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| Tascá - Fotografia de Bruno Soares |
quinta-feira, 14 de setembro de 2017
quarta-feira, 13 de setembro de 2017
São Miguel: Uma Doce Melancolia
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| Daqui: www.wook.pt/ |
“A melancolia é uma arte. Vede
quanta beleza existe no próprio e simples dizer das cinco sílabas desta
palavra: me-lan-co-li-a. Agridoce, tão próxima do silêncio interior como das mágoas
do olhar, nos Açores esta palavra é comum a todas as ilhas. E a todas as
pessoas. Mas em nenhuma delas como em São Miguel ela resulta tanto desta forma
de contemplar o encanto da paisagem: de a ver de coma (quando se sai da Ribeira
Grande para o alto da serra, a caminho da Lagoa do Fogo): a gente pára ali, a
meio da encosta, volta-se para trás, e pasma. Deslumbra-se com o que tem à
frente dos olhos. Aquilo que se avista de lá de cima é como um tombadilho
gigantesco, todo verde e quase plano, o qual roda em círculo connosco e envolve
o gesto que aponta para aquém da cidade da Ribeira Grande e de Rabo de Peixe. A
palavra melancolia vê-se também no próprio espanto que em nós estranha e não
explica o verde-azul-amarelo da terra mar, corpo lânguido e feminino da
paisagem, trecho da costa norte fendido ao meio pela Ponta do Cintrão: baixa, e
até maneirinha, à esquerda; alta e muito recortada para as bandas de Porto
Formoso. Os tons esmeralda da pradaria e das matas de incenso e criptoméria
parecem a um tempo colidir e complementar-se entre si; ao longe e em baixo, a
brancura das casas – que se perfilam ao longo das ruazitas desertas, tortuosas,
com as suas barrinhas de basalto em volta de portas e janelas – resplandece acima
dos verdes múltiplos da terra, como numa marcação a giz dessa cor.
A
paisagem que do alto se despenha aos nossos pés, primeiro a prumo ou em declive
acentuado, depois num remanso que se derrama até o azul do mar, prolonga-se
afinal até se espraiar pelos cerrados de milho e tremoço, pelos hortos e
jardins do tabaco e pelos campos de chá. O prazer e o assombro de tanta beleza
excedem o nosso modo de olhar. Passam para além do pasmo e recordação.”
João de Melo, in “Açores – O Segredo das
Ilhas”, Publicações Dom Quixote, edição revista e acrescentada, 2016.
Nada Tenho de Meu de Miguel Gonçalves Mendes
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| Hoje, às 21 horas, na Galeria Arco 8 |
“O realizador português Miguel Gonçalves Mendes e os escritores
brasileiros Tatiana Salem Levy e João Paulo Cuenca viajaram até ao Extremo
Oriente para uma troca de experiências com artistas e pensadores de Macau, Hong
Kong, Vietname, Camboja e Tailândia. Desse
contacto, que surgiu depois dos 3 autores terem sido convidados a estar
presentes no "1º Festival Literário de Macau - Rota das Letras",
nasceu a série de 11 episódios “Nada tenho de meu”, descrita pelos seus autores
como “uma mistura de caderno de viagens e ficção".
Daqui:http://www.mgm.org.pt/mgm
terça-feira, 12 de setembro de 2017
segunda-feira, 11 de setembro de 2017
O Cinema de Miguel Gonçalves Mendes na Galeria Arco 8
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| "Nada Tenho de Meu", dia 13 de Setembro |
“Em Portugal, a normalidade da convivência pura e simples não existe. Persiste uma visão infantil e bipolar, em que coexistem o “nós” perfeito e os “outros”, uma cambada de inúteis e oportunistas. Existe uma total ausência da noção do que é o bem comum. Entretemo-nos em guerras inúteis, destruindo o caminho uns dos outros. Nada se constrói, nada tem continuidade. E o “outro” é um alvo permanente a abater.”
