quarta-feira, 13 de setembro de 2017

São Miguel: Uma Doce Melancolia

Daqui: www.wook.pt/
“A melancolia é uma arte. Vede quanta beleza existe no próprio e simples dizer das cinco sílabas desta palavra: me-lan-co-li-a. Agridoce, tão próxima do silêncio interior como das mágoas do olhar, nos Açores esta palavra é comum a todas as ilhas. E a todas as pessoas. Mas em nenhuma delas como em São Miguel ela resulta tanto desta forma de contemplar o encanto da paisagem: de a ver de coma (quando se sai da Ribeira Grande para o alto da serra, a caminho da Lagoa do Fogo): a gente pára ali, a meio da encosta, volta-se para trás, e pasma. Deslumbra-se com o que tem à frente dos olhos. Aquilo que se avista de lá de cima é como um tombadilho gigantesco, todo verde e quase plano, o qual roda em círculo connosco e envolve o gesto que aponta para aquém da cidade da Ribeira Grande e de Rabo de Peixe. A palavra melancolia vê-se também no próprio espanto que em nós estranha e não explica o verde-azul-amarelo da terra mar, corpo lânguido e feminino da paisagem, trecho da costa norte fendido ao meio pela Ponta do Cintrão: baixa, e até maneirinha, à esquerda; alta e muito recortada para as bandas de Porto Formoso. Os tons esmeralda da pradaria e das matas de incenso e criptoméria parecem a um tempo colidir e complementar-se entre si; ao longe e em baixo, a brancura das casas – que se perfilam ao longo das ruazitas desertas, tortuosas, com as suas barrinhas de basalto em volta de portas e janelas – resplandece acima dos verdes múltiplos da terra, como numa marcação a giz dessa cor.
A paisagem que do alto se despenha aos nossos pés, primeiro a prumo ou em declive acentuado, depois num remanso que se derrama até o azul do mar, prolonga-se afinal até se espraiar pelos cerrados de milho e tremoço, pelos hortos e jardins do tabaco e pelos campos de chá. O prazer e o assombro de tanta beleza excedem o nosso modo de olhar. Passam para além do pasmo e recordação.”
João de Melo, in “Açores – O Segredo das Ilhas”, Publicações Dom Quixote, edição revista e acrescentada, 2016. 

Nada Tenho de Meu de Miguel Gonçalves Mendes

Hoje, às 21 horas, na Galeria Arco 8
    
          “O realizador português Miguel Gonçalves Mendes e os escritores brasileiros Tatiana Salem Levy e João Paulo Cuenca viajaram até ao Extremo Oriente para uma troca de experiências com artistas e pensadores de Macau, Hong Kong, Vietname, Camboja e Tailândia. Desse contacto, que surgiu depois dos 3 autores terem sido convidados a estar presentes no "1º Festival Literário de Macau - Rota das Letras", nasceu a série de 11 episódios “Nada tenho de meu”, descrita pelos seus autores como “uma mistura de caderno de viagens e ficção".


Daqui:http://www.mgm.org.pt/mgm

Um Verso de Zeca Afonso

Mulher na democracia não é biombo de sala

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

O Cinema de Miguel Gonçalves Mendes na Galeria Arco 8

"Nada Tenho de Meu", dia 13 de Setembro    

     


           “Em Portugal, a normalidade da convivência pura e simples não existe. Persiste uma visão infantil e bipolar, em que coexistem o “nós” perfeito e os “outros”, uma cambada de inúteis e oportunistas. Existe uma total ausência da noção do que é o bem comum. Entretemo-nos em guerras inúteis, destruindo o caminho uns dos outros. Nada se constrói, nada tem continuidade. E o “outro” é um alvo permanente a abater.”
(…)Em Portugal, salvo honrosas excepções, a crítica não faz crítica, ou fá-la como uma criança de cinco anos: ama ou odeia. E nesta falta de consistência, confundida com exercício de poder, o crítico sente-se crítico apenas no momento em que determina a selecção daquilo que deverá integrar o corpus cultural do país — ou seja, a crítica não perdoa e só reconhece quem foi criado por si.
Os colegas de profissão, em geral, desprezam-se e digladiam-se como se não existisse espaço suficiente, sem perceberem que o mundo é diverso e que, na arte, ninguém ocupa o lugar de ninguém. Num país de dez milhões de habitantes, onde se produz uma média de menos de 20 longas-metragens por ano, coabitam duas associações de realizadores e duas de produtores que rivalizam entre si. É mais do que triste: é confrangedor. E existem ainda os “brilhantes falhados”, aqueles que desprezam tudo o que os rodeia porque nunca fizeram nada — e geralmente odeiam o sucesso do outro por ser esse o espelho da sua própria inacção.”


Miguel Gonçalves Mendes, in Público, 9 de Dezembro de 2016

sábado, 9 de setembro de 2017

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Janeiro Alves Redarguiu Pouco Tempo Antes do Verão Capitular

Caríssimo Doutor Mara,

É com enorme regozijo que recebo a sua missiva, que como é costume, constitui o testemunho bem redigido de uma vida de ócio e laxismo, e que me diverte nestas curtas pausas que faço para o ler. Na verdade, e ao contrário da vida pacata do meu amigo, estou num pleno de afazeres que se devem à meticulosa preparação da minha viagem, sobre a qual ainda não tive o prazer de o informar, mas que dentro de poucas palavras o meu amigo ficará ao corrente. Há umas semanas atrás, tentando escapar a um fluxo de turistas algo descontrolado e sob o efeito de uma relativa histeria, decidi ir visitar uns antiquários suburbanos, onde acabei por comprar uma Leica de 1985, impecável, a estrear. Comecei logo ali a fotografar a suburbanidade. Ao passar numa zona mais comercial, olhei para a loja Pull & Bear. Não entrei, fiquei apenas a observar o nome da loja. Foi então que decidi ir fotografar ursos para a América do Norte. Parto amanhã para o Canadá, apenas com uma pequena mala onde tenho todo o tipo de apetrechos para a máquina, um camuflado a imitar carvalho americano, algumas conservas bom petisco e uma garrafa de macieira, e um livro sobre ursos, para além de outras bugigangas e roupa quente. Assim, serei breve nesta minha carta, pois vou agora a um workshop de “defesa pessoal perante um ataque de urso”, e ainda tenho de ir comprar cotonetes.
Deixo-lhe por fim meia dúzia de palavras para lhe dizer que conto consigo para a elaboração da agenda para as Conferências da Fajã de 2018, pois o evento aproxima-se e o Doutor Mara necessita de pôr as suas capacidades ao serviço da sociedade pós-moderna, em detrimento desse arrastamento doentio em que se encontra, da cama para o sofá, do sofá para a tasca, da tasca para as termas, das termas para o jardim, do jardim para o restaurante, do restaurante para a sauna, da sauna para a festa, da festa para o sol que lhe queima as pestanas e lhe coze o cérebro.
Se não der notícias da América do Norte e se entretanto não for comido por um urso ou atropelado por uma carrinha de caixa aberta, dar-lhe-ei as mais refrescantes novidades no meu regresso. Até lá, um bem-haja e prepare-se para o frio que aí vem. Cuidado com os nevoeiros ou neblinas matinais, e outras coisas que tais.

Deste seu humilde servo,

Janeiro Alves

Τα σύννεφα στον ουρανό των Αζορών *

Fotografia de Carlos Olyveira

Um Verso de Herberto Helder

Humildemente faço minhas palavras gratas