Cinema em São Miguel...

     “O encerramento de cinemas tem sido uma constante por todo o país, devido à profunda alteração dos hábitos de fruição cultural (e dos dowloads ilegais), por intermédio de uma plateia que não tem tempo a perder.
            Mesmo e apesar disto, os cinemas têm sido repescados como importantes elementos de revitalização dos centros históricos, não em formato multiplex, mas apontando a públicos mais especializados, exibindo aquilo que não tem lugar numa espaço mais massificado.
A recuperação do cinema Batalha, na cidade do Porto, com um projecto de arquitectura do mestre Alexandre Alves Costa, é um bom exemplo daquilo que devemos seguir, envolvendo, para o efeito, a comunidade local.
Apesar de Ponta Delgada ter recuperado a exibição comercial de cinema, o facto é que a programação existente não contempla uma série de opções, bloqueando o público cinéfilo acesso a uma maior diversidade.
Caberá ao exibidor privado garantir esse desígnio? Provavelmente não, na medida em que a sustentabilidade da sua actividade dependerá de um outro conjunto de acções. Simultaneamente, esta mesma opção afastará, paradoxalmente, um público potencial,
A cultura requer conhecimento, investimento e a criação de boas práticas. Sem um sólido desenvolvimento sócio-cultural, não será um plano (nem o Turismo) que o garantirá.”

Alexandre Pascoal, in Açoriano Oriental, 24 de Julho de 2017.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Rua do Quelhas 35.3º (Valsinha)

Morre-se devagar neste país
onde é depressa a mágoa e a saudade
ó meu amor de longe quem me diz 
como é a tua sombra na cidade

Morre-se devagar em frente ao Tejo
repetindo o teu nome lentamente 
cintura com cintura beijo a beijo
e gritá-lo abraçado a toda a gente

Morre-se devagar e de morrer 
fica a cinza de um corpo no olhar 
ó meu amor a noite se vier 
é seara de nós ao pé do mar 

Letra: António Lobo Antunes
Voz: Vitorino 
Música: João Paulo Esteves da Silva

sexta-feira, 14 de julho de 2017

A Melancolia Congénita

Fotografia de Carlos Olyveira
        "As janelas dos primeiros andares, logo acima das lojas e dos armazéns, são em geral guarnecidas com pequenas varandas de madeira entrelaçada, como nas janelas das nossas leitarias, pintadas de vermelho escuro, verde ou branco. Nas casas maiores vêem-se elegantes varandas de ferro. Pelas goteiras dos telhados escorre água em abundância e a telha da esquina toma frequentemente a forma de um pássaro de asas abertas, ou alonga-se para cima em comprida ponta. Os edifícios são caiados de branco e as ombreiras das portas, cantarias das janelas e cornijas ficam em geral da cor da pedra, cinzento-escuro ou negra. Os sapateiros trabalham sentados à entrada das portas, os alfaiates estão acocorados, o ferreiro com o ferro na rua, em frente da porta, cobre carvões em brasa. Os que eu vi sentados em bancos no interior das lojas, pareciam haver sacudido aquela melancolia congénita que lhes atribui, entregando-se a ruidosa alegria."

         in Um Inverno nos Açores e Um Verão no Vale das Furnas, de Joseph e Henry Bullar, escrito em 1838-39, numa edição do Instituto Cultural de Ponta Delgada, Ilha de São Miguel, Açores, 1986.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

A Mulher de Muitas Caras

Do sítio: www.garboForever.com
"Um velho preconceito condiciona, muitas vezes, o olhar dos espectadores de cinema sobre os filmes mais “antigos”. Por acção de uma cultura televisiva que tende a produzir ironia sobre qualquer manifestação artística a que não seja possível colar o rótulo de “actualidade”, tudo o que no remeta para épocas mais ou menos distantes é encarado como pitoresco, anedótico e, no limite, irrelevante.
O trabalho dos atores, por exemplo. De facto, não é verdade que o cinema mudo tenha sido habitado apenas por actores peritos em esgares mais ou menos histriónicos. Em primeiro lugar, a evolução da comédia até à eclosão do som, em finais da década de 1920, está longe de ser coisa banal ou desprezível; depois, os atores transfigurando desde os primeiros filmes que “reproduziram” a cena teatral até aos que, a pouco e pouco, souberam diversificar as escalas das imagens e enriquecer específico da montagem.
Nesse contexto, Greta Garbo (1905-1990) é um prodígio de versatilidade, subtileza e intensidade dramática. E não apenas porque passou, incólume, do mudo para o sonoro. Também porque toda a sua evolução revela um labor alicerçado na certeza d que a câmara de filmar, longe de ser um mero objecto de registo, é uma “coisa” que refaz as coordenadas do espaço e tempo, obrigando o actor/actriz a uma sofisticada arte corporal."


João Lopes, in “Açoriano Oriental” 13 de Julho de 2017