quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Enquanto o novo disco não chega...

Pedro Lucas e Carlos Medeiros
         

              "Ou como dirá Carlos Medeiros: "Fala-se da música tradicional como algo distante, lá do campo. Não vejo a "música do povo" como distante. Quem sou eu? Eu sou do povo. Quando falo da música tradicional falo da minha música e mudá-la não faz de mim menos genuíno ou autêntico."


in Visão, 16 de Novembro de 2017

domingo, 19 de novembro de 2017

Um Poema de Leonardo

detrás dos tambores de uma grande asma
um ardor arfa no vidro 
um eco 
com o seu vento de longe 
acorda-te apenas com os dedos
esboço 
de uma derrocada de flautas tristes

trata-se
de um anjo bêbedo que veio dizer-te 
que a fractura abriu pálpebras nas paredes 
que uma leve lua fende o chão 
do rumor de um exército de cascos 
que se aproxima

vem ajudar-te nos preparativos do festim 
para nos receber 
chegaremos cansados 
as preces encheram de pó as estradas 
os soldados suspiram por haxixe 
os cavalos não bebem ouro há três dias

prepara-nos banhos vinhos música 
acende todas as velas do oásis 
espalha os incensos  
enquanto esta carta atravessa a alegria 
do reencontro

ao chegarmos  
a mais alada das minhas filhas descerá
dir-te-á ao véu do ouvido ouve 
vê 
chove neste inferno 
por isso dança

e um dia 
ao regressares tu pelos passos da criança
sorrir-te-á pelo caminho 
a memória confusa de tudo isto que te escrevo agora 
em silêncio porque 
ambos sabemos 
felicidade e oxigénio e voz
tudo isto é inflamável

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Uma Missiva Extraordinária de Janeiro com Selo e sem Dinheiro

Magnífico Doutor,

               A presente carta reveste-se de um carácter extraordinário e premente, e resulta da minha indisfarçável preocupação com o modelo adoptado para as Conferências da Fajã deste ano. Por este andar, qualquer dia seremos uma espécie de web summit regional, um folclore mediatizado de pseudo-hypster-trendy-dandys engalanados, preocupados com os seus egos, e pouco interessados no pensamento de vanguarda e no bem comum. Qualquer dia, as Conferências da Fajã são patrocinadas pela vodafone ou pela margarina vaqueiro! Como pudemos aqui chegar, Doutor Mara?! Como podemos deitar por terra todo o manancial de reflexão crítica e construtiva para a construção do Séc. XXII futurista e expressionista?! Para que tenha noção do meu estado, tenho o sobrolho a palpitar, de nervoso. Há pouco, tomei um calmante e um copo de Macieira, para ver se não descambo. Perante isto, temos de tomar uma atitude, Doutor Mara! Eis portanto a razão desta carta.
Em primeiro lugar, e porque nem tudo é mau, queria dar-lhe (pessoalmente) os parabéns pela escolha do Champagne. É realmente uma selecção cuja dignidade e sofisticação se coaduna com a elevação do evento. Eu juntaria apenas o famoso Boerl & Kroff Brut, bastante apreciado quando bebido em cenário natural ou florestal, combinado com leves odores a maresia. Infelizmente, não posso dar-lhe os parabéns pessoalmente como desejaria, dada a impossibilidade física e psicológica de me deslocar, pelo que deixo aqui os meus parabéns por escrito. Apesar de não ser um acto tão efusivo como seria pessoalmente, onde seria selado com um aperto de bacalhau e algumas palmadas nas costas, tem a vantagem de ficar registado para a posteridade ou pelo menos até que estas folhas voem dos seus bolsos para a beleza do desconhecido.
Sem causar prejuízo na congratulação antecedente, avanço com a minha severa crítica à escolha dos chefes Gomes de Sá e Bulhão Pato para conferencistas, pois como é do conhecimento geral, estão presos ao passado, são conservadores, botas-de-elástico, e contribuem sempre com a mesma receita para pensar o país, aquela que já apresentaram no passado, e que já enjoa de tanto enjoar. Relativamente aos restantes conferencistas, por muita categoria que tenham, vejo muita gente ligada à temática do turismo. E a consciência Futurista, Doutor Mara? O turismo é apenas um fenómeno passageiro do nosso tempo. É preciso ver mais além! É preciso gente das ciências ocultas, da sociologia, da meteorologia, das artes e letras, da indústria têxtil!
Por outro lado, reconheço no Doutor Mara qualidades para a organização de um evento deste gabarito, mas não vislumbro em si dotes de “curassário”, esse vocábulo espalhafatoso e sobredimensionado. Julgo que a Comissão Geral se precipitou ao depositar em si toda esta responsabilidade. O Doutor Mara precisa de ser assessorado por quem saiba da matéria. Infelizmente não vou poder ajudá-lo nesta fase, pois estou a tratar da minha dentição de forma a vir a revelar um sorriso irrepreensível nas sessões fotográficas das Conferências. Ainda assim, é meu dever dar uma mão a um amigo de longa data, sobretudo quando mais precisa. É por isso que a seu tempo enviarei algumas sugestões ao Dr. Costa Martins, da comissão organizadora. Quero no entanto, e previamente, recolher a sua opinião sobre a ideia que tive esta manhã, a aplicar já na próxima edição: Proponho que os conferencistas vistam roupas tradicionais dos seus países, para que os restantes colegas possam fazer um reconhecimento imediato da sua proveniência, podendo assim preparar antecipadamente uma abordagem para conversa casual nos coffee breaks, evitando-se desta formas constrangimentos linguísticos desnecessários. Estou certo que também considerará esta ideia genial. Fazemos o que podemos, com altruísmo, e por amor à causa.
Por fim, despeço-me do meu caro amigo com uma triste notícia. Por imposição das elevadíssimas e doutas autoridades sanitárias desta cidade, deu-se ordem para a extinção imediata do fabrico de filetes de peixe, com ou sem espinhas, pelo facto de este produto gastronómico não obedecer à normativa nº 121 do código de qualidade e segurança 3001 da União Europeia, com efeitos retroactivos e devolução imediata dos produtos adquiridos nas últimas 3 semanas. Assim, e por ordem daquela autoridade, solicito-lhe que me devolva os filetes de peixe da última remessa.
Com apreço e consideração
Janeiro Alves