(…)Em Portugal, salvo honrosas
excepções, a crítica não faz crítica, ou fá-la como uma criança de cinco anos:
ama ou odeia. E nesta falta de consistência, confundida com exercício de poder,
o crítico sente-se crítico apenas no momento em que determina a selecção
daquilo que deverá integrar o corpus cultural do país — ou seja, a crítica não
perdoa e só reconhece quem foi criado por si.
Os colegas de profissão, em
geral, desprezam-se e digladiam-se como se não existisse espaço suficiente, sem
perceberem que o mundo é diverso e que, na arte, ninguém ocupa o lugar de
ninguém. Num país de dez milhões de habitantes, onde se produz uma média de
menos de 20 longas-metragens por ano, coabitam duas associações de realizadores
e duas de produtores que rivalizam entre si. É mais do que triste: é
confrangedor. E existem ainda os “brilhantes falhados”, aqueles que desprezam
tudo o que os rodeia porque nunca fizeram nada — e geralmente odeiam o sucesso
do outro por ser esse o espelho da sua própria inacção.”
Miguel Gonçalves
Mendes, in
Público, 9 de Dezembro de 2016
domingo, 10 de setembro de 2017
sábado, 9 de setembro de 2017
Do Gesto
"Outro dos exercícios do escritor é tentar sempre olhar o mundo pelos olhos dos outros, e todos nós somos muito rápidos a julgar. Para mim é intrigante o que está por trás de cada gesto."
David Machado, Revista Expresso.
sexta-feira, 8 de setembro de 2017
Janeiro Alves Redarguiu Pouco Tempo Antes do Verão Capitular
Caríssimo Doutor Mara,
É com enorme
regozijo que recebo a sua missiva, que como é costume, constitui o testemunho
bem redigido de uma vida de ócio e laxismo, e que me diverte nestas curtas
pausas que faço para o ler. Na verdade, e ao contrário da vida pacata do meu
amigo, estou num pleno de afazeres que se devem à meticulosa preparação da
minha viagem, sobre a qual ainda não tive o prazer de o informar, mas que
dentro de poucas palavras o meu amigo ficará ao corrente. Há umas semanas
atrás, tentando escapar a um fluxo de turistas algo descontrolado e sob o
efeito de uma relativa histeria, decidi ir visitar uns antiquários suburbanos,
onde acabei por comprar uma Leica de
1985, impecável, a estrear. Comecei logo ali a fotografar a suburbanidade. Ao
passar numa zona mais comercial, olhei para a loja Pull & Bear. Não entrei,
fiquei apenas a observar o nome da loja. Foi então que decidi ir fotografar
ursos para a América do Norte. Parto amanhã para o Canadá, apenas com uma pequena
mala onde tenho todo o tipo de apetrechos para a máquina, um camuflado a imitar
carvalho americano, algumas conservas bom petisco e uma garrafa de macieira, e
um livro sobre ursos, para além de outras bugigangas e roupa quente. Assim,
serei breve nesta minha carta, pois vou agora a um workshop de “defesa pessoal
perante um ataque de urso”, e ainda tenho de ir comprar cotonetes.
Deixo-lhe por
fim meia dúzia de palavras para lhe dizer que conto consigo para a elaboração
da agenda para as Conferências da Fajã de 2018, pois o evento aproxima-se e o
Doutor Mara necessita de pôr as suas capacidades ao serviço da sociedade
pós-moderna, em detrimento desse arrastamento doentio em que se encontra, da
cama para o sofá, do sofá para a tasca, da tasca para as termas, das termas
para o jardim, do jardim para o restaurante, do restaurante para a sauna, da
sauna para a festa, da festa para o sol que lhe queima as pestanas e lhe coze o
cérebro.
Se não der
notícias da América do Norte e se entretanto não for comido por um urso ou
atropelado por uma carrinha de caixa aberta, dar-lhe-ei as mais refrescantes
novidades no meu regresso. Até lá, um bem-haja e prepare-se para o frio que aí
vem. Cuidado com os nevoeiros ou neblinas matinais, e outras coisas que tais.
Deste
seu humilde servo,
Janeiro Alves
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