Um Poema de Daniel Gonçalves

Dá-me o mar, o meu rio, minha calçada, dá-me
todas essas coisas, que embrulhei nas cartas, e
aqueci nos beijos, dá-me tudo de volta, mesmo
riscado e subtraído, sem pilhas nem escamas,
apenas o pó do silêncio, e o bolso fundo do
futuro, faz-me falta o musgo da sombra, que
levaste no presépio da alegria, dá-me o tempo
das searas, e o pão que devíamos ter amassado,
na poesia da nossa cama, dá-me a coleira dos
nossos gatos, para eu prender a tristeza, e voltar a
rezar, se não levaste também, o deus que sempre
nos perdoou, as horas no sofá, a esquecer que
tudo isto, como tudo o resto, passa e acaba.

Inédito com a Márcia 

Joana Gama apresenta "Viagens na Minha Terra" no Teatro Micaelense


               No ano passado, Joana Gama trouxe-nos Satie.150, mais a narrativa biográfica do músico francês e o seu quotidiano místico e fantasioso em que a vida deste se confundia com a sua própria obra. É que agora que cai tanta chuva por estas bandas que nos servia tanto aquele legado de guarda-chuvas que Satie deixou no seu apartamento da periferia de Paris.
Desta vez, Joana Gama apresenta-nos “Viagens na Minha Terra”, um reportório composto por obras de Fernando Lopes Graça e Amílcar Vasques-Dias. O recital é na próxima sexta-feira, dia 17 de Novembro, às 21h30, no Teatro Micaelense. O preço dos bilhetes ronda os 7,5 euros.

168 anos depois...

"Preservado em conhaque, o coração de Chopin revela causa da sua morte."
in Atlântico Expresso, 13 de Novembro de 2017

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Novembro entrou e o Telegrama para Janeiro quase voou

Caro Janeiro Alves,

                  Estamos de novo nas primeiras páginas dos jornais e nas bocas do mundo e não se fala de mais nada a não ser nos preparos e organização das Conferências da Fajã. Apesar das divergências que temos tido nas nossas mais recentes trocas epistolares, espero, muito sinceramente, poder contar consigo e com a sua inteligência para mais uma intervenção de alcance futurista.
    Sobre a sua última missiva, apraz-me registar que o meu caro amigo abordou de forma subtil a minha vida folgada, afirmando mesmo que esta é sustentada com um bom pé-de-meia que recebi de espólio familiar. Quais são as suas fontes? Já agora, o que é que tem a ver com isso? Quer arranjar o seu fato preto? E quer comprar um ventilador de ideias em segunda mão? E se mexesse esse seu rico corpinho? Espalhe a sua sapiência e teorias futuristas por novos contextos sociais e mercados… é que já não me chegava a sua mania recente de me enviar filetes de peixe sem espinhas!? No sentido de sossegá-lo, afianço-lhe também que me encontro seguro e que não fui transportado por nenhuma onda. 
              Certo, certo é que este é um dos momentos mais aguardados do ano. Caso possa, agarre-se à cadeira de Luis XIII em que está sentado, dê lustro ao carvalho francês maciço do Séc. XIX, pois tenho a comunicar-lhe que fui nomeado o principal e eterno Curassário (uma mistura de Curador com Comissário) das Conferências da Fajã. Surpresa??? De súbito, comecei a receber todo o tipo de propostas para prelecções irreais, discursos anómalos, intervenções atípicas e manifestos utópicos. Sei também que tem trabalhado noite e dia, medido e pesado o teor e conteúdo da sua intervenção, muito embora a atenção dada ao seu cágado de estimação. Conto, por isso, nos próximos dias enviar-lhe o magnífico programa em papel couché "brilho" pelos correios com textos e fotografias de todos os palestrantes, conferencistas, manifestos e pausas para champanhe que temos agendadas.
 Despeço-me com um abraço líquido a condizer com a estação, bem como os augúrios de bom trabalho, 
                                 seu amigo eterno,
                                                                                                                                Doutor Mara